quinta-feira, dezembro 25, 2014

Natal em África - Lago Niassa, Moçambique

A seguir ao nosso primeiro Natal em África, passado na Pousada da então Vila Cabral, actual Lichinga, fomos para Meponda, Lago Niassa onde deixámos para trás o ano velho, tão repleto de novidades, emoções e mudanças extraordinárias e saudámos o ano novo. Ao frio das memórias dos meus muito poucos natais passados, sobrepunha-se agora o bafo equatorial da estação quente no seu esplendor. Partilho um extracto de Moçambique para a mãe se lembrar..., que me devolve a memoria daquelas paisagens inolvidáveis.

lago Niassa, Moçambique cortesia de May Duarte

« [...] Aconteceu em Meponda, no Lago Niassa, uma tão grande extensão de água doce que tinha ondas e marés, e águas cor de turquesa riquíssimas em peixe das mais delirantes cores. Um verdadeiro paraíso terrestre, de areias douradas e finíssimas, à distância de umas cinco ou seis horas de Vila Cabral, (actual Lichinga) se tudo corresse bem. O percurso, 60 km, era longo. A estrada, uma picada de terra batida, com as suas valas inesperadas, buracos enormes, lagos de lama no tempo da chuva e os mais variados acidentes e caprichos do terreno, era muito mais apropriada para Land Rover ou viaturas militares, do que para o valente carocha onde muitas vezes nos deslocávamos. Mas aqueles sessenta quilómetros tão compridos resultavam muito recompensadores, pois, assim que chegávamos e arrumávamos a bagagem leve de fim-de-semana, corríamos para a praia, e íamos tomar o primeiro de um número intermináveis de banhos. Na transparência cristalina das águas cálidas, deslizavam os peixes de cores mais alucinantes que alguma vez vi na minha vida. Pura alegria.

Ir para Meponda, tornou-se um programa regular. Sexta-feira, depois das aulas, nós os quatro e a mãe, partíamos rumo ao Lago, às vezes no jipe do senhor Paiva outras vezes com um jovem professor primário que conduzia o Volkswagen. Ali chegados instalávamo-nos em dois quartos da Pousada de Meponda. Os três rapazes num, eu, a mãe e a Bé noutro. Os quartos, diante do lago, eram pequenas construções em pedra e cal, em forma de cubatas, com telhado de colmo à vista, revestidos de traves e de madeira e paredes imaculadamente caiadas, por fora e por dentro. Simples, mas muito bonito. As refeições eram tomadas na casa grande, onde funcionava a recepção, e que era também a morada do casal que explorava turisticamente aquele paraíso tão remoto.

[...]  A noite, que em África cai de chofre apagando as chamas do céu cor de fogo, tornava-se ali ainda mais misteriosa na solidão entrecortada de luzes petromax, e iluminada pela lua e pelas estrelas do hemisfério sul que se reflectiam na massa escura, informe e imensa do Lago onde o luar rasgava uma formidável esteira de prata. Na sala da Pousada, uma árvore de natal tão deslocada naquele calor, cheia de flocos de algodão e bolas de todas as cores, um presépio pequenino, uma ceia muito pouco tradicional, e nós a ouvir Nat King Cole, Mornas de Cabo Verde e The Platers num gira-discos minúsculo, vezes e vezes sem fim. Only youuuuuu

Vila de Meponda, cortesia de Observer

 

domingo, dezembro 21, 2014

Luz

Quando começamos a andar em círculos à procura de salvadores e iluminados, esquecemos que a luz que trazemos connosco é suficientemente forte para criar universos. MG

Tyrrhenian Sea and Solstice Sky 
[Danilo Pivato em Astronomy Picture of the Day]

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Onze livros - o 12º está a caminho

Quando a pessoa os coloca assim, já somam 11 - e o próximo está mesmo a chegar. No principio do ano, em data a anunciar pela editora, um romance, que saudades tinha de escrever um! vai marcar a minha agenda literária.

Arranjo gráfico das capas dos meus livros por Pedro Miguel Garcia Marques
não estão contempladas as edições em francês

De fora, estão ainda muitos, em fila de espera, a pedir para serem escritos. Enquanto tiver este horizonte, a vida não me pesa, os anos não me incomodam, os sobressaltos, e que sobressaltos!, serão apenas parte da paisagem que circunda a viagem de viver. Que comporta mágoas e exultações, surpresas e maravilhamentos e terrores. E pausas muito felizes. Ou não fosse viagem. Preciso é de ter sempre histórias para contar a mim própria quando vou dormir - sobretudo nessa altura. Um dia, quando esse dia chegar, serei uma entre muitas outras palavras.

Completamente Vivas.

sábado, dezembro 13, 2014

Mozambique: Pour que ma mère se souvienne

O meu segundo livro traduzido por Laure Collet e editado em francês por Le Poisson Volant:

 Mozambique: Pour que ma mère se souvienne 

Présentation de l'éditeur:

Dans la jungle de ses souvenirs africains, Manuela Gonzaga tente de sauver une extraordinaire histoire d'amour pour l'Afrique et le Mozambique des affres de la maladie d'Alzheimer qui menacent la mémoire de sa mère. Avec la joie et la spontanéité de l'adolescente qu'elle était en arrivant là-bas, elle nous fait découvrir ce monde perdu, merveilleux et violent, qu'était l'Empire colonial portugais.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

O Colégio Dom António Barroso

Na pequeníssima cidade no Niassa onde a mãe tinha sido colocada, Vila Cabral actual Lichinga,  não havia ensino secundário para a minha idade - ou do meu irmão Jorge, que veio também interno para a capital, para o Colégio dos Maristas. Durante anos, recordei os interditos, as muralhas, as proibições e a sensação de ser prisioneira dentro dos muros do colégio D. António Barroso. O tempo ajudou-me a fazer justiça àquela instituição:
 
Aos 13 anos no Colégio D. António Barroso

«Mas o colégio onde aprendi os fundamentos de uma disciplina interior que me tem suportado a vida inteira, e onde fiz amizades que sobreviveram ao virar dos tempos e à sua lonjura, não se esgota nestes confrontos adolescentes, ou em grades morais e físicas que tanto me custavam a suportar, pois, aprendendo a lidar com as contingências da disciplina, as suas vantagens foram imensas. Além disso, duvido que as nossas queridas irmãs da Congregação da Apresentação de Maria pudessem, naquela altura, afastar-se muito deste tipo de registo educativo, sobretudo no que toca à grande responsabilidade que representava a tutela das suas alunas internas.

Ali, era impossível não estudar. A imensa sala de estudo onde internas e semi-internas passavam o tempo, depois do recreio do lanche e até à hora do jantar, era vigiada com olhar de falcão pelas irmãs presentes, uma em cada extremidade da sala, sentadas em bancos altos de nadador-salvador de onde, e à vez, saíam para circular entre as carteiras onde nos debruçávamos sobre livros e cadernos. O requinte desta vigilância chegava ao ponto de confrontarem o livro que estávamos tão interessadas a consultar com o ano que frequentávamos. Foi assim que deixei de estar junto de alunas de anos mais avançados, às quais pedia os livros de Português para me entreter com os textos, em vez de estudar as minhas próprias lições.

