segunda-feira, maio 14, 2012

O fim é mesmo fim?

Dificil dizer. Quando se esteve tão próximo durante tanto tempo, talvez não se apliquem as mesmas regras. Há mais de três anos que esta mulher anda comigo para todo o lado. Há mais de dois que invadiu a minha vida, levando-me a invadir a dela. Tentei saber tudo quanto era possivel saber-se a seu respeito. Vi-a crescer, e superar-se. Vi-a apaixonar-se e ser retribuída. Receber honras e carícias e desestimas e afrontas e vénias. Gastar fortunas na sua Casa. Adoecer de febres misteriosas e recuperar das doenças e dos tratamentos médicos que a sangravam até à inanição. Acompanhei os seus partos, as suas dores, mesmo as piores, que é quando um filho parte, e ela viu partir vários. Senti o desgosto das suas saudades, e o peso do poder que desabou sobre ela nas ausências do marido tão ausente. Ouvia-a chorar. Várias vezes. De solidão e agonia.
Quase que fiz contas, como elas as fez, uma e outra e outra vez, a avisar o rei do ouro que minguava e desaparecia nos cofres exangues do reino, para ir alimentar o caudal das guerras, enquantos as riquezas verdadeiras se hipotecavam nas mãos dos banqueiros. Insaciáveis banqueiros.
Vi-a morrer, estive ao seu lado. Ouvi os prantos que se fizeram por ela. Muitos. Tantos que até os cronistas se espantaram.
Chorei a sua morte.
Recuperei da sua memória o que havia ainda recuperar. Poemas, romances, lendas. Muita fantasia e pouca verdade. Visitei os seus retratos. Li o seu testamento, acompanhei o féretro.
Revivi-a.

Agora, o trabalho é de detalhe. Mas mesmo assim, não consigo mantè-la à distância.
Até quando? Pelas minhas contas, duas semanas.
Mas serão estas as contas dela?
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