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terça-feira, junho 18, 2024

A manivela dos dias

 

Alguns não entendem que nós, os aparentemente imóveis, indolentes numa certa medida e declaradamente sonhadores estamos tão ocupados a dar à manivela dos dias que aparentamos muito pouco agir. Acontece que muito do que fazemos só se vai ver nos dias de amanhã. Quantos de nós ainda estarão por cá quando tal acontecer? Sabê-lo.



crédito da imagem:
r/Morrowind https://www.reddit.com/r/Morrowind/comments/hga4in/the_dreamer_is_awake/?rdt=41214

domingo, outubro 23, 2022

Amores e amoras: sonhemos.

 Alguém, por aqui, tem, teve, ou quer vir a ter sonhos lúcidos? Eu já. Poucas vezes, mas inesquecíveis. É uma questão de treino e de pequenos preparativos durante o acordar, com técnicas muito simples. Por exemplo: consciencializarmo-nos dos passos que damos ao caminhar e repetir, "estou acordada". Focarmo-no no gesto comezinho de acender ou apagar a luz -- nos sonhos não funciona. E noutras coisas que constituem pequenos testes de realidade diurna em que conscencializamos, acordados, que estammos ... acordados. Até ao momento mágico em que, a dormir profundamente, fazemos o clique e sabemos que aquela dimensão, elástica, esquiva, mas tão sólida como a dos quotidianos acordados, é toda outra:


"Estou a sonhar e sei que estou a sonhar. Wowww".

Da minha época de Diários Oníricos guardei os poucos em que a minha persistência foi premiada, mas nem precisava de os escrever tão marcantes foram pela revelação. É que, sendo a vida tão breve, e sendo parte dela passada a dormir, é justo conquistarmos um pouco desse tempo para aprender mais sobre nós próprios, alargando o patamar daquilo a que chamamos realidade, e, por brinde, ainda nos divertirmos muito. A sensação de liberdade é exultante e indizível.
Sobretudo, em tempos de tamanha incerteza e tanta cortina de fumo e tsunamis de mentiras, que de tão repetidas vêm a ser tomadas como verídicas. Tempos em que a distração hipnótica e não controlada por nós, nos prende e escraviza a conceitos, ideias, objectivos e falsos ideais de beleza por medida, riqueza só para eleitos, falsos triunfos, amargas vitórias, e palcos, muitos palcos de todas as dimensoes e para todas a medidas onde os egos de cada qual se agigantam por breves cinco minutos de falsa fama, alimentando o gigantesco e egóico processo social que nos devora.
Vale tudo, neste entorpecedor método de nos adormecer, levando-nos a pensar que estamos acordados no carnaval de loucos por onde nos arrastam, por onde nos deixamos arrastar, e por onde, sem darmos por isso, vamos sendo mansamente conduzidos para os redutos e redis onde nos querem mansos e silenciosos e desprovidos de palavras nossas. Anestesiado assim o livre pensamento, pois se há tanta gente a pensar por nós, matam-nos a imaginação criadora com a qual todos nascemos.

E quase nem damos por isso.
Sonhemos muito, amores e amoras! Em liberdade. É uma viagem a ser conquistada por nós enquanto seres despertos, sem efeitos secundários. A não ser a profunda e exultante alegria que nos abençoa sempre que fazemos descobertas pessoais e intransmissíveis mas partilháveis e mais comuns do que poderíamos imaginar.
'Bora marcar encontro no lá para além?





terça-feira, outubro 18, 2022

A realidade é um ponto de vista? Ou dois monstros a olharem para mim

    Era tudo muito belo e nós, jovens os dois, estávamos a começar a viver um encantamento que sabe-se lá onde nos levaria, porque ele já falava de futuro, quando ainda nem tínhamos começado sequer a ter passado. Na noite belíssima havia lua, mar em frente, mão na mão. E um ruído incessante de cigarras, grilos, gritos de pássaros nocturnos e o marulhar das ondas. Uma aranha passou à nossa frente, em movimento pendular, pendurada no seu fio preso no ramo de um arbusto. Foi epifânico, porque tudo o mais desapareceu e começei a tentar ver-nos, aos dois, pelos multifacetados olhos da pequenina aranha. E assim, num clarão que durou microsegundos, vi dois monstros dentro de uma estrutura monstruosa, a olharem para mim, aquela de mim que estava a tentar imaginar-se aranha.. Mas tudo o que, para mim, era real, acabara de se estilhaçar.


