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domingo, maio 29, 2022

Cabinda - Floresta do Maiombe, Junho 1974

     Esta é uma memória de uma memória. É um instantâneo extra catálogo da reportagem que fui fazer para a revista Notícia de Angola. Foi tirada em 74, Cabinda, floresta do Maiombe, por onde tenho andado a passear com a minha amiga Isabel Valadão. Somos irmãs há muito anos e temos também muitas memórias juntas a partilhar. Conhecemo-nos por lá. Em Luanda, Angola. Reencontrámo-nos por cá, em Lisboa por alturas do lançamento de um dos meus livros. Tinham-se passado décadas, mas o tesouro da nossa amizade estava intacto. Um, dois anos depois, ela começou a publicar, estreando-se no romance literário com Loanda, Escravas, Donas e Senhoras. Eu tinha feito História Ramo Científico (Nova) ela, História de Arte (Clássica). E tinha o tal livro na gaveta que a "obriguei" a tirar cá para fora. Foi o recomeço. Reganhámos chão e recuperámos raízes dispersas. Reencontrámos e partilhámos outra gente muito querida desses tempos outros. Tertuliamos. Descobrimos que ambas temos um amor incondicional pelos nossos companheiros de quatro patas. Privilégio.

    E agora, temos feito outras viagens.


Cabinda, Junho 1974, em reportagem para a revista Notícia de Angola


    Portanto aqui estava eu, fresca como uma alface tripeira, numa reportagem que teve incidentes dignos de nota. Assustadores. Exultantes. A liberdade estava a caminho. Foi depois de Abril. Esta imagem integra o conjunto de fotografias que ilustram as (outras) memórias narradas em Moçambique para a Mãe se lembrar como foi um livro que tem corrido mundo e que a Mãe ainda foi a tempo de ver impresso

❤

terça-feira, maio 30, 2017

África o ir e o voltar


Em Outubro de 1975, encontrava-me a viver em Sines, no Palácio Pidwell, quando escrevi o meu primeiro poema, «África». De rajada, ao longo de uma noite muito escura. Dias depois, li-o ao  Al Berto e ao João do Ó. Nesses tempos, trocávamos poemas, palavras, projectos e bebíamos o bom vinho alentejano com que brindávamos a todos os futuros. Depois, nunca falei desses tempos, nunca escrevi sobre esses tempos, e não mostrei o poema a mais ninguém. Retomo-o agora, porque me parece adequado como ponto de partida para este Encontro, nas Raias Poéticas de Famalicão.

África



I

O tempo deixou-me este gosto na pele, este calor na alma,
Um nó na garganta, as mãos vazias, o corpo nu. Em carne viva.
Tatuagens de recordações, espalho-as no chão, à minha volta
Há gritos de sereia num porto e eu lambo cinzas.
Ainda estão quentes.

Onde estão todos?

Paredes nuas.
Colares de missangas vermelhas, colares de missangas negras
Um bater surdo de tambores.
Árvores dos tempos do primeiro Tempo.
E templos e véus e estradas escondidas sob o mato denso de silvas
Como puderam esconder tamanho esplendor?
Fiz-me à estrada cega e perdi-me.
Perdemo-nos todos
Uns dos outros

II

Andamos juntos e ainda não te vi o rosto.
Amei-te, e eras sempre diferente.
E contudo... se soubesses por onde te procurei.

Ouves o meu grito?

Esperei sempre que me dissesses na concha do meu ouvido:
Somos os marinheiros e o mar e o navio. Somos a tempestade e o sono.
Sonho.
Queria dizer-te isto:

Viver é amar cada segundo como se fosse o último,
Mas não é sempre assim.
Gosto de redes e de laços. Gosto de anéis.
Gostava de não gostar. 
Gostava de já não gostar.

III


Depois de enterrar os mortos 
Esqueci o local das sepulturas.
Às vezes ainda lá vou
Queimar imagens de deuses
numa lareira que nem existe,
E ouço-me
A chamar por eles.
E fico
De mãos feridas a escavar palavras e silêncios.
Procuro, procuro.
Penso: para onde vamos meu amor?

