sexta-feira, agosto 03, 2012

Era uma vez um homem que vendia ovos de pata


São histórias distintas. Em ambas, os homens recebem uma pequena herança que aplicam. Um, compra ovos de pata, o outro, cristais diversos. O primeiro coloca os ovos numa cesta, e vai para o mercado apregoar a sua mercadoria. O segundo dispõe os cristais numa canastra,  encosta-se a um muro e põe-se a aguardar os fregueses. E, cada um deles começa a sonhar. O primeiro sonha com o pequeno lucro que vai arrecadar com a venda dos ovos da pata, o qual aplica a comprar mais ovos e a vendê-los e assim sucessivamente, até criar as suas próprias patas, aumentando descomunalmente as suas vendas. O segundo, discorre da mesma forma em relação aos cristais, atingindo lucros fabulosos que lhe permitem aumentar a oferta de pingentes, taças e artefactos finamente cinzelados.

Neste ponto, e quanto ambos se sentem suficientemente ricos, sonham com a filha do sultão e decidem casar com ela. Vestidos como reis, precedidos por escravos e eunucos e seguidos por cavaleiros que atiram moedas de ouro à populaça, vão ao palácio do sultão a quem deslumbram com a riqueza dos seus presentes. E dessa forma, atraem a sua benevolência conseguindo facilmente que este lhes dê a mão da sua filha, bela como uma lua cheia. 

O casamento é de contos de encantar, e segue a narrativa de género com detalhes primorosos em ambos os casos. Entretanto, o noivo, para marcar bem a imponência e a importância que a si próprio se atribui, trata a noiva com o maior dos desprezo. E em ambos os casos, antes da consumação do matrimónio,  quando ela, adorável e chorosa tenta chegar aos lábios do noivo uma taça de licor para predispô-lo a olhá-la de frente, ele esbofeteia-a para a castigar pelo intolerável abuso da familiaridade. 
 
O desfecho é idêntico. O pontapé do bruto desfaz os ovos da pata, o gesto violento da besta quebra todos os cristais da canasta. E, cada um em sua história, chora amargamente os sonhos desfeitos em gemadas e cacos. Cada um deles, sonhando à medida das suas limitações, colheu em conformidade.  
Eu adoro as Mil e uma Noites

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