sábado, dezembro 21, 2013

Miracles do happen

Agora, a olhar para a concretização de mais um dos meus sonhos - editar em livro as minhas, as nossas, oficinas de escrita -, só posso dizer que os milagres realmente acontecem. Eu gosto de dar aulas. Na multiplicidade das minhas ocupações, onde o jornalismo avulta em primeiríssimo lugar até o ter largado para me dedicar à escrita a tempo inteiro e à investigação académica na área de História, dei, frequentemente, aulas pro bono, ou sem ser pro bono, a quem delas precisava. E isto desde os meus 16, 17 anos. História, Português, Geografia... Fui professora de jornalismo e regente da cadeira, no início da década de 90. E  finalmente, há uns tempos, concebi e estruturei encontros oficinais na área da escrita chamada criativa. Em todo o caso, sempre achei que  uma oficina sem a consagração material do seu trabalho não tinha grande sentido. Era como fazer um curso de culinária sem apresentar no final, pelo menos um bolo. Ou frequentar um atelier de desenho de moda, sem coroar a aprendizagem com um desfile. 


 
 
Em todo o caso, é preciso que se diga que os 'milagres' só acontecem quando chamamos por eles e o que eu me fartei de chamar por este. E foi assim que um dia, em conversa de rua, num encontro de vizinhas, a Livraria Alêtheia, a que se associa a Várzea da Rainha e a Sinapis editores, abriram os braços e as portas a este projecto, prontificando-se a apoiá-lo em todas as suas etapas. O que, numa soma de boas-vontades e entusiasmo,  nos permitiu trabalhar, criar raízes e produzir o livro lançado recentemente, a coroar o sonho de um punhado de pessoas que nunca imaginou publicar, ou pelo menos, publicar tão cedo. 







 




Vemos, nas imagens, a Clara Ferrão, a Elda Aguilar Rainho, a Carla Lemos, a Maria Teresa Figueiredo. Um aspecto da assistência. O Timóteo e a Happy, porque a Livraria Aletheia é dog friendly. Quem falta? Dois alunos que seguiram o curso á distância, e cujos maravilhosos textos figuram nesta antologia. Presente, mas 'ausente', a Maria Pinto de Araújo, pseudónimo de uma autora que não se quer revelar ainda. O seu texto deixa uma mensagem poderosa, eloquente e cheia de esperança. É o testemunho de alguém que sobreviveu ao inferno da violência doméstica, e que conseguiu reerguer-se e redescobrir-se e que, por isso mesmo, quer ajudar outras pessoas nessas circunstâncias. O seu 'Coração de Cristal' é, em forma de escrita, a primeira abordagem à sua missão de ajudar.

Noutro registo, a Teresa Figueiredo, que foi ao fundo das memórias de infância, ao encontro de tanta luz mas também de algumas sombras, por exemplo, também está lançada e já prometeu aos numerosos amigos que ali acorreram, que em 2014 o seu livro virá a público. O seu entusiasmo e determinação não conhecerão barreiras e a sua história é poderosa e envolvente. A Clara também não vai ficar por aqui. Precisa é de mais tempo para organizar literariamente a sua história de vida que... daria um filme. Os seus textos encantadores, a revelarem tanta rebeldia e imaginação desde tenra idade, são apenas um primeiro passo.

Noutro registo, e sempre a raiar  a poesia, a Carla Lemos delicia-nos com pequenos contos 'arrancados' de gavetas e baús secretos, pois, fotógrafa de profissão - a reportagem do lançamento é dela! . , é avessa a desnudar-se em palavras que trazem memórias. Mas os seus textos são cintilações onde os silêncios são tão eloquentes quanto as palavras. No extremo oposto, o José Saraiva transporta-nos à história dos seus primeiros anos de vida, com  uma mestria e um sentido de humor que nos prende e surpreende da primeira à ultima linha, detalhando personagens, cenários, cheiros e sabores que nos permitem ver o filme da sua infância a cores e a três dimensões. Por fim, chegamos aos lindíssimos textos da Sónia que remontou o puzzle da sua vida contando-nos a história do seu nome e das suas mudanças de vida, com uma sensibilidade tocante, que culmina no único conto que me fez realmente chorar, o pungente 'Fantasma de Laika'. Espero bem que também não fique por aqui.


Isto não é um pequeno milagre? Claro que sim. Para todos nós

E um belíssimo presente de Natal.  

quinta-feira, dezembro 19, 2013

It's time for miracles

Ships on fire -- sinking in frozen waters. Where are my wings? I call you Angels.

It's time for miracles.

So be it.

domingo, dezembro 15, 2013

Mozzaic's great memories

A minha amiga de coração e alma cuja vida dá vários livros e um filme épico pelo menos, resolveu meter mãos à obra e começar a escrever as suas histórias. E fez coisa horrível. Perguntou-me:

- Como é que começo a escrever o meu livro?



A Mozzaic já escreve que se desunha. Os posts dela, generosamente partilhados pelas redes cibernéticas, são, alguns deles pelo menos, verdadeiros testamentos. Escreve em inglês, obviamente a precisar de copywriting, mas está lá tudo. Emoção a rodos, verdade total, grandeza, humildade, peripécias surreais, you name it. E tudo misturado com um desassombro de quem anda no arame sem rede, sobre os mais arrepiantes princípios, contando apenas com as próprias asas se alguma coisa correr mal nesse cruzar de fronteiras sem mapas.

Já lhe aconteceu quase tudo o que pode acontecer a alguém. Até esteve presa, numa cadeia célebre pelos piores motivos. A cadeia feminina de LA. Tinha acabado de saber que tinha um cancro, e que o homem que amava a ia deixar. Aliás, foi esse mesmo homem que a atirou para a prisão, queixando-se de violência doméstica - ela bateu-lhe sim, ela é dessas quando é preciso. O pior é que também deu pontapés no carro dele, que ela comprara.A polícia tinha acabado de chegar e viu.

A policia levou-a.

O que é que ela fez na cadeia? No seu desespero, greve de fome. Não para marcar nenhuma posição. Mas porque sentiu que se devia «purificar» de toda a raiva, e porque, vamos lá ser francos, a comida na prisão era uma grande merda. Em todo o caso, o que ela dispensou, aproveitou a outras. E granjeou-lhe respeito entre ladras, putas,  drogadas, e outras hóspedes amontoadas na cela que ela partilhou. Ao fim de dois dias, até as carcereiras mais cruéis lhe diziam com carinho:

- You don't belong here, girl.

Como é que uma pessoa destas pode ser aconselhada na matéria prima fabulosa que constitui a escrita da sua vida? Close your eys sister of mine, you'll find your way as you always do.

Entretanto, e com a minha memória de elefante, poderei eventualmente ajudar-te a recordar algumas coisas que te passarem ao largo. Acima de tudo, o primeiro dia do resto da tua vida, já lá vão doze ou treze anos?, foi escrito aqui em casa. Numa parede. Com peixes de mosaicos. I could write about that. O resto, virá por acréscimo. Os sonhos mirabolantes do Matrix, quando o K. Reeves te convocou para LA estavas tu em Glastonbury, levando-te a trocar o Rei Artur pelo Neo, a Távola Redonda pela pastilha azul. Ou seria a Vermelha? The one the white rabit told you so.

E todas estas fantasias são miraculosamente verdadeiras. E não, não!, a minha amiga não precisa de tomar ou beber nada para ser como é. Nem álcool, sequer. Quem tem um coração como o dela, não precisa de aditivos, desses que subtraem a luz da alma e maculam a força do corpo.

That's my Mozzaic.


 

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Agora, a minha mão toca a tua

Meu poema de resposta ao poema que  Jaime Rafael Munguambe Júnior me dedicou:
Flechas rasgam signos de fogo no abraço oceânico de palavras vivas que a minha língua te dá. Danço a música da terra, o pulsar dos seus tambores solta o rio onde o meu sangue se renova. Agora, a minha mão toca a tua.
MG

domingo, dezembro 08, 2013

«empresta-me a mão para que eu consiga pegar outras mãos»

Nos últimos dias, a vida tem-me presenteado com tesouros sem preço. Um deles, que implica a amizade que iniciei há tempos com poetas da minha e nossa pátria comum -  a lusa língua, nosso português global -  materializou-se ontem numa joia que me foi pessoalmente endereçada por Jaime Rafael Munguambe Júnior. É um jovem moçambicano cujas palavras sigo fervorosamente, e que me incendeia com muito, quase tudo, o que vai colocando na sua página do facebook.

