terça-feira, agosto 12, 2008

Era uma vez muita gente

Era uma vez muita gente que emergiu do ilimitado mar das probabilidades, lá onde mora o gato na sua caixa com dois furos, para o esquisso de uma sala que o pintor ele encontrou, resgatando assim criaturas espantadas e hirtas, sangrando amarelos, encarnados, azuis e ocres, por cadeiras, sofás e longos reposteiros, um tapete grande, sim, e um lustre de cristal pendurado no tecto. Muita gente estava calada, no silêncio atroz da música opaca das suas pequenas conversas, a que três holoférnicas cabeças prestavam atenção discreta, enquanto o rato-pessoa e a pequena raposa-babu, muito bem vestidos, olhavam para o pintor ele. Tinham vindo todos agarrados ao esboço dos móveis Olaio e chegaram à tela quase ao mesmo tempo. Havia tantos. Um deles ainda jorrava pequenas cabeças da sua própria grande cabeça. Era o pancreator. Ao lado, a sua estática consorte. Depois, o pintor ele fechou o portal. Em todo o caso, derramou muitas cores para que muita gente ficasse viva. Os animais também. As cabeças cortadas também. Um dia chamou o escritor ela para que os visse. “Para mim, isto é o salão. Não é uma festa, é um encontro.” Explicou. O escritor ela respondeu: “muita gente está aqui”. Depois perguntou-lhe pelas cabeças sobre a bandeja. Depois quis saber do rato-pessoa e da raposa-babu, porque lhe pareceu que estes últimos eram o ponto de partida do jogo, e as três primeiras, as testemunhas do drama. Não por terem sido cortadas – pareciam bem tranquilas em relação a esse facto – mas porque muita gente não conseguia sair. Depois disse-lhe: este salão é uma armadilha. Muita gente ficou presa nela.
Se o pintor ele já o sabia, calou-se. É que depois houve um cavalo. O cavalo. Tinha asas. Também estava preso no último andar, mesmo por cima do salão. Muita gente o ouvia a bater os cascos de ouro no chão de madeira corrida. Impaciente e desesperado. Mas ninguém ousava abrir-lhe a porta. A quimera alada traz a maldição do interdito. Arrasta o seu ousado libertador para lugares onde a realidade muda a todos os instantes, rasgando no seu voo abrupto o delicado equilíbrio entre as onze dimensões. O pintor ele disse: é preciso uma alma forte? É que eu não tenho medo do escuro, mas o escritor ela respondeu: o mais importante é uma atenção sem falhas na fluidez desses espaços onde o tempo deixa de existir, deus sabe como isso pode ser cansativo. Se não o quê? O cavalo larga o cavaleiro e o cavaleiro perde-se. Ah, sim? Sim. E depois? Depois, como encontrar o caminho de volta num mundo sempre a mudar de forma, e onde o tempo não conta para nada? Pois é exactamente por isso – disse o pintor ele – que abri a porta ao cavalo. E depois? Só tive tempo de dizer I want to go with you. A seguir, a chave caiu-lhe da mão, toda manchada de verde, num campo de flores, mas o formidável coice que recebeu nos rins doeu-lhe muito menos do que todos aqueles beijos que lhe partiram o coração. Isso foi o que disse o pintor ele. De modo que em tudo isto há uma viagem e um desígnio muito misteriosos. O tecido da realidade foi rasgado e estas telas provam-no. Há outros testemunhos, mas são do reino do indizível. Como as cordas vibrantes e sonoras, filamentos neuronais do cosmos, que manifestamente ligam todos os seres em Constelações. Ou como estes peixes que nadam sob montanhas cor-de-rosa – onde emerge a árvore – sobre as quais voam os pássaros em que aqueles se vão transformar. Ou será ao contrário? No fim, todos se encontram no mesmo delírio de uma meditação búdica, ela própria a divagação da mente atenta, acordada e lúcida. Algo a que andy and evelyne before eating an apple pie, na floresta edénica, com pássaros voando sobre os seus rostos estáticos, não são alheios: muita gente rodeia-os. É o friso fatal das descendências. No fim da viagem, o pintor ele soube reconhecer que estava perdido. O cavalo fora-se. Em todo o caso, já não precisavam um do outro. Como é evidente, os registos tinham mudado. Já não havia salão, mas uma sala de banquete. Muita gente tinha-se ido embora. Só restavam os animais. Lewis Carroll conhece alguns deles. E não se falava de corações partidos, mas de ressacas pós românticas, um eufemismo para “euforia disfarçada”. Tudo podia acontecer. De novo. O pintor ele cavalgara a imensa flecha do êxtase.
Manuela Gonzaga,
texto do catálogo de Ivo Moreira, Agosto 2008
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