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terça-feira, maio 31, 2022

Maria Adelaide Coelho a "louca" mais lúcida da nossa história Contemporânea

 "Qualquer historiador (e eu sou) tem sempre uma ponta de receio quando começa a pesquisar os seus biografados. E se for tudo mentira? E se tudo não passasse de uma farsa bem montada? Que coerência, que inteligência, esperar dos envolvidos neste duelo? E os médicos estariam realmente de boa-fé, ou e à partida, por afinidades de casta, de classe, de sexo até, decidiram antecipadamente que o desfecho, fosse qual fosse a direção do processo, teria de ser favorável ao amigo e companheiro de causas, dr. Alfredo da Cunha? Haveria mesmo uma história de amor entre ambos, Adelaide e Manuel, ou um deles estaria a aproveitar-se do outro?"

Partilho um artigo meu publicado no Jornal Expresso a 16 de Setembro de 2020

Ricos, famosos, cultos, a viverem num palácio. Mãe, pai, filho. Apontados como a família perfeita... 

Já vai na 7º edição

Manuel Cardoso Claro

Uma, entre muitas conferências. Esta na Universidade Lusófona onde a biografia é curricular nos mestrados de Psicologia

Durante o lançamento da obra no Palácio de São Vicente, que me abriu as portas durante largos meses que durou a investigação

A biografia de Maria Adelaide que escrevi com o título de ‘Doida não e não!’ Maria Adelaide Coelho da Cunha foi lançada pela Bertrand em 2009 e relançada em 2018. Fez sucessivas edições. Foi apresentada no Palácio de São Vicente pelo Professor Fernando Rosas na presença de muita gente, e até de descendentes e amigos do casal Manuel Claro e Maria Adelaide (sobrinhos, netos e bisnetos) que só então se conheceram e só então puderam completar o puzzle das esfarrapadas e incompletíssimas estórias de família que cada um ouvira ao longo da vida. Foi comovedor. A imprensa acolheu com muito entusiasmo a história de Maria Adelaide e Manuel Claro. Tive três convites (nestes doze anos) de realizadores que a quiseram levar ao grande ecrã e também à televisão. Nunca conseguiram apoios. No último concurso passámos duas etapas, mas… havia outra proposta que ganhou, com a assinatura de Mário Barroso e o suporte do grande produtor Paulo Branco. Parabéns. Ordem Moral é pura ficção e saudemo-la enquanto tal. Baseia-se numa outra ficção, Doidos e Amantes, romance de Augustina Bessa Luís lançado em 2005. Neste registo, quer por parte da escritora, quer na versão do realizador Mário Barroso, não existe um casal de amantes apaixonados pois Manuel é um bissexual frágil com uma dívida de gratidão à antiga patroa (a quem trata sempre ‘minha senhora’), e Adelaide é uma mulher revoltada que quer vingar-se do marido. Liga-os a amizade e o hábito da estima.

O meu processo de escrita da biografia Maria Adelaide Coelho da Cunha: ‘Doida não e não!’ (Bertrand) foi longo, moroso e exultante. Entre 2007 e 2009 quando o livro foi lançado no mesmo palácio de onde Maria Adelaide fugira quase cem anos antes, tive acesso a relatórios médicos detalhados, processos policiais, registos de tribunal, actas, bilhetinhos, cartas, diários, fotografias, livros publicados na época, assinados por psiquiatras, advogados, jornalistas, gente directa ou indirectamente envolvida na trama. Passei muitas semanas a consultar jornais, sobretudo A Capital e o Diário de Notícias de 1919 a 1923. Cruzei informações. Recolhi testemunhos orais, pois conheci pessoas que ainda chegaram a conhecer Maria Adelaide depois dela ter saído do Hospital Conde de Ferreira. Visitei os locais onde tudo isto se desenrolou. E, passei meses e meses na biblioteca da Senhora de São Vicente a ler e anotar de fio a pavio a documentação encontrada no fundo falso de uma escrivaninha. Eram as peças que Alfredo da Cunha coligira, para montar a teia da sua defesa e do seu ataque. Tudo, e por iniciativa dos novos donos, devidamente catalogado e arrumado em pastas. Centenas de documentos. Muitos milhares de páginas. Fascinante.

