quarta-feira, maio 04, 2011

Parábola do amor mudo

- Lembro-te tão bem da primeira vez que te vi. Estávamos na praia, tinhas acabado de sair da água, o sol tinha sido inventado nesse dia para te fazer brilhar, lembras-te?
- Eu...
- E eu tinha acabado de comprar um gelado, um picolé, como lhe chamávamos naqueles tempos, e ofereci-to, estava embrulhado e tudo e tu...
- E eu...
- começáste a rir, a rir, a rir, e respondeste que não me conhecias de lado nenhum, e eu...
- E tu...
- apresentei-me, nome, idade, número do bilhete de identidade, morada, nome do pai e da mãe...
- A tua mãe onde...?
-  e depois descobrimos que o toldo ao lado do teu, do vosso, era de uns nossos amigos desde sempre...
- Os pais do Carlos Filipe ia mesmo perguntar-te...
- ... e fomos todos juntos jantar ao chinês, recordo-me de tudo. De tudo! O que vestias, como andavas, as covinhas no teu rosto, o ar amuado, a cicatriz na palma da mão, estavas no 6º ano do liceu, e...
- Estava no sétimo ano, porque...
- ...e eu ia ter contigo à porta do colégio, vínhamos os dois de mota, as freiras torciam o nariz...
- Já não eram freiras, saí das freiras no sexto-ano qua...
- ... mas nós não ligávamos nenhuma. Oh, que saudades, o que é feito de ti?
- Agora trabalho em...
- Sabes onde vivo, certo? Que coincidência, estes anos todos e nunca nos encontrámos. Afinal, estamos praticamente a viver na mesma cidade, em que zona vives?
- Muito perto de...
- Eu fiquei sempre na zona onde os meus pais viveram, porque...
- Ainda são vivos?
- ... vagou uma casa ao lado do Lucas, lembras-te do Lucas?
- Aquele rapaz de cabelo rui...
- Pois eu fiquei com a casa dele. Para o meu trabalho é ideal, sabes que sou...
- Não, não sei, adeus, adeus.
- Já? Temos tantas coisas para dizer um ao outro!! Espera! Não vás! Para onde vais?

ah, meu grande idiota, vou para um sítio onde possa gritar tudo o que não me deixaste dizer, nem quiseste ouvir, para chorar a minha decepção, movi céus e terra quando soube onde estavas, arranjei este pretexto para nos encontrarmos como por acaso, para saber o quanto de ti ainda existe em mim, e o quanto de mim tu carregas, mas tapaste a minha voz, amordaçaste as minhas palavras, e agora só me apetece gritar e dar-te pontapés...

- Espera! Espera! Espera por mim!!

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