    Tentei ir mais longe. Em exercício de imaginação, pensei nas mais diversas criaturas que me vieram à cabeça, desde cães, lobos, peixes, lulas, árvores, moscas, cobras, pássaros... cada uma das quais com os seus orgãos de apreender o real. Cheirando, vendo, ouvindo, sentindo, de forma completamente diversa da nossa. Era maravilhoso e avassalador. Ele perguntou em que estás a pensar? e eu disse que estava a perceber que a realidade é um ponto de vista muito particular, e ele perguntou, perplexo, como assim? e eu falei de aranhas e pinguins, e lobos e pardais, e lulas e tartarugas. O quê?? Sim. Cada uma dessas espécies vê e sente o mundo, aquilo a que chamamos real, de outras formas, com outras cores ou sem cores nenhumas, através de sons e infrasons que não captamos, e de cheiros que nem imaginamos que existem, e por aí fora.


Camaleão-louva-a-deus-palhaço (Odontodactylus scyllarus)

    Então os meus ouvidos captaram o ronronar do carro mover-se. Já não estávamos de mão dada porque ele estava ocupado com mudanças, volante, pedais: "Vou levar-te a casa, querida. Estás muito cansada e eu também tive um dia puxado. Amanhã falamos." E eu: "Mas ouviste, entendeste, o que acabei de dizer?" E ele: "Ouvi e entendi perfeitamente, e vou dormir para esquecer porque se começar a pensar assim tenho a certeza de que acabarei por enlouquecer. A minha realidade, estreita e pequenina como dizes, chega-me e sobra-me. Não leves a mal, querida. Conheço os meus limites."Este momento fulgurante assinalou também o momento em que ficámos fora da órbita um do outro. Foi indolor. O encantamento persistiu durante algum tempo, mas já não havia chão para essa tão frágil flor.



Imagem: O camaleão-louva-a-deus-palhaço tem os olhos mais complexos do reino animal. Vive em tocas nas rochas e no fundo do mar. Enquanto nós, humanos, temos dois tipos de fotorreceptores (um deles para a visão a preto e branco e outro que permite a visão em cores), ele tem 16, o que permite distinguir cores invisíveis a vários outros animais, do ultravioleta ao infravermelho.

domingo, outubro 09, 2022

Que a paz esteja connosco

 Já se cruzaram as fronteiras todas e nada, nem ninguém, vai ficar de fora. Sobre a mesa das operações redentoras, discute-se, ao pormenor de última hora, o novo esquisso geopolítico à escala do planeta. Longe dos teatros de guerra, mas tragicamente perto de tudo, porque a guerra dos nossos tempos inquina a Terra inteira e todas as suas formas de vida, estrategas e dirigentes dos grandes blocos cavalgam os ventos da energia que fez nascer a civilização em que vivemos. Com um olho nos recursos hídricos, outro nas fontes primárias dos combustíveis que nos alimentam os quotidianos.

A fome já chegou a muitos lados. Nalguns países é (forçadamente) endémica. São as populações da regiões tragicamente mais ricas de recursos, que vendem energia e minérios imprescindíveis à sua instalação e desenvolvimento, mas que são deixadas às escuras e na mais infame pobreza... cortesia do Ocidente civilizado, claro. Mas tudo está a mudar tanto que, nos outros paises onde a abundância foi regra a partir de meados do último século, a escassez de alimentos já determinou a mobilização de exércitos a postos para conter as multidões quando a fome explodir em focos de violência global. E esta gente claramente armada, para nos defender, pois, é a ponta mais visivel do domínio implacável que já começou a vigiar e condicionar todos os nossos movimentos.
Mas a defesa de um país invadido, a Ucrânia, de onde milhares e milhares de cidadãos tiveram de fugir, e tantos já morreram, não passou pela mesa das negociações. A diplomacia esteve e está ausente desta tragédia no coração da Europa. De uma Ucrânica reduzida a escombros, e de uma Rússia acuada e capaz de ir às últimas consequências, só se contabiliza o número avassalador de mortes, sempre em crescendo, e a animadora, sempre em crescendo, entrega de armamento cujo valor dava para acabar com a fome "endémica" no mundo todo. Se alguma vez tivesse existido sequer a sombra dessa vontade. E com falso optismo, reportam-nos "sanções" ao país invasor, que acima de tudo nos penalizam a todos nós, gente.
Com o presidente dos Estados Unidos a invocar o Armagedom, já se normaliza a "inevitabilidade" da utilização das armas de destruição total que existem em grande quantidade de Leste a Oeste. Mas quantos países, entre todos os que existem ou querem existir, já se manifestaram aberta e inequivocamente pela Paz? Quantas manifestações têm eclodido a exigi-la? Já se esqueceram quando, na iminência da destruição do Irão por via das armas de destruição massiva que o pais manifestamente não tinha, as gentes vieram para a rua, em todo o mundo?
E quantos politicos, em Portugal e no resto do mundo, têm dado a cara e emprestado a voz pela defesa dos indefesos -- 90% da população mundial, números optimistas --, e todas as restantes criaturas animais e vegetais que o habitam? Saberão estas excelências o que está realmente em jogo? O que vai realmente acontecer? O que nos espera, sem sombra de dúvidas? Porque não falam, porque não gritam, porque não exigem? Onde estão os Martin KLuther King e os Mandela dos nossos tempos? É que só nos chegam noticias de gabinetes, onde é gerida a estratégia da autosobrevivência dos grupos que representam...
Resta-nos a pequenina e bruxuleante luz indestrutível da esperança. E velas, muitas, muitas velas, para atravessarmos a escuridão do inverno que se aproxima.
Que a paz seja connosco.

