segunda-feira, novembro 03, 2014

esse obscuro objecto de desejo

Não a vejo há muito tempo, mas jamais me esquecerei dela. Aliás, forneceu-me testemunhos para, pelo menos, dois grandes artigos na extinta Marie Claire portuguesa, uma maravilhosa revista que ainda hoje é referencial. Digo-o com conhecimento de causa. Das últimas vezes que estive na Biblioteca Nacional, vi várias pessoas a consultarem as edições - e por acaso algumas estavam com artigos meus em aberto. Sei que em estudos de género, nas faculdades por exemplo, se recorre à Marie Claire portuguesa, que tão boas provas deu pelo leque excepcional de jornalistas e colaboradores que reuniu. Amén.


Carole Bouquet e Angela Molina, em L. Buñuel (1977), Esse Obscuro Objecto de Desejo

Mas eu falava de uma amiga que não vejo há muitos anos. Houve duas histórias de amor marcantes na sua vida. Em ambas, contava-me ela a rir, eles apaixonaram-se por ela em circunstâncias muito particulares. «É tudo mentira, essa coisa das roupas, dos perfumes, dos cremes. Nunca estive tão feia. Da primeira, estava presa pela Frelimo, há dias, na Beira, Moçambique, sem saber o que me ia acontecer.». Desgrenhada, suja, assustada, viu passar aquele homem «magnífico» com quem trocou um olhar por entre as grades, pensando na sorte que tinha a pessoa que ele ia visitar e safar daquele inferno. Com efeito, era diplomata de outro país e estava precisamente a ultimar a libertação de uma conterrânea sua, cujo destino seria provavelmente o de ir para um «campo de reeducação pelo trabalho». Um inferno.

Ela, que ainda não tinha sido ainda visitada pelas autoridades portuguesas, já não tinha grandes dúvidas de que iria em breve para um desses «campos de reeducação». Provavelmente no Niassa ou em Tete. E foi então que soube que aquele homem com quem apenas trocara um olhar chamara a si, e à sua embaixada, a responsabilidade de a libertar. «O que é que ele viu em mim?» - contou-nos, anos depois, ainda estupefacta. Naquelas circunstâncias, era uma mulher de olhos grandes, castanhos, cabelos enovelados e apanhados de qualquer maneira, olheiras até ao pescoço, rosto macerado e as roupas num frangalho:

«Em dois dias tirou-me da cadeia e, provavelmente, salvou-me a vida». Evidentemente que se apaixonaram e amaram, mas a sua era uma história quase impossível. Apesar de tudo, ainda durou, com viagens intercontinentais a mitigar as saudades. O enredo, dava para um filme de Hollywood.

Tempos depois, voltara a Portugal, onde tinha já os pais, o filho bebé. E pusera-se a tratar do divórcio do primeiro marido que a deixara para trás com o argumento de que tu safas-te sempre e melhor do que eu. Dois anos mais tarde, desgrenhada e a pôr em ordem uma nova casa que acabara de alugar (no Alentejo), mais confortável do que o alojamento dos primeiros tempos, um bonitão bateu-lhe á porta. Recebeu-o de esfregona na mão, lenço na cabeça e má cara. Ele era filho dos donos da casa que ela alugara. Era médico. Solteiro. Cobiçadissimo por solteiras, casadas, viúvas e divorciadas: ao que consta. Trazia um recado dos pais dele - senhorios - para a inquilina. Ela nem se deu ao trabalho de o mandar entrar e quando ele se ofereceu para a ajudar, mandou-o dar uma curva.

E ele nunca mais a largou até casarem.

Foram felizes? Essa é toda uma outra história. Aqui, o que retenho é a forma como ela desvalorizava a obsessão que muitas mulheres tinham, e têm por uma suposta e inatingível perfeição, que hoje, aliás, atinge foros de loucura: «é a nossa personalidade que os fascina e o resto são tretas. Claro que perfumes e cremes e roupas é muito bom. Mas não é por aí.» - contou-me e recontou-me ela. Nesse tempo andava pelos quarentas, e era igual à actriz Susane Sarandon, de quem nunca tinha ouvido falar.

Acho que nunca a vi maquilhada, ou se vi foi muito pouco. Não perdia tempo em lojas, por falta de paciência, e o simples vocábulo «moda» dava-lhe para rir. Não fazia nada para chamar a atenção, sequer. Mas tinha um não sei o quê. Um amigo meu, muito mais novo do que ela, homossexual, disse-me pouco depois de a conhecer - «com uma mulher destas eu repensava as minhas preferências». Não acredito muito - porque o conheci bem. Mas tenho a certeza de que, naquela altura, ele estava a ser absolutamente sincero.

É que há algo de  obscuro, impalpável e imaterial no desejo que irrompe subitamente e se transforma em paixão ou adoração e, por vezes até, em amor. É de uma natureza demasiadamente volátil, extravagante, singular e maravilhosa que nenhuma essência consegue captar, nem nenhum vestido ou creme consegue capturar.

É que isto vem de dentro, e toca em todos os sentidos. É uma música. É uma grande, grande magia.
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