terça-feira, novembro 06, 2012

ROBERTA GOTA D'ÁGUA

«Ao nível subatómico, os objectos materiais sólidos da física clássica tornam-se nos modelos-onda de probabilidades, e estes não representam, por fim, probabilidades de coisas, mas antes probabilidades de interconexões» [Fritjof Capra, O Tao da Física, Lisboa, Presença]. 

Os jardins estavam iluminados por lanternas chinesas. Era noite de festa, cheia de poças de luz e lagos de sombras, por onde passeavam pessoas e bichos, por veredas de líquenes e musgos de onde escorria uma música tão subtil que mais parecia a respiração da terra a sair, em acordes de flauta e violino, pelos poros dos canteiros floridos. Não me lembrava de como tinha ido ali parar. Mas não era importante, porque, e quase sem transição, encontrei-me depois numa cidade cujas ruas se tinham transformado em canais de água muito límpida, que deixavam ver, à transparência, catedrais submersas. Eu estava sentada numa gôndola, a olhar as costas do barqueiro que dirigia o barco através do dédalo de canais, e o tapete de violetas estendido no céu tanto podia anunciar a aurora como o crepúsculo:


«Vou para onde?», perguntei às costas amortalhadas numa capa escura. As palavras traçaram arabescos no ar parado, e depois caíram na água abrindo caminhos de bolhas através da superfície. Foi um espectáculo tão surpreendente que me curvei tentando acompanhar o seu percurso, pensando como quem descobre uma evidência: «Então é verdade. As palavras existem em si mesmas.» Então, o barqueiro rodou a cabeça, olhou-me, e, no seu rosto babilónico, os dentes rasgaram um sorriso. Tentei recordar a última vez que nos tínhamos encontrado, mas as imagens que a memória disparava eram todas tão estranhas como as daquela cidade, onde igrejas dormiam num sudário de águas. Ignoro se ia responder. Porém, tranquiliza-me pensar que o sorriso estranho, e contudo tão familiar, era o prelúdio de uma conversa ou, pelo menos, de uma única e irrepetível resposta. 

Mas foi exactamente nesse momento que ouvi, sobrepondo-se a toda aquela realidade, o som estridente e repetido de uma campainha de telefone. Nessa altura fiz uma pausa e contei várias vezes a mim mesma tudo o que se tinha passado, para não me esquecer de nada quando acordasse. Sonhei que tinha à mão o livro dos sonhos e que escrevia, na letra nervosa da urgência, os detalhes da cidade onde catedrais jaziam num escrínio de cristal líquido, e a festa onde encontrara, libertos de jaulas e medos, gazelas e bois-cavalos, chitas e pavões, homens e mulheres, recortados na claridade distante das estrelas, e aureolados na luz quente de incontáveis lanternas chinesas. Depois, guardei o caderno em lado nenhum e corri para casa, onde o telefone continuava a tocar. Era a minha casa, sim, mas uma casa dos sonhos, construída segundo as leis de uma geometria não euclidiana, e de acordo com o modelo de arquitectura impossível que Escher repetidamente ilustrou na sua pintura. 

A distância mais breve entre dois pontos não é seguramente a linha recta. A minha casa dos sonhos tinha um corredor muito comprido, e era no fundo desse corredor que o telefone me chamava com tanta insistência. Para chegar à sala onde se encontrava, tinha de entrar e sair de quartos e salas que comunicavam entre si, ligados pela linearidade obtusa de um corredor que, sendo direito, se comportava, sob os meus passos, como uma sinuosa espiral. Tudo me retinha. Enquanto avançava, precisava de lutar contra a tentação de parar, porque, à medida que as atravessava, as salas iluminavam-se e sentia um desejo quase irreprimível de ficar a visitá-las demoradamente, como quando arrumamos gavetas ignoradas há muito tempo e perdemos uma tarde inteira a virar papéis do avesso, a ler cartas que nem sabíamos que guardávamos, e a refazer, de memória, o filme inteiro de que a fotografia reencontrada não é senão um fragmento breve. 

Foi então que soube. A consciência adormecida disparou, em imagens que se interligaram numa espiral de caixinhas chinesas. Lembrei-me, de repente, no sonho, de outros sonhos, em que sonhava com um telefone que tocava com uma urgência que se repercutia no bater do meu coração, e que desligava quando finalmente levantava o auscultador. Outras vezes, e era seguramente o mesmo sonho e a mesma pessoa que me telefonava, alguém atendia antes que eu conseguisse chegar, e ficava com um recado: «Diz que volta a ligar». Tudo se resumia a esta frase, uma promessa despida de ornamentos, uma seta que cruzava o tempo, trespassando sonhos dentro de sonhos, e arranhando quase imperceptivelmente o forro invisível da memória. Tentei correr, ao longo da curva daquela linha recta que era o corredor, sem olhar para as salas iluminadas à medida dos meus passos, e foi então que cheguei à mesa do telefone subitamente silencioso. Alguém, antes de mim, acabara de atender. Sentei-me no chão para ouvir a mensagem: «Era a pessoa de sempre. Diz que volta a ligar, ainda hoje. 
 «O nome. Perguntou o nome?» 
«Sim. E escrevi-o: Roberta Gota d'Água.»  

O telefone estava em cima de uma mesa baixa, de madeira. Era transparente, como se fosse feito de cristal leitoso, e as suas entranhas de fios coloridos, brilhavam suavemente, numa pulsação mineral. Na base da engrenagem, uma clepsidra deixava escoar areia cor de sangue. Parecia-me mais um ser vivo do que uma máquina, e a olhá-lo soube que o telefonema que aguardava iria coincidir com o fim do tempo marcado na ampulheta, e soube também que nesse mesmo instante acabaria irrevogavelmente o prazo de permanecer naquele local. De modo que olhava a areia a escoar-se num fio vermelho que marcava o tempo, na expectativa de conseguir ainda atender a chamada, ouvir a voz que me procura há tantos sonhos, no mesmo instante em que provavelmente iria acordar. Ou ser levada para outras paragens, na maré imprevisível dos sonhos. Não devo ter tido tempo para tanto. De qualquer forma não acordei. 

De manhã, ao escrever no caderno que dorme na cama, ao meu lado, o resumo do que tinha vivido a dormir, ia perdendo este episódio, que se embrulhava numa prega da memória, entre histórias de cidades sob as águas e festas em jardins mediterrânicos com animais que falam. Assim, foi quase automaticamente que escrevi «Roberta Gota D'Água». Mas ao fazê-lo foi como se puxasse um fio muito frágil que, ao desenrolar-se, trazia esta história.  

Obs: este conto integra uma colectânea publicada com o título A Morte da Avó Cega, actualmente fora do mercado, ou espalhada por alfarrabitas. Foi o meu primeiro livro. Obs: a imagem foi retirada hoje do post «Los umbrales de la mente», do bloque La divina vista.

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