A certa altura, e isso aconteceu-me no ano letivo seguinte, era tão cansativo resistir contra o sistema, e tão desproporcionada a energia que aplicava face aos exíguos resultados, já que a única coisa que conseguia era baixar as minhas notas para níveis invulgares, que acabei por entrar no jogo.»

 
 

No colégio da Namaacha em 1964 - da esquerda para a direita: Piedade, Pe. Henrique, Elisabeth Carreira, Teresa Martins Alves, Manuela Gonzaga, Cristina Horta; acima, sala de aula no colégio, em Lourenço Marques, actual Maputo.
[...]
«No Natal, antes das férias, o colégio organizava um sarau aberto às famílias, pessoas amigas das alunas e antigas alunas. Teatro, poesia, música e dança faziam parte de um programa que preparávamos com grande emoção e empenho. O meu ponto forte foi declamar em francês um poema de Guy de Maupassant, com tamanho sentimento e aprumada dicção, que umas pessoas na assistência foram perguntar à irmã do Santo Rosário se eu era mesmo francesa.
 
E finalmente chegava o momento de voltar a ser livre, mesmo que por pouco tempo. Um dia inteiro, entre aeroportos e aviões, entregue a mim própria e antecipando o sabor das férias, a fumar cigarros no aeroporto da Beira, já sem me engasgar, o reencontro com a família, amigos e amigas, o primeiro abraço ao meu querido Rigoletto (o cão), o sono até mais tarde, os bailes, os filmes de cobóis, os dramas musicais indianos, e todos os pequenos grandes nadas que ocupavam a nossa vida de estudantes em férias. Uma vida tão divertida, apesar da guerra que se estava a tornar uma coisa tão terrivelmente séria.» em Moçambique para a mãe se lembrar como foi.

O dormitório - durante anos o ruído metálico das argolas das pesadas cortinas, abertas  ao som da sineta e da oração do acordar, pelas 6.30 da manhã, perseguiu-me.

sexta-feira, novembro 28, 2014

Em TOP 'Isabelle de Portugal, L'Impératrice'


Hoje, o mural da minha editora e tradutora francesa, Le Poisson Volant, estava cheio de sol, no dia escuro. Transcrevo:
«Bright Friday! "Isabelle de Portugal, l'Impératrice", de Manuela Gonzaga, réalise deux Top 100 cette semaine !!
- n°72 des biographies kindle en France-

n°19 des biographies kindle en Espagne
Merci à tous et bonne lecture !! »


Não é a primeira vez que este livro, na sua edição francesa, está nos TOP, o que me e nos deixa naturalmente muito felizes. O livro digital é um mundo avassalador de centenas de milhares de títulos. Que uma autora portuguesa, completamente desconhecida fora de portas, sem empurrões nem ajudas que não seja o testemunho silencioso e fiel da própria obra, entre directamente para estas listas é algo que está a deixar muita gente espantada. A começar por mim.

Entretanto quero sublinhar, mais uma vez, o trabalho exemplar de Laure Collet, cuja tradução é irrepreensível. E o empenho verdadeiramente entusiástico da (ainda!) pequena editora Le Poisson Volant que se apaixonou pela cultura portuguesa e mergulhou de cabeça em apostas como esta.

[Entretanto, e porque hoje é sexta. acabamos de mudamos de lugar em Espanha e passámos para 21.] 

 

domingo, novembro 23, 2014

Mutação

Está explicado. As dores de garganta, as protuberâncias a latejar - são as guelras a abrir caminho. Estou em mutação. Percebi isso a olhar pela janela da sala . Sob limoeiros, laranjeiras e cameleiras, deslizam cardumes de cavalas, a mordiscar nos canteiros das flores, sem flores, e nos resplandecentes tufos de hortelã pimenta, que, muito felizes com este abuso de águas, até já têm um certo ar de algas.

terça-feira, novembro 18, 2014

Tete, a cidade mais quente do mundo

Um dos prazeres que este meu último livro,  Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, me tem dado - para além do reencontro pessoal ou virtual com pessoas que nunca mais pensei voltar a ver - é o de confirmar que as minhas memórias suportadas pelo minucioso trabalho de pesquisa a que me entreguei, estão correctas. A minha história não é só minha. É de todos nós os que vivemos aqueles tempos - lá e cá. Porque Portugal hasteava bandeira do Minho a Timor, e porque estávamos no geral convictos de que essa era pátria nossa.
Sabíamos todos muito pouco.
Sabíamos todos quase nada.
Mas juntando o que se viveu ao que se sabe agora, o retrato é de guardar.
Fica um pequeno trecho da minha chegada à terra mais quente do mundo. Tete.


 
O batelão do Matundo, aqui transportando tropas entre Tete e Moatize. Ainda não fora construída a ponte sobre o rio Zambeze
 
«E então cheguei a Tete, provavelmente a cidade mais quente do mundo, o «cemitério de brancos» como em anos idos lhe chamavam, estradas rasgadas sobre o corpo vermelho da terra, ora enlameadas ora gretadas de secura e poeira, pomares e pequenas hortas em quase todos os jardins e quintais das casas dos colonos mais antigos, vida social intensa para a dimensão da cidade, tropa por todo o lado, guerra a apertar a malha desde as fronteiras da Província, e fui encontrar o meu irmão mais velho, desolado e magríssimo. Tinha vindo viver com o pai, e fora estudar no colégio Liceu de São José de Clunny onde o professor Gonzaga leccionava matemática e físico-química. Entretanto, o ano lectivo não correra da melhor maneira para o nosso irmão mais velho que carregava agora o ónus de um chumbo sem apelo, o qual lhe valia, quotidianamente, o indisfarçável mau humor do nosso pai. Em todo o caso, esse falhanço na sua vida estudantil tinha sido contrabalançado por grandes sucessos na vida social, com o Jó a consolidar, em Tete, amizades para a vida:
– Vais gostar – disse-me ele, no desconsolo dos primeiros dias da chegada, pois até a mãe e os irmãos se nos reunirem, foi praticamente a minha única companhia numa terra onde eu não conhecia ninguém. O pai estava muito ocupado e só o víamos às horas das refeições, onde se nos apresentava invariavelmente com a carranca dos maus momentos, embora me distinguisse com uma maior solicitude, pois eu saíra-me muito bem nos meus estudos:
– Oxalá te mantenhas assim.
Ao fim da tarde, nas ligeiras tréguas da canícula, dávamos pequenos passeios solitários, e falávamos de tudo e de nada, enquanto o meu irmão me punha a par dos detalhes locais, dizendo-me que em breve estaria completamente «enturmada» na nova cidade para onde a vida errática dos professores nossos pais nos conduzira. Era uma terra fascinante, quando aprendíamos a sincronizar a nossa respiração com o seu bafo insone sob o qual até os répteis enlanguesciam e que nem o imenso rio Zambeze, com as suas águas espessas, escuras e indolentes onde colónias de hipopótamos boiavam serenamente e crocodilos emergiam espadanando as águas , conseguia retemperar com as suas brisas de fim de dia.»


