sábado, julho 18, 2009

O Manuel de Oliveira veio ao meu sonho

I parte
Presto muita atenção à realidade fluída e banal dos quotidianos sem história. Intensamente. Presto atenção aos meus passos. Aos meus gestos. Aos cheiros, sabores, ruídos, toques que me acordam várias vezes, todos os dias, ao longo do dia.
Há muito pouco tempo – segundos, horas, dias, meses ou anos tanto faz, é sempre antes –, sentia a relva fresca do jardim da Pousada Catarinense, em Abadiânia, afagar-me a planta dos pés nus, os salpicos da água que regava, por etapas, o seu jardim tropical, e, antes de adormecer, segurava com força entre os dedos, os varões da cabeceira de ferro da cama estreita, no pequeno quarto fechado à chave na sua porta de ferro. Muito modesto. Dormia-se tão bem, ali. Depois, os meus passos levavam-me, de manhã e à tarde, à Casa de Dom Inácio, e prestava-lhes, igualmente, atenção com a intensidade de uma criança que brinca. É muito sério, procurar estar acordada dentro da realidade que nos escapa a todos os momentos.
E agora, aqui, antes de adormecer seguro entro os meus dedos os varões de ferro da minha grande e linda cama marroquina de dossel, e digo em silêncio: «isto é verdade, o que estou a sentir é real». Pequenos gestos para nos habituarmos a estar acordados, em qualquer circunstância, tanto tempo quanto nos for possível.
É sempre muito pouco.
Foi neste registo que o Manuel de Oliveira, esse mesmo, esteve no meu sonho esta noite de 17 para 18 de Julho de 2009.
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