sexta-feira, abril 18, 2014

Gabriel Garcia Márquez

Houve uma época em que li tantas vezes O Outono do Patriarca que o esfrangalhei literalmente em cadernos mal colados que ainda hoje conservo e releio com paixão. Numa forma de escrever completamente nova, pelo menos para mim, Gabriel García Márquez leva-nos ao universo fantástico de um ditador senil. Podia ser qualquer um dos ditadores que conhecíamos ou poderíamos ter conhecido porque o universo destes seres é matricial na sua alucinante solidão. É sempre uma realidade irreal, povoada de espelhos áulicos onde tudo parece orbitar à volta de «quem tudo pode e tudo manda». Mas o Patriarca de Márquez, que acabava por vender o mar do Caribe aos americanos, e que mandara reescrever toda a história de forma a divinizar a sua pobre mãe, que o gerara de um estranho a quem o ditador nunca pode chamar pai, é um ser produzido numa paisagem singular. E num momento histórico muito especifico. Realidade ficcionada, ficção real. Prodigiosa alquimia verbal. Uma obra prima.

Pouco antes, e estamos a falar dos anos 80, com Cem Anos de Solidão eu entrara em êxtase. É um romance fundador. Um pilar da literatura, que já foi considerada a mais importante obra escrita em língua hispânica depois de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Um sucesso absoluto com mais de 50 milhões de exemplares vendidos. Um clássico da literatura mundial. Uma epifania literária.

Li todos os livros dele, mas estes são, para mim, os imortais do imortal que Gabriel Garcia Márquez. Releio-os sempre, como se fosse a primeira vez. Venerando-os, palavra por palavra, palavra de honra. Por outro lado, o homem é quase tão grande quanto a sua obra. Jornalista, escritor, activista político, Gabriel García Márquez, um pisciano de 6 de Março de 1927 nasceu na Colômbia, em Aracata e bebeu na infância o riquíssimo leite mágico da literatura oral. O seu avó, veterano da Guerra dos Mil Dias, contou-lhe as histórias que tanto influenciaram suas obras literárias a par da paisagem exuberante das terras onde nasceu e cresceu.

Viajante, menino, adolescente e velho em todas as suas idades, o criador do realismo mágico viveu intensamente os seus dias e deixa um testemunho imorredoiro. Comove-me particularmente, esta sua partida. A mim e a milhões de leitores seus. Avessa a prosas fúnebres, a elogios tumulares, acho que lhe fizemos durante a vida a única homenagem a que um autor é sensível. Lemo-lo.


Acrescento uma nota muito pessoal. Este último Verão ele ajudou-me tanto. Eu estava uma pilha de nervos por causa de uma obra que começara por ser uma coletânea de memórias para ajudar a memória da minha mãe às voltas com os tormentos do olvido. A pedido dela e depois com a total concordância e incentivo do meu editor, essas pequenas narrativas sem pretensões tinham acabado por ser transformadas no livro que, ora com entusiasmo, ora com muito medo, eu estava a escrever.

E foi então que numa casa de campo com tudo o que o uma casa de campo tem para sermos felizes, livros por exemplo, encontrei Viver para Contá-la. É, evidentemente, uma obra maior, o «romance de uma vida» como lhe chamam, um guia de viagem ao universo fabuloso da vida e da obra de Garcia Márquez. Deslumbrada, segui-o em leitura compulsiva até aos confins da memória, da dele.  A sua narrativa acalmou os meus medos. Não por termo de comparação, ou por uma pretensão qualquer desse género. Mas pela serenidade, pela modéstia, pela generosidade com que o escritor partilhou a sua singularíssima história de vida, alicerce de toda uma obra e que me serviu de farol e estrela guia. Não reli, para não me colar à sua escrita única. Irei, mais tarde, fazê-lo, para saborear uma obra que devorei e merece a pura fruição.

Entretanto, recomecei a minha escrita com novo alento.

Agora, dizer da alegria, da riqueza, que este homem, este escritor, prémio Nobel da Literatura 1982, trouxe às nossas vidas, é tarefa impossível.  Amemo-lo, honremo-lo e saudemo-lo à nossa maneira. Lendo os seus livros e fazendo com que os seus livros sejam lidos pelas gerações mais jovens. É a maneira de nunca o deixarmos morrer.

Deixo o link para um artigo que me sensibilizou particularmente. Primeiro porque é muito bem escrito. Depois porque é muito rico, na sua abordagem. E depois porque é muito completo. E tem magnificas ilustrações. Na excelente Revista Bula, assinado pelo escritor Salatiel Soares Carreira, uma imperdível homenagem: Cem Anos de Solidao, o livro que criou uma geração de leitores.




 
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