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sábado, agosto 01, 2026

"Foge da Serpente mas guarda a sua semente" Jardins Secretos de Lisboa

Há lugares que nunca acabam de revelar o que guardam. Lisboa é um deles. É assim que volto, por vezes, às páginas de Jardins Secretos de Lisboa como quem regressa a uma cidade que nunca acaba de se revelar.". E é assim, também, que regresso à mesma questão: onde começam verdadeiramente as fronteiras? Não as geográficas, nem as históricas, mas aquelas que atravessamos por dentro?  Talvez por isso, volto sempre ...  ou então, talvez seja Lisboa que continua a regressar a mim.


[...] E foi então que ele me telefonou de novo. Não falávamos há tanto tempo que eu já tinha descurado a barreira que o impedia de chegar até mim. De modo que, quando o telefone tocou em minha casa, às 10 horas da noite do dia 10 de Agosto de 1999, eu atendi, sem aguardar os serviços do atendedor de chamadas automático.

Pensei que era a Luísa, a dar-me notícias de si e do seu pirata cibernético:

— Vais ver o Eclipse?

— O quê?

— Perguntei se ias ver o Eclipse.

— Porquê, estás a organizar alguma excursão? É um espectáculo aberto a todos, sem limite de idade. Não é preciso nada de especial, a não ser um par de óculos escuros com filtro adequado.

— Acertaste. Estou a organizar uma excursão.

— Ainda bem para ti. Agora tenho de desligar; estou à espera de uma chamada importante.

— Estou a organizar uma excursão aos subterrâneos, com passagem e paragem na Câmara do Tesouro do Rei. É o dia certo, justo, perfeito. Não podia ser antes, não pode ser depois. Precisas da máquina, se quiseres fotografar, e de uma camisola grossa. No fundo da terra faz frio. Traz um gorro, também. Sempre evita que aquelas coisas pegajosas, que as mulheres odeiam, se peguem à tua cabeça.

 —Estás a falar de quê?

— Teias de aranha, amor. As que tu tens já te chegam e sobram.

Depois, e durante uma eternidade, nenhum de nós disse uma palavra. Eu ouvia a sua respiração intoxicante, do outro lado do mundo, do outro lado da linha. E sentia o explodir do meu próprio coração, um selvático rufar de tambores.

— Por que estás a fazer isto comigo? — disse.

— Porque tu me pediste — respondeu ele.

— Não é verdade.

— É. Numa das últimas vezes que nos encontrámos, até me acusaste de usar o engodo dos segredos de Lisboa para andar a passear contigo por pensões reles.

– Não é verdade. Não nesse contexto.

— É verdade. E não tinhas razão. Eu mostrei-te, em versão condensada, mais do que vais conseguir ver durante o resto dos teus dias. Também te levei às pensões reles, querida, mas isso faz parte do pacote.

Quase podia vê-lo rir entre dentes, mas a voz era grave. Ele continuou:

— Nunca te levei aos subterrâneos, porque não era a altura certa. Há coisas que têm de ser feitas com cuidado. Por mim, estou-me a borrifar, mas tu tens todo o ar de quem gostava de andar por cá durante mais algum tempo.

— O que queres dizer com isso?

— É o respeito pelo livre-arbítrio, amor. Eu não me importo de correr riscos, porque o resultado é-me igual. Mas tu, infelizmente, não pensas da mesma maneira.

— Infelizmente, por quê?

— Porque fazíamos um pacto. Agarrávamo-nos um ao outro e íamos desta para melhor, como o Romeu e a Julieta, querida. Claro que, primeiro, tínhamos de dar uma grande queca. Sempre sonhei com uma mulher que alinhasse numa dessas. Paciência. Pela última vez: queres ou não ir aos subterrâneos?

Fiquei calada, a ouvir a lengalenga do sonho da Tia Branca:

Foge da serpente, mas guarda a sua semente…

— Há cobras? — Perguntei, por fim.

— Lá em baixo? Claro. E ratos, caracóis, lesmas, mosquitos, minhocas e outras coisas rastejantes. Nalguns sítios também há morcegos e toupeiras. Como nos filmes do Spielberg. Mas eu tenho um líquido protector. Borrifas-te com aquilo, e ficas com um cheiro tão horrível que os bichos se afastam de ti. Mas tu não sentes nada, não tenhas medo.

— Como sabes?

— Não te contei, amor? Eu vivi lá.

Fiquei calada.

— Então? — disse ele.

— Estou a pensar — disse eu.

E estava. Era uma vez uma mulher com um molho de chaves. [...] 


Æ 

— Ainda estás aí?

— Ainda.

— Oh, querida, gostava tanto de partilhar contigo este meu segredo. Depois, nunca mais te incomodo. Vou admirar-te à distância, assinar o livro de honra dos visitantes do Centro de Arte Moderna, quando lá fizeres a exposição de fotografias, por falar nisso, tens de pensar nas Fronteiras de maneira diferente. Sabes que…

— Jorge, eu conheci a tua mulher. Eu estive com ela. Aliás, ela é que veio ter comigo. Entrou-me pela casa dentro. Abancou na minha sala. Na semana passada.

— Eu sei. E agora que aliviaste o coração: encontramo-nos amanhã?

— A que horas?

— À hora do Eclipse começar.

— Onde?

— Na Cervejaria Trindade. Depois digo-te como deves olhar para as tuas Fronteiras. Vais ter de refazer as fotografias noutra óptica.

— Não é preciso. Eu já sei.