Qualquer historiador (e eu sou) tem sempre uma ponta de receio quando começa a pesquisar os seus biografados. E se for tudo mentira? E se tudo não passasse de uma farsa bem montada? Que coerência, que inteligência, esperar dos envolvidos neste duelo? E os médicos estariam realmente de boa-fé, ou e à partida, por afinidades de casta, de classe, de sexo até, decidiram antecipadamente que o desfecho, fosse qual fosse a direção do processo, teria de ser favorável ao amigo e companheiro de causas, dr. Alfredo da Cunha? Haveria mesmo uma história de amor entre ambos, Adelaide e Manuel, ou um deles estaria a aproveitar-se do outro?

Li Doidos e Amantes (2005) da escritora Augustina Bessa Luís, obra dedicada à sua amiga Maria Marcelina de Matos, bisneta de Júlio de Matos (um dos psiquiatras que mais mal visto sai de toda esta trama). No seu romance a história de amor é completamente desvalorizada. A confirmá-lo a escritora numa grande entrevista a Fátima Vieira («Uma intriga tenebrosa», Pública, 29/01/2006:51-57) negou com toda a veemência a hipótese de que entre Maria Adelaide e Manuel Claro tivesse existido uma paixão. Para ela o que havia era «um episódio de fuga». Maria Adelaide poderia estar «enamorada de uma mulher», apontando a sua ligação com figuras assumidamente lésbicas, nomeadamente a uma redactora d’A CapitalQuanto ao Manuel Claro, que Bessa Luís não acredita ter sido o companheiro da vida de Adelaide, viria a ser apenas «um acompanhante fiel e dedicado, grato à patroa que lhe serviu de enfermeira». Afinal, o motorista que «só se preocupava em ter sapatos bonitos», poderia ser «ou um consumado patife, ou um solitário, possivelmente um homossexual que encontra em Maria Adelaide a figura da mãe sonhada»». Quanto à fuga do Palácio, a escritora defende que Adelaide teria tentado escapar a uma espécie de claustrofobia social, não descartando a possibilidade de «haver uma paixão proibida, um perigo qualquer...».

Quando dei por mim, tinha entrado pela vida daquelas pessoas: Maria Adelaide, Alfredo da Cunha, Manuel Claro, José da Cunha… e os repectivos afins. Avassalador. Tornei-me mais do que testemunha, vivenciei, procurando manter sempre a imparcialidade. Eu não queria julgar ninguém. Eu queria saber como é que tudo se tinha passado, e porquê. Com todo o rigor que um labor historiográfico exige. E, como tal, prossegui um trabalho de ‘garimpo’ que foi, como é sempre, bastante árido e muitíssimo minucioso. Amarrando a imaginação que, aqui, só me poderia estorvar. Mas encontrando verdadeiros tesouros. Fulgores. Manipulações da verdade. Revelações.

Nesta mesma entrevista, Augustina duvida, em grande medida, que as cartas publicadas no jornal A Capital e assinadas por Adelaide Coelho, fossem da sua autoria. Ou a sê-lo, só parcialmente, motivo pelo qual «o texto está cheio de vulgaridades como se fizessem parte duma linguagem doméstica, adquirida com as empregadas da casa.» É que ela – Maria Adelaide – «sentia-se bem na sua vida laboriosa e sem pretensões, fazendo as camas e subindo as bainhas dos vestidos» e era, «sobretudo, uma boa criada». Finalmente, conclui: «Se assentarmos no facto de que Maria Adelaide era medíocre, entramos num terreno menos espinhoso do que se tivéssemos de a achar interessante. O marido há muito que se tinha apercebido da vulgaridade da sua mulher.» Até porque, conclui a escritora, em matéria de cultura «era uma figura decorativa».

