domingo, maio 08, 2022

Uma frase, um poema, uma imagem até

 

Guardaste-me tão bem, mas tão bem, que já nem eu própria acedo a essa memória de mim, de nós, que cultuas no mistério dos teus pensamentos aonde regressas sempre que o desejas. Às vezes, deixas escapar uma frase, um poema, uma imagem até, para que eu acorde e, acordada, partilhe as migalhas do teu culto. No incêndio que traçam, essas palavras acordam em mim uma fugaz melancolia e, por instantes, olho de frente a vertigem do passado. Nesses momentos invejo-te. Na eternidade do tempo não construi catedrais ou mausoléus. Os meus braços estão demasiado cheios de nada, os meus pés estão demasiado impacientes pelo seu insone caminhar. Então, onde guardo as formas do que fomos e somos? Num palácio semelhante aquele que nos erigiste. Entretanto, perdi todas as coordenadas da sua localização, incluindo chaves e mapas. Para lá chegar, só em sonhos que, creio bem, me envias para me acordar.



Marc Chagall (Vitebsk 1887–1985 Saint-Paul-de-Vence)“The Promenade” – 1918 - óleo sobre tela, - Russian Museum, St. Petersburg.

domingo, janeiro 23, 2022

O Tempo

Quando o belo rapaz se foi embora, a bela menina decidiu vou chorar até esgotar todas as lágrimas, vou chorar até apagar a luz dos meus olhos, porque o dia se fez noite e a noite ficou eterna. Oh, que insanidade tamanha, disse-lhe a mãe, que lhe escutou os pensamentos. Pois não sabes que a ferida de um grande amor só se cura com a ferida de um amor maior ainda? Que lágrimas, que cegueira, que noite, que nada. Solta os teus cabelos, larga a os teus cuidados, e seca mas é os teus olhos para conseguires ver aquele outro rapaz tão belo que não tira os olhos de ti.

Oh, mãe, se eu curar a ferida de um amor tamanho com a ferida de um amor ainda maior, não mereço o dom de amar ninguém, nem por ninguém ser amada. Deixa-me com as lágrimas da minha cegueira, o meu coração trespassado e a noite dos meus dias, porque só assim mantenho vivo, e a sangrar, este amor que me morreu.

A mãe, com a sabedoria das mães muito antigas, não disse mais nada. Mas pensou: minha donzela afogada vive o adeus e a dor dessa morte, que eu cá sei muito bem da vida e do tempo, e vejo muito bem aquele outro rapaz tão bonito que não tira os olhos de ti. O tempo cura tudo. O tempo seca tudo. Até o rio da dor.

O tempo.



M. G. em Contos da Lua Vaga (a publicar)

sábado, janeiro 22, 2022

Só de pensar nela

 Partilho o meu conto que integra a excelente e última edição da "Oresteia - Revista de Literatura, Filosofia, Ciências Sociais e Artes, Nº 7 (maio/2022)". um projecto referencial a todos os títulos. Obrigada, Victor Oliveira Mateus.


Só de pensar nela

— Volta-te para mim — pediu ela.

Ele girou na cama, tomando consciência do colchão duro, dos lençóis leves, do corpo pesado, o seu, subitamente desperto e consciente do outro corpo ao seu lado.

— Abraça-me — pediu ela.

Tinha uma voz rouca e falava muito baixo. Cheirava a animal marinho. Tinha uma pele suave e um corpo denso. Era grande. Era quase tão grande como ele.

— Quero a tua boca — pediu ela.

Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador, tão inesperado que teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo a espaços fatiado pela claridade incerta de uma luz leitosa. De onde vinha? Aparentemente do exterior, por uma janela que não se deixava ver. O silêncio que os rodeava era quase total. Não se ouviam ruídos de tráfego, barulho de gente, zumbidos de máquinas. Nada. Só um profundo silêncio habitado pela respiração dos dois e pelo triunfante rufar de tambores do seu próprio coração. E por um cheiro amoniacal e doce onde ele encontrou a memória muito antiga de algas meio secas na preia-mar, à mistura com peixes esventrados por bicos de gaivotas famintas, e bagas de iodo a rebentar sob os seus dedos infantis. Há quanto tempo não sorvia aquele perfume?

A boca dela colou-se à sua e a sensação de felicidade tornou-se tão grande que ele sentiu medo. Medo do próprio desejo acordado? Ou da silenciosa e estranha sugestão de ameaça que pairava sobre ambos, como se perigo se ocultasse nas sombras? Respirou fundo. Perigo algum conseguiria diminuir um átimo que fosse da intensidade do desejo acordado pela presença do corpo quente, macio e duro, deliciosamente nu, colado ao seu.

