sexta-feira, março 08, 2013

Só de pensar nela



Abre os braços pediu ela.
Ele abriu os braços, subitamente consciente do corpo deitado junto do seu.
Respira fundo pediu ela. Tinha uma voz quente, rouca, e falava muito baixo.
Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador que o submergiu, e teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo. Havia uma espécie de ameaça, no ar. Nada que pudesse diminuir um átimo que fosse da intensidade do seu desejo pelo corpo que tocava no seu.
Volta-te para mim ordenou ela.
E ele voltou-se a tempo de ver, na escuridão, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis furando o negrume que os amortalhava.
Agora cobre-me. Crucifica-me em ti pediu ela, num gemido que o electrizou.
Ele rodou, e foi então que ele reconheceu a natureza da ameaça que se erguera contra os dois. Numa urgência agónica, ainda conseguiu sentir o calor húmido do beijo que o orvalhou de um prazer tão intenso que o seu sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Não pode, porém, permanecer junto dela. Perdeu-a no exacto momento em que a cobriu, sentindo, para seu infinito desgosto, a respiração dela na sua boca, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si.

Acordou com vontade de chorar e de rir. Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo. Há tantos anos feitos de dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se a tocar-lhe por prazer e com desejo, ter-lhe-ia parecido obsceno. Lentamente, dirigiu-se `janela e espreitou o dia que começara a nascer. 
«Obrigada», mumurou a boca quase encostada à vidraça que, imeditamente, ficou embaciada. Depois aclarou a garganta e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se voltaria a encontrá-la? 
Só de pensar nela, só de pensar nela.
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