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quarta-feira, agosto 16, 2017

Al Berto para sempre

O Vicente do Ó realizou um filme que foca a vida do poeta Al Berto no ano solar de 1975 que vai estrear brevemente. Conhecemo-nos por um acaso «milagroso» e por uma soma de coincidências. Ele encontrou registos dessa época num texto meu, neste blogue. Mais tarde, levou à cena uma peça de teatro sobre António Variações, biografado por mim (a única bio historiográfica e extensiva que existe deste ícone pop português). Estamos assim ligado por fios luminosos de imagens, palavras, acção, a duas figuras ímpares do nosso século XX. Acrescente-se que eu conheci os dois, António Variações e Alberto Pidwell, em cujo palácio vivi nesse inesquecível ano de 1975. E Vicente do Ó é, simplesmente, o irmão mais novo do grande amor de Alberto, João Maria do Ó. Grande, sim. Fui testemunha de quão intensa, fulgurante e bela foi a história de amor entre ambos. Quem melhor do que Vicente, que já recuperou a memória de outra grande, Florbela Espanca no cinema português, e cresceu a conhecer, a privar com o poeta, com os dois poetas, para levá-lo ao grande ecrã?

Partilho um texto (facebook) que evoca, muito parcialmente, essa época em que vivíamos no Palácio Pidwell. E duas fotos preciosas. Numa delas,  a única que consegui conservar, revejo  Al Berto que todos conhecem, e João do Ó, que já foi publicado postumamente pelo irmão, o realizador do filme que todos aguardamos. E eu?

Junto memórias, sou tecelã de palavras. Que vida. Há que vivê-la, há que contá-la.

terça-feira, maio 30, 2017

África o ir e o voltar


Em Outubro de 1975, encontrava-me a viver em Sines, no Palácio Pidwell, quando escrevi o meu primeiro poema, «África». De rajada, ao longo de uma noite muito escura. Dias depois, li-o ao  Al Berto e ao João do Ó. Nesses tempos, trocávamos poemas, palavras, projectos e bebíamos o bom vinho alentejano com que brindávamos a todos os futuros. Depois, nunca falei desses tempos, nunca escrevi sobre esses tempos, e não mostrei o poema a mais ninguém. Retomo-o agora, porque me parece adequado como ponto de partida para este Encontro, nas Raias Poéticas de Famalicão.

África



I

O tempo deixou-me este gosto na pele, este calor na alma,
Um nó na garganta, as mãos vazias, o corpo nu. Em carne viva.
Tatuagens de recordações, espalho-as no chão, à minha volta
Há gritos de sereia num porto e eu lambo cinzas.
Ainda estão quentes.

Onde estão todos?

Paredes nuas.
Colares de missangas vermelhas, colares de missangas negras
Um bater surdo de tambores.
Árvores dos tempos do primeiro Tempo.
E templos e véus e estradas escondidas sob o mato denso de silvas
Como puderam esconder tamanho esplendor?
Fiz-me à estrada cega e perdi-me.
Perdemo-nos todos
Uns dos outros

II

Andamos juntos e ainda não te vi o rosto.
Amei-te, e eras sempre diferente.
E contudo... se soubesses por onde te procurei.

Ouves o meu grito?

Esperei sempre que me dissesses na concha do meu ouvido:
Somos os marinheiros e o mar e o navio. Somos a tempestade e o sono.
Sonho.
Queria dizer-te isto:

Viver é amar cada segundo como se fosse o último,
Mas não é sempre assim.
Gosto de redes e de laços. Gosto de anéis.
Gostava de não gostar. 
Gostava de já não gostar.

III


Depois de enterrar os mortos 
Esqueci o local das sepulturas.
Às vezes ainda lá vou
Queimar imagens de deuses
numa lareira que nem existe,
E ouço-me
A chamar por eles.
E fico
De mãos feridas a escavar palavras e silêncios.
Procuro, procuro.
Penso: para onde vamos meu amor?

Volto sempre.
Da soleira da porta vejo-te acenar-me
Quando me viro,
Com as mãos em concha,
Protejo-me da luz para te ver bem
Antes que a estrada me engula.
Penso: porque não me prendeste
com laços e anéis nas redes dos teus braços adormecidos?
Então, volto
Sempre à espera
De ti.
Esvazio-me
E penso: quem és tu?

IV

Mar manso, mar manso…
Pescador da Ilha, onde estão as minhas redes?
No vento da tarde soltei os ramos
Na Primavera abri a copa das árvores
Chovia e entraste no meu tronco.
Tremias.
Disseste:
Tenho tanto medo. Tenho tanto medo.

Adormecemos.
Quando acordei os sons que se evaporavam da terra eram ocres,
E havia tanto fumo.
E havia tanto fogo.
E havia tanta dor.
E havia eu
Enredada em meus caminhos para lado nenhum.
Amortalhando os sete sentidos incluindo o tacto
Sondando rostos fechados diante de casas sem portas nem janelas, nem ninguém.
Eu e o meu medo insone asfixiando-me em abraços de amante obsessivo
Às vezes, o som dos sinos amansava a tarde,
Mas por muito pouco tempo.
À noite, não conseguia ouvir bater o coração escuro do mundo:
Falavam todos muito alto.
Pareciam perdidos e riam
Nem perceberam que me fui embora…

V

Quero estar só.
Quero esta solidão indizível para te encontrar amor,
Caleidoscópio de rostos, mil faces a tua,

quero saber o teu nome!