— Volta-te mais para mim — ordenou ela.

E ele voltou-se a tempo de ver, nas tréguas breves da luz que cortava a mortalha da escuridão que os envolvia, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis no rosto que lhe parecia moreno, de uma beleza sem idade. Ela cheirava, também, a canela.

— Cobre-me — exigiu, numa urgência agónica. E ele pensou que a voz dela lhe fazia lembrar o último sopro de um animal degolado.

E foi então, ao cobri-la, que reconheceu a natureza da ameaça que se erguia contra os dois. Num desespero, ainda sentiu o calor molhado do beijo que trocaram e que o orvalhou de um prazer tão intenso que aquele sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Mas mal conseguiu penetrá-la e muito menos permanecer no corpo que se lhe oferecia. Nesse exacto momento sentiu, num desgosto infinito, que a respiração da mulher, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si, a escura, a escaldante boca, a flor de carne que se abria a acolher por brevíssimos momentos a sua serpente triunfantemente intumescida, tudo se desfazia como uma miragem.

Acordou com uma vontade tremenda de chorar e de rir.

Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo, numa cumplicidade feita mais de silêncios do que de palavras, há tantos anos talhados em dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se sequer a tocar-lhe por prazer e com desejo, mesmo em sonhos, lhe teria parecido obsceno.

Lentamente, dirigiu-se à janela e espreitou o dia que começava a nascer. «Obrigada», murmurou, a boca quase encostada à vidraça que de imediato ficou embaciada. Depois aclarou a garganta que doía e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se e quando voltaria a encontrá-la?

Só de pensar nela, só de pensar nela.


https://revistaoresteia.com/?fbclid=IwAR2O5xx-ATAndE54RveL6ycHif-9Os2DCr6iwM2PxIDoiRv4_DKzAmpgfu4

https://revistaoresteia.com/2022/01/18/2579/


domingo, dezembro 19, 2021

Boas Pessoas Despertam o Melhor das Pessoas

 As pessoas boas são em maior número do que as pessoas não-boas. Mas ser-se bom dá muito mais trabalho e implica muito maior responsabilidade social do que ser-se mau, porque os maus vão com a manada e não precisam de pensar. E muito menos de sentir. MG

ÀS PESSOAS BOAS 


    Ser bom não paga salário nem costuma ter grandes retornos. Mas quem é, naturalmente, ético, e quem tem coração no lugar certo, chega a um certo ponto em que não consegue ser de outra forma. E isso é muito bom. Tão bom, que nem se pensa nisso. O pior? A sensação de solidão, sobretudo quando se é muito jovem, e a convição de que se está quase sempre contra a corrente. Para além do desconforto de se ter de enfrentar os triunfantes outros, que riem por tudo e por nada quando se comportam como hienas, retalhando o seu semelhante caído. Essas mesmas hienas sociais que consideram as pessoas éticas, ou boas, como idiotas, ou supinamente tótós.
    Porque, não há outra forma de dizê-lo, os maus são cobardes. Já os bons, quer dizer, os que optam por essa via, precisam realmente de ser fortes. Até porque assumir bondade de coração, implica ter poucas certezas, ser sensível a ponto de não se conseguir ignorar o sofrimento alheio,não subscrever dogmas, pensar pela própria cabeça e, frequentemente, ir contra a corrente.
    Mas o melhor de tudo é que, de repente, vai-se a ver, e a corrente até quebra e influi a sua marcha. E     há muita gente deste lado de fora que é o lado de dentro. Gente tão grande, que só de partilharmos ideais juntos já nos fazem sentir melhor e mais acompanhados. Afinal, a bondade é a única coisa que conta, no caos em que muitos de nós vivem e que a todos nós ameaça de perto. Sem a bondade, nao há amor de espécie alguma. Pode haver emoções, descargas hormonais, euforias. Sem dúvida, amor pode ter isso tudo, mas é muito mais tudo.
    Portanto, há que sair do Armário GENTE BOA 🙂 Há muito trabalho a fazer. Afinal, querer e tentar ser bom é muito bom. Além disso, dá a consciência de que se é tão imperfeito que se está sempre muito longe de se conseguir sê-lo. Isso põe a cabeça no lugar. A bondade é um caminho espinhoso, incompatível com o peso do trambolho do orgulho."
— Manuela Gonzaga.

domingo, outubro 31, 2021

As bruxas em suas bruxuleantes fogueiras

Recordemos as bruxas. Essas tristíssimas Mulheres perseguidas, queimadas, às centenas, aos milhares: NÃO pela Igreja Católica (que se dedicou acima de tudo a um nicho de hereges substancialmente mais rico, os judeus). Mas SIM pela Igreja Reformada ou Protestante que liderou e inspirou os paladinos dessa monumental perseguição religiosa e social em países como Alemanha, Escandinávia, Inglaterra, Escócia, Suíça. Foi um longuíssimo processo de três seculos, pautado por uma brutalidade e crueldade inexcedíveis. Na Europa do Norte, a tal mais civilizada do que todos os outros países europeus do Sul. Pois.