O nosso grupo de 5ª amo no colégio liceu de Tete com a irmã Maria


 


domingo, novembro 09, 2014

Muitas vozes, muitas vidas

Mais um extracto do meu próximo livro. MG



Pântano
Cortesia de Portal Badra


«Mas seríamos mesmo nós? É que agora já não sei de nada. Creio bem que trouxe, presas a mim, as histórias da beira do pântano que as canas sussurraram aos meus ouvidos. Eram muitas vozes, amor. Quase todas de mulheres. Eram muitas histórias, amor. E quase todas de desamores, desencontros, infortúnios. Senti tanta ansiedade, tanta tristeza, e nalguns casos tamanho remorso nestes relatos incompletos. E tanta força. Se calhar é por causa dessa força que tais histórias transcendem o tempo e o espaço e nos assombram a todos, sem darmos por isso, a ponto de tomarmos, por vezes, como nossas as memórias dos que já partiram.

De modo que já não sei se aquela emparedada, aquela fugitiva, aquele frade proscrito, aquela violada, aquele violador, aquela amorosa, aquele apaixonado, aquele rei sem trono, aquela rainha sem reino, cujas vozes me perseguem até aqui, são pedaços daquilo que fomos, tu e eu na nossa história de muitos, ou vidas distintas à procura de uma voz que dê eco aos seus relatos.»
Manuela Gonzaga, em Xerazade - a Última Noite, Lisboa, Bertrand, 2015. 

quarta-feira, novembro 05, 2014

Cinquentinha ficou rica e foi para a terra

Chamavam-lhe, e ainda lhe chamam, a Cinquentinha  e nós conhecemo-la porque era impossível viver no Bairro e sem nos cruzarmos, uma vez por outra, com a sua figura singular e descomunal. Vivia em frente da casa do  Gerry, que realmente a conhecia melhor, pois da janela do seu apartamento via-se perfeitamente a casa dela.

Debruçada à janela, com ademanes de menina que não se deu conta de que o tempo passara velozmente sobre os tempos da sua meninice, Cinquentinha piscava o olho ao Gerry, perguntava-lhe onde se tinha metido que há tanto tempo o não via, e se, desta vez, ia ficar por Lisboa tempo que bastasse. E, debruçada para a rua, mostrava-lhe as mamas, que nunca cobria por completo, fosse Verão fosse Inverno, não tanto por despudor, mas porque na verdade, era difícil escondê-las por completo. Eram uma mamas totémicas que ela se habituara a mostrar desde os tempos em que, seguramente mais reduzidas, as ostentavam aos seus clientes de cinquenta escudos.

Saraghina, a Cinquentinha de Frederico Fellini em 8 y 1/2 (1963)

O Gerry achava-lhe graça. E conhecia mais ou menos os seus ritmos - sempre os mesmos. Cinquentinha saía de casa ao fim da manhã, e em surtidas calmas, que o corpo já não lhe pedia correrias, ia carregando lixo do Bairro para o passeio em frente do seu prédio, e daí, finalmente, para o quarto andar onde habitava. Lixo, tal e qual. Sacos cheios de tralha, móveis partidos e abandonados às portas das casas, roupas velhas, pilhas de revistas ou jornais cheios de bichos, pneus de bicicletas, tachos rotos, o que lhe calhasse encontrar nos seus garimpos.

Ao fim de uns tempos, Cinquentinha iniciava uma actividade inversa. Começava a trazer todo o lixo que acumulara no apartamento exíguo e imundo - as vidraças de algumas janelas estava há anos transitoriamente substituídas por plásticos e da casa do Gerry via-se perfeitamente as entranhas da casa dela -, telefonava para a Câmara, e vinha para a rua vigiar com olhos de lince e língua afiada a  transfusão daquela porcaria toda para o carro camarário. Isto podia durar uma tarde inteira e era uma tarde de glória onde ela desempenhava o papel principal. E ai de alguém que tentasse, sequer espreitar o que havia nos sacos e nos montes de coisas que ela se estava a desfazer.

Ainda se oferecia pelas esquinas, sem grande convicção, mais, como chegou a dizer não me lembro a quem, porque tinha saudades de quando «trabalhava», do que para ganhar realmente a vida. Mas sem grandes resultados práticos. Provavelmente viveria de uma pensão exígua da Santa Casa, e o futuro augurava-se muito sombrio. Aliás, o presente da Cinquentinha já era desolador. Menos para ela, que apresentava sempre a mesma cara. Nem bem disposta, nem mal disposta, era a cara de quem se sente bem consigo mesma. E depois, nem sei quando, porque não estava no nosso horizonte diário e directo, desapareceu das ruas, sem que tivéssemos dado realmente pela sua falta.

Só há poucos dias, é que o Gerry de passagem por Lisboa - tem casas em vários países - nos actualizou em relação ao seu destino. Durante anos, Cinquentinha falara do dia em que iria voltar «â terra», sem que nenhum de nós fizesse  a menor ideia de que terra era a Cinquentinha. Mas o facto é que, sem mais nem ontem, a notificação chegara ao seu imundo apartamento lisboeta, dando-lhe conta de que passara a ser a única herdeira de um ramo da família de que provavelmente já nem ela saberia qual.

E assim, de um momento para o outro, a Cinquentinha encontrou-se rica. Rica mesmo. Cheia de propriedades e de títulos do tesouro, e contas a prazo e à ordem e sabe-se lá que mais. Ouvimos,  pasmámos. E rimos. E ficámos felizes por ela que já não vai morrer de frio, nem de fome, nem de necessidades. Na terra, para onde realmente e como sempre disse, voltou. Algures, na zona de Viseu.

 

segunda-feira, novembro 03, 2014

esse obscuro objecto de desejo

Não a vejo há muito tempo, mas jamais me esquecerei dela. Aliás, forneceu-me testemunhos para, pelo menos, dois grandes artigos na extinta Marie Claire portuguesa, uma maravilhosa revista que ainda hoje é referencial. Digo-o com conhecimento de causa. Das últimas vezes que estive na Biblioteca Nacional, vi várias pessoas a consultarem as edições - e por acaso algumas estavam com artigos meus em aberto. Sei que em estudos de género, nas faculdades por exemplo, se recorre à Marie Claire portuguesa, que tão boas provas deu pelo leque excepcional de jornalistas e colaboradores que reuniu. Amén.