Quero rasgar tanta coisa,
Afastar estes véus, estes véus...
Regressar aos braços negros que abraçam a Terra inteira.
Farejar o teu cheiro nas flores de sangue, tão vivas dentro das suas pétalas mortas,
Enrolar-me em teu regaço denso escuro e cálido, 
Oh Mãe!
Pousar o fardo das memórias de tanto desencontro 
E recordar
Todos os teus nomes
Todos os teus corpos 
 Todos os teus cheiros 
Todos os teus sabores 
Todos os teus sons
E dizer-te:
Voltei de lado nenhum para entrar na roda das antiquíssimas danças
Ao som dos tambores da noite que tocam sob céus esmaltados de chamas.
Abraça-me muito oh Mãe de todos!
E seca o meu pranto de acabada de nascer
Porque 
pesa tanto...
O estômago vazio,
O saco vazio 
Do vagabundo,
A alma solta de quem viaja,
Este amor que sinto, esta dor que tenho,
Chamei-te tantas vezes.
Tantas vezes.
Tantas vezes.

Se ao menos soubesses como te amo.

(Manuela Gonzaga, Sines, Outubro de 1975.)

sexta-feira, maio 05, 2017

Escravos e ouro: o mito de Salazar

Estou a reler o meu livro Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, para refrescar a memória e repescar notas de apoio. Fui convidada par um colóquio, cujo tema reservo. Infelizmente, na mesma data estou nas Raias Poéticas de Famalicão, como escritora convidada.  Como as duas investigadoras que me convidaram já não puderem alterar a data do evento, pediram-me uma contribuição por escrito que irá integrar as Actas ou o livro que daqui resultar. Dou-a com o maior prazer. A ignorância sobre esta época importantíssima da nossa história recente que aliás entronca na longa duração, é chocante. Ninguém imagina o que era, como era, porque era e como se passavam as coisas «lá». No tal Ultramar.

O que toda a gente sabe é posterior apoia-se em estereótipos e meias verdades. O racismo não «eclodiu» em África, onde supostamente éramos abanicados por pretos servis, que espancávamos com regularidade e que até nos metiam a comida nas bocas preguiçosas. O racismo começava aqui, no Terreiro do Paço, onde a tutela emanava leis que perpetuavam a ficção de um Portugal do Minho a Timor... mantendo bem apertadas as rédeas sobre a governação e a forma de a aplicar.

E porém, os portugueses não podiam ir para o ultramar sem autorização do governo, que a concedia com muita parcimónia... a menos que fossem enviados para lá como funcionários públicos, com contratos estabelecidos na metrópole; ou que recebessem uma carta de chamada, de um parente devidamente credenciado, a atestar por sua honra que necessitava dos bons serviços daquele familiar. Os militares, passando à reserva, podiam sem muitas delongas pedir para voltar ou ficar em África. Sendo, por outro lado, e durante séculos, uma colónia penal, os prisioneiros de delitos de sangue ou crimes políticos, acabando de cumprir a pena podiam ficar na terra, e muitos ficavam. Estou a referir especificamente o caso moçambicano, mas em Angola não era muito diferente. Em todo o caso, não estudei a fundo esses aspectos aí.

Acrescente-se que falamos de um Portugal onde a moeda não era a mesma e não podia circular fora das suas fronteiras. Dito de outra forma: mandar escudos dos territórios ultramarinos para a metrópole? Só com motivos bem justificados. Questões de saúde, educação dos filhos universitários, coisas assim. Até porque o escudo local não tinha valor fora do seu território, a não ser nos países de proximidade como a África do Sul de onde vinha o ouro em barras que pagava ao governo português o trabalho semiescravo dos moçambicanos nas minas do Transvaal. Sim, pessoal. O esclavagismo começava na sede do Império. O mesmo Império que permitia uma grande liberdade às grandes companhias, essas sim com muita margem de manobra... inclusivamente  para explorar brutalmente os seus trabalhadores africanos, começando por lhes tirar as terras, ou por os obrigar a cultivar algo que não lhes dava lucro, nem lhes permitia a pequena agricultura de sobrevivência. Sem falar no papel equívoco da Igreja, quase sempre do lado dos que mandam.

Ouro, sim: vinha em lingotes, directamente da África do Sul para Lisboa, para o Banco de Portugal. A ficção de um Salazar excelente economista que deixou os cofres a abarrotar de ouro, cai por terra quando se sabe de onde veio esse maná e a que preço... Deste modo, a Metrópole sossegava à sombra das muitas bananeiras africanas para onde exportava os seus produtos, sem qualquer concorrência. A tal ponto que, por exemplo, plantar uma vinha em África dava direito a processo crime. Com multa e eventualmente prisão. Vinho, só podia haver um. O deste país pequenino, cuja indústria obsoleta vivia das matérias-primas do Ultramar, que não podiam exportá-las, nem, tão pouco, transformá-las. A Guerra Colonial, ao fim de uns anos, veio alterar este estado de coisas. Mas já não foi a tempo.

Não são apenas as minhas memórias a falar. São os trabalhos académicos que já existem e já são suficientes para desmistificar estas e outras ficções. A começar pelo mito injusto e imbecil que faz dos brancos que viveram em África uma cambada de exploradores de pretos, e dos brancos que ficaram na metrópole umas vítimas imaculadas da ganância dos primeiros. É que todos comeram da mesma «gamela» e bons e maus não têm denominação de origem. Há-os, houve-os em todo o lado. Acima de tudo, África foi a grande teta do regime e todos mamaram desse leite, directa ou indirectamente. População metropolitana incluída e à cabeça, porque a moeda forte do regime devem-no ao Ultramar. Isso e a manutenção de uma indústria no geral aterosclerótica. Para que mudar as coisas, se o mercado importador, Angola e Moçambique à cabeça, estava garantido?