Nestes tempos em que tanto nos está a ser tirado, é nestes patamares de excelência que entendemos a nossa fortuna e privilégio. Nós, Senhores e Senhoras de reinos que ouro algum no mundo todo pode comprar, vender, trocar ou corromper. Donos de Graças que são dádivas. Como as que partilho aqui, em estado de maravilhamento. MG.

Jaime Rafael Munguambe Júnior

À Manuela Gonzaga

Empresta-me a lingua para eu poder ter com quem trocar as flechas que crescem nos ares fechados adentro, empresta-me a mão para que eu consiga pegar outras mãos, para poder eu ouvir a música escondida que o sangue entoa quando corre na pista das veias...

Carta [à Hirondina Joshua]

O que quer me dizer este grão de areia que cai na intenção? Ou então que idioma esta folha caida justamente, na companhia da exímia erva empalidecida, canta ou fala, no interior quadrado do vento que esvoaça por entre orelhas, sei que conheces a pequena luz do meu ente, um pouco desvairado e sei ainda que não é surpresa este texto que finge ser carta, quando te lê os sentidos.
Nota: Minha amiga Joshua ...

III [com e para várias pessoas]

Invento-me quando quero ter-te envolvida
sobre as areias do meu
embalo.

A idade do silêncio que me arde sobre as pedras amontoadas adentro

sobra-lhe apenas a engenharia do desespero.

Jaime Rafael Munguambe Júnior 

quinta-feira, dezembro 05, 2013

A vossa vida dá um livro? A deles já deu.

Estamos todos de parabéns. A minha primeira oficina de escrita já começou a dar frutos palpáveis. O livro antológico dos participantes é uma realidade que muito em breve, daqui a dias, estará nas mãos de cada uma, um, dos autores. A lindíssima capa dá testemunho antecipado.

 
 
 

domingo, dezembro 01, 2013

Oração de dormir


À noite rezo o meu rosário de palavras soltas e flutuo num marulhar de histórias que querem ser contadas e me arrastam ao sabor das suas marés de silêncios musicais entrecortados pelo grito solitário de um pássaro de fogo suspenso sobre infinito mar do porvir. E então adormeço sem saber que adormeci.  

A vida neste canto do universo

O que eu quero é que as minhas palavras abram sulcos no teu rosto pávido e que o meu poema te rasgue as veias até o teu sono se tornar insónia e o teu acordar um brado, um uivo, um lamento e um hino. Só assim poderás entender, amor, o que é a vida neste canto do universo.
 
 
 

sexta-feira, novembro 29, 2013

Ai coração, coração

Recordando Mozzaic, sempre perto mas de momento um bocadinho longe. Em LV.

Ela atravessou a noite medonha num desespero de partir tudo. Ela partiu tudo. Ela cruzou a madrugada pisando sobre os cacos e o caos da sua cozinha. Ela amanheceu sofrendo, mas inteira,  sentada e exausta no único canto onde podia sentar-se sem se ferir nos pratos, nos copos, nos azulejos, nas chávenas, nas travessas e nas terrinas, nas malgas, nas jarras.

Tudo partido, escavacado, destruído. Tudo em pedaços.

O percurso artístico dela - um dos, é tão multifacetada que de tudo cria e recria - começou assim. Nesse dia que sem pausa se fez tarde e noite, refez as paredes da cozinha em mosaicos lindíssimos que lhe conferiram alma,  reconfigurando o absurdo da sua história. Reunindo os pedaços partidos em desenhos e famílias de formas e cores. 

Desde então, o seu toque alquímico transmuta todos os espaços que habita. De Setúbal voou para Glastonbury, dali mudou-se para outra pequena cidade no sul de Inglaterra, de lá partiu para Los Angeles e finalmente aterrou em Las Vegas, onde, às portas do deserto, recriou, uma vez mais, o seu pequeno e mágico oásis.

É que brincaram, sem saber, com o coração dela, quando ela era bem pequenina. E por isso, ficou-lhe o molde do coração partido. Depois cresceu e tudo na vida dela se adequava a esse molde, porque nós imprimimos a nossa matriz, o molde de origem, na irrealidade que nos circunda. E com ela, foi assim até ao dia em que escavacou a cozinha da casa onde vivia, porque e mais uma vez lhe tinham partido o coração, e nessa violência catártica, nesse descer ao fundo do poço, nesse soltar de raivas e dores e fúrias e desesperos, encontrou-se com aquela de si que era a demiurga. A criadora. A feiticeira, a sábia, a velha, a mais velha, a criança, a mais criança.

A partir de então, começou a recompor o mundo à sua volta. A imprimir-lhe um molde novo, redesenhado por si. E é isso que tem vindo a fazer da forma mais espantosa, delirante e errática que se pode imaginar. Juntando à sua volta os mais impensáveis grupos de pessoas, aproximando mundos paralelos, respigando do rejeitado lixo verdadeiros tesouros que, renovados, lhe saem das mãos com novo fôlego, promovendo culturas, partilhando amor e amores e causas justas. Sem máscaras de espécie alguma.

Por vezes, ainda parte tudo, mas o tudo que parte é muito pouco, porque ela está cada vez mais inteira.


Que molde é esse? É o tesouro escondido que só encontramos se mergulharmos em nós, com carácter de urgência. É que todos somos demiurgos, deuses esquecidos da nossa própria divindade. Por vezes, uma bênção disfarçada de maldição, uma tragédia ou uma fulgurante alegria, ao quebrar-nos todas as certezas do incerto viver, recorda-nos a origem adormecida. E acorda-nos se quisermos realmente acordar. Vivamos, pois. De coração aberto a todos os ventos. Se não vivermos assim, não vivemos.


créditos da imagem: Chaos
 

terça-feira, novembro 26, 2013

Universos paralelos

Chegaram ao fim as minhas oficinas de escrita Elegias do amor e do ódio provavelmente as mais intensas e duras. Aliás, houve desistências muito honrosas, o que quer dizer alguma coisa.

Porém, os textos que emergiram, entre risos e lágrimas e muitas perplexidades, são outras tantas portas de entrada e de saída dos nossos mundos de ontem, com o poder que o agora nos confere. E foram, são, textos que deixaram os autores/as extasiados pelo percurso percorrido, pela libertação que a palavra permitiu e pelas chaves todas que trouxeram consigo.

A próxima oficina faz uma pausa nas autobiografias e propõe uma viagem. A mundos paralelos. Vai ser uma delicia. Come on, people, let's have some fun. Real fun. Ou há outra forma de viver?

segunda-feira, novembro 25, 2013

As mãos de Fátima

Ela perguntou-me: o que guardas no silêncio entre as palavras? Porque é o não-dito que me falta e que te falta. Depois, pousou as suas belas mãos de dedos escuros sobre o tampo escuro da mesa e deixou-as ali como se fossem pássaros que tivessem acabado de chegar de muito longe. As belas mãos da minha amiga Fátima.

Noite fria de Lisboa de muito límpido luar. A sala quente, animada, aberta sobre a rua ingreme. As conversas em várias línguas. O par, ao nosso lado, trocando beijos porque ao lado deles, de volta deles, não havia ninguém. Só a noite deles.

Quando o copo cheio ficou vazio, entendi.

O que guardo, ainda não sei bem. O que está por dizer, já conheço. Agora, é voltar atrás mais uma vez. E arrostar com aquela vastidão e plenitude que nos devorava a alma. Disso, lembro-me. E da sensação de desamparo e maravilha perante a imensidão da terra e do mar, e dos lagos e dos rios, e da minha estranheza de estranha, e da minha ignorância de ignorante. É que, pelos menos nós, andávamos dentro de gaiolas cuja porta só se abria de improviso durante um tempo tão incerto, que nunca chegava para percebermos que estávamos livres, nem para sentir andávamos presos.