Carole Bouquet e Angela Molina, em L. Buñuel (1977), Esse Obscuro Objecto de Desejo

Mas eu falava de uma amiga que não vejo há muitos anos. Houve duas histórias de amor marcantes na sua vida. Em ambas, contava-me ela a rir, eles apaixonaram-se por ela em circunstâncias muito particulares. «É tudo mentira, essa coisa das roupas, dos perfumes, dos cremes. Nunca estive tão feia. Da primeira, estava presa pela Frelimo, há dias, na Beira, Moçambique, sem saber o que me ia acontecer.». Desgrenhada, suja, assustada, viu passar aquele homem «magnífico» com quem trocou um olhar por entre as grades, pensando na sorte que tinha a pessoa que ele ia visitar e safar daquele inferno. Com efeito, era diplomata de outro país e estava precisamente a ultimar a libertação de uma conterrânea sua, cujo destino seria provavelmente o de ir para um «campo de reeducação pelo trabalho». Um inferno.

Ela, que ainda não tinha sido ainda visitada pelas autoridades portuguesas, já não tinha grandes dúvidas de que iria em breve para um desses «campos de reeducação». Provavelmente no Niassa ou em Tete. E foi então que soube que aquele homem com quem apenas trocara um olhar chamara a si, e à sua embaixada, a responsabilidade de a libertar. «O que é que ele viu em mim?» - contou-nos, anos depois, ainda estupefacta. Naquelas circunstâncias, era uma mulher de olhos grandes, castanhos, cabelos enovelados e apanhados de qualquer maneira, olheiras até ao pescoço, rosto macerado e as roupas num frangalho:

«Em dois dias tirou-me da cadeia e, provavelmente, salvou-me a vida». Evidentemente que se apaixonaram e amaram, mas a sua era uma história quase impossível. Apesar de tudo, ainda durou, com viagens intercontinentais a mitigar as saudades. O enredo, dava para um filme de Hollywood.

Tempos depois, voltara a Portugal, onde tinha já os pais, o filho bebé. E pusera-se a tratar do divórcio do primeiro marido que a deixara para trás com o argumento de que tu safas-te sempre e melhor do que eu. Dois anos mais tarde, desgrenhada e a pôr em ordem uma nova casa que acabara de alugar (no Alentejo), mais confortável do que o alojamento dos primeiros tempos, um bonitão bateu-lhe á porta. Recebeu-o de esfregona na mão, lenço na cabeça e má cara. Ele era filho dos donos da casa que ela alugara. Era médico. Solteiro. Cobiçadissimo por solteiras, casadas, viúvas e divorciadas: ao que consta. Trazia um recado dos pais dele - senhorios - para a inquilina. Ela nem se deu ao trabalho de o mandar entrar e quando ele se ofereceu para a ajudar, mandou-o dar uma curva.

E ele nunca mais a largou até casarem.

Foram felizes? Essa é toda uma outra história. Aqui, o que retenho é a forma como ela desvalorizava a obsessão que muitas mulheres tinham, e têm por uma suposta e inatingível perfeição, que hoje, aliás, atinge foros de loucura: «é a nossa personalidade que os fascina e o resto são tretas. Claro que perfumes e cremes e roupas é muito bom. Mas não é por aí.» - contou-me e recontou-me ela. Nesse tempo andava pelos quarentas, e era igual à actriz Susane Sarandon, de quem nunca tinha ouvido falar.

Acho que nunca a vi maquilhada, ou se vi foi muito pouco. Não perdia tempo em lojas, por falta de paciência, e o simples vocábulo «moda» dava-lhe para rir. Não fazia nada para chamar a atenção, sequer. Mas tinha um não sei o quê. Um amigo meu, muito mais novo do que ela, homossexual, disse-me pouco depois de a conhecer - «com uma mulher destas eu repensava as minhas preferências». Não acredito muito - porque o conheci bem. Mas tenho a certeza de que, naquela altura, ele estava a ser absolutamente sincero.

É que há algo de  obscuro, impalpável e imaterial no desejo que irrompe subitamente e se transforma em paixão ou adoração e, por vezes até, em amor. É de uma natureza demasiadamente volátil, extravagante, singular e maravilhosa que nenhuma essência consegue captar, nem nenhum vestido ou creme consegue capturar.

É que isto vem de dentro, e toca em todos os sentidos. É uma música. É uma grande, grande magia.

quinta-feira, outubro 30, 2014

Os sinais


Mais um trecho do meu livro Xerazade - a última noite  MG
«Presta atenção aos sinais. Vou escrever-te cartas, vou mandar-te mensagens, vou cantar para ti enquanto estivermos longe um do outro. Não será por muito tempo, prometo-te. Entretanto, usarei os mais improváveis mensageiros, de modo que tens de estar atento. Aquela abelha, aquela formiga, aquele voo de pássaro, aquela nuvem, aquele cintilar de estrelas, podem trazer-te as minhas palavras, o meu riso cruel, o meu choro inconsolável, os meus gemidos de gata assanhada de amor. Fizemos esse jogo tantas vezes, lembras-te? E aprendemos a dominar as suas regras, porquanto a porta do caos é o portal de uma ordem secreta patente aos olhos de todos os que quiserem ver. É a partir de agora que vamos estar verdadeiramente juntos. Se ao menos percebesses quanto.


―Não posso viver sem ti, querida.
―Sabes que não posso ficar contigo.

― És a minha alma. Como se pode viver sem a  alma?
― Não te iludas, amor. Já nos despedimos tantas vezes. É só mais uma
[...]»

Manuela Gonzaga, em Xerazade - a última noite, Lisboa, Bertrand, 2015

quarta-feira, outubro 29, 2014

Partidas e chegadas ao aeroporto de Lourenço Marques

O J. Fróis não tem televisão - muitos de nós já não têm - apesar de já lhe querem ter oferecido vários magníficos plasmas. Motivo? Ficava a olhar o dia inteiro para aquilo e não fazia (quase) mais nada. Disse-me ele. Como eu o entendo. A caixinha é viciante. Mas o João também não tem espaço nas redes. E  há mais de um ano que deixou até o blogue que, ao que que parece, era muito visitado. Motivo? Ficava agarrado àquilo e não fazia mais nada.

O JF é artista e faz mil e uma coisas - pinta, por exemplo, e eu sei que vou gostar muito de ver os quadros dele. Não nos vemos há décadas, e, curiosamente, encontrámo-nos graças às redes. Uma amiga minha e dele, que anda por aqui, felizmente!, encontrou-me. Depois, ofereceu-lhe o livro Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, onde o J. Fróis aparece em vários episódios. Fomos companheiros de letras, camaradas de trabalho portanto, no jornal Notícias de Lourenço Marques, onde debutei na mais apaixonante das profissões. O jornalismo. Assinámos reportagens juntos e tudo - que eu redescobri, divertida, comovida, maravilhada, quando andei pela BN a ler jornais de época, sobretudo o Notícias, na minha pesquisa para o livro.


