domingo, janeiro 22, 2012

encontros do desencontro

Ele chegava de noite, com passos de fera e um respirar de anjo, para que ninguém nem mesmo ela o pressentisse, e deixava-lhe um sinal da sua presença que se confundia com os vasos de begónias fora do lugar onde sempre tinham estado na varanda que se oferecia ao sol da manhã.

Outras vezes eram formas aleatórias desenhadas por pedras marinhas a apontar na direcção da praia, como se um bando de miúdos as tivessem largado pelos pátios interiores da casa, num jogo cujas regras permaneciam indecifráveis tanto mais que a casa não tinha crianças desde que a última se fora embora, há tanto tempo, com a mochila às costas e a barba de três dias por fazer ao encontro de um destino que ficava à distância de dois mares e de uma infinidade de rios e cidades e campos e vilas e castelos e desertos a perder de vista.

Ás vezes, muito raramente, ele deixava o testemunho da palavra escrita pelos meios mais subtis que se podia imaginar, porque as suas mensagens de amor tanto podiam ser grafadas com pedaços de nuvens que preguiçosamente deslizavam pelo céu num AMO-TE que resistia ao vento da tarde e ao calor do sol de Abril, como em letras de canções românticas que parecia terem sido tecidas pelas aranhas em palavras feitas de fios orvalhados de diamantes a oscilar nos ramos das árvores ao despontar da madrugada.

No silêncio dos dias, ela recebia a dádiva de saber que ele aguardava o silêncio das noites para vir ter com ela mesmo que nunca se vissem ou pudessem encontrar porque era assim que as coisas deviam acontecer desta vez.


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