sábado, janeiro 22, 2011

Ontem vi o Carlos de Castro vivo num programa de mortos

Ontem vi o Carlos de Castro, vivo, a participar de um programa de televisão em que se comunica com os mortos. Dois entes queridos vieram ao seu encontro. O primeiro foi um homem vestido de senhora, "que faz questão em ser tratado como mulher", adiantou a medium, detalhando que essa entidade presente fez uma sua entrada "triunfal" como se pisasse um palco, ao som de uma música que ela não conseguia identificar. Tinha as mãos primosamente arranjadas, unhas vermelhas, e não dispensava também o arranjo dos pés. Trazia um vestido espampanante, colares, adereços, anéis, perfumes. Uma diva, em suma. Carlos de Castro, não se preocupando em disfarçar uma lágrima, identificou o espírito que lhe segurava na mão:
- É a Ruth Briden. O maior transformista que Portugal conheceu.
Uma história de vida com triunfos e glórias e tragédias. Morreu, há uns anos, poucas horas depois do namorado. "Um Romeu e Julieta no masculino" sublinhou o cronista, que escreveu a biografia da entidade que lhe estava ali a testemunhar  um amor para lá da morte. Como a senhora "baixinha" ao seu lado.
- É a minha mãe - explicou Carlos de Castro, muitíssimo emocionado.
O estudio do programa da TVI estava repleto de "entidades", quase todas "felizes" pela oportunidade de se poderem manifestar. Mas algumas acabavam por ficar nervosas, inquietas, zangadas. Uma pôs-se a falar muito depressa para conseguir fazer-se ouvir. Outras tinham sofrido muito neste vale de lágrimas e a sua partida fora muito dolorosa. Enfim, um grupo ora alegre ora triste e sem novidade nenhuma do lado de lá, seja o que for que isso signifique. Tirando que ninguém viu ninguém ou nada, excepto a médium, que, sempre em inglês, descrevia formas, cores, sons e circunstâncias que identificavam o, a, os, as, falecidos, e transmitia pequenas informações de carácter quotidiano que estes queriam partilhar.
Os mortos deixaram palavras de amor pelos amados vivos que, manifestamente, os choram ainda.
E se muita gente chorou naquele estudio!! Identificavam-se pelas "roupas" pela forma do corpo, por gestos repetidos. Um abria e fechava caixas dentro de caixas que continham relógios e botões de punho. Outro mandava a médium perguntar se não tinham percebido que aqueles candeeiros a acender e a apagar, e aquela ficha sempre a saltar da tomada da corrente, eram os sinais que dava de que continuava aqui. Havia um que não parava de tirar lenços dos bolsos e de tubos compridos. Muitos, muitos, muitos lenços. Todos da mais pura seda...
- O meu pai!! é ele!! Era ilusionista e eu começei a aprender com ele!! - identificou a actriz Irene Cruz.
Um, aliás uma, deixou duas senhoras banhadas em lágrimas. Outro, aliás, outra, tranquilizou a filha destroçada. "Morrera por acidente. Juro, garanto, repito, por acidente". E a jovem, mais só do que nunca, aceitou. No fim, porém, adiantou que a sua mãe fora esfaqueada em São Paulo.
As palavras podem mudar assim tanto de sentido entre aqui e do outro lado? Um acidente de carro ou uma faca intencionalmente espetada no fígado ou no coração de alguém podem descrever-se pelo mesmo vocábulo?
Conforto. Muitas lágrimas. Presenças de vivos que agora estão mortos - como o Carlos de Castro - e de vivos que continuam a chorar os seus mortos.
E que mortos são estes afinal?
Dos recados, das mensagens, dos sinais ali transmitidos, ressalta uma sensação de absurdo. Passada a experiência fatal, é isto que resta? Caixas de botões, lenços de seda sempre a sair do mesmo invisivel bolso, candeeiros que acendem e apagam, e palavras de conforto? Porque é que o saldo deste "espectáculo", a nós, de fora, nos parece tão intoleravelmente vazio e repetivo?
Morrer assim, como diria a Lili Caneças, é de facto o contrário de estar vivo. Só que parece a mesma coisa. Só que ao contrário.
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