Estas afirmações de Bessa Luís provocam a reação indignadíssima de duas senhoras que tinham conhecido e privado longamente com Maria Adelaide Coelho da Cunha e Manuel Cardoso Claro. De imediato, Maria Manuela Delgado de Oliveira e Maria Elisa Seara Cardoso Perez escreveram para o mesmo jornal, e os seus extensos contraditórios foram publicados na íntegra na revista Pública a 19 de Março de 2006. Nunca foram minimamente desmentidos. Dois anos mais tarde, tendo conhecimento que eu estava a escrever sobre Maria Adelaide e Manuel Claro disponibilizaram-se a partilhar comigo tudo o que sabiam sobre uma história que já começara a ‘garimpar’.

Em 11 de fevereiro de 2008, eu estava no Porto a escutar Maria Manuela Delgado, uma referência no panorama da arqueologia portuguesa, cujo nome está ligado a projectos tão emblemáticos como Conímbriga. A arqueóloga, que ainda não era nascida quando Adelaide saiu do manicómio, conheceu-a desde que nasceu, já que foi em casa dos seus avós que ela esteve escondida. O advogado Bernardo Lucas pedira à sua avó se ela «se importava de receber esta senhora na sua casa por três ou quatro dias». A senhora acedeu sem uma hesitação sequer. «Não foram quatro dias, foram os quatro anos em que o Manuel esteve preso. Quando ele saiu da Cadeia da Relação, Maria Adelaide saiu com ele. E foram viver juntos» revelou-me Manuela Delgado.

Na descrição da arqueóloga, «Maria Adelaide era uma senhora sempre interessante, tinha um encanto todo interior e uma enorme cumplicidade com o Manuel. A história deles é excepcional. Estiveram juntos até ao fim. Ele era um homem culto, muito bonito e muito respeitado entre os seus colegas». E as cartas, para A Capital? «Era o meu pai, que na altura tinha 17 anos e andava no Conservatório de Música, que as punha no correio!» contou-me ainda Manuela Delgado que tratava Maria Adelaide por Lalá e a considerava como tia, acrescentando: «Vou-lhe contar um segredo. A família, que não tinha desistido de a voltar a internar no manicómio, nunca soube do seu paradeiro. E ela, para não ser descoberta, ia disfarçada de lavadeira visitar o Manuel, durante os quatro anos em que ele esteve preso. Punha uma saia rodada, uma rodilha onde assentava a trouxa na cabeça, uns panos brancos, grandes, dobrados em quatro e atados em nós, onde estava a roupa, e ia e vinha da cadeia. Nunca desconfiaram dela. Mas eu nunca pude antes contar uma coisa dessas como lhe estou a contar agora a si.»

A outra senhora que reagiu indignada às entrevistas e ao livro de Augustina, foi Maria Elisa Seara Cardoso Perez que era filha de Paulina e Fortunato Seara Cardoso, proprietário e diretor do Comércio do Porto. Veio a conhecer Maria Adelaide no Inverno de 1942, em casa dos pais, na rua da Alegria, Porto, onde esta se reencontrou com o filho, José Coelho da Cunha, 24 anos após a sua saída do Palácio de S. Vicente, em Lisboa. Maria Elisa, à época com 15 anos, viu, da janela da cave, aquela senhora pequenina, de cabelo todo branco, mas muito direita e com uma dignidade tocante, avançar ao encontro do filho que não via há tanto tempo, posto o que ambos se encerraram no salão da casa, onde estiveram uma tarde inteira à porta fechada. «Maria Paulina, minha mãe, tinha uma grande consideração e estima por Maria Adelaide de quem se tornou amiga e com quem tinha muitas e longas conversas.»

Mas entre aquele estranho casal… seria amor? Maria Elisa Perez respondeu-me: «Sem a menor dúvida. Maria Adelaide contou à minha mãe que encontrou no Manuel Claro o carinho e o respeito que o seu marido, Alfredo da Cunha, nunca lhe dera.» Estes e outros testemunhos e todos os factos que recolhi provaram-me que, embora na curva descendente da idade, Maria Adelaide continuou a ser uma mulher reconhecidamente encantadora e sedutora sem esforço. Era culta, e teve educação primorosa. As cartas da professora dela e dos irmãos enaltecem a sua inteligência. E o Manuel, para além de ter sido um homem muito atraente (as fotografias provam-no e os testemunhos confirmam-no) era inteligente, sensível, culto – nunca deixou de ler e era amigo pessoal de Raul Rego -- e amou indubitavelmente esta mulher a quem se dedicou para o resto da vida. Não há o menor indício que aluda à sua imaginada homossexualidade e muito menos à sua pretensa fragilidade. O Manuel era um homem forte e de fortes convicções.