Claro que as pessoas cá tinham era uma vida muito mais chata, com muito menos horizontes. Foi por isso que a proverbial inveja lusitana se fez ouvir mais alto nos primeiros tempos da breve e tão longa hora do Regresso. Depois, o melhor de nós todos veio ao de cima.

Não nos esqueçamos também que por cá vigorava a exploração dos pretos da Europa, como eram chamados os portugueses que, pela lei da fome fugiam do país a salto e iam «construir as cidades dos outros». Mas se tiveram de fugir para ganhar a vida e matar a fome, e eram presos se fossem apanhados na sua miserável e tristíssima fuga, já o dinheiro que enviavam para a pátria era muito bem acolhido, pois tratavam-se de divisas que representavam um autêntico maná para a economia nacional. Lembro-me como eram saudados quando voltavam. Com risos de troça (os carros que traziam, que horror! E as roupas... e as casas que começaram a construir, ahahahah). Ou com um profundo desprezo, se viessem de mãos a abanar.

Eu tinha 12 anos quando saí de Portugal e uma memória afiadíssima. Foi aqui, no rincão natal, que assisti às primeiras exploração da pessoa pela pessoa. E foi cá que presenciei o racismo, não de cor de pele, mas de estatuto social. Recordo, por exemplo, as linhas de fronteira bem demarcadas, a primeira das quais e a mais vincada começava por separar o campo da cidade. E está tudo dito, quando 80 por cento da população era, então, rural... Alguém se lembra deles? Digo, dos emigrantes a que a Europa chique chamava os «pretos» do velho continente?  Alguém lhes fez alguma vez a homenagem que merecem?

Falemos então dos outros. Dos «esclavagistas». Como fizeram questão, na longa e breve hora do Regresso, de nós chamar a todos nós. Mas ao menos, fale-se com conhecimento de causa. A começar pelo estatuto que os pretos auferiam. Afinal, eram meros indígenas, sem nacionalidade portuguesa. E isso também era regulamentado e ferreamente  no Terreiro do Paço, assim como os obstáculos ao seu acesso à educação. E  há tanto mais para dizer, mas guardo para a minha participação. De resto, está tudo no meu livro. Deixo o saboroso relato da nossa chegada à África profunda:

A minha mãe, Maria Leonor Vieira Paixão, pianista, professora de música e canto-coral, em 1963 quando fomos para África

O Império, onde viajámos de Lisboa a Nacala



O escudo não era o mesmo


DE NACALA AO CATUR
Dali [Ilha de Moçambique] seguimos para Nacala, onde chegámos a 28 de setembro, entrando na imensa baía de Fernão Veloso e aportando no cais, desolador para quem tinha contemplado os portos fervilhantes de movimento e gente como os de Luanda, Cidade do Cabo, Lourenço Marques e Beira. Na verdade, era agora que ia começar a nossa viagem africana. Para trás, o conforto e o luxo do Império, onde tantas demonstrações de carinho nos tinham sido prodigalizadas. O comandante Vasconcellos fez-nos acompanhar por elementos da tripulação até ao comboio que saía ali do porto, e que nos levaria de Nacala ao Catur. Antes, tinha dado ordens para que das cozinhas nos providenciassem um maravilhoso farnel, que vinha acomodado em dois cestos de verga, com guardanapos, pratos, copos, talheres e tudo, mau grado os protestos da nossa mãe que lhe assegurava não ser preciso, já que, quando tivéssemos fome, íamos ao «wagon-restaurante».
— Senhora dona Maria Leonor: estamos em África. Acredite que isto vai ser muito útil, a si e aos seus filhos.
O dia estava quentíssimo quando entrámos no comboio do Catur, ocupando uma duvidosa «primeira classe» composta por umas poucas carruagens velhas. O revisor, uma pessoa maravilhosa, pois preocupou-se com o nosso bem-estar ao longo de toda aquela longuíssima viagem, veio acomodar-nos no pequeno gabinete de bancos estofados em couro gasto, aqui e além queimado de pontas de cigarro, prometendo vir amiúde saber se estava tudo bem com o grupinho extravagante que nós éramos. Uma senhora no seu saia-casaco de linho cru, blusa de seda creme às pintinhas pretas com laço, e quatro crianças muito bem vestidas, mas cuja roupa em breve ficaria amarfanhada e, sobretudo, muito suja das fagulhas que a locomotiva vomitava incessantemente.
— Senhor revisor, a que horas servem as refeições?
— Quais refeições, minha senhora?
Não havia, como o nosso comandante estava fartíssimo de saber, nenhuma carruagem restaurante, e muito menos algo que remotamente se pudesse chamar «bar». Cada um amanhava-se com o que trazia. Abençoadamente, os cestos revelaram frutas de várias espécies, muito bem-acondicionada e em quantidade. Garrafas de água e de sumos. Empadas, sanduíches, queijos fatiados, pães acabados de sair dos fornos das cozinhas do Império, frangos assados e trinchados, bolos, bolachas, e sei lá mais o quê. Sem este abundante farnel, teríamos passado muita fome e muita sede, embora o prazo de validade da maior parte dos alimentos fosse curto, pois a estação quente começara, embora as chuvas só viessem a partir de outubro.
E assim seguimos de Nacala para o Catur, num comboio de filmes de cobóis[1], puxado por uma asmática locomotiva a vapor, que subia as serras a passo de caracol sobre uma linha férrea tão estreita que parecia feita de carris de elétricos. Por vezes, num troço mais íngreme, os passageiros tinham de sair para a locomotiva conseguir arrastar as composições atrás de si. Como íamos em primeira classe, nunca tal nos solicitaram, mas, sempre que o comboio parava, a nossa cabine enchia-se de africanos. Não nos faziam mal, mas era assustador. Entravam por ali dentro a rir, falando entre si enquanto apontavam para nós, criaturas tão bizarras, e chegavam a mexer-nos nos cabelos. Outros, da plataforma das estações, debruçavam-se para dentro das janelas, nos mesmos propósitos, motivo pelo qual passámos a viajar de janela fechada, apesar do calor intenso que fez durante o resto do dia, e se prolongou pela noite dentro.
Foi então que o revisor veio pedir à mãe autorização para nos trancar pelo lado de fora (por dentro não era possível), para que não continuássemos a ser incomodados. Querido senhor que, amiúde, vinha confirmar se estávamos bem, ou se precisávamos de ir à casa de banho, uma espelunca onde todo o cuidado era pouco para não tocar em quase nada.
Por fim, chegámos à bela cidade de Nampula, profusamente ajardinada, capital do distrito do mesmo nome, onde nos instalámos num hotel. Que prazer, aquele duche interminável, a roupa lavada, o jantar numa sala a sério, com mesas, toalhas e comida acabada de fazer, as camas tão limpas, as ventoinhas no teto, onde pudemos enfim dormir sem sobressaltos. No dia seguinte, voltámos para o comboio que nos levou de Nampula, passando por Ribaué, Malema, Nova Freixo (atualmente Cuamba) até ao Catur, hoje Itepela. Ali nos aguardava a camioneta indescritível onde iríamos fazer o último troço da nossa viagem até Vila Cabral. Foram oito horas, salvo erro, aos saltos e aos solavancos por uma picada de terra vermelha, fissurada pelo calor, rasgada no dorso dos montes de uma serra que se contorcia e não parava de subir.
Oito horas intermináveis.
 [...] 





