domingo, maio 18, 2014

À Mãe que nos deu África

 
Maria Leonor Vieira Paixão Gonzaga aos 44 anos quando fomos para África
O meu novo livro nasceu para e por causa da minha mãe. Nem era bem para ser um livro, A sua vocação, pensava eu, resumia-se ao registo de memórias impressas em folhas A4 onde passei a fixar a história da nossa ida do Porto para Moçambique - a começar pela inesquecível viagem de barco a bordo do paquete Império que levantou ferro em Lisboa.

Desta forma, tentava com os meus recursos, mitigar a solidão da sua existência sem memória, ao verificar o poder dos nomes, maior, muito maior ainda do que o poder que os cheiros têm de acordar o passado. Nesse verificar o poder que os nomes tinham e têm de concitar tempos pretéritos surgiu-me a ideia: se eu escrevesse as histórias que lhe conto todas as vezes que estamos juntas, a Mãe teria ao alcance da mão, histórias, suas, nossas, para ler sempre que quisesse. E ao lê-las, de todas as vezes como se fosse a primeira, alguma água ficaria retida no areal infindo e desolado onde se inscrevem os seus dias todos iguais. Porque todos os seus dias são tecidos de esquecimento.

A alegria que ela sentiu e sente em torno destes registos, a sua imposição - «isto não pode ser só para mim, despacha-te que quero ver estas páginas em livro antes de morrer» - e o apoio convicto do meu amigo e editor, Eduardo Boavida, impulsionaram o passo seguinte. Os passos seguintes. Um ano e meio depois de «Moçambique para a mãe se lembrar como foi» em folhas soltas A4, surge o livro que, também ele, de certa forma fugiu ao meu controlo, porque os livros têm vida própria e também eles traçam os seus rumos. Digo isto, porque ele cresceu para além do que imaginei que deveria ter crescido. De certa forma, obrigando-me a revisitar os nossos esplendorosos lugares pretéritos, com a bagagem mental, emocional, cultural, que entretanto fui adquirindo. Lugares, pessoas, episódios felizes, estranhos ou delirantes, uns, dolorosos, outros, cheios de plenitude quase todos, tomaram vida. Como se tudo tivesse acontecido anteontem e não há décadas.

Sem nunca deixar que essas valências ou estes pesos se sobrepusessem à voz, à emoção, aos sentimentos da menina e da jovem que outrora fui, acordei o que nunca esteve adormecido. O amor e a sensação iniludível de pertença àquela Terra bem-amada, Moçambique e àquela geografia mãe, África.


 


 
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