sexta-feira, maio 05, 2017

Escravos e ouro: o mito de Salazar

Estou a reler o meu livro Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, para refrescar a memória e repescar notas de apoio. Fui convidada par um colóquio, cujo tema reservo. Infelizmente, na mesma data estou nas Raias Poéticas de Famalicão, como escritora convidada.  Como as duas investigadoras que me convidaram já não puderem alterar a data do evento, pediram-me uma contribuição por escrito que irá integrar as Actas ou o livro que daqui resultar. Dou-a com o maior prazer. A ignorância sobre esta época importantíssima da nossa história recente que aliás entronca na longa duração, é chocante. Ninguém imagina o que era, como era, porque era e como se passavam as coisas «lá». No tal Ultramar.

O que toda a gente sabe é posterior apoia-se em estereótipos e meias verdades. O racismo não «eclodiu» em África, onde supostamente éramos abanicados por pretos servis, que espancávamos com regularidade e que até nos metiam a comida nas bocas preguiçosas. O racismo começava aqui, no Terreiro do Paço, onde a tutela emanava leis que perpetuavam a ficção de um Portugal do Minho a Timor... mantendo bem apertadas as rédeas sobre a governação e a forma de a aplicar.

E porém, os portugueses não podiam ir para o ultramar sem autorização do governo, que a concedia com muita parcimónia... a menos que fossem enviados para lá como funcionários públicos, com contratos estabelecidos na metrópole; ou que recebessem uma carta de chamada, de um parente devidamente credenciado, a atestar por sua honra que necessitava dos bons serviços daquele familiar. Os militares, passando à reserva, podiam sem muitas delongas pedir para voltar ou ficar em África. Sendo, por outro lado, e durante séculos, uma colónia penal, os prisioneiros de delitos de sangue ou crimes políticos, acabando de cumprir a pena podiam ficar na terra, e muitos ficavam. Estou a referir especificamente o caso moçambicano, mas em Angola não era muito diferente. Em todo o caso, não estudei a fundo esses aspectos aí.

Acrescente-se que falamos de um Portugal onde a moeda não era a mesma e não podia circular fora das suas fronteiras. Dito de outra forma: mandar escudos dos territórios ultramarinos para a metrópole? Só com motivos bem justificados. Questões de saúde, educação dos filhos universitários, coisas assim. Até porque o escudo local não tinha valor fora do seu território, a não ser nos países de proximidade como a África do Sul de onde vinha o ouro em barras que pagava ao governo português o trabalho semiescravo dos moçambicanos nas minas do Transvaal. Sim, pessoal. O esclavagismo começava na sede do Império. O mesmo Império que permitia uma grande liberdade às grandes companhias, essas sim com muita margem de manobra... inclusivamente  para explorar brutalmente os seus trabalhadores africanos, começando por lhes tirar as terras, ou por os obrigar a cultivar algo que não lhes dava lucro, nem lhes permitia a pequena agricultura de sobrevivência. Sem falar no papel equívoco da Igreja, quase sempre do lado dos que mandam.

Ouro, sim: vinha em lingotes, directamente da África do Sul para Lisboa, para o Banco de Portugal. A ficção de um Salazar excelente economista que deixou os cofres a abarrotar de ouro, cai por terra quando se sabe de onde veio esse maná e a que preço... Deste modo, a Metrópole sossegava à sombra das muitas bananeiras africanas para onde exportava os seus produtos, sem qualquer concorrência. A tal ponto que, por exemplo, plantar uma vinha em África dava direito a processo crime. Com multa e eventualmente prisão. Vinho, só podia haver um. O deste país pequenino, cuja indústria obsoleta vivia das matérias-primas do Ultramar, que não podiam exportá-las, nem, tão pouco, transformá-las. A Guerra Colonial, ao fim de uns anos, veio alterar este estado de coisas. Mas já não foi a tempo.