 Sede do jornal Notícias em Lourenço Marques, na esquina das ruas Joaquim Lapa e da Maxaquene
[cortesia The Delagoa Bay World]


Troca de emails, e mensagens no FB para aqui e para ali, eis que o J. Fróis e apareceu em boa hora no meu telemóvel e desatámos a rir e a falar como se nos tivéssemos visto anteontem pela ultima vez. Para meu grande alívio, descrições de eventos e até de espaços, e em que ele entrava, e que evoco no livro, e que nalguns casos foram apoiada apenas na minha memória, estavam certas. Rigorosamente certas. Aliás, foi com muita alegria que o ouvi registar, a propósito da investigação à volta de tudo o que escrevi agora sobre os nossos dias de ontem: «O trabalho que tiveste!!» - disse.

Naturalmente, O Fróis não se recordava do episódio em que eu o encontrei e perdi e reencontrei e perdi e reencontrei no aeroporto da então LM, no meu trabalho de reportagem que tinha por titulo «Chegadas e Partidas». Era um trabalho muito básico, próprio da repórter estagiária que eu era. Saber para onde iam e de onde vinham e eventualmente porquê, os famosos que chegavam e partiam à capital da Princesa do Índico. Famosos que eu não conhecia de lado nenhum. Nem de cara, nem de nome. Sempre fui uma outsider... portanto não houve reportagem.

O Fróis, que encontrei para meu imenso alivio e que prometeu ajudar-me nesse terrível transe, transformou-se em Gato de Alice no País das Maravilhas e não me foi de utilidade alguma. Ora ali, e naquelas circunstancias, ele era o único famoso que eu conhecia. E era famoso, porque era meu amigo. Os outros, nem as caras conseguira reter, apesar de estarem dia sim, dia não, plasmadas nas primeiras páginas do jornal onde eu trabalhava, e que, de resto, não lia. Digo, a parte chata. A parte politica do regime - com os discursos e tal.
Ah, Fróis que bom ter-te reencontrado. Afinal, não inventei. Eu sabia, mas... quando contamos a nós próprios as mesmas histórias vezes sem conto, simplesmente porque não há ninguém para as ouvir, chegamos a ter dúvidas onde começa a imaginação a invadir as nossas verdades. Tento sempre, mas sempre, na vida, traçar a fronteira. Quando somos um pouco loucos, é preciso ter-se muita atenção aos pormenores. É assim que sabemos quando estamos a sonhar e quando estamos acordados. É assim que nos mantemos à tona destas turbulentas águas.

É que bem basta o que basta.

Nota: The Delagoa Bay World foi um dos blogues fundamentais na minha pesquisa pelas redes sobre os tempos dos nossos dias de ontem.

quinta-feira, outubro 23, 2014

Continuo no PAN

Primeiro pensei - também vou sair (do PAN)! Depois pensei: mas os animais não podem fazer o mesmo (nas suas vidas). Nem a natureza. Não existe Planeta B.

Portanto, continuo no PAN, e apoio o André Silva, pelos motivos abaixo indicados. O ideário da sua campanha, bem como a lista de apoiantes de PAN - Inteligência Colectiva, pode ser consultado aqui.



Com o Timóteo de St. Catarina - freguesia onde foi encontrado, há mais de quatro anos, o cão da minha, das nossas vidas. Como todos os que fizeram e farão parte delas.

 
 
 
Entrei para o PAN, há cerca de dois anos, pela mão de um amigo de longa data,
o Paulo Borges, desmentindo com esta minha filiação uma promessa feita a
mim mesma. A de que nunca me aventuraria pelas águas turvas e traiçoeiras
da vida política. Fi-lo em consciência. Para mim, e, creio, para quase todos nós,
o ideário do Partido dos Animais e da Natureza constitui um maior denominador
comum. Trata-se da defesa de uma «Arca de Noé» num planeta em risco de
soçobrar e, por consequência, da defesa intransigente dos direitos dos animais,
e da natureza, casa-mãe de todos nós.
Abracei portanto uma utopia – e isto é o maior elogio que se pode conferir a
um projecto deste cariz. Assim, quando tomei conhecimento de que Paulo
Borges se afastava inapelavelmente do partido, a minha reacção foi afastar-me
também. Mas o pressuposto inicial mantinha-se: como defender aquilo em que
acredito e tantos de nós acreditamos? Como juntar forças e sinergias para
conseguir pequenas grandes vitórias para a grande Causa das Coisas da Vida?
Assim, no meio desta atormentada transição a minha permanência no PAN
tornou-se inquestionável. A Causa Animal, a Causa da Natureza, a Causa Nossa,
não espera pelo mundo perfeito, pelas pessoas perfeitas, pelo cenário idílico
onde todos seríamos ou seremos seres na plenitude do ser.
Eu não sou.
É por isso que, assumidamente humana e falível, vou continuar no PAN.
É por isso que vou votar, de coração aberto e mente lúcida, no ANDRÉ SILVA,
amigo que ganhei em muitas horas de esclarecimentos, e que me ensinou o
pouco que já aprendi no PAN, contagiando-me com o seu entusiasmo e com a
sua extraordinária capacidade de trabalhar no terreno do concreto, do imediato,
do possível e do necessário. Há tanto para fazer – e o André Silva é um homem
de acção e de reconhecida credibilidade.
Acrescento a pedra de toque que me decidiu. André Silva, sem nunca criticar ou
destruir o trabalho fosse de quem fosse, convenceu-me que continuar é
preciso. E desejável. O projecto da sua candidatura, tão convergente e de uma
enorme serenidade, bem como todos os envolvidos nele, permite-me acreditar
que é este o rumo.
Mais de cinquenta mil pessoas votaram PAN nas últimas eleições. Não temos o
direito de defraudar as suas expectativas. Mas mais do que isso – os sem voz,
os sem direitos, os seres mais frágeis do Planeta, dependem inteiramente do
que podemos fazer e do que temos por obrigação fazer em seu nome. E
consequentemente por nós e pelo espaço que todos partilhamos.
É que não há Planeta B.
Viva o PAN!!
Manuela Gonzaga
Escritora
 

 
 
 
 

segunda-feira, outubro 06, 2014

Num abraço de flores

Mais um extracto do meu próximo livro, cujo titulo e data de lançamento continuam em segredo. MG
Chagall, Marc (1887-1985)
Les Amants sous de Fleurs de Lis
 
[...]
«... há jardins selvagens no pensamento que prefiro não visitar. Mas agora, gigantescas flores de caules tentaculares, pétalas de cetim encarnado, corolas de estames de ouro e odor tóxico, assaltam-me à medida que avanço em direcção às torres. Como se quisessem deter-me. Que romântica, esta tentativa de me prenderes num abraço vegetal, sob o luar que atenua as linhas duras do meu rosto e a nudez do meu trajar. Não preciso de espelho, revejo-me na claridade dos teus olhos. És tão bonito amor, continuas tão bonito. Céus, depois deste tempo todo e ainda me olhas como da primeira vez em que nos vimos, já não sei quando foi, nem como foi, nem onde foi.
Só sei que foi num olhar assim, que tudo começou.