[1] Encontrei descrições deste comboio e desta viagem em Eduardo Maria Nunes, Batalhão de Caçadores, http://batalhaodecacadores598.blogspot.pt/2010/03/navio-patria-de-lisboa-nacala.html. Outra boa descrição em «O Comboio do Catur», CCAV Companhia de Cavalaria 2415 — Moçambique 1968/1970, http://ccav2415.blogspot.pt/2009/09/o-comboio-do-catur.html (consultado a 9/05/2013).

segunda-feira, abril 06, 2015

Lolita Miausótis

É a história desta gata que entrou nas nossas vidas há menos de um ano. Como me chamava da forma mais sedutora que se possa imaginar, e como era minúscula e graciosa, apesar de adulta, chamei-lhe Lolita. Depois, pelo seu miauuuuu de arrasar corações, juntei-lhe o blue da flor. Ficou Miausótis. 

Lolita Miausótis (foto Marta Gonzaga)

Do mural do meu facebook para aqui:

«Entrou nas nossas vidas com patinhas de veludo e um miau de derreter corações. Chamava-me para que a afagasse. Só. E assim foi, durante uns dias. Quando lhe levei, também, comida, aceitou da primeira vez nitidamente para não fazer a desfeita. Da segunda nem olhou. E à terceira virou-me as costas e foi-se embora muito digna, de rabo no ar, a olhar por cima do ombro e palavra de honra que até fez 'pfffff'' de desdém. Então não se estava mesmo a ver que só queria ser mimada, e pronto? 

Garantido esse ritual diário, ao fim de umas semanas, duas ou três, passou finalmente a aceitar comida das minhas mãos para o pratinho que mantém até hoje. Pouco tempo mais tarde, começou a saltar-nos para o colo e de lá para a nossa vida. Não é nossa. Gatos não são propriedade alheia. Mas tornou-nos dela. Ficámos da tribo. Em casa, já entra e sai. E fica. E dorme. E enrosca-se. Pôs o Timóteo na ordem, e duplicou o tamanho em menos de seis meses, porque já come aqui e come muito bem. Antes, assaltava a comida dos gatos domésticos dos jardins em redor. E pendurava-se nas cordas da roupa da Ana, que vive ao lado, a exigir a sua parte nas refeições, miando desalmadamente. 

Em todo o caso, era muito pequenina, muito frágil e muito arisca. 

Mas agora, os gatos grandes silvestres das redondezas, que a atacavam em refregas brutais - vox populi das janelas - têm um medo dela que se pelam. Ela correu com eles do seu território - que é uma faixa alargada de quintais arborizados e floridos, muros altos e escadas de incêndio. No mais, é uma sedutora adorável. 

A nossa Lolita Miausótis.


Nota: O dono anterior - porque o teve - infertilizou-a felizmente. Mas o senhor morreu, e ela nao gostou da casa e do cuidador que lhe sucedeu. Veio para a rua. Uma rua toda feita de muros altos a esconderem os nossos secretos jardins e quintais floridos. Como diz a Ana «fez uma opçao de vida». Até nos encontrar e ter decidido que íamos ser dela. Outra opção de vida. 




domingo, janeiro 25, 2015

LE PETIT SOLDAT NE REVIENDRA PAS

Como prometi a alguns leitores, deixo aqui um capítulo de Mozambique pour que ma mère se souvienne na tradução exemplar de Laure Collet. Reflexões da escritora e historiadora que sou sobre as memórias que a menina que fui guardou de uma vida quotidiana em tempos e cenários de guerra e paz. Quando rotinas, alegrias e perplexidades se cruzavam com a morte omnipresente, como se vivêssemos em vários patamares da realidade. As colunas militares que iam e vinham dos matos da guerra, as populações locais, nós - os que vinhamos da 'metrópole' - e as várias raças e etnias presentes na mesma paisagem soberba, inesquecível e, por vezes, quase irrespirável.
Porque é que as coisas se passavam assim?


