terça-feira, julho 13, 2010

Maria Adelaide Coelho voltou ao Conde de Ferreira

A história de Maria Adelaide Coelho da Cunha foi tema do último painel do 1º Colóquio da Historia da Psiquiatria, «Luzes e Sombras do Alienismo em Portugal». A seguir, Joana Amaral Dias falou sobre Ângelo de Lima e por fim Manuel Correia sobre Raul Proença. Adrián Gramary, director clínico do Centro Hospital Conde de Ferreira e grande impulsionador do evento, moderou a sessão.

Eu gostava de ter cumprido os 20 minutos da palestra, em vez de demorar quase 30. Mas no fim, uma sensação quase irreal sobrepôs-se aos defeitos que, de imediato, atribui à minha prestação: 92 anos depois de ter saído do Hospital Conde de Ferreira, Maria Adelaide Coelho da Cunha, aqui abusivamente internada por ordem do marido, com o apoio da família e dos mais ilustres psiquiatras portugueses, voltou a esta casa. Gloriosamente. Estava em grande plano no painel que contava a sua vida, à entrada da sala onde o colóquio decorreu. Nas conversas de intervalo. E por fim, foi tema de um debate que começou depois de nós todos termos ido embora, entre os chocados psiquiatras que estavam na sala e que não queriam acreditar no que tinham ouvido.
Maria Adelaide também esteve na assistência, na memória dos que ainda conviveram com ela: Maria Elisa Seara Cardoso Perez, que recorda o seu carisma vivíssimo e a sua inteligência superior, trazia na carteira o espelho de prata que «A senhora dona Adelaide me ofereceu pelo meu casamento. A minha mãe e ela foram grandes amigas. E eu continuei essa amizade.»
Comovidíssimo, José Manuel Cardoso, sobrinho direito de Manuel Claro, que viveu com o casal até aos cinco anos de idade (e que guarda memórias indeléveis daquela tia maravilhosa, tão diferente de todas as pessoas que conhecia), mal conseguia conter a emoção. E Clara Maria Braga da Cruz Mendes Ferrão, dona do palácio de S. Vicente, onde ainda se conserva grande parte da documentação preciosa que utilizei para escrever a sua biografia. Estava ali, escondida, desde os tempos de Alfredo da Cunha que acumulou todo este material, e foi descoberta quando em 2001 começaram as obras de restauro: «Esta história tem de ser contada», disse-me a Clara mal tinhamos acabado de nos conhecer. «É preciso fazer justiça.»
A justiça que Adelaide invocou quando entrou para aqui, há quase cem anos, por «crime de amor» e esteve isolada no Pavilhão das Criminosas. Por duas vezes. Sem voz, sem meios, sequestrada e tratada de forma profundamente cruel, Maria Adelaide Coelho jurou que ia provar A TODOS não ser doida, levasse o tempo que levasse. Nem que fosse a sua vida inteira. Demorou mais, mas foi a tempo de o fazer na presença de algumas das pessoas que ainda a conheceram e amaram. Antes disso, porém, venceu a primeira batalha. A da liberdade. Depois, viveu plenamente por muitos e bons anos. Ao lado de Manuel Claro.

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