domingo, janeiro 11, 2015

A grande festa de ver gente a morrer

A crueldade e a estupidez, frutos da árvore da ignorância cultivada no horto do poder, não são privilégio de um povo ou de um espaço mental ou geográfico. Durante trezentos anos tivemos em espaço ibérico, portanto Europa, a linda festa de ir ver gente a morrer. Queimada. É que houve um tempo em que se morria no decorrer de espectáculos públicos, muito festivos e altamente concorridos, sob a acusação de cultuar outro deus. Ou de ironizar a seu respeito, pois a sátira levava gente à fogueira. Aqui. Em espaço europeu. Na Península Ibérica. Em Portugal. Quase que se pode dizer que foi anteontem. Ou ontem. Afinal, dois séculos, um século e meio, são pouca coisa na história dos povos com muita história escrita.

Recorde-se.

De 1480 a 1834 (Espanha) 1534 a 1821 (Portugal) funcionou uma instituição tida por modelar, responsável pela morte ritualizada de milhares e milhares de pessoas, pelo desaparecimento de muitas outras e pela conversão forçada ou expulsão dos reinos ibéricos de povos em massa. Mouros judeus ou gentios, estes sobretudo nos territórios ultramarinos, ou praticantes de outras fés, como os protestantes. Chamava-se Inquisição e com o tempo veio a tornar-se num verdadeiro Estado dentro do Estado, na asserção de que cumpriria desígnios divinos, utilizando todas as armas ao seu alcance para maior glória de Deus. Desde a oratória, à tortura nos cárceres ao público auto-de-fé. Mas sobre os procedimentos, todos os intervenientes eram compelidos a jurar segredo, dos réus aos executantes, passando por médicos, carpinteiros, parteiras, e todos os que tinham acesso aos cárceres, aos presos, aos processos. Quebrar tal segredo, pronunciado sobre os Evangelhos equivalia a cair sob a alçada do Santo Oficio.

O funcionamento da máquina era minuciosamente concebido. Exemplo: a primeira sessão, de genealogia, não elucida em nada o réu, posto que este não sabe de que é acusado, nem por quem. Pede-se-lhe que esquadrinhe a consciência e encontre as razões que o levaram aquela situação. É-lhe feito saber que o tribunal tem contra si provas eloquentes. Segue-se o total isolamento – o réu não fala com ninguém nem ninguém lhe dirige a palavra. E este indizível tormento moral e psicológico em breve dá lugar a outros procedimentos. A tortura física, que quebra corpos e consciências, e que nos cárceres do Santo Ofício complementa, com frequência, as sessões de interrogatório.


Francisco Rizzi, Auto da Fé, Praça Maior, Madrid, 1683, Museo del Prado, Madrid.
 
 
Castigos e suas aplicações culminavam em público espectáculo, rigorosamente cronometrado e ritualizado, ao qual todos eram convidados, compelidos a assistir. E era uma festa. Uma tremenda festa plena de alegria para os que só estavam a assistir.  «A morte pelo fogo dava lugar a uma festa» – a palavra é dos inquisidores – anunciado publicamente uma entre uma semana e um mês de avanço nas principais ruas e praças da cidade, ou nas redes de igrejas. As ruas ornamentava-se de bandeiras e grinaldas de flores, as varandas e janelas cobriam-se de tapetes. Havia comes e bebes e levavam-se as crianças, mesmo as mais pequenas que, por fim, subiam para os ombros dos progenitores a fim de ver o melhor do espectáculo. A parte dos corpos a arder nas fogueiras. E como os autos-da-fé duravam muitas vezes de sol a sol, junto do tablado coberto por um dossel vermelho, onde ficava o altar e os palcos para o rei, ou governador e outros notáveis laicos e religiosos, construíam-se urinóis para os convidados de honra.



A roupa diz tudo sobre o destino de cada um dos réus e suas condenações, num simbolismo gráfico acessível, que todos conseguem descodificar
O Iluminismo veio enfraquecer decididamente uma instituição já muito enfraquecida, até por falta de matéria-prima. Na verdade, as sátiras a partir do século XVIII, abundantemente propagandeadas fora do espaço ibérico, nomeadamente nos países Reformados, contribuíram decididamente para a enterrar. Não de vez, já que a Inquisição servia altos propósitos, dava emprego a muita gente e estas coisas não morrem de um dia para o outro. Desenhos satíricos e textos mordazes, porém, ferraram bem o dente neste horror. Já nos seus estertores, posta em questão toda a sua máquina, ainda Francisco Goya se viu a braços com ela por causa dos Caprichos, gravuras satíricas que atacavam o clero e a alta nobreza.


Francisco Goya, «Aqueles polbos...», série Caprichos, nº 23 (pormenor), 1799, obra delatada à Inquisição que viu no lema uma acusação dirigida não ao réu mas ao tribunal. O pintor, já nos princípios do século XIX chegou a temer tanto a Inquisição que suspendeu a venda das referidas gravuras que só foram reeditadas a parti de 1826.

Por cá, cerca de meio século antes, um escritor, dramaturgo, genial, foi queimado em praça pública, num dos últimos espectáculos inquisitoriais «dignos» desse epíteto. Chamava-se António José da Silva, nascera numa fazenda nos arredores do Rio do Janeiro (1705). De origem judaica era baptizado, mas juntamente com a sua família foi vitima da perseguição que, em 1712 dizimou a comunidade de cristãos-novos do Rio de Janeiro, já que sua mãe, Lourença Coutinho, acusada de judaizar foi deportada para o reino. O pai, o advogado e poeta João Mendes da Silva, decidiu então partir da Portugal para estar próximo da sua mulher, trazendo o pequeno António consigo. Este estudou direito na Universidade de Coimbra, e, interessado por dramaturgia escreveu uma sátira que o conduziu aos calabouços do Santo Oficio onde foi duramente torturado, a ponto de ficar inválido por algum tempo.

Tendo vindo a tornar-se o mais famoso dramaturgo português do seu tempo, António José da Silva viria novamente a ser preso pela Inquisição em 1737, nessa altura juntamente com  a mãe e a esposa, Leonor de Carvalho, as quais foram posteriormente libertadas. Uma vez mais torturado, e por fim, num processo altamente irregular até pelos cânones do Santo Oficio, O Judeu, como ainda hoje é conhecido, foi condenado à morte numa das públicas cerimónias tão concorridas como eram os autos-da-fé, em 1739. Um dos últimos, com estas características, em solo português, registe-se.



Alguma bibliografia
AA.VV., JewishEncyclopedia.com, [http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=2155&letter=A]
Antonio Puigblanch (1811) La inquisicion sin máscara: ó disertacion... [ebook, acesso livre)
AZEVEDO, J. Lúcio de, História dos Cristãos Novos Portugueses, (1975), Lisboa, 2ª ed., Livraria Clássica Editora.
BENNASSAR, Bartolomé, (1979), L’Inquisition Espagnole XV – XIXe Siècle, Paris, Hachette
BETHENCOURT, Francisco, (1994) História das Inquisições, Portugal, Espanha e Itália, Lisboa, Circulo de Leitores.
COELHO, António Borges, (1987) Inquisição de Évora, Dos Primórdios a 1668, Lisboa, Caminho, vols. 1 e 2.
GOTHEIL, Richard, (2002) Auto da Fé:, [http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=2155&letter=A]
GRIGULÉVITCH, Iossif, (1990) História da Inquisição, Editorial Caminho, Lisboa

 
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