sexta-feira, fevereiro 11, 2011

O grande amor não é para todos

 a todas e todos os que amo, mas neste momento particular, muito particularmente à B.S e ao A.C.



Circula no cibermundo de língua portuguesa, entre outros, um texto do Miguel Esteves Cardoso sobre o amor. Prosa antiga, sem idade. Excelente, como quase tudo o que ele põe em palavra escrita. A mensagem traz uma afirmação interrogativa e amarga cravada no cerne: já não há amores "como antigamente". O que terá acontecido? Nada de muito particular, penso eu. Conformismo e indiferença sufocam-no à nascença. Morre, antes de fazer todos os estragos que vem fazer nas nossas vidas. É demasiado deslumbrante e assustador para ser deixado à solta. Na verdade, é impossível amar sem abrir o coração e rasgar as veias e navegar a pano solto nos mares incertos do destino. Amar assim é o próprio destino.
Acrescento que nunca houve grandes amores ao desbarato. Digo, amores incondicionais, que as tempestades reforçam, as contrariedades confirmam e os obstáculo fortalecem. Amores para sempre. Amores imortais, que, quando terminam, se transfiguram e sobem ao céu de corpo e alma.
Daí a nostalgia de uma idade de ouro em que, por amor, erámos, todos, capazes de ousar sem limites. 
Mas  esse esplendor não bate à porta de qualquer um. Ou melhor, bate mas não é reconhecido. É a velha história do deus disfarçado que se passeia pelo mundo da aparência, ignorado por quase todos, porque só os puros de coração o reconhecem, não enquanto deus, mas como irmão de fado. Esse hermes desfigurado e oculto, que estende a mão ou pede pousada, encontra, quase sempre, os olhos frios e os corações fechados ao seu encanto.  
Se calhar, o amor bate à porta de todos. Sim. Em todas as épocas da vida. Quantos são capazes de o reconhecer, eis a questão. Quantos sufocam emoções e sentimentos em troca de confortos aparentes e rotinas inabaláveis, eis o obstáculo.
Não, decididamente, não. O grande amor, difícil e cheio de contrariedades, não é para todos. O mundo seria tão diferente se o fosse, que até dá vertigens imaginá-lo.


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