 
 
Chegada de tropas a Lourenço Marques, actual Maputo



 

Jusqu’à quel point la mort conditionne notre vie ? Jusqu’à quel point ce décor de guerre omniprésent dans nos jours et nos nuits déterminait nos quotidiens ? Je n’ai pas la réponse. Mais je me souviens encore qu’on voyait constamment passer dans les rues de Vila Cabral et de Tete des véhicules militaires qui se mélangeaient tranquillement à la circulation civile, car c’était de là-bas que partaient et revenaient régulièrement des colones qui faisaient l’aller-retour entre la ville et l’immensité de la forêt où les attaques de la guérilla étaient en pleine recrudescence, un cauchemar dont personne n’entrevoyait la fin. Mais nous ne savions que peu de choses de ces quotidiens brutaux, à moins que nos amis militaires ne partagent avec nous ce qu’ils avaient vu de cet enfer, ce qu’ils ne faisaient que très rarement.

Le Notícias de Lourenço Marquês, le journal le plus lu au Mozambique, se pencherait plus en profondeur sur ces questions, en donnant la parole aux soldats portugais. Jusqu’en 1967-68, le sujet était abordé de manière soit excessivement discrète soit exagérément apologique. À grand renfort d’emphase, on décrivait les arrivées et les départs des contingents militaires (à ou de la « Mère patrie ») et les défilés dans les rues de Lourenço Marquês, avec leur point d’orgue en plein centre-ville, sur la place Mouzinho de Albuquerque, où les « élégants, droits, et valeureux soldats qui venaient d’arriver » affirmaient comme un seul homme « épaule contre épaule, comme nous tous, que cette terre est en vérité, aujourd’hui et pour toujours, la terre de Portugal ».[1]

Que personne ne se fasse d’illusion : au-delà de la tournure excessive des phrases, une majorité écrasante d’entre nous, dont je faisais partie, ressentait et pensait la même chose, que ce soit avec ces mots ou n’importe quels autres. Nous suivions avec émotion et délice les nouvelles sur les saisies d’armes de la guérilla, et la destruction d’une de leurs bases ; la reddition « en masse » des populations autochtones, qui se livraient à nos hommes, réclamant leur protection contre les « bandits » ; et les désertions de noms qui sonnaient si bien, comme Lazaro Kavandame,[2] parmi les chefs traditionnels makondes les plus éminents, et plus tard Urias Simango,[3] successeur direct d’Eduardo Mondlane, qui s’était éloigné du triumvirat de la Frelimo, qui comptait également Marcelino dos Santos et Samora Machel, déclarant ouvertement sa dissidence avec les deux hommes ; ou encore sur les guérilleros auréolés de gloire, qui venaient se rendre aux autorités portugaises, en racontant des histoires sur le « sectarisme, le tribalisme, et le régionalisme » de la Frelimo ; les purges internes du mouvement ; les prisons regroupées en Tanzanie ; et les inombrables pertes humaines, comme celle de Sivério Nungu, dont certains, comme Simango, affirmaient qu’il avait en fait été assassiné. Et tant d’autres encore, jamais reconnues.    

Et à côté de ces reportages et de ces entretiens de première page, il y avait les nouvelles extrêmement discrètes, concernant les décès quotidiens, au combat et au service de la patrie, dans un petit encart sans photo, où l’on ne trouvait pratiquement que le nom de ces héros inconnus, qui ne reverraient donc jamais leurs terres métropolitaines « de l’autre côté de l’océan ».

La guerre se jouait sur trois fronts, et la Frelimo dominait les régions de Cabo Delgado, Niassa, et Tete, lorsque Guilherme de Melo, écrivain primé, poète, journaliste, et secrétaire général du Notícias, a été envoyé sur le terrain, dans les zones de conflit. Ses reportages, illustrés par les images du magnifique photographe Carlos Alberto Viera, ont été quotidiennement publiés entre avril et mai 1968, sous le titre générique de « Ao Norte – Guerra e Paz ».[4] Cette initiative s’est avérée être un succès, et le journal a dû augmenter ses tirages. En fin de compte, et autant que la guerre le permettait, la population qui avait accès à la presse était désormais confrontée aux retables de la vie de l’armée portugaise dans la solitude insomniaque des forêts imprenables.

Avec les mots de ce journaliste, peut-être arrivions-nous à sous-entendre des critiques voilées à l’encontre des développements de cette guerre qui faisait rage depuis quatre ans déjà. Mais ceux que le journaliste censurait ouvertement, c’était surtout les stratèges de café qui, dans le confort douillet des villes et de leurs oisives conversations de fin d’après-midi, formulaient des analyses méprisantes sur l’inefficacité des soldats, soutenant que la guerre aurait du mal à continuer sur une si bonne lancée même avec des « terroristes » si « stupides » et « mal préparés » puisque nos troupes ne faisaient rien, s’occupant seulement de faire passer leurs heures de service dans les meilleures conditions et le plus rapidement possible, afin d’avoir la chance de « retrouver leur terre natale».

