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sábado, novembro 02, 2013

Estrelas e Buracos Negros: estas histórias nunca acabam bem

Algures, na Constelação Draco. A 2,7 biliões de anos luz da Terra.

A Estrela andava na sua vida de Estrela. Uma vida fulgurante, resplandecente e solitária, pois a uma estrela basta-lhe o seu insuperável brilho que aquece as vastidões geladas das infinitas planuras intersticiais cósmicas.


NASA, S. Gezari (The Johns Hopkins University), and J. Guillochon (University of California, Santa Cruz)

O resto, se havia resto, planetas, satélites, poeiras cósmicas, nem se distinguia na esteira do seu incandescente manto de luz.

Depois, houve aquele encontro terrível. O Buraco Negro estava simplesmente lá. Imóvel e escondido. Na sua vida de Buraco Negro. Sozinho, pois a um buraco negro basta-lhe tudo que a voragem da sua fome gravitacional alcança.

A escala a que tudo isto se passa é tão inimaginável que não consigo encontrar palavras que descrevam esta tragédia abissal. Enfim. A Estrela aproximou-me demais e o Buraco Negro devorou-a, eis tudo. Um homicídio cósmico.

Sei que houve um som pavoroso que nunca escutaremos, porque se diz que no espaço o som não existe. Mas existe. Não está é ao alcance de sentidos como os que dispomos, para nos defender da loucura infinita em que tão infinitamente horríveis sons nos precipitariam, célula a célula, átomo a átomo, até a própria poeira de estrelas de que somos feitos uivar de pavor.

Estrelas e Buracos Negros. Estas histórias nunca acabam bem.

A menos que Buracos Negros sejam portais para outros universos, onde a Estrela emergindo, juntamente com planetas e cometas, outras estrelas e tudo o que o monstro vai devorando, terá recomeçado uma nova vida. Mas depois há aquela história terrível da densidade gravitacional dentro de um Buraco Negro ser tão grande, mas tão grande, que ali até o tempo congela num limiar de eternidade absoluta. E assim, a estrela continuará presa nas entranhas do Buraco Negro. Imóvel para sempre e sempre e sempre.

É melhor nem pensar nisso. A menos que a pessoa seja astrofísica. A menos que a pessoa se chame Stephen Hawking.


Para ver mais e saber mais alguma coisa:
PS1-10jh: Black Hole Caught Red-handed in a Stellar Homicide


 

quarta-feira, outubro 23, 2013

Estrela da Tarde

José Carlos Ary dos Santos na voz de Carlos do Carmo
 
 
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

  José Carlos Ary dos Santos




domingo, janeiro 13, 2013

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Guerreiro, de que tens tanto medo?

Era alto, mais alto do que a maior parte dos homens, e estava, sempre, coberto de uma armadura que o protegia dos pés à cabeça. Aliás, tinha várias, consoante andava a pé ou a cavalo. Todas primorosamente executadas e belas, conjugando metais raros e couros de animais desconhecidos. Do rosto, apenas as pupilas se deixavam entrever. Desta forma, dele se podia dizer quase tudo. Que era loiro, moreno, novo ou adiantado em anos. Que nunca sorria, ou que o fazia com frequência. Que desconhecia o amor ou que, tendo-o conhecido, o perdera para sempre.

Ele era uma fonte viva de lendas múltiplas.

As mulheres suspiravam à sua passagem.

Os homens temiam-no e, secretamente, detestavam-no.

Mas ele parecia indiferente ao efeito que produzia à sua passagem e os seus soldados, armados, também eles, até aos dentes, tinham de ser ríspidos com as crianças que, a todo o custo, se queriam abeirar dele. Uma vez, uma menina tocou-lhe. Durante dias foi passeada pela aldeia em triunfo, obrigada a repetir até às lágrimas, até à náusea, até à exaustão, tudo o que se passara no brevíssimo espaço de tempo em que, furando por entre as pernas musculadas de uma dúzia de homens de armas, chegara até ao metal que protegia os pés do guerreiro. Então curvara-se e beijara o pó que embaciava a fivela da armadura, no ponto do tornozelo. A sua boca pequenina deixara ali uma marca em forma de coração.

Ela jurava que tinha sentido o guerreiro estremecer.

Depois, mãos brutais agarraram-na e ela foi jogada ao chão, para longe, caindo na estrada sem se magoar. Estava em êxtase e a queda pareceu-lhe um voo.

Apenas uma criança se mantinha à parte quando o guerreiro passava com a sua comitiva eriçada de lanças e espadas, protegida por grevas, escudos e elmos,  rumo ao castelo de fortes ameias no alto do monte fronteiro à aldeia.

Um dia, o guerreiro parou e fez um sinal a um dos seus guardas, que se aproximou do miúdo, e, pegando-lhe ao colo o levou até junto de si. Então, todas as crianças sustiveram a respiração, todas as mulheres levaram as mãos ao rosto, sustendo gritos e todos os homens se curvaram sentindo um gelo nas entranhas e um nó na garganta.

- Podes fazer uma pergunta ao Guerreiro. Uma só - disse o soldado, numa voz que parecia chegar do outro lado do mundo.

A criança estava calma. Era um menino de seis anos, o tonto da aldeia. A sua mãe, jovem e viúva, era profundamente só. As mulheres temiam a sua beleza, os homens temiam a intensidade do desejo que sentiam por ela. Além disso, tinha um filho que dizia coisas estranhas a propósito de nada, e olhava as pessoas como se as visse à transparência.

O soldado pôs o menino no chão. No silêncio total que se seguiu e que durou uma eternidade, todos retiveram a respiração até se ouvir a sua voz cristalina perguntar:

- Guerreiro, de que tens tu tanto medo?

 
 
 
«Shinto» cortesia de  Wikia