Mas não adianta. Estou fora do alcance desses caules, embora o perfume seja muito tentador. É que tenho mesmo de ir, entendes?»
[...]
 

domingo, outubro 05, 2014

5 de Outubro

Hoje um sonho caiu-me aos pés como um pássaro a arder e quando me curvei para o segurar desapareceu como se nunca houvera existido e, voltando ao seio do Incriado, morreu-me. Nunca me tinha acontecido isto com um sonho. MG

domingo, setembro 28, 2014

É a memória um jogo?

Mais um trecho do próximo livro. MG.

«Sou de um tempo em que fadas e anjos eram quase da mesma família. Sou de um tempo em que, entre fadas e anjos, se estendia uma muralha de fogo e um redemoinho de anátemas. Sou do tempo em que fadas e anjos jaziam, lado a lado num sepulcrário, o mesmo, atulhado de fantasias quebradas e arrumadas a eito. Podíamos visitá-los como quem percorre um museu, ou a cave de um precioso teatro barroco, atulhada de adereços inúteis, sem uma única referência de como, quando e para quê foram usados. Sou de um tempo em que nem se falava de fadas, nem de anjos. Sou de um tempo em que inventámos uns e outros, à medida que eles próprios nos inventavam também.

É a memória um jogo?

O meu touro abriu as asas. Céus, como ele ri!»
John Anster Fitzgerald (1823? – 1906) -
Fairies Looking Through an Open Window
w
 
 [Manuela Gonzaga, ainda sem titulo, a publicar.]

segunda-feira, setembro 22, 2014

Esta lua cheia de enganos

Há pouco tempo, dois meses talvez, comecei a colocar trechos de um próximo livro no meu mural do facebook. Tem sido uma experiência curiosa. Deslocados de contexto, estes pedaços de prosa poética se assim lhe quisermos chamar e vários o têm feito, vivem por si, sem dar pistas. Ou melhor, fornecendo uma multiplicidade de pistas. Já se avançou em sugestões de título, palpites sobre o conteúdo no seu todo, e até sob o meu próprio estado de saúde físico, psicológico.

E de repente, muitas pessoas reapareceram. Em mensagens privadas, em recados directos, ou mesmo por indirectas vias a inquirir sobre o meu estado:

«Mas tu estás bem? Mas ela está bem?»
Obrigada!!! Estou, sim. A narradora do meu próximo livro, porém, está a passar por um processo... cosmogónico. Transcendente. Perceberão tudo, quando soltar o título. E mais ainda, quando soltar o texto. Entretanto, continuarei a deixar pistas neste caminho das pedras feito de palavras.

 
Esta lua cheia de enganos

«Mas isto remete-me à questão inicial. Que nudez é a minha, agora? Creio que é uma mistura de ambos os despojamentos. Consentido e imposto. Assumo a última fronteira. Agora, sou só eu e a minha pele, sabendo que sou muito mais do que a epiderme marcada e pálida que me cobre ossos e músculos, e veias e artérias e órgãos. Como quase sempre, é preciso fazer escolhas. Sem um arrimo que me sustente, perco-me nas margens do lago. De modo que sou eu ou o meu trajar: e que importam os trajes se o corpo falece?
Segura bem nessa corda, querido. Se a soltares, perco-me. Se a deixares quebrar, perco-me. Ainda me ouves? Eu já deixei de te ouvir. O coaxar das rãs, à minha volta, é ensurdecedor. E o medo é grande. O medo e o fascínio. Há uma beleza terrível neste lugar. Ouves o ruído das minhas sandálias a caírem na água parada, uma após a outra? Fizeram um semicírculo no ar. Duas pequenas setas brancas com reflexos de ouro, recortadas fugazmente no negrume do céu estrelado, à luz desta lua cheia de enganos.
Ai, mas tão bela.»
Manuela Gonzaga, em ????, a publicar.

domingo, setembro 21, 2014

Al Berto & João

Uma fotografia, legendada, evidentemente, trouxe ao de cima histórias e vidas do tempo da nossa vida em Sines, quando ainda se chegava ali de comboio. E foi assim que o Al Berto e o João do Ó estiveram por cá. E todos juntos, fomos até ao Palácio Pidwell. jardim que foi de tantas alegrias e tanto disparate e tanto criar no alimentar de uma infinidade de sonhos.


Estação de caminho-de-ferro de Sines

Obrigada, Vicente Alves do Ó pelas horas que passaram a correr. Outras virão. Com a mesma luz abençoada. E tens razão, o quanto aqueles nossos tão queridos dois, Al Berto e João do Ó, se devem ter rido com a nossa conversa cá em baixo.

E tudo começou por causa de uma fotografia. Desta fotografia.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Moçambique - Do império tardio e da guerra colonial

É com a maior alegria que vou colhendo apreciações ao meu trabalho nos mais diversos circuitos.Neste caso, destaco uma recensão ao meu último livro (com 5 estrelas), em Goodreads, assinada por Rui Gomes Coelho, historiador,  a fazer doutoramento em arqueologia na Universidade de  Binghamton, USA.

«Um olhar novo»

'Moçambique' de Manuela Gonzaga corresponde a uma vaga muito recente de criadores que procuram lançar um novo olhar sobre o passado colonial português mais recente, e sobre o processo da descolonização que viveram. É um olhar novo porque não se trata apenas da realização de "memórias", vai muito além disso: é uma janela aberta sobre as contradições do autor que reflete no presente sobre uma época vivida em circunstancias sociais e ideológicas muito diferentes. É essa tensão que se revela em 'Moçambique' como algo de que a autora parece ter plena consciência, jogando tanto com as suas memórias como com a análise histórica do contexto que narra. Neste sentido, o livro não interessa apenas aos que viveram o 'Moçambique' do império tardio e da guerra colonial; é um livro que valerá a todos; desde historiadores que procuram trilhar formas de escrita mais fluida até ao leitor curioso pelo passado português mais recente e amante de páginas extraordinariamente bem escritas.»






 

sábado, agosto 23, 2014

«Um excelente livro» na RUM

De segunda a sexta-feira, na RUM - Rádio Universitária do Minho - no programa «Leitura em dia» uma sugestão de leitura, com António Ferreira e Sérgio Xavier. Recentemente, o programa distinguiu novamente um dos meus livros, neste caso Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, considerando-me uma «repetente nestas emissões pelas melhores razões», segundo palavras de António Ferreira que continuo a citar:

«É uma repetência por boas razoes. A qualidade literária não fica acantonada em géneros ou subgéneros. Este é um registo memorialístico, e, neste caso muito particular, uma homenagem muito sensível e terna à mãe da autora, com noventa e quatro anos [...] Normalmente estes livros de memórias também têm a ver com aqueles designados retornados ou regressados das ex-colónias portuguesas, nomeadamente, ou principalmente de Angola e Moçambique, uma espécie de recordar o paraíso perdido. Havia liberdade, uma espécie de largueza comportamental, moral e ética, coisa que na Metrópole, em Portugal, não acontecia. O país era muito fechado, cinzento, carregado de moralismos, E depois a Pide, o aparelho repressivo do Estado, fazia-se presente de uma forma acentuada e intensa, que tolhia qualquer movimento.»