Tenho de voltar aí. Preciso de encontrar a palavra certa para fazer a viagem.

De ida e de volta.
 

domingo, novembro 24, 2013

Cumprindo meu calendário de criação

Há um tempo de amarrar a palavra ao texto pré-concebido e há outro em que é a palavra que nos leva, sem amarras, pelo oceano do verbo, pela floresta do sem fim. As duas navegações são tributárias de um só destino. Mas enquanto a segunda é dádiva, bênção maior, embriaguez e desmesura, a primeira é serviço obrigatório ao serviço do misteriosíssimo calendário da criação. Eu cumpro. Mas sofro minhas nostalgias que abrem sulcos no meu respirar de hoje, de ontem e de amanhã.

sábado, novembro 23, 2013

Carpe diem

Ás vezes a única maneira de entender o quadro é saltarmos para fora dele e olhar o desenho de fora. Dizem, ah tu não ligas nada, tu não queres saber. Digo: é por querer saber, é por ligar tudo, que tenho de ficar mais longe. Menos ruído e infinitamente menos confusão, porque a Torre de Babel desaparece na cacofonia das cores de uma pintura esborratada, que assim se apresenta sobre outra luz, com todo um outro desenho. Não é menos assustador. É simplesmente mais solitário e mais completo. A seguir, o tempo recorda que tudo isto se passou assim, desta mesma maneira, noutro palco, com outros cenários, os mesmos actores, roupas diferentes, regras distintas em cada um desse desenrolar do drama e da comédia da vida. Porquê? Porque há um esforço constante, aturado, e feroz, para se matar a memória. É essa a única, a real tragédia. Mas a seguir, até o medo se esfuma na areia do tempo, que nos recorda a impermanência tão perene do ser.


 

terça-feira, novembro 12, 2013

Se uma gaivota viesse

Fala-se sempre nos cheiros quando se evocam os tempos pretéritos. O perfume dos morangos no tempo dos morangos, no tempo em que os morangos tinham perfume, e o cheiro dos lírios e dos gladíolos, por exemplo, levam-me direitinha ao Porto da minha infância. E há perfumes que acordam histórias de vida, e tempos e lugares e pessoas,

Mas a música é mais do que a banda sonora dos tempos. É um meio de transporte alado aos nossos dias de ontem. Ouço alguns fados da Amália, e estou diante do rio Zambeze, a olhar para as suas águas escuras e densas, que nesse tempo, atravessávamos no batelão do Matundo, rumo ao Moatize, por exemplo. Ouço a «Menina dos Olhos Tristes» na voz de Adriano Correia de Oliveira ou José Afonso, e volto a Vila Cabral, que já nem existe no mapa com esse nome, agora é Lichinga, e dali sigo até ao Lago Niassa e revejo-me criança nos doze anos que não chegavam para me fazer sentir de forma alguma a «senhorinha» que supostamente deveria começar a tornar-me, e que corria para a água com vontade de gritar de alegria. E ali fico e aqui estou, em recordações à flor da pele, atónita de espanto perante o esplendor da paisagem africana que me entrou nas veias, doce veneno de que nunca, jamais, me quererei libertar.

Ouço Fernando Tordo e aterro em Luanda. Ouço Paulo de Carvalho e há gritos de alegria à minha volta e lágrimas a correr pelos rostos de muitos. Havia cavalos à solta no mar da liberdade, havia poemas de amor, laranjas amargas e doces, no pleno azul dos dias novos.


Nas minhas viagens no tempo, nos últimos tempos, é pela música que embarco. As palavras vêm depois. Agarradas a elas, as imagens, os sons, as cores, os cheiros. Retalhos de vidas nossas.  

quarta-feira, novembro 06, 2013

Angola aqui e nós lá

Ontem, cá em casa, a noite foi profundamente africana. Angola aqui e nós lá. Que fabuloso cruzar de histórias, antigas e recentes. Navegar é preciso. Recordar, acorda porque acordados vivemos sonhos antigos e futuros. Depois rimos tanto, como se há tanto tempo tivesse sido horas antes. E ela a perguntar: porque é que não voltam?

O Guilherme e a Isabel até suspenderam a respiração.

Que sortilégio volta a ter aquela terra? Será que o Pescador da Ilha, que um dia, era madrugada, colheu o meu desgosto, embrulhou-o nas redes, lançou-o ao mar, e disse-me umas palavras que nunca mais esqueci, ainda anda por lá? Era um homem velho sem idade, tinha duas estrelas a fazer de olhos.

 
De São Paulo de Luanda me trouxeram para cá. Será que há caminhos futuros de regresso ao passado, quando não é o passado que procuramos, mas um presente sem amanhã?

O tempo, esse grande escultor. Quero descobrir o seu mecanismo secreto, o ponto de apoio da eternidade. É pedir muito? Não. É pedir tudo. Menos que tudo é pouco.


 

terça-feira, novembro 05, 2013

O Yahoo cortou relações comigo

Não fiz nada, não disse nada, não ameacei abandoná-lo e trocá-lo por outro. Bom, há uns tempos, aborrecida com a paginação do mural dos emails, fui bastante infiel, voltando sobretudo ao Gmail com quem mantenho uma relação de continuidade, e suspirando de saudades pelo velho Outlook, mas não passei daí...

E hoje, zás! Porque a conta está em risco, porque a password nova não serve, porque a antiga tem de ser substituída, porque assim e porque assado. E a minha correspondência diária? E os emails que só recebo por ali? E os meus sentimentos? Sim, os meus sentimentos!

Nada. O Yahoo ainda nem sequer respondeu ainda ao email apaziguador que lhe enviei, cumprindo passo a passo todas as formalidades, inclusive a de responder às perguntas secretas que eu própria forneci.

Eu sei que isto se passa entre sistemas virtuais, máquinas, respostas automáticas e outras abstrações. Mas caramba, podiam introduzir o logaritmo da emoção nesta lógica de absurdos. Sei que é possível. Eu própria, já conheci computadores mais sensíveis uns, do que outros. Inclusivamente, tive um que se embebedou com um cálice de vinho do Porto seco, e que durante horas quando se lhe carregava numa tecla, disparava letras seguidas com hics e tudo. Era o senhor Schneider e a nossa foi uma história de amor, pois foi ali que escrevi grande parte dos contos do meu primeiro livro de ficção, A Morte da Avó Cega.

Yahoo!! A nossa é uma relação com muitos anos.  A reconciliação ainda é possível. Manda um postalinho. Desamua. Deixa-me ir à minha caixa de correiooooooooooo.

Pleaseeeeeee.

 

sábado, novembro 02, 2013

Estrelas e Buracos Negros: estas histórias nunca acabam bem

Algures, na Constelação Draco. A 2,7 biliões de anos luz da Terra.

A Estrela andava na sua vida de Estrela. Uma vida fulgurante, resplandecente e solitária, pois a uma estrela basta-lhe o seu insuperável brilho que aquece as vastidões geladas das infinitas planuras intersticiais cósmicas.


NASA, S. Gezari (The Johns Hopkins University), and J. Guillochon (University of California, Santa Cruz)

O resto, se havia resto, planetas, satélites, poeiras cósmicas, nem se distinguia na esteira do seu incandescente manto de luz.

Depois, houve aquele encontro terrível. O Buraco Negro estava simplesmente lá. Imóvel e escondido. Na sua vida de Buraco Negro. Sozinho, pois a um buraco negro basta-lhe tudo que a voragem da sua fome gravitacional alcança.

A escala a que tudo isto se passa é tão inimaginável que não consigo encontrar palavras que descrevam esta tragédia abissal. Enfim. A Estrela aproximou-me demais e o Buraco Negro devorou-a, eis tudo. Um homicídio cósmico.

Sei que houve um som pavoroso que nunca escutaremos, porque se diz que no espaço o som não existe. Mas existe. Não está é ao alcance de sentidos como os que dispomos, para nos defender da loucura infinita em que tão infinitamente horríveis sons nos precipitariam, célula a célula, átomo a átomo, até a própria poeira de estrelas de que somos feitos uivar de pavor.

