quarta-feira, outubro 16, 2013

A sorte que eu tenho

Toda a gente devia escrever. Toda a gente devia ter um caderninho, pelo menos, para apontar pensamentos soltos, palavras vadias, letras de fados, canções de amor e desamor, de escárnio e mal dizer, prantos fúnebres, elegias, hinos. Ou então, um blogue, mesmo que sob pseudónimo. Não importa se nos leem ou não. Não importa o tamanho da fila de fãs - embora nos conforte como um abraço quente, a ligação neuronal e basicamente anónima que acende luzes em mapas mundos, assinalando que, mesmo em terras onde nunca estivemos, alguém segue, por acidente ou por vontade, aquilo que vamos transmitindo.

Não sei se se passa o mesmo com os pintores, ou com os músicos, ou com os encenadores e actores. Se calhar, sim. Quando amamos intensamente aquilo que fazemos, a vontade que dá é partilhar com toda a gente, com as crianças que, por muito entretidas que estejam a brincar sozinhas, têm sempre um espaço no coração para acolher outros no seu jardim encantado.

É por isso que gosto tanto, mas tanto, das minhas Oficinas de Escrita. Ver gente que nunca pensou passar para a palavra escrita registos de alma e histórias de vida, e sonhos e fantasias, abrir essa porta e crescer nessa floresta sem fim.

Hoje, ao publicar o texto voluntarioso da Clara, que até se queria chamar Teresa, fiquei com um sorriso que dura há horas. Como ontem de volta da prosa fascinante do José, um narrador torrencial, que nos prende e surpreende sempre, e não raro nos faz rir. Ou no belo relato minimal da Carla, tão poético. Ou da Maria Teresa, tão avassalador e tão mágico. Ou da Emar, que com grande elegância, desferre murros com as palavras e mostra a força de que é feita uma mulher que aprende a gostar de si e a libertar-se de grilhetas. Ou da Sónia... uma pungente reflexão que mergulha nas raízes do nome e do bairro onde nasceu...

Que sorte tenho eu, em pessoas assim virem ter comigo.



 
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