[...] Manuela Gonzaga - ela é natural do Porto, é escritora, autora de vários livros. em termos académicos é Mestre em história dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa, pela Universidade Nova de Lisboa, e é investigadora associada ao Centro de Historia de Além-Mar também da mesma universidade. Viveu em Moçambique, e em Angola, grande parte, ou pelo menos uma parte da sua adolescência e juventude.» [...]  Manuela Gonzaga faz isto muito bem, não se submete àquele ressabiamento que é muito típico dos retornados, com uma componente ideológica muito forte, muitas vezes conservadora, aliás, reacionária, abandonados por todos, condenados que deixaram tudo para trás. Neste caso, é para a Mãe se lembrar como foi. [...] Esta viagem inicia-se em Lisboa, a 31 de Agosto de 1964. É o crescimento de uma mulher, de uma rapariga [...] faz os estudos em varias cidades, em Tete, depois na Beira, antes em Lourenço Marques, uma cidade belíssima, segundo a autora.

Tudo isto retratado e caldeado com um acervo de bibliografia, documentos, que aparece no final, e dá para perceber o que é a essência, a integridade de uma mulher, de duas mulheres no caso, os outros irmãos aparecem, mas de uma forma mais lateral, a mãe que foi sempre uma mulher digna e independente, que quis sempre lutar pelos seus objectivos, assim como a autora que depois tem pormenores deliciosos, só lendo o livro.[...] deixamos apenas uma pequena nota, que são as cartas da «Coluna em Marcha» de um suposto oficial das tropas portuguesas a relatar as incidências do dia a dia, dos combates contra a Frelimo.

[...] um excelente livro, uma memória que faz jus de facto a essa memória, sem qualquer tipo de vinganças, perante o desejo de construir uma vida de forma independente  que foi o caso da família de Manuela Gonzaga.»

Para ouvir integralmente - o que é sempre mais interessante:
http://podcast.rum.pt/uploads/Leitura/Leitura_em_Dia-2014-07-29.mp3

sexta-feira, agosto 15, 2014

Quando penso em África

Quando penso em África não penso muito. Sinto. Intensamente. E sonho. Em muitos dos meus sonhos volto lá. Não exactamente às cidades, o que é raro, mas aos trilhos da mata - trilhos secretos, de fuga. E ora estou com negros e pertenço à sua tribo apesar da pele branca que persiste em vestir o meu corpo até em sonhos, ora estou rodeada de soldados que me escoltam e pertenço aos seus caminhos. Muitas vezes, porém, estou simplesmente a caminhar. Ou, mais raramente agora, a fugir. Os animais não me assustam, as árvores não me dão medo, os gritos dos pássaros ou os seus cantos são o meu alento, e os pés não ficam em ferida enquanto avanço sobre a terra escura que parecem (re)conhecer de tempos imemoriais. Simplesmente caminho como se procurasse o caminho de casa - que se oculta por ali.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Moçambique - para todos nos lembrarmos

Agora, que se não tomarmos cuidado transformamo-nos em rodapé da História, a única aliada em quem podemos confiar é na memória. Temos todo o direito de a alimentar.

A nossa memória - colectiva.

É a ela que recorri para mostrar que fomos muito mais, na soma das nossas vidas privadas, do que um amontado caótico de caixotes espalhados pelo cais do porto de Lisboa. Muito mais do que saudades e amarguras. Muito mais do que sentimentos de estranheza e de revolta. Éramos mais de meio milhão - e na crueza dos números, mais de metade oriundos da então Metrópole e integrámo-nos aqui e por todo o mundo, de forma geral, com uma taxa de sucesso que ainda hoje espanta, sobretudo quem está de fora.

 
 
Trouxemos bons ventos e muitas outras coisas boas. E não temos vergonha do que vivemos. Nós, de quem se diz que era uma vez e tudo perdemos, guardámos tesouros inalcançáveis e imperecíveis. Nós, os que viemos, e não importa se nascemos lá ou cá, ganhámos África. Melhor. África ganhou-nos. Nós somos de Ela. Por todos os sentidos. É nesse aspecto que o passado pode ser o nosso melhor presente. Aqui. Agora. Seja onde for.

terça-feira, agosto 12, 2014

Um delicioso jantar

Ontem, no decorrer de um delicioso jantar, em deliciosa companhia, repassou, por breves momentos, uma aragem de tristeza quando se falou na tristeza de viver em Portugal, na asfixia que nos circunda, e no peso que se carrega em tantos quotidianos, e, por consequência, no peso que tal acarreta nos circuitos conviviais. O que é sem dúvida, uma constatação plena de justiça. Algumas pessoas, que aqui mantém as suas casas de sempre, mas que só cá vêm de forma sazonal, como as andorinhas, confessaram que ao fim de uns tempos, começam a contar o tempo de ir embora outra vez.


Eu própria ave de arribação, crescida nas viagens, há muitos anos que não sinto nada assim. Adoro Lisboa. Amo Portugal. E já me habituei ao facto de ter o coração fora do peito - a pairar entre mundos, porque não consegui e não conseguirei nesta vida, alcançar o dom da ubiquidade... - mas na verdade, e esteja onde estiver, o ambiente é limpo de ervas daninhas e ventos maus. Descontando, evidentemente, todo o mal que nos pode acontecer pelo facto de estarmos vivos, e, como seres sensíveis, sermos sensíveis ao que acontece em nosso redor. Com os que amamos, e até com os que mal conhecemos e, obviamente connosco próprios nas voltas da roda da fortuna.
A conversa, repito, em ambiente sempre delicioso, com pessoas ligadas a várias áreas da cultura, e uma grande artista a presidir, nunca foi «pesada» e flutuámos pelos temas. Creio que me perguntaram como fazia, e eu respondi quase sem pensar: não frequento negatividade de espécie alguma. Não disse então, mas digo agora: é que me sinto profundamente comprometida com o lugar onde vivo, e sei que uma parte do que me rodeia é da minha única e inteira responsabilidade. De modo que quando o «ambiente» é mau - mudo de ambiente. E isso pode fazer-se sem sairmos do mesmo lugar. Com os custos que tal forma de viver acarreta, mas que pago sem pensar duas vezes.

Acima de tudo, há anos e anos e anos que não convivo com pessoas que falam mal umas das outras - cobardemente e quando as e os visados não se encontram presentes. Simplesmente, não convivo. Viro as costas, vou-me embora, não tenho paciência nem tempo nem energia. É um exercício profundamente menor e corrosivo - para quem o pratica e para quem o alimenta, mesmo que só servindo de testemunha. É que pessoas que falam mal das outras são pessoas que pensam muito mal de si próprias, mas ainda não o descobriram, nem querem descobrir. E isso é contagioso, pega-se no contágio das palavras.