Essa perseguição (às bruxas) também se regista no Império Português e no Império Espanhol. mas em escala substancialmente menor em comparação com os países acima referidos. 

Para Lutero, as bruxas eram "prostitutas do Diabo e deviam ser todas queimadas". Calvino afirmou o mesmo. Muitos outros se lhes seguiram, mas foi este o rastilho para os perseguidores das feiticeiras verem bruxas em todo o lado. Mulheres. quase todas. Novas e velhas, pobres quase todas. Foi uma grande caçada. Fala-se em cem mil supliciadas. No seu grande aparato, começou logo no sex. XVI com a eficácia de uma grande máquina acionada por eclesiásticos e juristas, cuja rede também apanhou homens, mas muitíssimo menor numero.

Aqui, em contexto católico tridentino, a grande máquina demoníaca que alimentou durante 300 anos os Autos-de-Fé (Santa Inquisição), foi usada acima de tudo para perseguir "hereges", quase todos judeus e confiscar-lhes os bens. Ressalve-se que nem todos eram queimados, mas acrescente-se que todos eram destruídos física, moral e psicologicamente. Essa mácula e esse peso ainda nos pesa a todos, consciente ou inconscientemente. Ao mesmo tempo, a rede do Santo Oficio apanhava também protestantes, sodomitas (o pecado nefando), bígamos, adúlteros/as ciganos, e feiticeiros/as.

Por junto, na fogueira da nossa "Santa" Inquisição e em 300 anos de horror, terão sido queimadas por bruxaria menos de meia dúzia de mulheres. A maior parte foi condenada a outras penas como o degredo (Castro Marim acolheu muitas. outras e outros foram desterrados para presídios africanos) Portanto e na contabilidade macabra das "nossas" fogueiras, bruxas e bruxos foram em numero muito inferior ao das nossas civilizadas sociedade e países protestantes. A crueldade essa, é idêntica. 

Com alguns laivos e requintes que me abstenho de descrever no campo protestante, pois gelam a alma só de os lermos. Mas também o que esperar? Só demónios poderiam ter inspirado tais estruturas. As ditas santas, as referidas inquisições.



Na imagem: "Execução em Baden", 1585, Wickiana, Zentralbibliotek Zurique.





domingo, setembro 20, 2020

E contudo amam-se!!



De um artigo de opinião em Expresso, 26/08/2020

“Ordem Moral” e “Doida Não e Não!”: a história de Maria Adelaide Cunha continua a gerar controvérsia 


Manuel Cardoso Claro, fotos Arquivo do Palácio Sao Vicente (cedida à autora)

«Maria Elisa Seara Cardoso Perez que era filha de Paulina e Fortunato Seara Cardoso, proprietário e diretor do Comércio do Porto. Veio a conhecer Maria Adelaide no Inverno de 1942, em casa dos pais, na rua da Alegria, Porto, onde esta se reencontrou com o filho, José Coelho da Cunha, 24 anos após a sua saída do Palácio de S. Vicente, em Lisboa. Maria Elisa, à época com 15 anos, viu, da janela da cave, aquela senhora pequenina, de cabelo todo branco, mas muito direita e com uma dignidade tocante, avançar ao encontro do filho que não via há tanto tempo, posto o que ambos se encerraram no salão da casa, onde estiveram uma tarde inteira à porta fechada. «Maria Paulina, minha mãe, tinha uma grande consideração e estima por Maria Adelaide de quem se tornou amiga e com quem tinha muitas e longas conversas.»

Mas entre aquele estranho casal… seria amor? Maria Elisa Perez respondeu-me: «Sem a menor dúvida. Maria Adelaide contou à minha mãe que encontrou no Manuel Claro o carinho e o respeito que o seu marido, Alfredo da Cunha, nunca lhe dera.»

Estes e outros testemunhos e todos os factos que recolhi provaram-me que, embora na curva descendente da idade, Maria Adelaide continuou a ser uma mulher reconhecidamente encantadora e sedutora sem esforço. Era culta, e teve educação primorosa. As cartas da professora dela e dos irmãos enaltecem a sua inteligência. E o Manuel, para além de ter sido um homem muito atraente (as fotografias provam-no e os testemunhos confirmam-no) era inteligente, sensível, culto – nunca deixou de ler e era amigo pessoal de Raul Rego -- e amou indubitavelmente esta mulher a quem se dedicou para o resto da vida. Não há o menor indício que aluda à sua imaginada homossexualidade e muito menos à sua pretensa fragilidade. O Manuel era um homem forte e de fortes convicções.»

