quinta-feira, agosto 15, 2013

Era uma vez a tourada

A tourada juntamente com a caça ao urso, ao javali, ao gamo, ao lobo e à raposa, por exemplo, constituíam de forma exemplar os jogos de guerra no tempo em que não havia outros, quando a guerra era, em si, um valor absoluto. Numa sociedade de ordens - oratores, bellatores, laboratores - ser-se guerreiro era um estado altamente dignificante, porque era ser-se nobre, do mais ínfimo escalão da nobreza ao mais elevado, o rei à cabeça. Na guerra conquistava-se a eternidade possível - feitos gloriosos  evocados e grafados em crónica. E, muitas vezes, o direito a um nome brasonado, com a consequente ascensão social bafejada pelos ventos da fortuna. Filhos segundos tinham na guerra a oportunidade das suas vidas. Se morressem, assegurada que estivesse a linhagem pelo primogénito, não faziam falta.

O povo não conta? Sim, pela força de trabalho e pelo valioso peso do seu número, sendo  arrebanhado para as guerras pelos respectivos senhores da terra a que pertenciam. Por motivos óbvios, estas eram calendarizadas de acordo com as colheitas. Em tempo de paz e para não se perder a mão e a destreza, os touros eram o melhor adversário de que se podia dispor, consistindo estas refregas em excelente exercício físico. Pelos riscos e pelas manobras ousadas que implicava, rapidamente o confronto foi nobilitado, derivando para a arena numa época em que a dor infligida a adversários era considerado um exultante espectáculo a que todos, sem excepção, acorriam. Mas nesse tempo, as cabeças dos inimigos ornamentavam as ameias dos castelos, e os corpos apodreciam nas forcas para exemplo de todos.

Nesses tempos arcaicos, as guerras eram santas, os artefactos da morte eram abençoados e aspergidos de água benta, e o paraíso era prometido aos que caíssem em campo de batalha, pois os pecados eram lavados no sangue do inimigo. A valentia media-se pelas feridas tatuadas no corpo dos guerreiros, que certamente mereceram todos os seus epítetos. Mas eram tempos outros, quando a terra nem sequer era redonda e finita. Tanta coisa mudou, e ainda há quem veja beleza na carnificina? Tanto tempo passou, e ainda há quem não entenda que o que move a guerra é o ouro arrecadado por muito poucos, e regado com o sangue de todos de uma forma ou de outra?


Ainda há quem não perceba a grande puta que a guerra é?
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Paolo Uccello (1397-1475) -  São Jorge e o dragão, óleo sobre tela
Musée Jacquemart André (Paris, France


O grande guerreiro hoje, é o que se transcende de puro amor. Para isso, não são precisas arenas, nem holocaustos de animais. Para isso só é preciso o coração indómito de quem enfrenta o mais cruel e implacável dos inimigos. O primeiro que temos de aprender a amar. A nossa própria sombra.

Por isso, o grande guerreiro, o que vence o dragão, chama-se Martin Luther King ou Nelson Mandela. Ou Aristides de Sousa Mendes. Há toda uma humana mitografia a escrever, urgentemente.
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