terça-feira, dezembro 07, 2010

o Terceiro Lugar


Memórias de infância e pagelas religiosas que reencontrei num armazém no Porto, na Rua da Flores, levaram-me de volta a um livro que li há anos sobre o «nascimento» do Purgatório.
Subsidiário do Tempo Linear, lugar de esperança, reino intermédio, onde todo o sofrimento é redentor, o Purgatório constitui-se destino temporário de almas em trânsito, às quais é possível alcançar a Salvação – o Paraíso – através de uma purificação necessariamente dolorosa pelas «poenae purgatoriae». A conceptualização acabada desse «terceiro lugar» dá-se no meio erudito da Baixa Idade Média – Le Goff situa-a na Escola de Notre-Dame de Paris, entre 1170-1180 – no culminar de um longo processo exegético, cuja etapa última consistiu num sem-fim de debates, querelas e reflexões filosóficas, alicerçadas em conteúdos do Antigo e do Novo Testamento, sem desprezar o recurso às visões e êxtases de santos.
Finalmente enquadrado pelo dogma e cartografado pelos místicos, esse espaço-tempo ígneo, de características e funções muito específicas, ganharia plena autonomia entre os dois extremos que, no imaginário ocidental, balizavam o destino dos mortos: Céu e Inferno. Tratou-se de uma autêntica revolução nas mentalidades, esta transposição do sistema trinitário de fundo indo-europeu para o dualismo religioso judaico-cristão, ou mesmo greco-romano, tão presente nas geografias mais fatalistas do além. Finalmente, com Dante, o Purgatório encontrará a sua magnífica conceptualização final.
O livro, que reli prazeirosamente, ajuda a prespectivar em profundidade esta questão.
Recomendo-o vivamente.
Jacques Le Goff, O Nascimento Do Purgatório, 2ª ed., Lisboa, Editorial Estampa, col. Nova História, 2ª ed.1995
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