Há textos que regressam muitos anos depois de terem sido escritos e nos encontram num lugar diferente daquele onde os deixámos. Como este, que pertence a Xerazade — A Última Noite, um livro que publiquei em 2015 e que continua a ocupar um lugar muito particular entre tudo o que escrevi. Talvez porque nele as histórias se abrem dentro de outras histórias, atravessando tempos, corpos, memórias, sonhos e mitos. Como se contar fosse também uma maneira de não perder — e de não nos perdermos.
Aqui, no capítulo O País da Cocanha, tudo começa com uma mão dentro de outra mão.
A seguir a fome.
Illustração de 1927 para o conto João e Maria// Irmãos Grimm, Kinder- und Hausmärchen (1812)
"Preciso do calor da tua mão na minha. Tens mãos de pianista ou de cirurgião. Dedos longos, sensíveis, com as articulações bem marcadas. Gosto das tuas palmas largas, quase retangulares, suaves, tépidas e tão fortes, onde se inscrevem as linhas do teu destino. Não acreditas? Oh, amor, o vocábulo «acreditar» é tão esquivo e quase sempre tão inapropriado. Certas coisas são como são, independentemente do sistema de crenças que lhes apliquemos. Não acreditar é também uma forma de acreditar. Pela negativa — mas não será essa uma fé ao contrário?
As tuas mãos, as nossas mãos, as mãos de toda a gente já nascem com as palmas cobertas pelos hieróglifos do destino. Com a grande vantagem, porém, de que o destino podemos ser nós a escrevê-lo, de modo que as mãos se tornam numa espécie de palimpsesto, como os quadros antigos, ou como livros do tempo em que o papel era uma preciosidade. Histórias novas escritas em cima de velhas histórias rasuradas, que nunca desaparecem completamente na memória de marcas indissipáveis, por mais ténues que sejam. Ou pinturas recentes a cobrir pinturas antigas, reveladas, pincelada sob pincelada, traço por trás do traço, por raios da pura luz desdobrados em frequências com nomes de flor ou de letras do alfabeto grego.
Aperta a minha mão pequena na tua mão tão grande. Aquece-a. Esconde-a. Vês? Parece uma garrazinha de ave, apenas com mais dedos do que as patas das aves usam ter. Lembro-me tão bem. Era assim que me levavas pelos caminhos da floresta. Com uma das mãos a segurar as minhas, a outra a tirar as pedras do bolso do teu manto esfarrapado. As pedras. Os marcos do nosso caminho de regresso a casa. Nesse tempo, irmã, irmão, tínhamos sempre fome. Toda a gente tinha sempre fome. Desde que nascíamos até morrermos. Uma fome como quase ninguém, hoje em dia e à nossa volta, imagina sequer como é. Uma fome atávica que já vinha connosco, colada à pele que nos revestia os corpos ínfimos, cosida nos ossos que nos suportavam os corpos débeis.
Uma fome brutal.
E tu levantavas-te de noite e ficavas a ouvir os pobres seres a quem chamávamos pai e mãe. Na escuridão, enrolada como um bicho, seguias as suas disputas por migalhas de pão na mesa vazia de outras vitualhas, e as suas refregas de animais silvestres por migalhas de amor no chão de uma choupana de misérias de que só restávamos nós dois para dar testemunho. Nenhum outro fruto conseguira vingar de tão sofrida cepa.
O amor era o único luxo a que nos podíamos permitir."






Como define Maria Adelaide?