segunda-feira, fevereiro 20, 2012

O que aconteceu às revistas-cor-rosa?

A minha alma está parva. O último reduto do lalalande nacional, o paradigma da perpétua silly season, o recreio dos humildes e dos menos humildes, e dos não humildes de todo, está, também ele, tarjado de negro. O escaparate das revistas no quisque o Principe Real é um murro: a tragédia da actriz que desceu ao inferno da droga. O abuso e a violência de um rapaz que não conheço (mas deve ser porque não tenho televisão, e há anos e anos que não papo espectáculos da «vida real»). A tentativa de suicídio da filha de uma cantora célebre que morreu na flor da idade, depois de uma vida de dores inconfessadas. A ruína de um actor, e o fim de um império da moda. Eis as manchetes.  Todas, todas sem excepção, falam de dramas: mortes, abusos, violências, ruínas, fim traumático de relações, suicídios ou tentativas de, acidentes esventrados até às suas próprias autópsias. E coroam este horror com imagens em capa de gente com o ar desolado de quem está na iminência de um despejo.

A coisa vem detrás. Durante anos, uma actriz de cinema, teatro e televisão, devorada literalmente por esta última, prestou-se a uma carnificina publica que a mostrou e esgotou enquanto figura pública, ilustrando-a exaustiva e sistemáticamente, no palco de uma vida pessoal feita de dramas, tragédias, dores e psicoses. Por causa da idade, das separações, das re-ligações e novas separações. Por causa dos problemas com filhos. Por causa das separações. E da vontade de ter novos filhos. E do drama do fim dos romances. E de já não poder ter filhos por causa do drama da menopausa. E era, e é uma grande actriz, só que já não se nota. Por acaso, o drama verdadeiro é esse de que ninguém fala.

Eu penso que as pessoas que fazem essas revistas devem ter todas enlouquecido.
Ou então anda toda a gente a pensar que pode pegar na receita do Correio da Manhã (em Portugal um dos diários mais bem sucedidos em termos de vendas e implantação) e adaptá-la ao seu pequeno mundo. Mas os que gostam do género, preferem, naturalmente, o original. Para quê ficar com a cópia?

Recapitulando. As revistas cor-de-rosa deviam ser, obrigatoriamente, cor-de-rosa. Choque, sim, com laivos de lilás, e outras cores do arco-íris. Nunca com formato de uma carreta funerária empurrada por séquitos de gatos-pingados. Mas pelos vistos a psicose colectiva inundou aquele universo e não houve tempo para tomar vacinas.

Mas pensem, por amor da santinha. Para quem tem o telejornal, que importa uma mini reportagem de tragédia humana e circunscrita com fotografias desactualizadas ao fim de meia hora - é que existe uma coisa chamada internet? E que modelos de pessoas são esses que nasceram em estúdio, cresceram durante umas semanas diante de todos, num exercício de voyarismo consensual e nem sequer inocente, e cujas vidas agora se pretende transformar em paradigma? É nisto que desembocam as revistas cor-de-rosa de Portugal? Valha-nos santo Entrudo de bigodes e peruca azul.

A minha alma está para lá de parva. 
Enviar um comentário