Estrelas e Buracos Negros. Estas histórias nunca acabam bem.

A menos que Buracos Negros sejam portais para outros universos, onde a Estrela emergindo, juntamente com planetas e cometas, outras estrelas e tudo o que o monstro vai devorando, terá recomeçado uma nova vida. Mas depois há aquela história terrível da densidade gravitacional dentro de um Buraco Negro ser tão grande, mas tão grande, que ali até o tempo congela num limiar de eternidade absoluta. E assim, a estrela continuará presa nas entranhas do Buraco Negro. Imóvel para sempre e sempre e sempre.

É melhor nem pensar nisso. A menos que a pessoa seja astrofísica. A menos que a pessoa se chame Stephen Hawking.


Para ver mais e saber mais alguma coisa:
PS1-10jh: Black Hole Caught Red-handed in a Stellar Homicide


 

quinta-feira, outubro 31, 2013

Mamas grandes e leite em pó

A propósito da notícia tão obscena quanto aterradora de que a Nestlé tem estado a patentear os genes do leite humano - uma noticia que me chegou às mãos via PAN Lisboa - Partido dos Animais e da Natureza - a minha cabeça disparou noutras direções onde o protagonismo desta corporação foi igualmente obsceno. Convidando-vos a ler a notícia da patente dos genes humanos do leite, mas deixo aqui outra reflexão sobre o comportamento exemplar da «grande leiteira dos povos».

A Nestlé nos anos 50, 60, cito de cor, promoveu campanhas de fome no chamado terceiro mundo. Começava por oferecer leite às mães, para as poupar à 'trabalheira' e à 'falta de higiene' das suas próprias mamas, dizendo-lhes que o produto sintetizado era muito melhor, muito mais «limpo» e muito mais saudável. Depois, o leite secava e as mães não tinham como amamentar e nem como pagar o leite em pó.

Foi terrível e nunca se falou muito nisso porque era em África e era um problema de pretas e pretos. Funcionou nos países industrializados porque as mães tinham dinheiro para leite em pó, e ficavam com mais «tempo» para brincar com aspiradores e máquinas de lavar. Com os custos emocionais que talvez um dia possam ser equacionados. E por motivos exemplarmente elucidados em, por exemplo em How breastfeeding is undermined. Nos meios mais evoluídos e informados, porém, deu origem a muitas ações de denúncia e a uma campanha mundial que colheu os seus frutos, a qual apelava ao boicote à multinacional que a apanhou quase de surpresa obrigando-a encolher as garras.

Mas ninguém me tira da cabeça que a moda insana de promover como sensual e desejável a imagem de mulheres cujas mamas parecem rebentar com subidas de leite a despropósito - como se tivessem trigémeos aos gritos em quartos escondidos -, pode enraizar no imaginário de bebés feitos homens esfaimados e nostálgicos da mama que nunca tiveram. E estou a falar a sério.

Começou nos States com Pamela Andersen em Marés Vivas, creio, e no começo dos anos 90 já tinha saltado das paredes e das portas das casas de banho das oficinas e dos tabliers dos motoristas de longo curso para as clínicas ao serviço da beleza. Anos depois chegou a alguma Europa. Façam as contas à idade dos bebés e à idade dos homens, e à capacidade que as mulheres têm de se deixar levar, sobretudo elas, pela bruxaria à distância que é a publicidade no seu esplendor...

Nota: actrizes com mamas muito grandes já havia porque o corpo humano é rico na sua diversidade. Mas nunca a indústria tinha encontro o ponto de apoio certo para prover industrialmente o exageradíssimo  estereótipo de beleza cujo pilar são mamas de tamanho anormal ou claramente doentio, a que uma certa «moda» deu chão e tanta mulher deu eco. Et pour cause.

Para saber mais:
A Generation On: Baby milk marketing still putting children’s lives at risk
How breastfeeding is undermined




Créditos da imagem: «Como escolher o tamanho das próteses de silicone» em O Blogue de Plástico

quarta-feira, outubro 30, 2013

Bárbara Guimarães e José Maria Carrilho

A separação mais mediática do ano, por motivos de alegada violência física e psicológica exercida pelo homem da casa sobre a sua consorte, ao que o dito contrapõe com acusações de alcoolismo e outras, tem sido comentada nas redes de uma forma aterradora. Em primeiro lugar, pela violência exercida contra a língua portuguesa de que os comentadores e comentadoras dão abundante testemunho. Depois, pelo preconceito terrível e a indisfarçável inveja que enformam grande parte dos comentários quase todos a apelar ao «silêncio» da suposta vítima, a que já uma outra se lhe segue na pessoa da primeira esposa do suposto agressor que rompe um silêncio de décadas. Igualmente para denunciar a prática de violência a que foi sujeita durante anos pelo mesmo homem, de resto um político e um intelectual de créditos firmados, pelo menos, em Portugal.


 Eu não sei o que há de verdade ou de fantasia nestas acusações. A procissão vai no adro. O que sei é que o silêncio, que tantos apregoam como virtude, é o pior inimigo das vitimas, sejam elas quais forem e seja qual for o seu escalão social. Em nome desse mesmo tipo de silêncio tão estupidamente valorizado, prerrogativas de género, de estatuto, social e etário, têm sido mantidas ao longo dos séculos.

Se uma mulher, que por acaso até é linda que se farta, e socialmente bem sucedida, vem por cobro a um casamento e invoca violência domestica, o que emerge de grande parte dos comentários às notícias desta separação trágica, é um estendal de frases mal construídas, cheias de pontapés na gramática e erros de ortografia, e, pior ainda, eivadas de inveja e despeito. «Querias ser famosa? Come e cala!», e por aí fora...

Ora eu penso que se alguém tem a coragem e o desassombro de trazer um drama doméstico destes para a praça pública, vai contribuir com mais um sinal de alerta aos agressores e de apoio a vítimas silenciosas. A ser verdade o que ela alega, Bárbara Guimarães agiu muito bem e era muito bom que mais mulheres com autonomia financeira e no escalão social em que ela se encontra, pudessem e tivessem a coragem de fazer o mesmo. Porque a violência doméstica não mora só nas barracas, nos subúrbios e nas aldeias do interior.
 

A violência domestica, caros cidadãos e cidadãs, nem sequer, pela sua trágica dimensão, é um problema de casal, e trazê-la a lume não é lavar roupa suja. É denunciar um CRIME PÚBLICO que todos os anos leva para a cova muitos milhares de mulheres no mundo inteiro. Mulheres que morrem em silêncio com a cumplicidade de todos. Mulheres cujos gritos só são ouvidos quando as suas vozes se calam para sempre.

Denunciar este crime, falsamente qualificado do foro privado, é sinal de coragem, desassombro e civismo. 
Créditos da imagem: Palco do Andrew 

terça-feira, outubro 29, 2013

Cavalo à solta


Poema de José Carlos Ary dos Santos 
Música de Fernando Tordo.
Arranjo e direcção de orquestra de Dennis Farnon.

Minha laranja amarga e doce
Meu poema, feito de gomos de saudade
Minha pena, pesada e leve,
Secreta e pura,
Minha passagem para o breve,
Breve instante da loucura.
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa,
Do que sente a gente certa.
Em ti respiro, em ti eu provo,
Por ti consigo esta força que de novo,
Em ti persigo, em ti percorro,
Cavalo à solta pela margem do teu corpo.
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura.
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, poema feito de dois gumes
Tudo ou nada.
Por ti renego, por ti aceito,
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito.
Por isso digo canção castigo,
Amêndoa, travo, corpo, alma,
Amante, amigo.
Por isso canto, por isso digo,
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo.
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura.
Minha ousadia, minha aventura,
Minha coragem de correr contra a ternura

segunda-feira, outubro 28, 2013

Brincos de pérolas

Ontem a minha amiga ia perdendo uma parte do brinco, aquela que o prende à orelha. Estávamos sentadas numa esplanada, na Trindade, a beber chás exóticos e os últimos raios de um esplendoroso e muito lisboeta sol de Outono. Quatro mulheres de gatas à procura de uma pecinha microscópica, que finalmente o homem que estava connosco veio a encontrar debaixo de outra mesa.

