quarta-feira, julho 09, 2014

Era uma vez Vila Cabral capital do Niassa


Para nós, era tudo muito estranho. A começar pelas distâncias incomensuráveis e pela total ausência dos marcos de referência a que, eu pelo menos, me tinha habituado, nascida e criada na cidade do Porto, tão antiga, e, agora à distância, tão populosa, sem contar com as férias anuais em Lisboa, outra cidade amor da minha vida. E sem falar no campo, sobretudo o tão familiar Douro ou o Minho,  tão explosivamente colorido, com as suas vilas e aldeias cheias de igrejas, campanários, monumentos, castelos, túmulos de santos e de reis e penedos de mouras encantadas. 

Era preciso tempo, para criar rotinas e encontrar  o encanto inesperado e fatal que todas as terras de África têm. Impossível fugir-lhe. Apanha-nos de surpresa, desarmados e nus perante a vastidão intensa, brutal, magnifica e mágica do seu chão e do seu ar, do seu céu, da sua luz, e das suas águas todas. Do seu cheiro e do grito de pássaros inventados em livros de histórias de encantar, onde também moravam serpentes e jacarés, macacos e girafas, gazelas e hipopótamos, hienas e leões, com os quais nos cruzávamos aqui, não em paginas iluminadas, mas na natureza das suas vidas naturais.

E é assim que, num mergulho no tempo breve e já tão longo da nossa vida, eu recordo os primeiros dias do resto das nossas vidas.

«Do ar, Vila Cabral[1] era um muito pequeno aglomerado urbano, que, do grande círculo da rotunda, irradiava em polígono regular, atravessado por uma enorme avenida principal. Passara de vila a cidade um ano antes, graças à iniciativa do Governador do Niassa, Coronel Costa Matos, o qual vivia no palácio, com a mulher e as duas filhas e constituía a mais alta individualidade local, quando ali nos instalámos em Outubro de 1963.


Numa represa perto, a mãe e outros professores.
Não sei quem tirou a fotografia que foi revelada pelo Senhor Castanheira
Para além do palácio do Governador, uma casa colonial muito bonita e muito bem ajardinada, a pequena urbe dispunha de umas escassas centenas de casas de habitação de pedra e cal, subitamente em número demasiado reduzido para as necessidades do crescimento demográfico, de uma inesquecível Pousada, de uma igreja, e de um cine teatro, o ABC, que passava filmes de cowboys e filmes indianos com muita regularidade, sem descurar outro tipo de programação cinéfila e da organização de festas e bailes. Para além destes marcos, havia as escolas primárias e secundária até ao primeiro ciclo; a estação dos Correios; os edifícios do governo; o hospital; o quartel; a estação de machimbombos, e do comércio habitual. O Banco Nacional Ultramarino, o talho do Senhor Cruchinho; as padarias do Senhor Garcês; o salão de cabeleireiro, barbearia e casa de fotografia e de habitação do Senhor Castanheira; a pensão Miramar; os restaurantes Planalto; e as maravilhosas lojas da Família Salvado, onde se encontrava de tudo. Sedas e brocados da China; arcas de sândalo da Índia; tecidos dos mais sofisticados aos simples de todo o lado de onde se podiam mandar vir tecidos; sapatos, carteiras, joalharia, cosmética, artigos para o lar, e o mais que se queira nomear. A cidade era servida por um aeroporto regional, mas a tão necessária e desejada linha de caminho-de-ferro que a ligaria a Nacala, só seria inaugurada alguns anos mais tarde.
Era muito longe de tudo. Para que conste, a capital do Niassa ficava e fica a cerca de 2800 km de Lourenço Marques. Mesmo para os padrões africanos onde as distâncias são genericamente reduzidas a um «é já ali» - era muito quilómetro.»
 
(adaptado de Moçambique para a mãe se lembrar como foi)


[1] A povoação, fundada em 1931, foi elevada a cidade em 23 de Setembro de 1962. O seu nome era uma homenagem ao ex-Governador José Cabral na Índia e em Moçambique durante 20 anos. Depois da independência foi renomeada Lichinga.
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