Volto sempre.
Da soleira da porta vejo-te acenar-me
Quando me viro,
Com as mãos em concha,
Protejo-me da luz para te ver bem
Antes que a estrada me engula.
Penso: porque não me prendeste
com laços e anéis nas redes dos teus braços adormecidos?
Então, volto
Sempre à espera
De ti.
Esvazio-me
E penso: quem és tu?

IV

Mar manso, mar manso…
Pescador da Ilha, onde estão as minhas redes?
No vento da tarde soltei os ramos
Na Primavera abri a copa das árvores
Chovia e entraste no meu tronco.
Tremias.
Disseste:
Tenho tanto medo. Tenho tanto medo.

Adormecemos.
Quando acordei os sons que se evaporavam da terra eram ocres,
E havia tanto fumo.
E havia tanto fogo.
E havia tanta dor.
E havia eu
Enredada em meus caminhos para lado nenhum.
Amortalhando os sete sentidos incluindo o tacto
Sondando rostos fechados diante de casas sem portas nem janelas, nem ninguém.
Eu e o meu medo insone asfixiando-me em abraços de amante obsessivo
Às vezes, o som dos sinos amansava a tarde,
Mas por muito pouco tempo.
À noite, não conseguia ouvir bater o coração escuro do mundo:
Falavam todos muito alto.
Pareciam perdidos e riam
Nem perceberam que me fui embora…

V

Quero estar só.
Quero esta solidão indizível para te encontrar amor,
Caleidoscópio de rostos, mil faces a tua,

quero saber o teu nome!

Quero rasgar tanta coisa,
Afastar estes véus, estes véus...
Regressar aos braços negros que abraçam a Terra inteira.
Farejar o teu cheiro nas flores de sangue, tão vivas dentro das suas pétalas mortas,
Enrolar-me em teu regaço denso escuro e cálido, 
Oh Mãe!
Pousar o fardo das memórias de tanto desencontro 
E recordar
Todos os teus nomes
Todos os teus corpos 
 Todos os teus cheiros 
Todos os teus sabores 
Todos os teus sons
E dizer-te:
Voltei de lado nenhum para entrar na roda das antiquíssimas danças
Ao som dos tambores da noite que tocam sob céus esmaltados de chamas.
Abraça-me muito oh Mãe de todos!
E seca o meu pranto de acabada de nascer
Porque 
pesa tanto...
O estômago vazio,
O saco vazio 
Do vagabundo,
A alma solta de quem viaja,
Este amor que sinto, esta dor que tenho,
Chamei-te tantas vezes.
Tantas vezes.
Tantas vezes.

Se ao menos soubesses como te amo.

(Manuela Gonzaga, Sines, Outubro de 1975.)

terça-feira, março 07, 2017

Os livros do «Mundo de André» foram muito «Bem vindos»

Fui a África e voltei. Soube-me muito bem. Soube-me a pouco. Foi durante uma conversa com a encantadora jornalista Cláudia Leal, que apresenta o programa Bem-Vindos cujo mote começou por ser 'O Mundo de André' e os livros recém lançados. André e a Esfera Mágica e André e o Baile de Máscaras.

Portanto, falámos de sonhos, de crianças de todas as idades, de universos paralelos ou múltiplas dimensões. Falámos do maravilhoso embondeiro, essa árvore mãe que abriga o sono eterno dos poetas e contadores de histórias africanos, os Griots, e do seu fruto, o malambe, que tem um papel decisivo na última aventura do André. A conversa, mesmo assim longa, que passou a correr, levou-nos até Moçambique e Angola. Depois, voltámos ao Porto minha cidade berço, e a Sines, meu porto de abrigo em anos que já lá vão. E ainda falámos do Alentejo. De animais. De causas. De amores. Do amor.

E de histórias, muitas histórias, escritas e por escrever. Foi muito, muito bom.