Por fim, aos 74 anos, Adelaide viu-lhe ser retirado o rótulo de louca-lúcida. Há muito tempo, porém, que deixara de ter o poder policial à perna. Com o Manuel, conseguiu refazer uma vida com muita dignidade e até algum desafogo. Junto do seu antigo motorista, Maria Adelaide encontrou a ternura e o afecto que o marido nunca lhe soube dar, segundo testemunho de quem os conheceu de perto. Amou-o até à morte. Mais novo, o companheiro sobreviveu-lhe quinze anos. Nunca casou. Nas palavras de quem os conheceu de perto, «Maria Adelaide foi o amor da vida dele».

Aos 74 anos, já livre do rótulo tremendo de "louca". 

Suportada por toda uma investigação de fundo, a minha biografia de Maria Adelaide, que é posterior à ficção de Agustina, revela uma história como raramente encontramos. É improvável e tem tudo para correr mal. Mas aquele era um grande amor de gente grande que enfrentou e resistiu a todos os ordálios com uma imensa dignidade, num registo onde a realidade ultrapassa largamente a ficção. Depois do que publiquei sobre a vida de Maria Adelaide e de Manuel Claro, o filme Ordem Moral, embora se trate de uma ficção, ignora perigosamente algumas evidências entretanto reveladas. Torna-se assim um arriscado exercício de negação dos valores que estas pessoas defenderam, com um custo demasiado elevado para serem obrigadas a continuar a pagar juros indevidos

Sublinho, a finalizar, que não deixa de ser muito curioso o autêntico volte face que, na época e através da sua defesa literária, Maria Adelaide conseguiu produzir suscitando o favor do público, numa altura em que não era invulgar, nem sequer mal visto, que um marido lavasse a honra com sangue. Por fim, já só no círculo muito restrito de amigos do casal, e dos médicos que a tinham dado por louca, persistia a ideia de que ela enlouquecera. Mesmo das fileiras da própria ciência, e até, da jurisprudência, junto da esmagadora maioria dos que não estavam directamente envolvidos no caso, já não havia dúvidas de que a psiquiatria, que promovera tantos benefícios em prol da saúde mental das populações, conquistara aqui uma desonrosa, e desnecessária, referência. Em carta a Alfredo da Cunha, de 18 de Agosto de 1920, o senador Júlio Ribeiro da Silva refuta a «loucura lúcida», como «um paradoxo que os médicos alienistas inventaram». E acrescenta: «não haverá criminalista capaz de me convencer que um homem boçal, inculto, grosseiro, sem delicadezas de espírito, nem agudeza de inteligência, nem primores de educação, seja capaz de seduzir uma mulher superior, requintadamente artística, e cheia de qualidades. [Portanto] não se trata de uma doida, nem de um sedutor […]. E creia V. Exª que com excepção de um advogado meu amigo, aliás distinto, com quem discuti o assunto, ninguém, absolutamente ninguém, encontrei de opinião diferente.»

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-16-Ordem-Moral-e-Doida-Nao-e-Nao-a-historia-de-Maria-Adelaide-Cunha-continua-a-gerar-controversia


domingo, setembro 20, 2020

E contudo amam-se!!



