sábado, dezembro 11, 2010

a função da memória

é esquecer. Tento lembrar-me disso todas as vezes, ao longo dos nossos diálogos repetidos como um velho disco cuja agulha salta repetindo a mesma fraseologia musical até lhe roubar todo o sentido.
Eu falo ela pergunta, eu falo, ela pergunta. E diz: não sei se já reparaste mas estou tão esquecida. Tão esquecida. Diz que se aborrece infinitamente. E regista o absurdo, na sua dela opiniáo, de estar a viver há tantos anos. Noventa e quase três. Mas o seu cérebro funciona de uma forma táo errática, que até isso esquece. A névoa do tempo embrulha todos os seus pensamentos. É o calor do sangue que lhe mantém vivos os afectos. E esses estão para lá do fim da memória.
Pede-me que lhe escreva as coisas, com os nomes, os factos, as datas. E que lhes some imagens. Para desfolhar nos dias iguais, tantas vezes que se lhes colem com a força do hábito de as repetir. O riso, que ainda solta expontâneo, contagia. E ajuda a esconder as lágrimas. As minhas.
Enviar um comentário