Mas a conversa, entretanto, já seguia outros rumos. Por fim, acabámos a ver livros, deslumbrantes, feitos à mão. Livros que gostaria de ver com o tempo de sem tempo - perfeitos, belíssimos desde o suporte em papel artesanal, às aguarelas que o cobrem, história a história, ao desenho das capas todas diferentes, ao formato da obra, nunca igual, à letra de copista, desenhada com a perfeição que o amor confere às obras geradas sob o seu influxo. Não digo nomes, nem cito obras - para não quebrar o sortilégio de um encontro privado. Noutra altura, será.

Mas voltando atrás, faltou dizer que não vejo telejornais, aliás não tenho tv, mal leio jornais, e seleciono a informação que agora está disponível em tantos lados e de tantos modos. Mas ali, naquela sala com varanda e vista sobre o nosso magnifico mar português, não havia vestígios da caixinha mágica. A magia estava presente, de toda uma outra maneira. Ah, e havia um cão. Grande. Recebeu-nos com mostras de tanta alegria e esteve sempre por ali, connosco, dormitando feliz. Adoptado, evidentemente.

domingo, agosto 10, 2014

Em África - o primado da alegria

O lugar do outro - aprender como se chega até lá, é das lições mais difíceis de aprender. Implica sair de uma ilha de realidade que tomamos como um todo. Como O Todo. Não há manuais que nos ajudem. O outro também habita a sua própria ilha de realidade e pode olhar-nos com a maior desconfiança, conforme nos identifique como predador ou presa, ou ambas. Mas se o coração fala mais alto e a razão não nos falece, o caminho abre-se. Comecei a aprender este caminhar em África. Foi lá que comecei a trocar a segurança do familiar; o território do dogma; o pão da certeza, pela incertitude da viagem, muitas vezes sem terra à vista.
 
vista parcial da então cidade de Lourenço Marques - Maputo
 
Penso que o desencadear deste processo terá sido mais fácil por ser mulher. A irracionalidade dos constrangimentos que nos colocavam, apenas por causa da identidade de género, levou-me a questionar tudo e todos. O sermos avaliadas, não pelas nossas competências, não pela nossa inteligência ou falta dela, não pela nossa capacidade de sobreviver e viver com dignidade; mas apenas pelo sexo. A chuva de censuras, mais ou menos veladas quando o nosso comportamento não se pautava pela sonsice e pela hipocrisia - foi o primeiro toque do clarim deste acordar. Porque numa sociedade que considerava muito natural que os meninos fossem ás putas, mas que achava uma pouca vergonha que as meninas se deitassem com os namorados, a menos que conseguissem escondê-lo de toda a gente; e a menos que o fizessem com uma sensação de cometerem uma falta que as diminuía extremamente, numa sociedade assim, digo, algo estava podre.
 
Era isso que eu achava, era isso que eu sentia.
Felizmente, esta e outras revoltas, que agora à distância me parecem tão inocentes e lúcidas, tiveram aquele chão, aquele ar, aquele céu e aquela assombrosa paisagem por cenário. É que tudo ali era mais fácil. Até os dramas. Em África vigorava o primado da vida. O primado da alegria. Mas não há como as nossas pequenas revoltas pessoais para nos acordarem para a realidade das revoltas dos outros. E para a justiça dos seus anseios.
 

sábado, agosto 02, 2014

Repórter de guerra - Coluna em Marcha

Em mensagens privadas, Henrique Salles Fonseca, amigo recente das redes sociais, cuja escrita muito aprecio, tem-me dado conta do maravilhamento com que leu e releu vários trechos do meu livro Moçambique para a mãe se lembrar como foi. que publicou no seu blogue. Como este:





«Lourenço Marques! A cidade das acácias e dos jacarandás, das palmeiras e das casuarinas debruçadas sobre a baía do Espírito Santo, enfeitada de luzes, geométrica e febril, a explodir de vitalidade e a crescer todo0s os dias, cuja visão, quando o avião começava a sobrevoá-la, me enchia os olhos de lágrimas. A perspectiva de irmos viver para lá era tão exultante que me tirava o ar. Não me lembro sequer dos últimos tempos na cidade do Zambeze.

Na expectativa da mudança, tornara-me até indiferente à beleza singular de uma paisagem que, julgava eu, esqueceria para sempre no momento em que lhe virasse as costas sem poder imaginar que, anos depois, a sua ausência se transformaria numa presença irredutível, calorosa e comovedora. E sem poder imaginar também que pessoas que nunca esqueci jamais me esqueceriam também e que me viriam ajudar muitos anos depois com a sua presença cálida e a sua amizade incólume, a refazer o puzzle da minha vida partida em pedaços, a cada mudança de lugar.

Por essa altura, havia um homem novo na minha vida. Dele sabia tudo, embora o tudo que sabia dele fosse muito pouco. Acima de tudo, tocou-me a sua alma marcada pela varíola da guerra e da solidão. Tinha histórias para contar e começou a conta-las nas páginas de um jornal de Lourenço Marques, angariando rapidamente uma legião de fãs cujas cartas aguardavam no Notícias de Lourenço Marques, ao cuidado do director do suplemento literário, que o anónimo oficial português a quem eram dirigidas as fosse levantar. Um volume de missivas que crescia à medida que as crónicas, que foram poucas, iam sendo publicadas nas páginas da Coluna em Marcha, um suplemento concebido e dirigido por Guilherme de Melo, na sequência das suas famosas reportagens de guerra, ainda em 1968.

Se eu amava aquele homem? Que pergunta tão estranha. Ainda hoje não sei responder. Enquanto existiu, a nossa foi uma relação secreta, constante e de uma intimidade total. Nesses tempos, pensava nele horas sem fim, sabendo que mesmo a dormir ele estava comigo. É curioso: ainda hoje não consigo descrevê-lo fisicamente. Recordo, porém, como as mãos me tremiam quando lia as suas crónicas publicadas. Crónicas que não discutia com ninguém, embora e mesmo em minha casa, todos o lessem, falassem dele e se especulasse posteriormente em torno da sua previsível morte, quando, tão de repente como apareceu, deixou de publicar. Sem nenhuma justificação. Desaparecendo, pura e simplesmente. Em todo o caso e enquanto durou, a nossa foi uma relação de corpo e alma.

Na verdade, aquele homem era…»
 
NOTA:
Se o leitor quiser saber quem era o homem, terá que ler o livro. Tem na bibliografia a referência da página.
Agosto de 2014
Henrique Salles da Fonseca
 
BIBLIOGRAFIA: «Moçambique – Para a mãe saber como foi», Bertrand Editora, 1ª edição, Junho de 2014, pág. 233 e seg.
 
 
Retirado de «Repórter de guerra»: http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/reporter-de-guerra-1248368 - extracto publicado no blogue A Bem da Nação