De um artigo de opinião em Expresso, 26/08/2020

“Ordem Moral” e “Doida Não e Não!”: a história de Maria Adelaide Cunha continua a gerar controvérsia 


Manuel Cardoso Claro, fotos Arquivo do Palácio Sao Vicente (cedida à autora)

«Maria Elisa Seara Cardoso Perez que era filha de Paulina e Fortunato Seara Cardoso, proprietário e diretor do Comércio do Porto. Veio a conhecer Maria Adelaide no Inverno de 1942, em casa dos pais, na rua da Alegria, Porto, onde esta se reencontrou com o filho, José Coelho da Cunha, 24 anos após a sua saída do Palácio de S. Vicente, em Lisboa. Maria Elisa, à época com 15 anos, viu, da janela da cave, aquela senhora pequenina, de cabelo todo branco, mas muito direita e com uma dignidade tocante, avançar ao encontro do filho que não via há tanto tempo, posto o que ambos se encerraram no salão da casa, onde estiveram uma tarde inteira à porta fechada. «Maria Paulina, minha mãe, tinha uma grande consideração e estima por Maria Adelaide de quem se tornou amiga e com quem tinha muitas e longas conversas.»

Mas entre aquele estranho casal… seria amor? Maria Elisa Perez respondeu-me: «Sem a menor dúvida. Maria Adelaide contou à minha mãe que encontrou no Manuel Claro o carinho e o respeito que o seu marido, Alfredo da Cunha, nunca lhe dera.»

Estes e outros testemunhos e todos os factos que recolhi provaram-me que, embora na curva descendente da idade, Maria Adelaide continuou a ser uma mulher reconhecidamente encantadora e sedutora sem esforço. Era culta, e teve educação primorosa. As cartas da professora dela e dos irmãos enaltecem a sua inteligência. E o Manuel, para além de ter sido um homem muito atraente (as fotografias provam-no e os testemunhos confirmam-no) era inteligente, sensível, culto – nunca deixou de ler e era amigo pessoal de Raul Rego -- e amou indubitavelmente esta mulher a quem se dedicou para o resto da vida. Não há o menor indício que aluda à sua imaginada homossexualidade e muito menos à sua pretensa fragilidade. O Manuel era um homem forte e de fortes convicções.»

Para ler o artigo na íntegra: 

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-16-Ordem-Moral-e-Doida-Nao-e-Nao-a-historia-de-Maria-Adelaide-Cunha-continua-a-gerar-controversia

quinta-feira, setembro 10, 2020

Doida não e não! Ou ″Uma pessoa apaixonada age com regras que o bom senso não conhece″ - DN

O jornalista João Céu e Silva, do Diário de Notícias, fez-me uma grande entrevista sobre a história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, que, parcialmente aqui publico. Para ler na íntegra, seguir o link. 

~

Em meados de 2006, fui ao Palácio de São Vicente fazer um artigo para a revista Máxima e a dona, Clara Ferrão, que já tinha lido alguns livros meus, levou-me à que fora a biblioteca de Maria Adelaide, onde, devidamente catalogados e organizados em pastas, se encontrava um acervo riquíssimo de documentos relativos a este caso. E disse: "Se lhe interessar, pode vir, o tempo que quiser e quando quiser." 

Abri e folheei uma das pastas, ao acaso, e abismei. Para uma escritora, de mais a mais historiadora, a tentação foi muito grande. Comecei a delinear um projeto de investigação detetivesco para completar a história. Mas, publicado o artigo, duas senhoras do Porto que em muito jovens tinham privado com Maria Adelaide Coelho da Cunha telefonaram para a Máxima e pediram o meu contacto. Tinham estórias, testemunhos, documentos e outras testemunhas, nomeadamente José Manuel Cardoso, sobrinho direito do Manuel Claro que vivera com o casal, para partilhar se eu quisesse. 

Eu quis.