Sobre a imagem: no dia 26 de Janeiro de 2014, durante a oração do Angelus, duas crianças acompanhadas pelo Papa Francisco, soltaram algumas pombas brancas da janela do Palácio Apostólico do Vaticano. Na praça, uma multidão seguia o evento. Subitamente, um corvo e uma gaivota atacaram ferozmente uma das pombas.
Pode ser uma imagem de ave e ao ar livre



sexta-feira, julho 15, 2022

As letras evaporam-se no ar escaldante

 O chão está quente, as paredes estão quentes, o tampo das mesas e os braços das cadeiras estão quentes, as folhas dos livros de tão quentes amarelecem diante dos nosso olhar incrédulo e caiem no chão encarquilhadinhas sem força para segurar as letras que se evaporam no ar escaldante, e temos de tomar cuidado quando falamos porque as palavras tendem a sair aos turbilhões e todas ao mesmo tempo a pipocar umas contra as outras o que torna o discurso bastante incompreensível o que é irrelevante porque ninguém ouve nada para além do marulhar indiferenciado da maré baixa destes dias ensombrados de luz.


sexta-feira, junho 24, 2022

Ele queria saber que perfume eu usava


"Vou consoar com uma mulher da vida. Levo peru, rabanadas, fruta cristalizada, espumante. Até lhe comprei um presente. Uma água-de-colónia.”

  

 Há muito anos, a revista CARAS encomendou-me um Conto de Natal: eu teria total liberdade. Tomei demasiado à letra a amplitude dessa "liberdade" criativa e recordei, romantizando um bocado, um episódio dos tempos do jornalismo romântico quando se partia para a reportagem como quem vai para um safari sem utras armas que não as da palavra e da atenção plena, feita de cumplicidades e amor. Uma narrativa que, reconheço, é de uma  inconveniência total para o meio de comunicação a que se destinava. Mas a editora e as chefias de redação da revista não comentaram, pelo que até foram muito delicadas. E felizmente enterraram este conto num suplemento publicitário, daqueles que ninguém lê porque são só para vermos as imagens. Sou-lhes muito grata pela subtileza. 

Partilho o conto.  



“DESTA VEZ, LEVO EU O PERÚ”

CONTO

  Por Manuela Gonzaga

Ele queria saber que perfume eu usava. Eu disse, depende e não uso perfumes, só águas-de-colónia. Às vezes, misturo. Não sejas chata, disse ele, dá-me dois ou três nomes, é para um presente de Natal. Nessa época, era relativamente fiel ao Miss Dior, ao Dioríssimo, e outro que não me lembro. E a uma preciosidade, L'Interdit by Givenchy, “o original, que a Audrey Hepburn criou” como explicou o amigo que mo ofereceu, comissário de bordo da TAP. Faltavam três dias para a festa da família e ele não tinha nenhuma. Tinha várias ex-mulheres e uma porção de filhos. Carlos Alfredo. Grande coração. Na época, os jornais eram muito românticos e ser repórter implicava meter as mãos no sangue e nas tripas do mundo. Ele era dessa tribo. A 24 de Dezembro, quando toda a gente se preparava para voltar para casa mais cedo, ele e uns quantos náufragos de famílias à deriva, ofereciam-se para as reportagens temáticas. O Natal na prisão. Nas urgências de um hospital. A Consoada na Sopa dos Pobres. Coisas assim. Três anos antes, tinha ido para o Linhó e até ficou amigo de um recluso. No ano seguinte, já com este em liberdade, acompanhou-o na sua qualidade de ladrão, produzindo uma emocionante reportagem que lhe ia custando a liberdade. O outro convencera-o a ficar à porta, “a controlar”, enquanto esvaziava o frigorífico de uns ricaços do Restelo que tinham ido passar a quadra ao Rio de Janeiro. “Assobias se houver crise. É rápido. Bifes, marisco, vinho, guloseimas para os putos.” O pior é que, agarradas aos comes e bebes, tinham vindo pulseiras, anéis, relógios, colares, no valor de uma pipa de massa. Carlos Alfredo defendeu o segredo profissional com unhas e dentes, mas acabou indiciado como cúmplice. Salvou-o a boa vontade do ladrão, que devolveu as jóias.

