terça-feira, outubro 04, 2011

A mulher que ocupa os meus dias

É ibérica. É belíssima. Procuro-a nas memórias que lhe sobreviveram tantos séculos, e tento ser-lhe fiel. Não me dá descanso, mas gosto disso, embora sonhe já com o dia em que escreverei a última palavra da sua biografia. Está próximo. Da sua época, e sem lhe dizer directamente respeito, este pequeníssimo extracto:



"As versões, coincidentes, revelaram cento e cinquenta bruxos e bruxas, «notoriamente comprovados», pois à identificação das crianças somaram-se as confissões dos culposos. Tinham, sim, comércio com o demónio, a quem todos tinham jurado fidelidade e que surgia perante as mulheres sob a forma, alternada, de gentil-homem ou de bode. Os detalhes da ímpia aliança seguiam os relatos de género, inventariados, sobretudo, desde o final da Idade Média, numa obra basilar, o Malleus Maleficarum[1]. As confissões foram assim enriquecidas por um caudal descrições de sabats, comércio carnal com os respectivos bodes, capacidade para concitar pragas e cometer muitos crimes, assassinando sem deixar rasto graças ao dom de invisibilidade, e outros poderes, que senhor das trevas lhes concedera, induzindo-as, com palavras «horríveis», a renegar da santa fé católica.

Disso mesmo se procuravam penitenciar, com aquela torrencial soma de pormenores, a que acrescentaram a receita prodigiosa, oferecida pelo Senhor das Trevas, de um unguento mágico, feito com muitas sevandijas, graças ao qual conseguiam cobrir grandes distâncias, pelo ar. Sozinhas ou sobre os seus bodes."










[1] O Martelo das Feiticeiras é uma obra de dois frades dominicanos inquisidores, Heinrich Kramer, James Sprenger, que a escreveram em 1486, na Alemanha, mas a cruzada contra a feitiçaria não é apanágio do Cristianismo. Egípcios, Judeus, Romanos e Bárbaros (pluralidade de nações não helenizadas ou romanizadas) produziram legislação duríssima contra a bruxaria desde tempos muito mais remotos. O auge do processo conhecido genericamente como a «caça às bruxas», implicando um ainda incalculável número de mortos – há quem refira as centenas de milhar –, a maior parte dos quais mulheres, foi durante a Idade Moderna e não na Idade Média como frequentemente se afirma. Estes processos incidiram, maioritariamente, nos países da Reforma, sobretudo Calvinistas.
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