Guilherme de Melo leur répondait en décrivant les battues dans la forêt, entre pistes et fourrés, bourbiers et nuages de poussière, au gré d’une pluie qui tombait sans répit, ou d’un sol qui brûlait sans trêve, au fur et à mesure que ces hommes retiraient les mines, défaisaient les pièges, et subissaient des attaques. Il nous a parlé de groupes de fusiliers, de commandos, de chasseurs, et de parachutistes, qui arpentaient la forêt lors d’opérations de cinq, dix, douze, ou quinze jours, au cours desquels ils ne se nourrissaient que de rations de combat, de pain dur comme de la pierre, et ne buvaient que l’eau des flaques et de petites rivières ou s’abreuvaient, dans un délire assoiffé, directement dans les bourbiers. Le journaliste et le photographe nous ont fait vivre des nuits entre les herbes hautes ou les herbes sèches, avec le sol pour plancher et le ciel pour toit, dans un repos toujours bref et agité, interrompu dès le lever du jour, qu’ils occupaient inlassablement à l’ouverture de pistes, la construction de pont, ou le démantèlement de bases.
 
Luís Guimarães (esquerda) e Anselmo Oliveira em Cabo Delgado
 
Comme des coups de poing, les mots du journaliste ont toumenté l’indolente placidité tropicale des villes et éveillé une conscience tardive, mais évidemment diffuse et partielle concernant le revers de la médaille, soulevant la pointe du voile sur ce qui se passait en réalité, et saupoudrant toutefois son texte d’un optimisme et d’une conviction inébranlable en une victoire finale, à laquelle Guilhermo de Melo lui-même avouerait plus tard avoir été très loin de souscrire.[5]

La conscience collective a finalement accepté de prendre en compte ce « sacrifice tremblant » que l’on exigeait des « valeureux » soldats qui versaient leur sang « pour la patrie » et qui étaient encore à cette époque passablement méprisés, notamment par les citadins. Mais l’optimisme était général. En 1968, une simple chaise avait réalisé l’inimaginable : mettre à terre un dictateur, dans une chute lourde de conséquences, puisque Salazar avait laissé sa place à Marcello Caetano, ce qui présageait du printemps du régime, même si le Vieux s’accrochait fermement à la vie, ce dont nous étions tenus au courant par les bulletins de santé publiés chaque jour en première page des journaux. Comme si « l’amélioration de son état de santé » ou les « degrés de sa température », ses battements cardiaques, ou sa tension artérielle intéressaient véritablement quelqu’un, on nous les détaillait avec la plus grande minutie, jour après jour. Je ne me souviens pas, d’ailleurs, d’une quelconque émotion face à la possibilité de la mort de Salazar. Mais je me souviens qu’entre de petits rires discrets, on pouvait entendre des commentaires du genre : « il est tellement mauvais que même la mort n’en veut pas », ainsi qu’une pluie diluvienne d’anecdotes sur ses prochaines rencontres dans l’au-delà.

De manière générale, nous avions tous envie de changement. Duquel ? Marcello Caetano le résumait dans un slogan exemplaire : le « changement dans la continuité » ; ce qui dans le cas des provinces d’outremer annonçait finalement une diminution de l’intervention de la métropole, chose que la pression internationale sur le Portugal exigeait depuis des années, ainsi que l’engagement en conséquence pour la création de cadres locaux auxquels le pouvoir pourrait être remis, « sans tomber entre les mains d’extrémistes » (Blancs ségrégationnistes ou porte-paroles de mouvements subversifs dont l’objectif était d’expulser les populations blanches d’Afrique). En outre, le nouveau chef du gouvernement promettait le maintien des territoires d’outre-mer, et donc la continuation de la guerre en Afrique, puisque la patrie était et resterait, un corps élargi, agrandi qui d’Europe s’étendait du Minho jusqu’au Timor, obligeant les Portugais à sa préservation ; et c’était bien le désir d’une majorité d’entre nous. On n’imaginait même pas qu’une formidable onde de choc se rapprochait de notre tranquille existence à vitesse grand V, pour changer l’axe de ce monde de manière si radicale qu’il ne serait plus jamais le même. 

Guinée, Angola, Mozambique, Portugal : nous étions « un seul peuple », nous formions « une seule nation avec un gouvernement unique ». On a rapidement commencé à introduire des changements dans le régime des colonies, que l’on désignait par « provinces d’outremer »[6] depuis 1946, dans un effort de consolidation de l’argument idéologique et national selon lequel tous ces territoires formaient le corps indissoluble de la nation. Mais ce n’est qu’à partir de 1967 ou 1968 que les entraves à l’arrivée des colons ont été rapidement levées ; l’opération a même été encouragé par tous les moyens, avec des mesures élaborées par des théoriciens dans de lointains cabinets, qui ne connaissaient pas le terrain, qui n’avaient pas la moindre idée des moyens humains nécessaires, et qui ne disposaient pas non plus de la vision politique adéquate face à ce genre de conditions. Finalement, on admettait qu’il fallait que l’on «fonctionne vite et mieux », comme le Secrétaire d’État à l’Industrie l’affirmait, soutenant enfin le besoin urgent d’une réforme administrative de fond.

C’est ainsi que le Terreiro do Paço de Lisbonne a pris conscience d’une évidence flagrante : «le peuplement est le plus grand ennemi du terrorisme ». On a alors commencé à établir de petits groupes de colons qui croissaient jour après jour, dans l’immensité désertée du Nord, dans les districts du Niassa et de Cabo Delgado ; sous le slogan de Salazar « l’épée à la main, la serpe dans l’autre », les soldats démobilisés ont été les premiers à arriver : le gouvernement leur offrait des terres agricoles, du bétail, de petites parcelles de terrain, et prenait même à sa charge le voyage des membres directs de leur famille, femme et enfants, pour qu’ils soient réunis dans leur nouveau chez eux. Mais cette installation était très, très difficile, même pour ceux qui échappaient ainsi à une vie économiquement très rude sur le territoire métropolitain, ne serait-ce que sous la pression de la guérilla.

