quarta-feira, novembro 17, 2010

Com deus e os anjos

O deus pai da minha infância era tenebroso. Usava barbas e o seu olhar seguia-nos para todo o lado. Um erro, um pecadozinho de nada, levava a nossa alma para as vizinhanças do inferno. Chamava-se purgatório e doía muito permanecer ali. Tinha fogo, onde nos queimávamos horrorosamente. Um pecado um pouco maior, chamava-se pecado mortal, condenava-nos a indizíveis tormentos pelo tempo de uma eternidade que é um tempo que nunca, nunca, mas mesmo nunca, termina.
Eu ouvia estas ameaças sairem da boca de pessoas que me habituara a considerar bondosas e doces. Por exemplo, na missa, na altura do sermão, os padres, muitos deles, transfiguravam-se em ogres. Da sua boca jorravam insultos e pragas que tombavam sobre toda uma assistência extraordinariamente tranquila. Eu olhava à minha volta, aterrada, à espera de ver os pecadores, acusados a eito, cairem fulminados por aquelas palavras. Mas não acontecia nada. Uma ou outra pessoa mais idosa suspirava, outras abanavam a cabeça, algumas sorriam acenavam discretamente aos amigos.
Ficavávamos só eu e o meu espanto e a minha grande tristeza e o meu pavor daquele deus tenebroso que eu não conseguia amar mesmo que quisesse.
Mas disso não podia falar com ninguém. Nem com o anjo da guarda, a quem pedia numa lengalenga que aprendíamos de cor, que viesse em minha companhia e guardasse minha alma de noite e de dia.
O anjo da guarda era mágico. Tinha asas, como as fadas. Era lindo. Parecia mesmo uma menina mas era rapaz. Era só nosso. Cada um tinha o seu, e nenhum anjo confundia a sua criança com outra criança qualquer. Além disso nunca nos abandonava, mesmo que fossemos horríveis e cometessemos pecados muito maus, como cuspir a comida que não nos agradava, deitar a lingua de fora a pessoas de quem não gostávamos, e dizer pequenas mentiras.
O anjo-da-guarda era tudo o que precisávamos para nos defender da vastidão do além e das suas ameças que incluíam deus e o diabo e as almas do outro mundo.
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