Este ano, pensara noutra temática: “Vou consoar com uma mulher da vida. Levo peru, rabanadas, fruta cristalizada, espumante. Até lhe comprei um presente. Uma água-de-colónia.” O chefe de redação encolheu os ombros:

⸺ Pagas do teu. E vê lá se não levas uma coça por conta. Parece-me tão… esquisito.

Na edição de 26 de Dezembro, porém, a reportagem dele não constava. Dia 27, quando voltei ao jornal, soube que tinha metido folgas atrasadas e que não devia aparecer antes do fim do ano. Ao almoço, um camarada de redacção ⸺ nunca se dizia “colegas”, porque “colegas são as putas”⸺ contou a história. Tinha-o encontrado, nessa desolada madrugada. A mulher da vida recrutada no Intendente, começou por fazer uma cena. Depois lá foi com ele para uma pensão, mas sempre a resmungar, “filho, tu tens uma tara qualquer”. Ele tratou de tudo. Abriu a garrafa, juntou as mesinhas de cabeceira e cobriu-as com uma toalha. Até levava velas: “Vai daí, ela desatou a beber e… apagou”. Rimos muito. E ele sem aparecer. Dia 30, uma rapariga foi ao jornal, à sua procura. Cara angulosa, pele branca e desmaiada, casaco pelo de coelho, saia comprida, roxa, botas cambadas. Olhos de quem tem 527 anos. Atendia-a eu. “Família?”, perguntei. Ele tinha tantas ex-famílias…

⸺ Amiga – respondeu ela. E acrescentou: ⸺ quer-se dizer.

Abreviando, era a tal da consoada:

⸺ Um homem tão bom. Tão delicado, poças. Deu-me um perfume. Deixou um monte de dinheiro. E eu, em jejum. Dois copitos e faz de conta que é o meu homem, faz de conta que somos uma família. Mais um copo. Tudo tão porreirinho, coiso e tal. Faz de conta. Tirei os sapatos, doíam-me os pés…

Calou-se, o rosto subitamente cor-de-rosa, olhos aflitos e envergonhados. Depois acrescentou:

⸺ Lixei-lhe o trabalho, não foi? ⸺ Estendeu-me a mão, com um papel:⸺ O meu número de telefone. Ele que apareça no Ano Novo. Conto-lhe a vida toda. Até pode escrever um livro!

Acompanhei-a à escada. Começou a descer, depois virou a cara para cima. Sorriu, era quase jovem e inocente outra vez:

⸺– Desta vez, levo eu o peru.

 

 

sábado, junho 18, 2022

Não eram amigos verdadeiros. Eram clientes.


A cerimónia da cremação pretende libertar a alma de quem morreu. As famílias recolhem as cinzas   numa casca de coco, e levam-nas para o mar ou para o rio mais próprio, devolvendo os restos mortais à Mãe Terra. 

Da Vida e seus tropeços

Depois, há aqueles dias em que tudo o que era a nossa terra firme desaparece. Amores, bens, casas, empregos, esteios das mais diversas naturezas do palpável. Em breve, os amigos tão constantes, tão presentes, diluem-se num horizonte de solidões. Em boa verdade, não eram amigos verdadeiros. Eram clientes. Da nossa alegria, da nossa riqueza material ou imaterial, do nosso cintilar que, como pequenas borboletas tontas e nocturnas, fogem para junto de outras efémeras luzes. Só que nesse mesmo instante em que parece que tudo acabou, é que a Vida na sua girândola volta a recomeçar e o caminho apresenta-se mais nítido do que nunca. Mesmo através de um véu de nevoeiros e medos e lágrimas, se ainda as soubermos chorar.

