segunda-feira, julho 16, 2012

Os meus adorados livros das férias grandes

Estavam em caixotes no sótão de onde só saiam em meados de Junho, quando as férias grandes começavam. Ali se encontravam aninhados uns contra os outros, com muitas bolas de naftalina e outras coisas que não me lembro que coisas eram, para os proteger da humidade e do bolor. Na época não se dizia «banda desenhada» mas sim «livros de quadradinhos». Por algum motivo, os pais achavam que era literatura menor que não estimulava suficientemente os nossos cérebros, pelo que só tínhamos acesso a eles uma vez por ano. Tio Patinhas, Zé Carioca, Mikey e Minie, Fada Sininho e Capitão Gancho, nunca saberão o quanto vos amei!! E o Capitão Dan Dare mais o tenebroso Mekon, Artur, o Fantasma Justiceiro, as Aventuras do Timtim, que ocupavam um lugar à parte, porque «tinham conteúdo». Os meus pais perdiam-se por estes.
Aquelas cores, aqueles desenhos, aquelas aventuras, à luz do Verão, esmaltavam-se de magia. Eram ocupação de meio da tarde, tempo de sesta, quando estava demasiado calor para se estar na praia. Ou ao fim do dia, porque se já havia televisão, faltava por completo a vontade dos adultos de a termos. 
Outros amigos que saiam desses caixotes eram os contos de encantar, Grimm, Condessa de Ségur, Lendas portuguesas (essas achas que nunca emigravam das estantes para os caixotes...), histórias de aventuras, e outra literatura de pura diversão. Os Cinco eram acolhidas com delírio. E tocávamos deliciados as suas capas gastas, folheávamos de novo as suas páginas  muito manuseadas, com uma alegria que não é possível descrever.
O reencontro era, invariavelmente, comovente e alvoroçado. Alguns estavam mais ou menos esquecidos, e, como a amigos de campos de férias, abraçávamo-los e dizíamos ai que bom, que bom!. Outros, sabíamo-los de cor, mas era sempre uma excitação voltarmos a tê-los ao nosso lado.

Recordo-me disso agora que estou a guardar as toneladas de apontamentos e fotocópias e papéis, e a reorganizar as prateleiras para devolver tantos tantos livros empilhados estrategicamente pela sala e pelo quarto, no rescaldo do livro que acabei de escrever.
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