Há lugares que nunca acabam de revelar o que guardam. Lisboa é um deles. É assim que volto, por vezes, às páginas de Jardins Secretos de Lisboa como quem regressa a uma cidade que nunca acaba de se revelar.". E é assim, também, que regresso à mesma questão: onde começam verdadeiramente as fronteiras? Não as geográficas, nem as históricas, mas aquelas que atravessamos por dentro? Talvez por isso, volto sempre ... ou então, talvez seja Lisboa que continua a regressar a mim.
[...] E foi então que ele me telefonou de novo. Não falávamos há tanto tempo que eu já tinha descurado a barreira que o impedia de chegar até mim. De modo que, quando o telefone tocou em minha casa, às 10 horas da noite do dia 10 de Agosto de 1999, eu atendi, sem aguardar os serviços do atendedor de chamadas automático.
Pensei que era a Luísa, a
dar-me notícias de si e do seu pirata cibernético:
— Vais ver o Eclipse?
— O quê?
— Perguntei se ias ver o Eclipse.
— Porquê, estás a
organizar alguma excursão? É um espectáculo aberto a todos, sem limite de
idade. Não é preciso nada de especial, a não ser um par de óculos escuros com
filtro adequado.
— Acertaste. Estou a
organizar uma excursão.
— Ainda bem para ti. Agora
tenho de desligar; estou à espera de uma chamada importante.
— Estou a organizar uma excursão aos subterrâneos, com passagem e paragem na Câmara do Tesouro do Rei. É o dia certo, justo, perfeito. Não podia ser antes, não pode ser depois. Precisas da máquina, se quiseres fotografar, e de uma camisola grossa. No fundo da terra faz frio. Traz um gorro, também. Sempre evita que aquelas coisas pegajosas, que as mulheres odeiam, se peguem à tua cabeça.
—Estás a falar de quê?
— Teias de aranha, amor.
As que tu tens já te chegam e sobram.
Depois, e durante uma
eternidade, nenhum de nós disse uma palavra. Eu ouvia a sua respiração
intoxicante, do outro lado do mundo, do outro lado da linha. E sentia o
explodir do meu próprio coração, um selvático rufar de tambores.
— Por que estás a fazer
isto comigo? — disse.
— Porque tu me pediste — respondeu
ele.
— Não é verdade.
— É. Numa das últimas
vezes que nos encontrámos, até me acusaste de usar o engodo dos segredos de
Lisboa para andar a passear contigo por pensões reles.
– Não é verdade. Não nesse
contexto.
— É verdade. E não tinhas razão. Eu mostrei-te, em versão
condensada, mais do que vais conseguir ver durante o resto dos teus dias.
Também te levei às pensões reles, querida, mas isso faz parte do pacote.
Quase podia vê-lo rir entre dentes, mas a voz era
grave. Ele continuou:
— Nunca te levei aos subterrâneos, porque não era a
altura certa. Há coisas que têm de ser feitas com cuidado. Por mim, estou-me a
borrifar, mas tu tens todo o ar de quem gostava de andar por cá durante mais
algum tempo.
— O que queres dizer com isso?
— É o respeito pelo livre-arbítrio, amor. Eu não me
importo de correr riscos, porque o resultado é-me igual. Mas tu, infelizmente,
não pensas da mesma maneira.
— Infelizmente, por quê?
— Porque fazíamos um pacto. Agarrávamo-nos um ao outro e
íamos desta para melhor, como o Romeu e a Julieta, querida. Claro que,
primeiro, tínhamos de dar uma grande queca. Sempre sonhei com uma mulher que
alinhasse numa dessas. Paciência. Pela última vez: queres ou não ir aos
subterrâneos?
Fiquei calada, a ouvir a lengalenga do sonho da Tia Branca:
Foge da serpente, mas guarda a sua semente…
— Há cobras? — Perguntei, por fim.
— Lá em baixo? Claro. E ratos, caracóis, lesmas,
mosquitos, minhocas e outras coisas rastejantes. Nalguns sítios também há
morcegos e toupeiras. Como nos filmes do Spielberg. Mas eu tenho um líquido protector.
Borrifas-te com aquilo, e ficas com um cheiro tão horrível que os bichos se
afastam de ti. Mas tu não sentes nada, não tenhas medo.
— Como sabes?
— Não te contei, amor? Eu vivi lá.
Fiquei calada.
— Então? — disse ele.
— Estou a pensar — disse eu.
E estava. Era uma vez uma mulher com um molho de chaves. [...]
Æ
— Ainda estás aí?
— Ainda.
— Oh, querida, gostava tanto de partilhar contigo este
meu segredo. Depois, nunca mais te incomodo. Vou admirar-te à distância,
assinar o livro de honra dos visitantes do Centro de Arte Moderna, quando lá
fizeres a exposição de fotografias, por falar nisso, tens de pensar nas Fronteiras de maneira diferente. Sabes
que…
— Jorge, eu conheci a tua mulher. Eu estive com ela.
Aliás, ela é que veio ter comigo. Entrou-me pela casa dentro. Abancou na minha
sala. Na semana passada.
— Eu sei. E agora que aliviaste o coração: encontramo-nos
amanhã?
— A que horas?
— À hora do Eclipse começar.
— Onde?
— Na Cervejaria Trindade. Depois digo-te como deves olhar
para as tuas Fronteiras. Vais ter de
refazer as fotografias noutra óptica.
— Não é preciso. Eu já sei.
Eu já sabia, sim. Quer dizer, as Fronteiras. Descobrira por acaso, por mágica revelação. Mas não é disso, também, que trata a fotografia? Na verdade, de tudo quanto ele me tinha mostrado, guardara a ideia de uma linha divisória. Depois, perseguira essa ideia à luz da manhã e do fim da tarde. À luz do meio-dia. Durante meses. Queria transpor o que me fora dado ver e viver, com toda a sua carga, na forma como olhava, enquadrava, iluminava, aproximava ou diluía, esquinas de ruas, balcões de tascas, portas de bares ou de pensões, pórticos desolados de igrejas antigas. Mas o resultado eram fotografias tristes, como o olhar de alguém que anda perdido num mundo estranho, cheio de arestas e quase hostil, e a cor ainda acentuava mais, se isso é possível, toda esta desolação.
Foi ao meio-dia, no fim do mês de Junho, quando entrei na Sé para descansar, no ar fresco da catedral. E foi então que vi a luz, coada dos vitrais. A luz caindo de cima, derramando a sua bênção sobre as sombras bruxuleantes dos fiéis, e sobre o rectângulo branco do altar. A luz, a riscar o chão, pela porta entreaberta. A luz, em raios oblíquos, dentro dos quais dançam jóias, os minúsculos diamantes da poeira.
«Meu Deus.»
Jardins Secretos de Lisboa
Finalista do Prémio Europeu de Melhor Romance de Amo
https://www.wook.pt/livro/jardins-secretos-de-lisboa-manuela-gonzaga/33447442
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