Clicando na imagem, segue-se para a entrevista.

terça-feira, novembro 18, 2014

Tete, a cidade mais quente do mundo

Um dos prazeres que este meu último livro,  Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, me tem dado - para além do reencontro pessoal ou virtual com pessoas que nunca mais pensei voltar a ver - é o de confirmar que as minhas memórias suportadas pelo minucioso trabalho de pesquisa a que me entreguei, estão correctas. A minha história não é só minha. É de todos nós os que vivemos aqueles tempos - lá e cá. Porque Portugal hasteava bandeira do Minho a Timor, e porque estávamos no geral convictos de que essa era pátria nossa.
Sabíamos todos muito pouco.
Sabíamos todos quase nada.
Mas juntando o que se viveu ao que se sabe agora, o retrato é de guardar.
Fica um pequeno trecho da minha chegada à terra mais quente do mundo. Tete.


 
O batelão do Matundo, aqui transportando tropas entre Tete e Moatize. Ainda não fora construída a ponte sobre o rio Zambeze
 
«E então cheguei a Tete, provavelmente a cidade mais quente do mundo, o «cemitério de brancos» como em anos idos lhe chamavam, estradas rasgadas sobre o corpo vermelho da terra, ora enlameadas ora gretadas de secura e poeira, pomares e pequenas hortas em quase todos os jardins e quintais das casas dos colonos mais antigos, vida social intensa para a dimensão da cidade, tropa por todo o lado, guerra a apertar a malha desde as fronteiras da Província, e fui encontrar o meu irmão mais velho, desolado e magríssimo. Tinha vindo viver com o pai, e fora estudar no colégio Liceu de São José de Clunny onde o professor Gonzaga leccionava matemática e físico-química. Entretanto, o ano lectivo não correra da melhor maneira para o nosso irmão mais velho que carregava agora o ónus de um chumbo sem apelo, o qual lhe valia, quotidianamente, o indisfarçável mau humor do nosso pai. Em todo o caso, esse falhanço na sua vida estudantil tinha sido contrabalançado por grandes sucessos na vida social, com o Jó a consolidar, em Tete, amizades para a vida:
– Vais gostar – disse-me ele, no desconsolo dos primeiros dias da chegada, pois até a mãe e os irmãos se nos reunirem, foi praticamente a minha única companhia numa terra onde eu não conhecia ninguém. O pai estava muito ocupado e só o víamos às horas das refeições, onde se nos apresentava invariavelmente com a carranca dos maus momentos, embora me distinguisse com uma maior solicitude, pois eu saíra-me muito bem nos meus estudos:
– Oxalá te mantenhas assim.
Ao fim da tarde, nas ligeiras tréguas da canícula, dávamos pequenos passeios solitários, e falávamos de tudo e de nada, enquanto o meu irmão me punha a par dos detalhes locais, dizendo-me que em breve estaria completamente «enturmada» na nova cidade para onde a vida errática dos professores nossos pais nos conduzira. Era uma terra fascinante, quando aprendíamos a sincronizar a nossa respiração com o seu bafo insone sob o qual até os répteis enlanguesciam e que nem o imenso rio Zambeze, com as suas águas espessas, escuras e indolentes – onde colónias de hipopótamos boiavam serenamente e crocodilos emergiam espadanando as águas –, conseguia retemperar com as suas brisas de fim de dia.»


O nosso grupo de 5ª amo no colégio liceu de Tete com a irmã Maria


 


sexta-feira, setembro 05, 2014

Moçambique - Do império tardio e da guerra colonial

É com a maior alegria que vou colhendo apreciações ao meu trabalho nos mais diversos circuitos.Neste caso, destaco uma recensão ao meu último livro (com 5 estrelas), em Goodreads, assinada por Rui Gomes Coelho, historiador,  a fazer doutoramento em arqueologia na Universidade de  Binghamton, USA.