Todos os destinos passam por estes ordálios. Todos. Caminhar é viver. Viver é cair e levantar e seguir em frente. Às vezes, só em solidão podemos voltar a ouvir a voz verdadeira que nos indica, sem falha, o rumo da estrela polar da vida que determinámos ser. A nossa própria voz. Daí a importância vital do Sonho, o único bem inalienável que possuímos. Para além do tempo, mas sobre este ultimo não temos poder algum, apenas usufruto.

domingo, maio 29, 2022

Cabinda - Floresta do Maiombe, Junho 1974

     Esta é uma memória de uma memória. É um instantâneo extra catálogo da reportagem que fui fazer para a revista Notícia de Angola. Foi tirada em 74, Cabinda, floresta do Maiombe, por onde tenho andado a passear com a minha amiga Isabel Valadão. Somos irmãs há muito anos e temos também muitas memórias juntas a partilhar. Conhecemo-nos por lá. Em Luanda, Angola. Reencontrámo-nos por cá, em Lisboa por alturas do lançamento de um dos meus livros. Tinham-se passado décadas, mas o tesouro da nossa amizade estava intacto. Um, dois anos depois, ela começou a publicar, estreando-se no romance literário com Loanda, Escravas, Donas e Senhoras. Eu tinha feito História Ramo Científico (Nova) ela, História de Arte (Clássica). E tinha o tal livro na gaveta que a "obriguei" a tirar cá para fora. Foi o recomeço. Reganhámos chão e recuperámos raízes dispersas. Reencontrámos e partilhámos outra gente muito querida desses tempos outros. Tertuliamos. Descobrimos que ambas temos um amor incondicional pelos nossos companheiros de quatro patas. Privilégio.

    E agora, temos feito outras viagens.


Cabinda, Junho 1974, em reportagem para a revista Notícia de Angola


    Portanto aqui estava eu, fresca como uma alface tripeira, numa reportagem que teve incidentes dignos de nota. Assustadores. Exultantes. A liberdade estava a caminho. Foi depois de Abril. Esta imagem integra o conjunto de fotografias que ilustram as (outras) memórias narradas em Moçambique para a Mãe se lembrar como foi um livro que tem corrido mundo e que a Mãe ainda foi a tempo de ver impresso

❤

domingo, outubro 31, 2021

As bruxas em suas bruxuleantes fogueiras

Recordemos as bruxas. Essas tristíssimas Mulheres perseguidas, queimadas, às centenas, aos milhares: NÃO pela Igreja Católica (que se dedicou acima de tudo a um nicho de hereges substancialmente mais rico, os judeus). Mas SIM pela Igreja Reformada ou Protestante que liderou e inspirou os paladinos dessa monumental perseguição religiosa e social em países como Alemanha, Escandinávia, Inglaterra, Escócia, Suíça. Foi um longuíssimo processo de três seculos, pautado por uma brutalidade e crueldade inexcedíveis. Na Europa do Norte, a tal mais civilizada do que todos os outros países europeus do Sul. Pois.

Essa perseguição (às bruxas) também se regista no Império Português e no Império Espanhol. mas em escala substancialmente menor em comparação com os países acima referidos. 

Para Lutero, as bruxas eram "prostitutas do Diabo e deviam ser todas queimadas". Calvino afirmou o mesmo. Muitos outros se lhes seguiram, mas foi este o rastilho para os perseguidores das feiticeiras verem bruxas em todo o lado. Mulheres. quase todas. Novas e velhas, pobres quase todas. Foi uma grande caçada. Fala-se em cem mil supliciadas. No seu grande aparato, começou logo no sex. XVI com a eficácia de uma grande máquina acionada por eclesiásticos e juristas, cuja rede também apanhou homens, mas muitíssimo menor numero.

Aqui, em contexto católico tridentino, a grande máquina demoníaca que alimentou durante 300 anos os Autos-de-Fé (Santa Inquisição), foi usada acima de tudo para perseguir "hereges", quase todos judeus e confiscar-lhes os bens. Ressalve-se que nem todos eram queimados, mas acrescente-se que todos eram destruídos física, moral e psicologicamente. Essa mácula e esse peso ainda nos pesa a todos, consciente ou inconscientemente. Ao mesmo tempo, a rede do Santo Oficio apanhava também protestantes, sodomitas (o pecado nefando), bígamos, adúlteros/as ciganos, e feiticeiros/as.