L’initiative avait été mise en route en 1963, avec la création d’un nouveau noyau de population, Nova Madeira, dans le triangle agricole du plateau du Niassa, où à partir de 1969 on a commencé à planifier l’implantation de mille familles sur les six années à venir. Et des dizaines, des centaines de milliers de nouveaux colons pour Tete, Manica, et Sofala, dans le district de Cabo Delgado, dans une occupation qui donnerait lieu en conséquence au développement économique du territoire, sous la tutelle de la Junta Provincial de Povoamento, récemment créée. Comme si nous avions encore tout ce temps devant nous. Ce projet n’atteindrait jamais, même pas de loin, les résultats escomptés.

Le Dr. Baltazar Rebelo de Sousa était le nouveau gouverneur général du Mozambique depuis1968 ; il avait traversé le pays de pare en pare, à grand renfort de manifestations populaires en chemin, et avait déclaré à la fin de son périple que, partout, il avait retrouvé « la marque lusitanienne, imprégnée de paix, de tolérance, et d’amour ». À cette époque-là, nous attendions également avec beaucoup d’impatience la visite de Marcello Caetano en Angola et au Mozambique, pour renforcer tous ces liens, dans l’espoir également que le poids de la tutelle métropolitaine se réduise passablement, permettant ainsi le développement de la province, toujours si ceinturé et conditionné par les intérêts de Lisbonne.

Mais nous étions en train de gagner. Car n’était-il pas vrai que les populations soumises par la force des katanas et des armes russes, chinoises, et tchèques soutenaient de plus en plus à contrecœur les turras ? Et n’était-il pas vrai que ces derniers perdaient du terrain, chaque jour, partout au Mozambique ? Et n’était-il pas vrai que l’Afrique du Sud et la Rhodésie nous soutenaient et nous ont soutenu jusqu’au dernier moment, parce que toute la géopolitique du continent et la propre survie de leurs régimes dépendaient de notre présence ? Même les nouveaux présidents noirs des nouveaux pays africains étaient nos amis et nos alliés ! Et n’était-il pas vrai que les populations n’étaient séduites que par la force ou la tromperie, ou carrément contraintes à soutenir la guérilla ? Et que la Frelimo écrasait toute forme d’opposition de manière si dure que ses anciens partisans revenaient au Mozambique pour chercher refuge sous le drapeau colonial ? Et n’était-il pas vrai que le Mozambique était une mosaïque de peuples et de tribus constamment en guerre les uns avec les autres, qui n’avaient connu la paix que grâce à la présence portugaise ?

Nous y croyions dur comme fer. Et il y avait évidemment dans ces chimères un fond de vérité, des lacs de mensonges, et une bonne dose de désinformation.

La vie suivait son cours. Autant que je m’en souvienne, le plus grand scandale à avoir occupé notre imaginaire à la fin de l’année 1968, c’est l’annonce du mariage de Jacqueline, 39 ans, veuve du mythique président John F. Kennedy, assassiné à Dallas six ans plus tôt, avec un horrible « vieux », mais carrément riche, Onassis, qui avait conquis, entre autres, le cœur de la diva Maria Callas. Un sujet dont nous avons discuté sous tous les angles possibles. Mais comment une femme si belle, si jeune, et si chic, qui avait été l’épouse d’un président de conte de fées pouvait se livrer aux mains, aux bras de ce satyre grec ?»

 



[1] Notícias, Lourenço Marquês, 26/01/1968, p. 1.
[2] La bibliographie à ce sujet, et sous différents angles, est très vaste. Ce n’est pas ici l’endroit idéal pour tout exploiter, mais je mentionne, par exemple, « Lazaro Kavandame abandona a Frelimo≫, Notícias, 4/04/1969, Lourenço Marquês, p. 1 ; et en contrepoint, l’interview par Olívia Massango de Sérgio Vieira : « O grupo de Kavandame nao queria o II Congresso no interior de Mocambique », O País, 24/04/2012, http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/19981-o-grupo-de-kavandame-nao-queria-o-ii-congresso-no-interior-de-mocambique.html (consulté le 20/01/2014).
[3] Notícias, Lourenço Marquês, 1/01/1970, pp. 1-4 ; “Grande entrevistacom neto de Lazaro Kavandame” sur Canal de Moçambique, http://macua.blogs.com/files/cmc_n178_netokavandame.pdf (consulté le 20/01/2014).
[4] « Au Nord – Guerre et Paix » (N.d.T.).
[5] Guilherme de Melo, “Por quem as cruzes alvejam...”, Notícias, Lourenço Marquês, 26/05/1968, pp. 1-4.
[6] Dénomination créée en Inde portugaise, correspondant à un très léger changement dans le régime de tutelle pour empêcher l’intégration de Goa, Daman, et Diu dans l’Union indienne, que Jawaharlal Nehru réclamait depuis l’indépendance.

terça-feira, janeiro 06, 2015

Morrighan - «Os melhores de 2014! Literatura»

Sofia Teixeira, a autora de um blogue literário que já se tornou uma referência, comentou  Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, na sua página em Goodreads :

«[...] As várias recordações recolhidas para este livro chegam-nos muitas vezes em pequenos fragmentos e tanto parecem relatados com alguma indiferença como com imensa emoção. Achei extraordinária a forma como a autora conseguiu descrever a mentalidade das pessoas naquela altura, o quão os brancos eram facilmente questionáveis e todo o esforço de adaptação. A mãe da autora, uma mulher senhora de si e muito independente, é o exemplo de mulher progressista, mas que depois em relação à própria filha nem sempre conseguiu ser tão tolerante. Deste livro de memórias, o leitor pode retirar uns quantos excertos e romanceá-los, estendê-los na sua própria mente, sem nunca desvirtuar o quão real elas forma.