«Este caso não é uma singularidade. Por muito menos, havia mulheres - naturalmente ricas - no Conde de Ferreira sequestradas a pedido das famílias. Tivemos outro caso muito mediático, no princípio do século, quando uma jovem de 32 anos quis tomar ordens e professar num convento do Porto, o que transtornou de tal forma o seu pai, cônsul honorário do Brasil no Porto, que este a quis interditar -e conseguiu, só não levou o processo adiante. Em todo, sequestrou-a, colocou polícia à porta, e fez-lhe a vida num inferno. Depois voltaram todos para o Brasil. Os jornais da época dão muito eco ao assunto. É um caso muito estudado, sobretudo pela professora Rita Garnel, que já publicou livros e estudos sobre o tema. E tivemos o caso não menos escandaloso, mas rapidamente resolvido, do advogado Dantas da Cunha, que fugiu do Conde de Ferreira mais ou menos na altura em que lá se encontrava Maria Adelaide. Foi de tal forma chocante que, a somar-se a outros, determinou que o assunto fosse ao Parlamento e a lei dos internamentos mudou. No Estado Novo, voltamos a encontrar o mesmo paradigma, só que agora mais virado para os "desvios" da sexualidade ou para os "desvios" políticos. Quanto às senhoras, o paradigma só mudara de roupagem. À falta de conventos, os manicómios serviam muito bem como depósitos de mulheres "malcomportadas". Muita gente até achou que o Alfredo da Cunha era "um santo" porque outro, naquelas circunstâncias, teria matado o "algoz" que lhe roubou a mulher. A violência só se torna mais visível pela resistência e posteriormente pela denúncia pública que Adelaide opõe ao encarceramento, à forma como foi tratada, e por aí fora.

Uma das consequências desse escândalo foi o marido ter vendido o jornal. Seria indispensável?
O projeto da venda do Diário de Notícias já estava em agenda, apesar do repúdio total dela. Claro que, a partir do momento em que foi internada, o negócio fez-se sem entraves.


Os outros jornais da época aproveitaram o escândalo apenas para vender mais edições ou existia uma intenção de apoucar o diretor do Diário de Notícias e, em consequência, o próprio jornal?
Não é de menosprezar nunca o papel da concorrência... E tornou-se muito tentador, do ponto de vista editorial, representar quer um quer outro dos opositores, à cabeça dos quais o próprio Diário de Notícias, por Alfredo da Cunha, e A Capital, por Maria Adelaide Coelho.

Como foi a cobertura do Diário de Notícias sobre este caso?
Muito grande. Com artigos, anúncios, comentários ao livro que, tendo Alfredo da Cunha como editor, Infelizmente Louca!, faz rapidamente três edições. Entre muitos outros, Júlio DantasBettencourt RodriguesAzevedo Neves, presidente da Sociedade das Ciências Médicas, dão a cara pela obra. Egas Moniz e Júlio de Matos referem: "Trata-se de um dramático episódio de loucura lúcida que é o tormento das famílias e uma fonte viva de escandalosos pleitos judiciaes"...

Como foi a reação dos leitores ao seu romance?
Não cedi ao romance porque já se disse tanta mentira sobre esta senhora e este casal de amantes, que optei pela sobriedade e o rigor de um trabalho historiográfico. Apesar de se ler como estória, fiz questão de que fosse história. Está nalgumas universidades. Desde 2009 que integra os curricula do mestrado em Psicologia na Lusófona. Sou convidada com alguma frequência para palestras - por exemplo, no Instituto Camões em Vigo -, estive por duas vezes no Hospital Conde de Ferreira, em colóquios e no Júlio de Matos. Com o título Lucide Folie, está traduzido em francês, integrando o catálogo da Hachette.




Havia quem conhecesse o caso ou foi uma surpresa para a maioria?
Foi uma grande surpresa para a maior parte das pessoas, e ainda continua a ser, embora algumas tivessem visto ou ouvido falar do filme da Monique RutlerSolo de Violino, a quem presto homenagem e refiro no livro, e de quem falo sempre que me pedem contactos que ajudem a aprofundar ou a reviver este caso.

Além do romance de Agustina Bessa-LuísDoidos e Amantes, nada mais existe a nível literário que reflita este caso. A história de amor não justifica ou deve-se a desconhecimento?
A história que Agustina conta é ficção. Nem Manuel Claro era homossexual como ela pretende nem Maria Adelaide uma ignorante lésbica, como sugere. Aliás, a história de amor deles é completamente desvalorizada por Bessa-Luís, embora tivesse sido contactada pelas mesmas pessoas que posteriormente me contactaram para darem o seu testemunho sobre o casal, e a vida de ambos, no Porto. Os tais 40 anos que ficaram a faltar no filme. Acho que as histórias verdadeiras, sobre as quais há muita documentação, conhecida ou referida, tornam-se um pouco desmotivantes enquanto objeto literário. Como encontrar um ângulo novo? O que haverá ainda para descobrir? Um dia, mais tarde, certamente alguém irá pegar-lhe novamente. É uma história exemplar, de uma grandeza rara.