Isso recordou-me o brinco que perdi há pouco tempo. Tinha uma história gira. As pérolas comprei-as no primeiro andar de uma loja/armazém escura, cheia de bricabraques, em Malé, capital das Maldivas, no final de umas férias de sonho. Nesses tempos, não muito remotos, viajávamos com uma regularidade hoje impensável. Eram umas pérolas lindas, foram bastante baratas, mas estavam encastoadas toscamente. Andaram comigo, até que as levei ao Brasil, e em Abadiânia, mais ou menos em 2010, as entreguei ao cuidado de um jovem joalheiro, que ficou de lhes dar o escrínio perfeito. Paguei de avanço e tudo e vim-me embora, com a certeza absoluta de que mas enviaria,

Enviou. Discretas, as minhas pérolas orientais, trabalhadas no interior do Brasil, foram os brincos mais bonitos que tive. Se calhar exagero, mas não muito.

Entretanto, numa destas tardes - lançamento do livro de um amigo que muito prezo - levei-as. A livraria fica muito próximo do metro, e o metro em Lisboa é fantástico e muito próximo de mim. Foi no regresso, a folhear o livro novo, que, já dentro da estação, percebi que tinha perdido um deles. Voltei atrás, pedi ao funcionário que me deixasse espreitar na estação, fui até à rua, fiz o percurso entre a livraria e o metro, sempre de nariz no chão, regressei, e dou com o funcionário ainda a vasculhar o átrio da estação. Depois, abriu-me a porta para eu não pagar outro bilhete, que amor de pessoa foi comigo, sondar o cais, ajudando-me na minha busca. Em vão. A minha pérola sumiu de vez.

Ficou a outra. Então, entreguei-a à Ana Cardim que vai extrair daquela matéria-prima um anel lindíssimo. É uma grande joalheira e uma grande artista. Isso conforta-me de algum modo.

Mas ainda não ultrapassei a mágoa. Sou tão desligada de coisas, mas com algumas... é mesmo difícil. Será coisa de gaja?

 

domingo, outubro 27, 2013

Amosse Mucavele, o poeta

Vou citar de uma página onde, no espartilho do CV, se resume o irresumível. Uma vida. De um grande poeta moçambicano, que para minha alegria conheci há pouco. Porque? Porque as suas palavras, como as de outros poetas vivos, transfiguram os meus dias. São meu alimento. 
Bebo-as e como-as para me defender do Caos. Sem estas luzes, sem faróis como estes, a Vida, a de nós todos, é só caminho para o olvido ou para o naufrágio. Por mais confortável que seja a nossa ilha de realidade. E nunca é. Só se formos surdos e cegos e indiferentes ao que se passa ao nosso redor, e o nosso redor é o mundo inteiro. Se formos, se estivermos, é porque já morremos e ainda não demos por isso. 
O poema não morre.

«Amosse Eugenio Mucavele nasceu aos 8 de julho de 1987 em Maputo, Moçambique. Membro fundador do Movimento Literário Kuphaluxa, sonha em ser poeta, cronista e contador de sonhos. Faz parte da equipe editorial da Revista Literatas - Revista de literatura moçambicana e lusófona, colabora no Pavilhão Literário Singrando Horizontes – Academia de Letras do Paraná, ricardoriso.blogspot.com, Jornal Coruja (Cida Sepúlveda). organizou a antologia da nova poesia moçambicana publicada na Revista Zunái (Claudio Daniel), tem poemas publicados na Revista Eutomia e Linguística da Universidade Federal de Pernambuco, e em outros blogs. É membro Correspondente da Academia de letras Teófilo Otoni, Minas Gerais» [em Revista Mallarmargens, por Laura Amaral]

Desta mesma revista, trouxe para aqui um texto dele:


 

Ao Cláudio Daniel

A memória é um inferno provisório onde os nossos dias visitam constantemente. na penumbra de um mar de esquecimento ladeado de flores que brilham ao som do silêncio. e ao entardecer. a neve embarca no murmúrio da água que bate nas pálpebras das pedras na solene viagem do nada. e para além do sal derramado nas margens, não via-se mais nada, pois o cinzento abocanhou a melancolia do céu que outrora fora azul. e difícil é, descortinar este lado invisível da distância que nos assiste. A ilha que nos espera é feita de papel que baloiça livremente nos olhos do mar-mil umas visões espalhadas no útero do passado, uma música embalada de presentes toca incansavelmente na febre do navio-onde é minha casa?
E no colo do futuro procuraremos acender as nossas identidades com o anzol que perdeu-se nas ondas da tempestade.


Da sua página no Facebook, este
Mafalala 
Os sinos da munhuana estão velhos
Tocam nas rugosas horas da esperança murcha
O cansaço das lembranças estampadas nas casas de madeira e zinco
E no chão cimentado por pântanos
As rãs fazem ajuste de contas com a dor das vozes sem voz
 
Amosse Mucavele

 

quinta-feira, outubro 24, 2013

Toda a vida em cada bater de coração

Tenho dois livros entre mãos. Um, é uma colectânea de textos dos participantes da última oficina de escrita A minha vida dá um livro. Nesta fase, os textos estão a ser lidos, relidos, editados, mas respeitando integralmente o espírito e a palavra dos seus autores. Um pouco mais e  passaremos à  paginação. Depois, à  impressão. Não tarda nada, temo-lo na mão. Felizmente, ninguém está com pressa, porque todos querem o melhor resultado possível. Afinal será o primeiro livro do resto das suas vidas.

Esta antologia comove-me por vários motivos. Nela, várias pessoas abrem o coração e partilham episódios das suas vidas. São pessoas que confiaram em mim o suficiente para me confiarem a chave das suas memórias. Além disso, aprenderam, comigo, a confiar em si próprias. Num espaço tão curto, cerca de um mês e meio, deram  o mais difícil dos passos. E agora avançam com alegria e expectativa  para a exposição pública que todo o livro dado ao prelo presume.

Por outro lado, estou de volta do meu próximo livro, o qual também presume vários exercícios, sendo o da memória um deles.

Refazer os caminhos do passado não é completamente possível, nem totalmente impossível. Acima de tudo, é uma viagem onírica com as suas armadilhas, entre as quais a da saudade, sentimento que mal conheço. Mas de repente, dou por mim diante de uma árvore que me recorda um elefante vegetal a perfilar-se diante dos meus sentidos com tão profunda nitidez que é como se estivéssemos, de novo, no mesmo espaço e no mesmo tempo, de tal forma que quase consigo aspirar o seu cheiro denso, sombrio e reconfortante. Então, sim, sinto uma comoção indizível e quedo fulminada de espanto.

Percebo que a saudade é uma alga no fundo de um lago escuro que me enreda  nos seus dedos filiformes e me puxa para si numa envolvência entorpecedora e tão reconfortante.  E percebo também, numa lucidez de afogada, como é fácil adormecermos dentro de sonhos que nunca chegámos realmente a sonhar,

É esse torpor que me desperta, e que me recorda que as minhas saudades são todas feitas de futuro. Regresso como quem se liberta. A respirar o ar da minha gratidão à vida, toda a vida que vivi. E mais ainda, toda a vida que me resta viver.

Que nem sei a quanto monta. Não é isso também tão extraordinário? Não é isso também que nos devia levar a privilegiar cada momento presente, cada bater do coração como se fosse o último?

 

quarta-feira, outubro 23, 2013

Estrela da Tarde

José Carlos Ary dos Santos na voz de Carlos do Carmo
 
 
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

  José Carlos Ary dos Santos




Sonhos de acordada

No fundo, somos um sonho que se renova a cada instante.
Percebi isso hoje, mal acabei de acordar.






 

segunda-feira, outubro 21, 2013

E tudo por causa de um Zigurate.

O grupo de investigação a que estou associada entronca nas civilizações pré-clássicas, e tem a Mesopotâmia como foco. Sendo a minha área de mestrado a História da expansão portuguesa, eu própria percebo a interrogação muda que já me foi levantada, porque também eu me coloco  a mesma questão, com alguma frequência.