Com um enquadramento histórico preciso, a escrita de Manuela Gonzaga tem o poder de nos transportar para aqueles tempos, dando-nos a possibilidade de ver com os seus olhos toda uma evolução da sua posição na sociedade, da sua luta, de toda uma experiência num país que, apesar de na altura ser uma extensão do nosso, atravessou todo o tipo de fases - desde a prosperidade à guerra. O sonho de ser escritora começou de forma subtil, na voz de um soldado que partilhava as suas várias angústias. Como é que Manuela poderia saber e sentir tais coisas? Só mesmo tendo presenciado e vivido no meio de tal violência. A continuação, deixo-a para vocês a descobrirem.» para ler mais seguir o link: Goodreads
 
Agora, tomei conhecimento de que este meu livro veio integrar Os Melhores de 2014! Literatura, TOP literário do blogue Bran Morrighan. É um estímulo, mais um. Num ano que começou com uma perca irreparável a nível pessoal, este tipo de reconhecimento ao nosso trabalho aquece e dá força. Isso e o abraço quente e fiel dos que nos querem muito bem.
 

quinta-feira, dezembro 25, 2014

Natal em África - Lago Niassa, Moçambique

A seguir ao nosso primeiro Natal em África, passado na Pousada da então Vila Cabral, actual Lichinga, fomos para Meponda, Lago Niassa onde deixámos para trás o ano velho, tão repleto de novidades, emoções e mudanças extraordinárias e saudámos o ano novo. Ao frio das memórias dos meus muito poucos natais passados, sobrepunha-se agora o bafo equatorial da estação quente no seu esplendor. Partilho um extracto de Moçambique para a mãe se lembrar..., que me devolve a memoria daquelas paisagens inolvidáveis.

lago Niassa, Moçambique cortesia de May Duarte

« [...] Aconteceu em Meponda, no Lago Niassa, uma tão grande extensão de água doce que tinha ondas e marés, e águas cor de turquesa riquíssimas em peixe das mais delirantes cores. Um verdadeiro paraíso terrestre, de areias douradas e finíssimas, à distância de umas cinco ou seis horas de Vila Cabral, (actual Lichinga) se tudo corresse bem. O percurso, 60 km, era longo. A estrada, uma picada de terra batida, com as suas valas inesperadas, buracos enormes, lagos de lama no tempo da chuva e os mais variados acidentes e caprichos do terreno, era muito mais apropriada para Land Rover ou viaturas militares, do que para o valente carocha onde muitas vezes nos deslocávamos. Mas aqueles sessenta quilómetros tão compridos resultavam muito recompensadores, pois, assim que chegávamos e arrumávamos a bagagem leve de fim-de-semana, corríamos para a praia, e íamos tomar o primeiro de um número intermináveis de banhos. Na transparência cristalina das águas cálidas, deslizavam os peixes de cores mais alucinantes que alguma vez vi na minha vida. Pura alegria.

Ir para Meponda, tornou-se um programa regular. Sexta-feira, depois das aulas, nós os quatro e a mãe, partíamos rumo ao Lago, às vezes no jipe do senhor Paiva outras vezes com um jovem professor primário que conduzia o Volkswagen. Ali chegados instalávamo-nos em dois quartos da Pousada de Meponda. Os três rapazes num, eu, a mãe e a Bé noutro. Os quartos, diante do lago, eram pequenas construções em pedra e cal, em forma de cubatas, com telhado de colmo à vista, revestidos de traves e de madeira e paredes imaculadamente caiadas, por fora e por dentro. Simples, mas muito bonito. As refeições eram tomadas na casa grande, onde funcionava a recepção, e que era também a morada do casal que explorava turisticamente aquele paraíso tão remoto.

[...]  A noite, que em África cai de chofre apagando as chamas do céu cor de fogo, tornava-se ali ainda mais misteriosa na solidão entrecortada de luzes petromax, e iluminada pela lua e pelas estrelas do hemisfério sul que se reflectiam na massa escura, informe e imensa do Lago onde o luar rasgava uma formidável esteira de prata. Na sala da Pousada, uma árvore de natal tão deslocada naquele calor, cheia de flocos de algodão e bolas de todas as cores, um presépio pequenino, uma ceia muito pouco tradicional, e nós a ouvir Nat King Cole, Mornas de Cabo Verde e The Platers num gira-discos minúsculo, vezes e vezes sem fim. Only youuuuuu.»

Vila de Meponda, cortesia de Observer

 

sábado, dezembro 13, 2014

Mozambique: Pour que ma mère se souvienne

O meu segundo livro traduzido por Laure Collet e editado em francês por Le Poisson Volant:

 Mozambique: Pour que ma mère se souvienne 

Présentation de l'éditeur:

Dans la jungle de ses souvenirs africains, Manuela Gonzaga tente de sauver une extraordinaire histoire d'amour pour l'Afrique et le Mozambique des affres de la maladie d'Alzheimer qui menacent la mémoire de sa mère. Avec la joie et la spontanéité de l'adolescente qu'elle était en arrivant là-bas, elle nous fait découvrir ce monde perdu, merveilleux et violent, qu'était l'Empire colonial portugais.