Eu já sabia, sim. Quer dizer, as Fronteiras. Descobrira por acaso, por mágica revelação. Mas não é disso, também, que trata a fotografia? Na verdade, de tudo quanto ele me tinha mostrado, guardara a ideia de uma linha divisória. Depois, perseguira essa ideia à luz da manhã e do fim da tarde. À luz do meio-dia. Durante meses. Queria transpor o que me fora dado ver e viver, com toda a sua carga, na forma como olhava, enquadrava, iluminava, aproximava ou diluía, esquinas de ruas, balcões de tascas, portas de bares ou de pensões, pórticos desolados de igrejas antigas. Mas o resultado eram fotografias tristes, como o olhar de alguém que anda perdido num mundo estranho, cheio de arestas e quase hostil, e a cor ainda acentuava mais, se isso é possível, toda esta desolação.

Foi ao meio-dia, no fim do mês de Junho, quando entrei na Sé para descansar, no ar fresco da catedral. E foi então que vi a luz, coada dos vitrais. A luz caindo de cima, derramando a sua bênção sobre as sombras bruxuleantes dos fiéis, e sobre o rectângulo branco do altar. A luz, a riscar o chão, pela porta entreaberta. A luz, em raios oblíquos, dentro dos quais dançam jóias, os minúsculos diamantes da poeira.

«Meu Deus.»



Jardins Secretos de Lisboa

Finalista do Prémio Europeu de Melhor Romance de Amo

https://static.fnac-static.com/multimedia/PT/pdf/9789897854569.pdf

Onde? https://www.fnac.pt/Jardins-Secretos-de-Lisboa-Manuela-Gonzaga/a14239831

 https://www.wook.pt/livro/jardins-secretos-de-lisboa-manuela-gonzaga/33447442

https://www.gradiva.pt/produto/jardins-secretos-de-lisboa/



 



 

 

sábado, junho 20, 2026

Jardins Secretos de Lisboa em Estrasburgo


Há livros que nascem em silêncio e seguem o seu caminho quase em surdina, como se fossem sendo descobertos devagar, por camadas. Jardins Secretos de Lisboa tem sido um desses livros.

Agora, encontra-se a representar Portugal na 4.ª edição do Prix européen du roman d’amour (2026–2027), um prémio literário europeu que reúne 11 romances de 11 países membros do Conselho da Europa.

O prémio é organizado pela associação Book1, com o apoio da Cidade de Estrasburgo, da Médiathèque André Malraux, da Amicale du personnel du Conseil de l’Europe e de vários parceiros culturais e diplomáticos sediados em Estrasburgo. A votação pública decorre até 31 de outubro de 2026 e permite a cada leitor escolher até 3 romances.

Fico naturalmente feliz por ver este livro — tão lisboeta, tão atravessado por memórias, diásporas, sombras, jardins interiores e atmosferas de luz e perda — seguir este caminho europeu.

Se o leram, se ele vos tocou, se acham que merece continuar o seu percurso, deixo-vos aqui o apelo: votem. Porque os livros escrevem-se a sós, mas não chegam longe sem leitores.

E porque, por vezes, um gesto pequeno — um voto, uma partilha, uma recomendação — ajuda verdadeiramente a abrir caminho.

Com gratidão,

Votação aqui:

https://demarches.strasbourg.eu/culture-loisirs/prix-roman-amour-2026/






quinta-feira, abril 28, 2011

O jardim real de todos os príncipes e princesas

O corpo esguio e tão branco, a brilhar sob a luz da manhã nova, ela dormia serena na impossível posição dos amantes. As pernas, longas e desnudas, numa geometria fetal, os braços tombando-lhe sobre o peito, a cabeça no colo dele, a cara escondida pelo cabelo solto, louro, desalinhado. Ele, muito acordado, envolvia-a num abraço. Os dois no banco estreito, de frente para o sol que nascera há pouco e os pintava de ouro. A cabeça dele inclinava-se sobre a dela, as mãos dele fechavam o círculo em redor do peito dela. Os dois respiravam o mesmo ar. Um pequeno milagre de amor, no jardim real de todos os príncipes e princesas.

quarta-feira, abril 27, 2011

Águaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!


Tântalo e seu suplício
 Os gritos. Os gritos. «Quero águaaaaaaaaaaaaa». Na rua estreita e íngreme não havia como lhes escapar. Ela gritava, ululava, como se a tivessem a estripar. Havia um homem grande, de avental branco, à porta do restaurante.  O seu rosto não tinha qualquer expressão:
- Não lhe dou mais água nenhuma.
Tentei escapar ao torpedo que vinha direito a mim, bramindo e agitando os braços.
Estremeci. O cão estremeceu. Ela apanhou-nos a descer a rua bem junto à parede, e gritou:
- Queroooooo águaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
parada à nossa frente, gigantesca e pavorosa, consumida por invisíveis labaredas. Escapei àquela onda de pavor, atravessando a rua em direcção ao homem de avental. Olhei para ele, ele olhou para mim. Abanou a cabeça:
- Não dou mais água nenhuma.
- Chamamos a ambulância? Polícia?
Ela estava a dois passos de nós, com os seus gritos roucos, os braços a esgrimir contra o ar da tarde toda.
- Nã - disse ele, abanando a cabeça e voltando a entrar para o restaurante.
A mulher afastou-se, sempre a gritar o mesmo refrão.
Na escuridão do seu cérebro doente, o holograma da realidade é um pavor sem limites. Com ela, o inferno passou por nós, com um hálito de fogo e indizível sofrimento.
Ela podia estar mergulhada no Tejo que continuaria não ver mais do que sede e chamas.
Por isso gritava com o desespero dos condenados, como quem chama por um deus ausente.
E nós sem podermos valer-lhe.

Autor da imagem: Jeffrey Heft.

quarta-feira, outubro 01, 2008

O céu de Lisboa

Eu amo esta cidade. Eu amo esta rua. Das janelas, vejo o dia trocar de vez com a noite. A noite sobe devagar para cima dos telhados. Estou em casa.
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