Não são apenas as minhas memórias a falar. São os trabalhos académicos que já existem e já são suficientes para desmistificar estas e outras ficções. A começar pelo mito injusto e imbecil que faz dos brancos que viveram em África uma cambada de exploradores de pretos, e dos brancos que ficaram na metrópole umas vítimas imaculadas da ganância dos primeiros. É que todos comeram da mesma «gamela» e bons e maus não têm denominação de origem. Há-os, houve-os em todo o lado. Acima de tudo, África foi a grande teta do regime e todos mamaram desse leite, directa ou indirectamente. População metropolitana incluída e à cabeça, porque a moeda forte do regime devem-no ao Ultramar. Isso e a manutenção de uma indústria no geral aterosclerótica. Para que mudar as coisas, se o mercado importador, Angola e Moçambique à cabeça, estava garantido?

Claro que as pessoas cá tinham era uma vida muito mais chata, com muito menos horizontes. Foi por isso que a proverbial inveja lusitana se fez ouvir mais alto nos primeiros tempos da breve e tão longa hora do Regresso. Depois, o melhor de nós todos veio ao de cima.

Não nos esqueçamos também que por cá vigorava a exploração dos pretos da Europa, como eram chamados os portugueses que, pela lei da fome fugiam do país a salto e iam «construir as cidades dos outros». Mas se tiveram de fugir para ganhar a vida e matar a fome, e eram presos se fossem apanhados na sua miserável e tristíssima fuga, já o dinheiro que enviavam para a pátria era muito bem acolhido, pois tratavam-se de divisas que representavam um autêntico maná para a economia nacional. Lembro-me como eram saudados quando voltavam. Com risos de troça (os carros que traziam, que horror! E as roupas... e as casas que começaram a construir, ahahahah). Ou com um profundo desprezo, se viessem de mãos a abanar.

Eu tinha 12 anos quando saí de Portugal e uma memória afiadíssima. Foi aqui, no rincão natal, que assisti às primeiras exploração da pessoa pela pessoa. E foi cá que presenciei o racismo, não de cor de pele, mas de estatuto social. Recordo, por exemplo, as linhas de fronteira bem demarcadas, a primeira das quais e a mais vincada começava por separar o campo da cidade. E está tudo dito, quando 80 por cento da população era, então, rural... Alguém se lembra deles? Digo, dos emigrantes a que a Europa chique chamava os «pretos» do velho continente?  Alguém lhes fez alguma vez a homenagem que merecem?

Falemos então dos outros. Dos «esclavagistas». Como fizeram questão, na longa e breve hora do Regresso, de nós chamar a todos nós. Mas ao menos, fale-se com conhecimento de causa. A começar pelo estatuto que os pretos auferiam. Afinal, eram meros indígenas, sem nacionalidade portuguesa. E isso também era regulamentado e ferreamente  no Terreiro do Paço, assim como os obstáculos ao seu acesso à educação. E  há tanto mais para dizer, mas guardo para a minha participação. De resto, está tudo no meu livro. Deixo o saboroso relato da nossa chegada à África profunda:

A minha mãe, Maria Leonor Vieira Paixão, pianista, professora de música e canto-coral, em 1963 quando fomos para África

