domingo, janeiro 05, 2014

O mais feroz de todos os amantes

A História é o mais feroz, o mais impiedoso dos amantes. Obriga-nos a aprender a amar de olhos abertos, sempre. A arrancar todos os véus. A escancarar todas as janelas e todas as portas. Sem medo, nem pudor.

A enfrentar o sol de olhos abertos.

Lembro-me do olhar aflito de ele: e agora? perguntava. As suas crenças mais profundas, erigidas em dogmas absolutos  de raiz singular, remontavam a outras raízes.  E agora?, repetia na sua aflição. Agora, reencontrava as suas crenças na fonte primeva. E relia as suas histórias sob a forma de outras histórias anteriores, quando o seu sistema de crença nem sequer existia. Quando os deuses que tutelavam civilizações muito mais antigas, eram outros.

E agora? dizia ele, na sua agonia, os meus originais são cópias de cópias de cópias. Histórias contadas em círculo e remontadas de mil e uma maneiras diferentes. E agora?, perguntava de olhos vazios, porque o original da sua fé era o fractal de muitas outras e para o perceber ele teria de recuar muitos passos, e avançar noutras direções, para tentar, um dia, como todos nós tentamos de uma forma ou de outra, conseguir ver o conjunto na sua deslumbrante totalidade.

O fulgor de um palimpsesto revelado em todas as suas camadas, não precisa de destruir nenhuma delas, porque todas elas, a uma nova luz, continuam a ser preciosíssimas. Mas essa nova luz, pode partir um coração mais fraco. Aprender, às vezes, rasga o peito.

A História apunhala-nos de frente. Faz-nos isto muitas vezes. Mas ao fazê-lo abre-nos caminhos novos, em novas direções. Sem limite de tempo, nem de espaço. Solta-nos. Corta-nos todas as amarras.

A História é o amante mais fiel.


Créditos de imagem: RIBEIRO JR., W.A. A "assembléia dos deuses". Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em http://greciantiga.org/img/index.asp?num=0397#fim. Cons. 05/01/2014.
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