Por junto, na fogueira da nossa "Santa" Inquisição e em 300 anos de horror, terão sido queimadas por bruxaria menos de meia dúzia de mulheres. A maior parte foi condenada a outras penas como o degredo (Castro Marim acolheu muitas. outras e outros foram desterrados para presídios africanos) Portanto e na contabilidade macabra das "nossas" fogueiras, bruxas e bruxos foram em numero muito inferior ao das nossas civilizadas sociedade e países protestantes. A crueldade essa, é idêntica. 

Com alguns laivos e requintes que me abstenho de descrever no campo protestante, pois gelam a alma só de os lermos. Mas também o que esperar? Só demónios poderiam ter inspirado tais estruturas. As ditas santas, as referidas inquisições.



Na imagem: "Execução em Baden", 1585, Wickiana, Zentralbibliotek Zurique.





terça-feira, agosto 11, 2020

A mãe da minha amiga fez 94 anos

    A mãe da minha amiga, que um dia foi criança e menina atinada, tornou-se a seu tempo e no seu tempo, uma formidável mulher de trabalho. Casou para a vida, pariu quatro filhos, foi o apoio sólido do marido que, entretanto, já partiu, e cuidou dos velhos pais enquanto estes por cá andaram. De manhã à noite, nao parava. Tratou amorosamente dos filhos, cuidou do lar, cozinhou incontáveis refeições, amanhou campos, manteve horta e pomar, e trabalhou sazonalmente sempre que foi preciso. Enquanto viveu na sua própria casa, teve gatos, companhia de eleição, misteriosos e fiéis, e, em tempos mais remotos, criação: galinhas, coelhos. E flores. Era das que fazem um cepozinho de nada renascer e florir.


    Tinha, e ainda teria se a deixassem, dedos verdes, mãos de fada. Limpou muitas lágrimas, mudou muitas fraldas, confortou doentes e acompanhou moribundos, desmanchou muitos porcos e fez intermináveis fieiras de chouriços, salpicões, farinheiras e outros enchidos. Mesmo nos tempo mais duros — de que as novas gerações nunca ouviram falar (o que é quase um criminoso atentado contra a memória do povo que somos) — naquela casa humilde, mas limpíssima e tão bonita no seu traçado alentejano, nunca nenhum filho se levantou da mesa com fome. Nunca.


    Há uns anos, foi para um lar. Sentiu-se muito triste. Não a deixaram levar o seu companheiro de quatro patas. Nem os vasos das suas flores. Nada que a ligasse aos seus quotidianos de sempre. Conformou-se - todos os idosos se conformam. E cumprem rotinas que consistem num calendário dias sempre iguais pontuados de refeições sem surpresas, e programas de televisão… E ali está ela, com os outros velho e velhas sentados em semicírculo, nos mais variados graus de apatia, virados para o altar da pequena caixa que de mágica nada tem, onde raparigas e rapazes esfusiantes falam aos gritos, atropelando-se nos seus disparates disparatadamente alegres, enquanto comentam coisas que não lhes interessam para nada. Em todo o caso, a mãe da minha amiga podia sair, ver a família, ou ser visitada pelos entes queridos com alguma regularidade. Isso acabou. O lar, tido como modelar, é muito asseado, e tem muitas outras qualidades, sobretudo para quem está do lado de fora e ainda sente que é autónomo e gere a sua vida. A verdade é que trata bem os seus velhinhos, mantendo-os alimentados, limpos, com cuidados médicos, como se fossem crianças enrugadas e débeis, que é preciso cuidar do corpo sem cuidar do resto. Mas havia visitas! E saidas, precárias as saídas.


    O vírus mudou tudo — ninguém pode visitar quem ali está. Ninguém, a não ser o pessoal do lar, médicos e paramédicos. A mãe da minha amiga perdeu a esperança e com ela o fiozinho de alegria que a ligava à vida. Como mal consegue ouvir, portanto falar ao telefone, cismou que foi abandonada. E agora, ao fazer 94 anos sem ninguém a ir visitar, disse à filha, a minha amiga, que este ia ser o seu último aniversário já que ninguém se lembra que ela, apesar de tudo, ainda está viva.


    Solução? Plástico, vidro, o que for, como barreira, mas que permitisse que os filhos, os netos e os bisnetos a visitasse, a vissem, e, acima de tudo, que ela os visse a todos, com alguma regularidade. Há lares onde já existem estas adaptações. Ali, ainda não há. A festa que a mãe da minha amiga não teve – festa mesmo, beijos, abraços ou, simplesmente, a visão dos rostos amados – é um pedaço do pavoroso retrato da nosso fracasso humano.


#humanidadesdesumanas