O Império, onde viajámos de Lisboa a Nacala



O escudo não era o mesmo


DE NACALA AO CATUR
Dali [Ilha de Moçambique] seguimos para Nacala, onde chegámos a 28 de setembro, entrando na imensa baía de Fernão Veloso e aportando no cais, desolador para quem tinha contemplado os portos fervilhantes de movimento e gente como os de Luanda, Cidade do Cabo, Lourenço Marques e Beira. Na verdade, era agora que ia começar a nossa viagem africana. Para trás, o conforto e o luxo do Império, onde tantas demonstrações de carinho nos tinham sido prodigalizadas. O comandante Vasconcellos fez-nos acompanhar por elementos da tripulação até ao comboio que saía ali do porto, e que nos levaria de Nacala ao Catur. Antes, tinha dado ordens para que das cozinhas nos providenciassem um maravilhoso farnel, que vinha acomodado em dois cestos de verga, com guardanapos, pratos, copos, talheres e tudo, mau grado os protestos da nossa mãe que lhe assegurava não ser preciso, já que, quando tivéssemos fome, íamos ao «wagon-restaurante».
— Senhora dona Maria Leonor: estamos em África. Acredite que isto vai ser muito útil, a si e aos seus filhos.
O dia estava quentíssimo quando entrámos no comboio do Catur, ocupando uma duvidosa «primeira classe» composta por umas poucas carruagens velhas. O revisor, uma pessoa maravilhosa, pois preocupou-se com o nosso bem-estar ao longo de toda aquela longuíssima viagem, veio acomodar-nos no pequeno gabinete de bancos estofados em couro gasto, aqui e além queimado de pontas de cigarro, prometendo vir amiúde saber se estava tudo bem com o grupinho extravagante que nós éramos. Uma senhora no seu saia-casaco de linho cru, blusa de seda creme às pintinhas pretas com laço, e quatro crianças muito bem vestidas, mas cuja roupa em breve ficaria amarfanhada e, sobretudo, muito suja das fagulhas que a locomotiva vomitava incessantemente.
— Senhor revisor, a que horas servem as refeições?
— Quais refeições, minha senhora?
Não havia, como o nosso comandante estava fartíssimo de saber, nenhuma carruagem restaurante, e muito menos algo que remotamente se pudesse chamar «bar». Cada um amanhava-se com o que trazia. Abençoadamente, os cestos revelaram frutas de várias espécies, muito bem-acondicionada e em quantidade. Garrafas de água e de sumos. Empadas, sanduíches, queijos fatiados, pães acabados de sair dos fornos das cozinhas do Império, frangos assados e trinchados, bolos, bolachas, e sei lá mais o quê. Sem este abundante farnel, teríamos passado muita fome e muita sede, embora o prazo de validade da maior parte dos alimentos fosse curto, pois a estação quente começara, embora as chuvas só viessem a partir de outubro.
E assim seguimos de Nacala para o Catur, num comboio de filmes de cobóis[1], puxado por uma asmática locomotiva a vapor, que subia as serras a passo de caracol sobre uma linha férrea tão estreita que parecia feita de carris de elétricos. Por vezes, num troço mais íngreme, os passageiros tinham de sair para a locomotiva conseguir arrastar as composições atrás de si. Como íamos em primeira classe, nunca tal nos solicitaram, mas, sempre que o comboio parava, a nossa cabine enchia-se de africanos. Não nos faziam mal, mas era assustador. Entravam por ali dentro a rir, falando entre si enquanto apontavam para nós, criaturas tão bizarras, e chegavam a mexer-nos nos cabelos. Outros, da plataforma das estações, debruçavam-se para dentro das janelas, nos mesmos propósitos, motivo pelo qual passámos a viajar de janela fechada, apesar do calor intenso que fez durante o resto do dia, e se prolongou pela noite dentro.
Foi então que o revisor veio pedir à mãe autorização para nos trancar pelo lado de fora (por dentro não era possível), para que não continuássemos a ser incomodados. Querido senhor que, amiúde, vinha confirmar se estávamos bem, ou se precisávamos de ir à casa de banho, uma espelunca onde todo o cuidado era pouco para não tocar em quase nada.
Por fim, chegámos à bela cidade de Nampula, profusamente ajardinada, capital do distrito do mesmo nome, onde nos instalámos num hotel. Que prazer, aquele duche interminável, a roupa lavada, o jantar numa sala a sério, com mesas, toalhas e comida acabada de fazer, as camas tão limpas, as ventoinhas no teto, onde pudemos enfim dormir sem sobressaltos. No dia seguinte, voltámos para o comboio que nos levou de Nampula, passando por Ribaué, Malema, Nova Freixo (atualmente Cuamba) até ao Catur, hoje Itepela. Ali nos aguardava a camioneta indescritível onde iríamos fazer o último troço da nossa viagem até Vila Cabral. Foram oito horas, salvo erro, aos saltos e aos solavancos por uma picada de terra vermelha, fissurada pelo calor, rasgada no dorso dos montes de uma serra que se contorcia e não parava de subir.
Oito horas intermináveis.
 [...] 





[1] Encontrei descrições deste comboio e desta viagem em Eduardo Maria Nunes, Batalhão de Caçadores, http://batalhaodecacadores598.blogspot.pt/2010/03/navio-patria-de-lisboa-nacala.html. Outra boa descrição em «O Comboio do Catur», CCAV Companhia de Cavalaria 2415 — Moçambique 1968/1970, http://ccav2415.blogspot.pt/2009/09/o-comboio-do-catur.html (consultado a 9/05/2013).