sábado, agosto 06, 2011

A dona Joaquina das Zebras do Combro

Um destes dias, estimulei-a a recolher as suas receitas e publicar um livro de cozinha com os seus deliciosos pratos tão tradicionais. Escusou-se. As receitas, disse ela, não são suas para as poder divulgar como se lhe pertencessem. «E o seu toque? E as suas inovações?». Abanou a cabeça. Convicta, sem falsa modéstia, declarou que o «toque» não é traduzivel em palavras e não justifica que ponha em seu nome um património que é de todos. Não houve como fazê-la mudar de ideias. Já o filho, Henrique, tentara em vão. Até porque, na sua forma alquímica de misturar ingredientes da terra, fazendo-os passar pelo fogo, aromatizando-os com  perfumes do campo e temperando sempre a olho e por instinto, há sempre mudanças subtis. Como o humor.
Então falámos da vida. Da vida dela. E esta mulher inteligentíssima, que teve as letras a que podia almejar uma menina que vinha do campo servir para cidade, refere a forma como eram olhados todos os que desembarcavam na cidade, recém-chegados do Portugal profundo:
- Era como se, e por isso, fossemos estúpidos. E sendo mulher, ainda era pior. Ninguém acreditava que pudessemos ter inteligência e raciocínio. Era tão estranho, tão estranho, que ainda hoje eu sinto espanto pela maneira como nos olhavam.
Por essas e por outras, a menina donzela que a dona Joaquina era então, nunca quis servir em casas particulares. Porque, para além de acharem estúpidas todas as pessoas que vinham do campo para a cidade, e as mulheres mais ainda, achavam que as «criadas de servir» - como na época se designava o seu ofício - serviam para tudo, até para desenfastiar patrões. Por mais honesta que fosse a conduta de uns e de outros, nenhuma rapariga escava ao labelo que lhe colavam e que servia de mote e de riso quando, a serviçal despia a bata e ia de férias a casa.
Ainda hoje a dona Joaquina, mãos de ouro, cozinheira de excelência, mulher com uma inteligência acima da média, se espanta também com isso. Ouvi-la, é sempre uma lição.
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