Que ando a fazer pela Mesopotâmia?

Pieter Bruegel o Velho, A Torre de Babel, 1563, (Kunsthistorisches Museum,Viena)

Porque raio, entre os vários grupos de investigação possíveis do Centro de Historia de Além-Mar da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, escolhi este? Foi do coração e do instinto. Senti que tinha de voltar, 'concretamente' se é que se podem colocar assim as coisas, à Suméria. Senti mesmo. Não é o caminho mais fácil, porque o mais fácil seria aprofundar campos onde, por todos os motivos e mais alguns, estava mais à vontade e francamente mais 'encarreirada'.

Mesopotâmia porquê? Tenho de perguntar à minha cabeça, mas sei que a resposta não virá tão cedo.

Alice, Alice, lá vais  tu outra vez a cair para dentro do poço tão fundo. E tudo por causa de um Zigurate.



 

sábado, outubro 19, 2013

Meu inimigo e minha sombra, meu amor e minha luz

Meu inimigo, minha sombra, minha luz e meu amor.
As «Elegias do amor e do ódio» vão arrancar daqui a poucas horas - o segundo grupo. Basicamente, e neste primeiro passo, o desafio é procurar uma pessoa, especificamente uma pessoa, que nos marcou. Pode ter sido 'alguém que passou por cá e deixou ao deus-dará os olhos presos nos meus', como na letra do fado. Pode ter sido alguém que nos impressionou pelos melhores ou piores motivos.

Marc Chagall, A queda do anjo, 1923-1947 (detalhe),
 
Pode ser alguém sobre o qual se queira efabular um registo literário, mas que, em boa verdade, só existe no nosso pensamento. Pode ser alguém a quem não temos ou não tivemos coragem de nos dirigir. Um amor esquecido? Uma paixão escondida? Um raiva que não tem por onde sair? Uma dor? Uma injustiça a ser reparada? Uma fantasia? Quem sabe o que se passa na camara de tesouros do nosso passado, todo ele e porque passou, já revertido em imaginação? Só nós, se a tal nos dispusermos. Porque é de Viagem que se trata.

Em todo o caso, vamos chamar uma pessoa. E essa evocação provocará um recrudescimento de lembranças e destas, trabalhadas pela palavra viva, vai emergir uma carta. Uma carta que funcionará como um acerto de contas com o passado, real ou imaginário. É igual, vai dar ao mesmo. Tudo somos nós.

Destacamos, do primeiro módulo, o respectivo briefing: «Ao longo da vida há muitas pessoas que nos marcam. Aqui costumamos acrescentar a frase que é uma espécie de dogma: 'para o melhor e para o pior'. Este aforismo, porém, é desprovido de sentido. Todos os que nos ensinam, e portanto todos os que nos fazem crescer, com ou sem dor, surgem na nossa vida por algum motivo, um motivo muito forte. Fomos nós que os/as chamámos. Vamos então invocar, descobrir, desentocar, alguém muito particular, e trazê-lo à luz do momento presente. Vamos recordá-lo com todos os detalhes. Vamos chamá-lo pelo nome.»

Queridas pessoas: mesmo sem fazerem parte destas Oficinas, porque não tentam escrever também esta carta, seguindo os passos aqui muito sucintamente explanados? Façam-no e, se quiserem, deixem-nos saber como foi. É um processo comovedor e fascinante ver emergir, pela magia da palavra, a reconfiguração das nossas vidas.
 
O seu sentido a tomar forma diante dos nossos olhos.

quinta-feira, outubro 17, 2013

A vida deles, a vida delas, dá livros

O que têm em comum um gestor da alta finança, uma artista plástica, uma cozinheira, um actor desempregado, uma empresária, uma fotógrafa cheia de silêncios e poesia, uma jovem de boas famílias que andou pelos cantos escuros da vida, foi sem abrigo e assaltante, e por fim, tendo emergido do fundo do poço, iniciou, a pulso e em carne viva, uma vida nova?
 
O que têm em comum uma psiquiatra, uma professora universitária, uma escritora em começo de carreira, uma assistente de bordo, uma antiga glória do travesti, uma mãe de família, que subitamente viúva, entrou para o incerto mercado de trabalho onde teve de encontrar novos caminhos com a bagagem de uma vida rica de tudo mas também de contradições,  o peso das memórias, a alegria de viver? 
 
Nada. Tudo. 
 
Começaram a escrever. São alguns dos alunos que passaram pelas minhas oficinas de escrita ou que vão iniciá-las. As suas memórias, as suas emoções, andam à solta. A voar com os pássaros e as borboletas dos seus jardins secretos.
 
A vida deles, a vida delas, dá livros.
 
 

quarta-feira, outubro 16, 2013

A sorte que eu tenho

Toda a gente devia escrever. Toda a gente devia ter um caderninho, pelo menos, para apontar pensamentos soltos, palavras vadias, letras de fados, canções de amor e desamor, de escárnio e mal dizer, prantos fúnebres, elegias, hinos. Ou então, um blogue, mesmo que sob pseudónimo. Não importa se nos leem ou não. Não importa o tamanho da fila de fãs - embora nos conforte como um abraço quente, a ligação neuronal e basicamente anónima que acende luzes em mapas mundos, assinalando que, mesmo em terras onde nunca estivemos, alguém segue, por acidente ou por vontade, aquilo que vamos transmitindo.

Não sei se se passa o mesmo com os pintores, ou com os músicos, ou com os encenadores e actores. Se calhar, sim. Quando amamos intensamente aquilo que fazemos, a vontade que dá é partilhar com toda a gente, com as crianças que, por muito entretidas que estejam a brincar sozinhas, têm sempre um espaço no coração para acolher outros no seu jardim encantado.

É por isso que gosto tanto, mas tanto, das minhas Oficinas de Escrita. Ver gente que nunca pensou passar para a palavra escrita registos de alma e histórias de vida, e sonhos e fantasias, abrir essa porta e crescer nessa floresta sem fim.

Hoje, ao publicar o texto voluntarioso da Clara, que até se queria chamar Teresa, fiquei com um sorriso que dura há horas. Como ontem de volta da prosa fascinante do José, um narrador torrencial, que nos prende e surpreende sempre, e não raro nos faz rir. Ou no belo relato minimal da Carla, tão poético. Ou da Maria Teresa, tão avassalador e tão mágico. Ou da Emar, que com grande elegância, desferre murros com as palavras e mostra a força de que é feita uma mulher que aprende a gostar de si e a libertar-se de grilhetas. Ou da Sónia... uma pungente reflexão que mergulha nas raízes do nome e do bairro onde nasceu...

Que sorte tenho eu, em pessoas assim virem ter comigo.



 

segunda-feira, outubro 14, 2013

A impúdica verdade

Quem tem medo da verdade? Conheço, pelo menos, dois tipos de pessoas. Os muito, muito hipócritas e os muito, muito cobardes. E ainda, os muito, muito estúpidos que não distinguem uma coisa da outra e preferem seguir em bandos, ruminando verdades prontas a servir. O resto de nós, um bocadinho hipócritas ou um bocadinho cobardes de vez em quando - falo por mim - recebe-a de braços abertos. Porque liberta. Porque esclarece. Porque nos torna tão mais leves. Claro que falo da verdade de cada um. A nossa verdade interior e sagrada. Aquela que muitas vezes nos querem obrigar a cobrir de véus como se fosse impúdica. Aquela que assusta, porque tem tamanha luz que à luz da sua luz, toda a falsidade emerge.

Essa mesma.

domingo, outubro 13, 2013

Poderes Invisíveis

Durante cerca de dois anos, mantive uma crónica no espaço cibernético mais feliz, Boas Notícias, intitulada Tempo dos Milagres. Depois fiz um intervalo 'sabático' e regressei com livros. Em duas vertentes. A uns chamo Faróis da minha vida. A outros, Luzes de presença. Os primeiros são inalienáveis. Os segundos, até os posso emprestar. Com condições.