«Um olhar novo»

'Moçambique' de Manuela Gonzaga corresponde a uma vaga muito recente de criadores que procuram lançar um novo olhar sobre o passado colonial português mais recente, e sobre o processo da descolonização que viveram. É um olhar novo porque não se trata apenas da realização de "memórias", vai muito além disso: é uma janela aberta sobre as contradições do autor que reflete no presente sobre uma época vivida em circunstancias sociais e ideológicas muito diferentes. É essa tensão que se revela em 'Moçambique' como algo de que a autora parece ter plena consciência, jogando tanto com as suas memórias como com a análise histórica do contexto que narra. Neste sentido, o livro não interessa apenas aos que viveram o 'Moçambique' do império tardio e da guerra colonial; é um livro que valerá a todos; desde historiadores que procuram trilhar formas de escrita mais fluida até ao leitor curioso pelo passado português mais recente e amante de páginas extraordinariamente bem escritas.»






 

sexta-feira, agosto 15, 2014

Quando penso em África

Quando penso em África não penso muito. Sinto. Intensamente. E sonho. Em muitos dos meus sonhos volto lá. Não exactamente às cidades, o que é raro, mas aos trilhos da mata - trilhos secretos, de fuga. E ora estou com negros e pertenço à sua tribo apesar da pele branca que persiste em vestir o meu corpo até em sonhos, ora estou rodeada de soldados que me escoltam e pertenço aos seus caminhos. Muitas vezes, porém, estou simplesmente a caminhar. Ou, mais raramente agora, a fugir. Os animais não me assustam, as árvores não me dão medo, os gritos dos pássaros ou os seus cantos são o meu alento, e os pés não ficam em ferida enquanto avanço sobre a terra escura que parecem (re)conhecer de tempos imemoriais. Simplesmente caminho como se procurasse o caminho de casa - que se oculta por ali.

domingo, agosto 10, 2014

Em África - o primado da alegria

O lugar do outro - aprender como se chega até lá, é das lições mais difíceis de aprender. Implica sair de uma ilha de realidade que tomamos como um todo. Como O Todo. Não há manuais que nos ajudem. O outro também habita a sua própria ilha de realidade e pode olhar-nos com a maior desconfiança, conforme nos identifique como predador ou presa, ou ambas. Mas se o coração fala mais alto e a razão não nos falece, o caminho abre-se. Comecei a aprender este caminhar em África. Foi lá que comecei a trocar a segurança do familiar; o território do dogma; o pão da certeza, pela incertitude da viagem, muitas vezes sem terra à vista.
 
vista parcial da então cidade de Lourenço Marques - Maputo
 
Penso que o desencadear deste processo terá sido mais fácil por ser mulher. A irracionalidade dos constrangimentos que nos colocavam, apenas por causa da identidade de género, levou-me a questionar tudo e todos. O sermos avaliadas, não pelas nossas competências, não pela nossa inteligência ou falta dela, não pela nossa capacidade de sobreviver e viver com dignidade; mas apenas pelo sexo. A chuva de censuras, mais ou menos veladas quando o nosso comportamento não se pautava pela sonsice e pela hipocrisia - foi o primeiro toque do clarim deste acordar. Porque numa sociedade que considerava muito natural que os meninos fossem ás putas, mas que achava uma pouca vergonha que as meninas se deitassem com os namorados, a menos que conseguissem escondê-lo de toda a gente; e a menos que o fizessem com uma sensação de cometerem uma falta que as diminuía extremamente, numa sociedade assim, digo, algo estava podre.
 
Era isso que eu achava, era isso que eu sentia.
Felizmente, esta e outras revoltas, que agora à distância me parecem tão inocentes e lúcidas, tiveram aquele chão, aquele ar, aquele céu e aquela assombrosa paisagem por cenário. É que tudo ali era mais fácil. Até os dramas. Em África vigorava o primado da vida. O primado da alegria. Mas não há como as nossas pequenas revoltas pessoais para nos acordarem para a realidade das revoltas dos outros. E para a justiça dos seus anseios.
 

sábado, maio 31, 2014

África de amar com amor maior

Eu não quis, e mesmo que o quisesse, por absurdo!, nunca o faria: inventar um passado diferente do que ele foi. Honro profundamente as minhas e as nossas memórias comuns em toda a sua pluralidade, inconsistência e, porque não? erro. Aprendi muito desde que voltei. Acima de tudo, aprendi a amar ainda mais, porque amar de graça o que por definição já não nos pertence é amar com amor maior. Moçambique. Angola. Portanto não esperem de mim revisionismos e autoflagelações ideológicas. Things are what they are. E também o que foram e como foram.

