sexta-feira, junho 13, 2014

1963: de Quelimane para o Porto

A primeira vez que conheci alguém que vivia mesmo em África, tirando o frade capuchinho amigo de infância da nossa mãe que era missionário e por vezes nos visitava, foi no liceu Carolina Michaelis, no Porto, aonde chegou, em meados de 1963 uma nova condiscípula que vinha de Moçambique, onde vivia com os pais em Quelimane. Não me lembro do nome dela, mas uma vez que estávamos em vésperas de partir para lá, crivei-a de perguntas.

Vista da cidade da Beira, com anúncio do famoso refrigerante na época proibido na metrópole mas autorizado nos territórios coloniais (cortesia de CCAV 2414)
Era uma menina loura, de cabelo curto, e ar empinado, que se  destacava de todas nós porque, no calor de maio e de junho, era a única que chegava ao liceu de sapatos fechados e meias de lã, embrulhada num casaco comprido de fazenda verde, queixando-se do frio e mostrando-se profundamente espantada por conseguirmos andar de sandálias e em manga curta com aquelas temperaturas tão inclementes. Recordo bem que usava um irritante tom de superioridade para contrapor às delícias da vida de «lá» a sensaboria da vida de «cá». Para começar, em África os liceus eram muito mais divertidos. E como nalgumas cidades pequenas o ensino secundário, sobretudo a partir do segundo ciclo, estava a cargo de instituições privadas, normalmente colégios de padres ou de freiras, as aulas eram mistas, rapazes e raparigas nas mesmas turmas, o que não acontecia nos estabelecimentos metropolitanos já que a separação de sexos era a regra, só mudada quando se entrava na universidade.
Por todo o Ultramar havia Coca-Cola, proibida na metrópole, e praias esplendorosas como não havia em mais lugar nenhum do mundo. Depois, a vida era completamente «diferente», porque havia sempre festas e faziam-se regularmente viagens de centenas de quilómetros descritas displicentemente como «passeios». Ouvindo-a discorrer sobre os quotidianos em Quelimane, e por todo o Moçambique, ficava-se com a ideia de que a principal ocupação das gentes ultramarinas, e reportamo-nos naturalmente à minoria que iriamos integrar, era a de andarem sempre a viajar, banqueteando-se nas casas uns dos outros, e nadando em mares de turquesa ou rios de cristal como se as férias grandes, que na metrópole duravam três meses, se cumprissem ali, para adultos e crianças, ao longo do ano inteiro. A realidade não era bem esta, mas alimentou o sonho.

Quanto à guerra - o problema nem se colocava:

— A guerra foi em Angola e nem sequer em todo o lado. Em Moçambique está tudo em paz.

Isto era tão absolutamente verdadeiro que, em março de 1963, o governador-geral da província, contra-almirante
Sarmento Rodrigues, viajara centenas de quilómetros pelo distrito de Cabo Delgado, passando por locais como Palma, Mueda, Mocímboa do Rovuma e Chomba, acompanhado simplesmente por meia dúzia de jornalistas estrangeiros, e dispensando os serviços de uma coluna militar.[1] O futuro do ultramar português, em geral, era tão radioso que, e pela primeira vez, o governo da metrópole concedia facilidades para a fixação de militares de todas as patentes que por lá tivessem prestado serviço, depois da sua passagem à disponibilidade, pagando-lhes todas as despesas de transporte para o local onde fixassem domicílio[2], simplificando assim um sistema até então moroso e cheio de entraves.

Uma vez que nunca vivemos em Quelimane, nunca mais a encontrei, mas recordá-la-ei sempre como o primeiro testemunho directo de quotidianos que, de algum modo representavam a vida lá - evidentemente uma parte da vida de uma minoria. Na verdade, a literatura ou o cinema ,  as noticias dos jornais e os blocos noticiosos que antecediam a projecção dos filmes, constituíam  a nossa única fonte de informação, oscilando entre a lenda, a mitificação religiosa, o disparate total ou a doutrinação entediante e soporífera. Em todo o caso, a paz revelou-se, pouco depois de chegarmos ao distrito do Niassa, uma miragem. Em breve, a guerra a Norte viria a eclodir, progressivamente com uma violência e uma persistência tais que, à luz do nosso desconhecimento total da realidade, nos encheu de assombro.

(adaptado de Moçambique para a mãe se lembrar como foi)




[1] O Primeiro de Janeiro, 11/03/1963, pp. 1–5.
[2] Diário do Governo, 14/03/1963.


 
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