Desta vez, e para os Faróis da minha vida, escrevi sobre uma colectânea de ensaios ligados por um maior denominador comum, e assinados por José Mattoso, um nome que dispensa apresentações. Um extracto:

 "Que crenças, que pavores, que arrimos, alimentavam os nossos antepassados acerca dos omnipresentes seres invisíveis que povoavam o Céu, o Inferno e outros lugares do Além? Que lugares outros eram esses, que originaram cartografia de género, permitindo "visualizar" o Outro Mundo, e daí deduzir as suas interferências no universo visível? Que "estratégias de defesa ou captação de poderes alheios” esse topos inspirou? E, consequentemente, como se formou e evoluiu todo um sistema de crenças na vida para além da morte, com as suas coerências e as suas incoerências, e as suas práticas e cultos e crenças, muitas das quais enraizadas noutros tantos atavismos de raiz pagã, que sobreviveram às tentativas de controlo e de reformulação por parte das autoridades religiosas e políticas? Em suma, nos tempos medievais, de que se fala quando se fala em mortos, morte, e respectivo culto?"

Para ler TUDO: Poderes Invisíveis

sábado, outubro 12, 2013

«Não é preciso ser-se perto para se estar junto»

Participantes das minhas últimas Oficinas têm deixado comentários em vários suportes, sobre a experiência literária e as expectativas sobre o próximo curso, que começa já segunda-feira (primeiro grupo) ou no sábado (segundo grupo).  Retirados da página da Alêtheia, aqui ficam três depoimentos que agradeço do coração à Clara, à Sónia e ao Zé:

Comentários [retirados da página da Alêtheia]
 
Clara Ferrão:
Estou ansiosa por ir fazer este curso!!! Tendo como experiência o curso anterior de oficinas de escrita, não posso estar mais entusiasmada!
Mais do que um mero exercício para nos pôr a escrever, é um mergulho às nossas entranhas, com um efeito catártico nas nossas vidas.
Muito obrigada Manuela pelo teu maravilhoso trabalho e generosidade com que te empenhas.
October 09 2013 at 12:10 PM
                          
Sónia Alves:          
Gostei muito de ter participado do curso anterior de oficinas de escrita! Concordo com a Clara , alem de um exercício que nos convida a escrita tem tb um efeito muito terapêutico. Um abraço grande Manuela e obrigada por tudo!
October 09 2013 at 05:10 PM
                          
José Saraiva:          
De África, de olho arregalado à escrita, mas circunspecto quanto à «profundidade» que este curso exigirá. Encher as palavras com emoções e memórias, será um «intenso desafio», a subscrever, na íntegra, a última frase da Clara. Lá estarei, até porque não é preciso ser-se perto para se estar junto. Z.
 

Amores do outro lado do Tempo

Quanto tempo é preciso para amar alguém? Não pode ser de repente?
Acho que sim. Tenho a certeza que sim. Há encontros que valem por uma ou por várias vidas. Há algumas, muito poucas pessoas, que encontrei uma única vez e amei para sempre. Homens e mulheres. Como quem se reencontra e reconhece.

Por exemplo.

Tenho um amigo que conheci há vários anos numa viagem de avião. Quando o avião aterrou, conhecíamo-nos do tempo sem tempo. É muito mais novo do que eu, podia ser meu filho. Desde então, nunca mais nos vimos, tirando uma vez em que ele apareceu no lançamento de um dos meus livros. Fora isso, trocamos muito eventualmente, mensagens de facebook, sobretudo quando na vida dele, ou na minha, acontece alguma coisa suficientemente boa para merecer um grande like e um grande abraço. Ou muito triste, a merecer um abraço remoto ainda maior. Tratamo-nos mutuamente por «amigo do céu» e «amiga do céu». Não nos conhecemos nos quotidianos, e nunca nos iremos conhecer. Conhecemo-nos de outros lados sem lado nenhum.

Tenho outro amor que vi duas vezes. A primeira, há mais de 30 anos, quando eu percorria atordoada os corredores e as filas de uma repartição pública, a braços com documentação colonial insuficiente para o registo em Portugal dos meus filhos nascido nas ex-colónias. Ela tomou-me pelo braço e ensinou-me a ultrapassar a teia insolúvel da burocracia. Era moçambicana. Tínhamos vivido sob o mesmo céu e sobre a mesma terra. Ela ia para o Brasil. Era mulata, muito mais velha do que eu, e o abraço dela quando se despediu de mim, foi o abraço de uma mãe. Estávamos juntas há horas,a conversar numa pastelaria perto. Virei-lhe as costas para ela não ver que eu estava a chorar. 

Dois ou três anos depois, inesperadamente e noutro lado completamente diferente da cidade, reencontrámo-nos e caímos nos braços uma da outra. Fomos lanchar, fomos falar, trocámos cromos - telefones e moradas. Ela tinha vindo a Portugal tratar de mais qualquer coisa, para não voltar aqui nunca mais. A sua casa, no Brasil, era minha - disse-me e estava a falar a sério. Perdi todas essas referências. Até o seu nome. Menos a minha memória dela. Agora, só a recordar o seu rosto difuso, o seu riso deslumbrante e bom, volto a comover-me.

É possível? Vou perguntar outra vez ao meu coração, a ver se não me enganei. É. Ele diz que sim.

O coração nunca se engana.
 

quinta-feira, outubro 10, 2013

O teu inimigo

Não trates mal o teu inimigo. Recorda que ele foi talhado à tua medida.

Não desprezes o teu inimigo. Ao fazê-lo, diminuis-te a ti próprio. Ele foi talhado à tua medida.

Não odeies o teu inimigo, para não lhe conferires autoridade sobre o teu próprio coração.

Não fujas do teu inimigo, para não ser ele a encontrar-te e a surpreender-te no teu repouso.

Quando quiseres derrotar o teu inimigo, mas só quando estiveres pronto, ama-o. Sem reservas.

Só então irás perceber a razão da vossa inexistente inimizade.

Ah, perguntas, mas e se o meu inimigo não me amar a mim?

Que isso não te dê cuidado. Esse é o problema do teu inimigo.



 

quarta-feira, outubro 09, 2013

Reciclar palavras: quiçá, todavia, caramba

Gosto de reciclar palavras. Não tenho medo de ir busca-las às prateleiras do esquecimento e, se for caso disso, voltar a pô-las a uso.

«Todavia»: por exemplo. Estava esquecida e negligenciada num canto da minha memória. Tinha prescindido dela desde que passei a achar que cheirava a sala de professores ou a escritório de advogados dos tempos de há muito tempo. Era uma palavra da qual se evolava um indefectível aroma a bafio. Até ao dia, não muito distante, em que a olhar para ela, a tomar-lhe o peso, a saboreá-la lentamente

to-da-via

pareceu-me tão rejuvenescida que voltei a usá-la sem reticências.

 Há pouco, dei por mim a escrever «caramba». Há que séculos que não dizia ou escrevia caramba. E é ou não é uma palavra toda catita? Ah, se ainda ontem eu escrevesse uma frase onde a palavra catita figurasse, até ficaria com vómitos. E agora, dou por mim a sorrir. Caramba! É catita, todavia.

As palavras têm todo o tempo do mundo. Nós é que não. Elas sobrevivem-nos. Ela raramente envelhecem mal. A não ser, talvez, a palavra quiçá. Essa... hum. Não. Não mesmo. Espera... em textos académicos quiçá pode entrar sem fazer má figura. 

As palavras têm moradas de preferência. E lugares cativos em espaços próprios. É isso.
 

segunda-feira, outubro 07, 2013

Matar o tempo

Por vezes resolvemos que temos de «matar tempo». Raras vezes, ou nunca, reflectimos sobre como o tempo nos vai matar a nós. Tanta curso, tanta conversa, tanto organigrama sobre gestão económica, quase sempre ficcionada, e tão pouco sobre o tempo que temos e que não sabemos nunca a quanto monta. É por isso que fico muito incomodada quando me pedem «um minutinho da sua atenção» que é sempre mais do que isso, ou quando me ligam para casa a pedir o mesmo, como se a minha vida, mesmo em fraçõezinhas, não valesse nada. E contudo, gastar tempo em ócio é das melhores coisas que podemos conceder-nos. É aliás uma obrigação porque o ócio é sempre tempo de qualidade. Para brincar, olhar, conversar, comer, beber, divertirmo-nos com os nossos amores e com os nossos amigos que são também amores nossos. E até com gente que não conhecemos de lado nenhum. Ou em muy rica solidão, de preferência junto de árvores e com os pés na terra. A pensar em muita coisa. A pensar em nada.