O meu livro Moçambique para a Mãe se lembrar como foi enraíza nessa coerência. E vai mais longe, porque também relata, refere e recolhe dados que, na altura não nos eram acessíveis. É a vantagem de cruzar várias valências. A escritora e historiadora que sou com a jornalista que fui e a pessoa em que me quero tornar.

E dito isto... África 'nossa' nunca existiu? Provavelmente não. Até porque os vocábulos que implicam a noção da posse incerta aplicam-se sempre ao imponderável e ao muito efémero. Mas há uma coisa que transcende estas imponderabilidades e este fugidio conceito de ter. É que nós, que cruzámos o seu corpo matricial, nós que amamos o seu  chão de Mãe, ali ficámos, em raiz secreta. África apropriou-se de nós. Tornou-nos de Ela. E não há nada que possamos ou queiramos fazer em contrário.

 

sábado, maio 24, 2014

Uma história de amor por Moçambique



Porquê este livro? Em menos de um minuto, juntando imagens, palavras, música e sentimento, a minha editora explica tudo. Eu fiquei de lágrimas nos olhos.
Sim. É uma história de amor. Uma grande história de amor por Moçambique.

domingo, maio 18, 2014

À Mãe que nos deu África

 
Maria Leonor Vieira Paixão Gonzaga aos 44 anos quando fomos para África
O meu novo livro nasceu para e por causa da minha mãe. Nem era bem para ser um livro, A sua vocação, pensava eu, resumia-se ao registo de memórias impressas em folhas A4 onde passei a fixar a história da nossa ida do Porto para Moçambique - a começar pela inesquecível viagem de barco a bordo do paquete Império que levantou ferro em Lisboa.

Desta forma, tentava com os meus recursos, mitigar a solidão da sua existência sem memória, ao verificar o poder dos nomes, maior, muito maior ainda do que o poder que os cheiros têm de acordar o passado. Nesse verificar o poder que os nomes tinham e têm de concitar tempos pretéritos surgiu-me a ideia: se eu escrevesse as histórias que lhe conto todas as vezes que estamos juntas, a Mãe teria ao alcance da mão, histórias, suas, nossas, para ler sempre que quisesse. E ao lê-las, de todas as vezes como se fosse a primeira, alguma água ficaria retida no areal infindo e desolado onde se inscrevem os seus dias todos iguais. Porque todos os seus dias são tecidos de esquecimento.

A alegria que ela sentiu e sente em torno destes registos, a sua imposição - «isto não pode ser só para mim, despacha-te que quero ver estas páginas em livro antes de morrer» - e o apoio convicto do meu amigo e editor, Eduardo Boavida, impulsionaram o passo seguinte. Os passos seguintes. Um ano e meio depois de «Moçambique para a mãe se lembrar como foi» em folhas soltas A4, surge o livro que, também ele, de certa forma fugiu ao meu controlo, porque os livros têm vida própria e também eles traçam os seus rumos. Digo isto, porque ele cresceu para além do que imaginei que deveria ter crescido. De certa forma, obrigando-me a revisitar os nossos esplendorosos lugares pretéritos, com a bagagem mental, emocional, cultural, que entretanto fui adquirindo. Lugares, pessoas, episódios felizes, estranhos ou delirantes, uns, dolorosos, outros, cheios de plenitude quase todos, tomaram vida. Como se tudo tivesse acontecido anteontem e não há décadas.

Sem nunca deixar que essas valências ou estes pesos se sobrepusessem à voz, à emoção, aos sentimentos da menina e da jovem que outrora fui, acordei o que nunca esteve adormecido. O amor e a sensação iniludível de pertença àquela Terra bem-amada, Moçambique e àquela geografia mãe, África.