quarta-feira, outubro 14, 2009

Histórias da família de Manuel Claro em Rossão

Cresceram a ouvir, quase em segredo, a «história». Era uma vez uma senhora que dizia a quem a queria ouvir: «Não sou, não estou, nunca estive doida.». Depois acrescentava: «Louca, sim. De amor». A senhora à esquerda era uma criança, mas lembra-se do seus tios Manuel e Adelaide, que costumavam aparecer pela aldeia, já a poeira do escândalo e o perigo das perseguições movidas pelo marido dela e seus familiares assentara de vez. A criança que a senhora idosa era, vive na casa que foi também da mãe de Manuel Claro. Chama-se Cidalina Lopes, é filha de Virgínia Lopes, irmã que foi de Manuel. A irmã de Cidalina chamava-se Minervina: «Foi para o Porto viver com os meus tios. A Tia Adelaide ensinou-lhe tudo. Depois ajudaram-na a abrir um restaurante». Coincide com o que escrevemos. É tão bom confirmar!
O casal sorridente está também ligado a esta história. Maria da Encarnação Cardoso Barbedo tem mais quatro irmãs. Por um triz as cinco meninas podiam nem ter nascido! O pai, José Dias Cardoso, estava acabar o seminário em Lamego quando o «crime» foi conhecido. Não lhe dizia respeito, a não ser de forma indirecta. Seu pai e sua mãe tinham recebido Maria Adelaide Coelho da Cunha em sua casa. Alberto Cardoso estava na prisão quando o filho foi expulso do seminário. O futuro padre, excelente aluno, não tinha nada que se lhe apontasse, a não ser o «crime» de solidariedade cometido por seu pai.
Maria da Encarnação recorda que o avô Alberto, quando saíu da cadeia, teve de emigrar para o Brasil para fazer face às dividas. «As terras ficaram todas empenhadas, foi muito dificil. E o meu pai começou a trabalhar como serralheiro e como armeiro, também para ajudar a pagar essas dívidas». Era um músico, um artista, fundou na aldeia uma orquestra de cordas. Violino, guitarra, cavaquinho, acordeão. Escrevia as cartas dos conterrâneos analfabetos. Desenhou os altares da igreja, concebeu a sua escadaria. Quando acabou de pagar tudo, ele e o pai com as remessas da emigração, poucos mais anos viveu. Aos 39 anos, de uma febre, partiu. «Deixou-nos a maior riqueza que pode haver. Todas nós estudámos. Umas são professoras, outras funcionárias. Tivemos um modo de vida».
O marido, Manuel Fernando Duarte Barbedo, também tem ligações colaterais à família de Manuel Claro. Os dois mostraram-nos a aldeia e ajudaram-nos a encaixar as imagens nas memórias.


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