Qual foi a parte mais difícil de escrever?
Foram várias. A angústia e o secretismo com que Maria Adelaide abandona a casa, sem saudade alguma, mas com o coração muito apertado quando espreita, sem conseguir entrar, o quarto do filho. O encontro, numa pastelaria da Baixa, com a irmã, a quem não diz o que vai fazer, mas tem de controlar as lágrimas enquanto conversam. E, por fim, o medo. Ao entrar na estação do Rossio, ao entrar no comboio... E se a reconhecem? O coração aos saltos... Também foi difícil escrever aquele episódio terrível em que ela e o Manuel são literalmente "caçados" no Rossão e sob os olhares do povo, levados para uma taberna (estive lá, vi os locais que descreve), onde passam a noite, sobre uns fardos de palha, rodeados de polícias, de bêbados, mimoseados com gargalhadas e comentários obscenos. O Manuel foi magnífico. Protegeu-a, amparou-a. Depois, e sob chuva e neve, manhã cedo e a cavalo (ela), o Manuel e o primo a pé numa viagem dolorosa, até que os separem. E, claro, os tempos que ela passou no hospital, os dias no pavilhão das criminosas, sem poder falar com ninguém, vigiada a tempo inteiro, fechada. O regime do manicómio era brutal. A escrita deste livro fez-me percorrer uma gama de sentimentos e emoções muito ampla.

O caso teve uma grande componente psiquiátrica, uma "ciência" ainda pouco confiável à época. Este tornou-se um caso de estudo ou Adelaide Coelho não interessou aos profissionais da área?
Não foi único e a historiografia contemporânea tem vindo a debruçar-se sobre este e outros casos. Recordo que, ainda em 1920, A Capital publicou várias reportagens sobre o Conde de Ferreira e denuncia o sistema tido quase por normal, em que, com apoio de psiquiatras e a pedido de famílias de meninas ou senhoras ricas, as internam nos manicómios por "castigo" e para lhes ficarem com as fortunas. O que torna tão surpreendente este caso é a vigorosa defesa que Maria Adelaide faz em praça pública, dando ao prelo as suas memórias, e continuando a partilhar descrições vivíssimas dos quotidianos de um hospital de doidos nas páginas de um jornal. Isto melindrou a classe médica/psiquiátrica e extremou posições. Foi um "milagre" histórico este "lavar de roupa suja" - tudo se passa numa época sem censura. A partir de 1926, nada se teria desenrolado da mesma maneira. A opinião pública teve um peso decisivo. Na Alemanha, também houve um surto destes, abrangendo homens e mulheres. Muitos publicaram em folhetim as suas experiências, e as denúncias foram muito abundantes e detalhadas. Foi um escândalo na Alemanha, por volta de 1900. Estou a trabalhar alguma dessa informação, que é bem interessante. Tal como aqui, o tema dos internamentos e a prepotência que emergiu das denúncias levou o assunto ao Parlamento e a legislação sobre os internamentos foi alterada. Cá também.

Na sua escrita, voltou a encontrar um caso real que a seduzisse como este?
A biografia de imperatriz Isabel de Portugal também me envolveu muitíssimo e ainda demorei mais tempo a investigar e a escrever. Mas este caso é muito, muito especial.

segunda-feira, maio 21, 2018

Ateneo Atlántico: Doida Não e Não!

«A partir dunha historia propia de folletín, comeza outra non menos real e épica: a loita dunha muller que durará anos e que se verá envolta en xuízos e diagnósticos nos que intervirán os mellores psiquiatras do Portugal do momento e que, un por un, confirmarán a enfermidade mental de Maria Adelaide, xustificando así, o mantemento do seu internamento.»








Ateneo Atlántico: Doida Não e Não!: Presentación do Libro Doida não e não! de Manuela Gonzaga O Ateneo Atlántico, xunto co Instituto Camões en Vigo e a Bertrand Editora,...