sábado, fevereiro 04, 2012

Quando voltas, meu rei?

Ele escrevera-lhe a dizer que voltava, e enviara legados em seu nome para lhe transmitirem essa promessa palavra por palavra:

- Em breve, estaremos juntos. Volto ao reino, no ano que começa.
E o ano começou, e ela a sentir-se noiva, dava por si a sorrir sem dizer nada. Em Maio, uma carta desfez-lhe as ilusões. A leste, o Turco ameaçava a Hungria. Na Alemanha, os herejes dividiam o império. O rei, que estava na Flandres, invertia a marcha e embrenhava-se de novo pela Europa adentro.
- Para o próximo ano voltarei, minha muy cara e amada mulher. Assim Deus o queira.

Em Ávila dos Cavaleiros, a rainha não pronunciou uma palavra que, para a história, registasse o desalento que se apossou dela. Naquela terra antiquíssima, feita de granito, solidões e desmesuras, que importância tinham os sentimentos de uma mulher a morrer de saudades do marido? Ali, era a mão de Deus que esmagava as vontades efémeras dos homens tão insignificantes quando vistos do alto daquelas montanhas, dentro da cidade mais amuralhada da Europa, com as suas águas purissimas, o seu ar de gelo, a luz e as sombras, e a voz incansável de sinos e orações.
- Se Deus quiser - terá suspirado ela, pensando quanto tempo mais conseguiria suportar o fardo do poder.



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