[retirado dos meus pensamentos matinais que costumo colocar no Facebook]

É o voto, pá! Percebes?

O carismático líder parlamentar  do partido holandês 50Plus, Henricus Cornelis Maria Krol abdicou recentissimamente do seu lugar. Em causa, a denúncia publicitada na imprensa, de que há onze anos, nos seus tempos de director do jornal Gay Krant, H. Krol não pagou durante algum tempo a segurança social dos empregados, aparentemente de acordo com estes, para assegurar a viabilização daquele órgão de comunicação. No mesmo dia em que a denúncia sobre o caso foi tornada pública, o líder parlamentar demitiu-se.

Consequências? Várias. Para além da renúncia de H. Krol ao cargo público, mesmo sabendo-se que aquele dinheiro não foi desviado para contas privadas mas para a recapitalização do jornal, assistiu-se também junto do eleitorado, a uma queda na intenção de voto no ascendente partido de muito recente formação: de 6% para 3% numa só semana. Para metade, portanto.

É que há países e povos que aprenderam há muito tempo a utilizar o voto a seu favor. É há que há povos para os quais a «fidelidade» politica não faz qualquer sentido, já que entendem que fiéis às suas promessas e à ética que se apregoa, devem ser os representantes das mesmas forças partidárias que eles, com o seu voto, ajudam a eleger. Ou a derrubar.
Quando as próprias mulheres votavam... contra o direito de voto das mulheres.
[em Sexismo e Misoginia]
 

Depois há outros países, e outro género de votantes, onde se inscreve uma larga franja de gente que fica em casa a ver espectáculos de «vidas reais» e outras insanidades, quando não vai para a praia, para o campo, ou para o centro comercial, mas que orgulhosamente proclama que «não dá o seu voto a nenhum porque são todos iguais». Ou pior, num exercício de pura estupidez, denuncia essa mesma prática, o acto eleitoral, como um disparate, uma perca de tempo e outros mimos semelhantes.

É por isso que chegámos a isto.

Obs. A imagem escolhida ilustra o artigo «As anti-feministas opunham-se ao direito de voto para as mulheres! Porquê?» no blogue referenciado na legenda. Vale a pena ler esta reflexão.


 

quinta-feira, outubro 03, 2013

Elegias do Amor e do Ódio

Regresso, em breve, às minhas Oficinas de Escrita, desta vez com um propósito (ainda) mais xamânico. O de soltar gritos, libertando palavras «entaladas na garganta», para se poder seguir em frente, sem mais pesos do que os que, quotidianamente, temos de carregar. Para minha alegria, os frequentadores/as de anteriores Oficinas já se estão a inscrever nesta, o que para mim, quer dizer muito. E para minha, nossa alegria, pelo menos três já estão a escrever o livro das suas vidas, que começaram no decorrer de uma das nossas Oficinas de escrita autobiográfica, A minha vida dá um livro.

O que se passará então no decorrer das Elegias do Amor e do Ódio?
Marc Chagall, A queda do anjo, 1923-1947 (detalhe), óleo sobre tela, Basiléia, Kunstmuseum

O conceito

É muito simples. Transcrevo-o tal e qual, da página da Alêtheia Editores, uma das nossas parceiras no projecto:

«Há por aí gritos presos, palavras entaladas no peito ou na garganta? Alguma dor antiga ou recente que teima em não desaparecer? Retalhos de amores impossíveis, ódios congelados e febris que persistem em assombrar-nos?
Quem carrega afectos nunca assumidos ou injustiças por reparar?
Quem é que sente uma raiva do tamanho do mundo que não tem por onde sair? E uma ternura a transbordar por todos os poros, feita de lágrimas dissimuladas e de silêncios contidos? Quem é que já sabe tudo sobre ‘fogos que ardem sem se ver’ e está mesmo a precisar do corpo da mensagem para dar luz tanta chama?
É tempo de soltar as Elegias do Amor e do Ódio. De se abrirem portas, rasgarem janelas, destaparem alçapões, para descer pelo fio do tempo e ascender por ele. As portas proibidas só são proibidas enquanto não ousarmos abri-las.
Com as nossas próprias chaves.»


Estrutura da Oficina

Três módulos presenciais, duas aulas cada
I – Meu inimigo, minha sombra, meu amor.
II – Vou contar-te como foi.
III – As palavras que sempre te quis dizer.

Ao longo dos três módulos, o objectivo é destacar uma pessoa, uma memória, um registo em suma, através do qual, revisitando circunstâncias particulares, se possa deslocar o eixo do passado para o presente para reescrevermos a nossa história pessoal. Eventualmente, sob a forma de carta onde se soltarão as palavras que ficaram por dizer.
Cada módulo tem a duração de três horas, divididas por duas aulas presenciais.
Os trabalhos produzidos nas Oficinas e em casa são acompanhados, orientados e revistos com propostas de correção a fim de que os participantes possam interiorizar melhor as ferramentas do registo literário.
Preço cada módulo de duas aulas: 40 €/participante.
Para edição completa [por parte da orientadora], dos textos produzidos na presente Oficina pela orientadora, preço para o conjunto: 30 €/participante.

Para saber mais: O método, par e passo.

Contactos: oficinasdescrita@gmail.com ou manuela_gonzaga@yahoo.com

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sexta-feira, setembro 27, 2013

O voto? Sim, o voto.

Por uma vez, rara, trago um post meu do facebook para aqui. Ao escrever isto, sinto-me de certa forma a Cassandra, que na iminente tragédia de Tróia, ainda possível de ser evitada se os troianos estivessem atentos, foi condenada a que ninguém a ouvisse. E os que a ouvissem, a não acreditarem na sua voz.
O ponto. A democracia, a nossa, e não só a nossa, está por um fio. Porém, ainda existe porque ainda existem os mecanismos que a podem acionar. Até quando? Com demissões em bloco,  e a indiferença total pela coisa pública, por muito pouco tempo já. Aliás, o apelo ao não-voto é o melhor serviço que se pode fazer a uma oligarquia à espera de vez para institucionalizar a ditadura previsível. Depois, será uma questão de tempo.
Por isso, lembro-me sempre desta quando aparece alguém a dizer, orgulhosamente, cá eu não voto, tenho coisas mais importantes para fazer e «eles» são todos iguais. Infelizmente, a memória colectiva dos povos é muito curta, e a das pessoas infinitamente mais.
Era uma vez um povo ferozmente livre e orgulhoso da sua invenção de liberdade. Era um povo tão individualista que se autogovernava de muitas formas diferentes. Claro que aquela era uma liberdade muito particular, como todas as formas de liberdade. Escravos não contavam, e mulheres, qualquer que fosse a sua condição também não. Entretanto, essa federação de liberdades que conhecemos como cidades-Estado começou a andar muito agitada. As mais poderosas, como Atenas, estavam a braços com guerras intestinas. Havia sinais de perigo por todo o lado. Mas o individualismo era tão feroz, e a liberdade de todos era tida por tão segura e inviolável, que de uma forma ou de outra, os seres livres, votantes e pensantes, desistiram da política. Haveria sempre alguém para tomar conta do assunto.
E houve. Desunidos, os gregos foram invadidos por Filipe da Macedónia, um ‘bárbaro’, que os conhecia muito bem porque fora educado em Tebas. A este sucedeu o seu filho Alexandre o Grande, que de uma forma ou de outra, os transformou a todos em escravos. A Grécia, a Grande Grécia clássica, morreu quando desistiu. Ficou o legado, milenar, sem dúvida. Mas a liberdade foi-se.
Posto isto, «obrigada» aos que propagam que é melhor ler livros e ficar em casa. Lutou-se tanto pelo direito ao voto para chegarmos a isto.