Para ler o artigo na íntegra: 

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-16-Ordem-Moral-e-Doida-Nao-e-Nao-a-historia-de-Maria-Adelaide-Cunha-continua-a-gerar-controversia

quinta-feira, setembro 10, 2020

Doida não e não! Ou ″Uma pessoa apaixonada age com regras que o bom senso não conhece″ - DN

O jornalista João Céu e Silva, do Diário de Notícias, fez-me uma grande entrevista sobre a história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, que, parcialmente aqui publico. Para ler na íntegra, seguir o link. 

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Em meados de 2006, fui ao Palácio de São Vicente fazer um artigo para a revista Máxima e a dona, Clara Ferrão, que já tinha lido alguns livros meus, levou-me à que fora a biblioteca de Maria Adelaide, onde, devidamente catalogados e organizados em pastas, se encontrava um acervo riquíssimo de documentos relativos a este caso. E disse: "Se lhe interessar, pode vir, o tempo que quiser e quando quiser." 

Abri e folheei uma das pastas, ao acaso, e abismei. Para uma escritora, de mais a mais historiadora, a tentação foi muito grande. Comecei a delinear um projeto de investigação detetivesco para completar a história. Mas, publicado o artigo, duas senhoras do Porto que em muito jovens tinham privado com Maria Adelaide Coelho da Cunha telefonaram para a Máxima e pediram o meu contacto. Tinham estórias, testemunhos, documentos e outras testemunhas, nomeadamente José Manuel Cardoso, sobrinho direito do Manuel Claro que vivera com o casal, para partilhar se eu quisesse. 

Eu quis.




«Este caso não é uma singularidade. Por muito menos, havia mulheres - naturalmente ricas - no Conde de Ferreira sequestradas a pedido das famílias. Tivemos outro caso muito mediático, no princípio do século, quando uma jovem de 32 anos quis tomar ordens e professar num convento do Porto, o que transtornou de tal forma o seu pai, cônsul honorário do Brasil no Porto, que este a quis interditar -e conseguiu, só não levou o processo adiante. Em todo, sequestrou-a, colocou polícia à porta, e fez-lhe a vida num inferno. Depois voltaram todos para o Brasil. Os jornais da época dão muito eco ao assunto. É um caso muito estudado, sobretudo pela professora Rita Garnel, que já publicou livros e estudos sobre o tema. E tivemos o caso não menos escandaloso, mas rapidamente resolvido, do advogado Dantas da Cunha, que fugiu do Conde de Ferreira mais ou menos na altura em que lá se encontrava Maria Adelaide. Foi de tal forma chocante que, a somar-se a outros, determinou que o assunto fosse ao Parlamento e a lei dos internamentos mudou. No Estado Novo, voltamos a encontrar o mesmo paradigma, só que agora mais virado para os "desvios" da sexualidade ou para os "desvios" políticos. Quanto às senhoras, o paradigma só mudara de roupagem. À falta de conventos, os manicómios serviam muito bem como depósitos de mulheres "malcomportadas". Muita gente até achou que o Alfredo da Cunha era "um santo" porque outro, naquelas circunstâncias, teria matado o "algoz" que lhe roubou a mulher. A violência só se torna mais visível pela resistência e posteriormente pela denúncia pública que Adelaide opõe ao encarceramento, à forma como foi tratada, e por aí fora.

Uma das consequências desse escândalo foi o marido ter vendido o jornal. Seria indispensável?
O projeto da venda do Diário de Notícias já estava em agenda, apesar do repúdio total dela. Claro que, a partir do momento em que foi internada, o negócio fez-se sem entraves.


Os outros jornais da época aproveitaram o escândalo apenas para vender mais edições ou existia uma intenção de apoucar o diretor do Diário de Notícias e, em consequência, o próprio jornal?
Não é de menosprezar nunca o papel da concorrência... E tornou-se muito tentador, do ponto de vista editorial, representar quer um quer outro dos opositores, à cabeça dos quais o próprio Diário de Notícias, por Alfredo da Cunha, e A Capital, por Maria Adelaide Coelho.

Como foi a cobertura do Diário de Notícias sobre este caso?
Muito grande. Com artigos, anúncios, comentários ao livro que, tendo Alfredo da Cunha como editor, Infelizmente Louca!, faz rapidamente três edições. Entre muitos outros, Júlio DantasBettencourt RodriguesAzevedo Neves, presidente da Sociedade das Ciências Médicas, dão a cara pela obra. Egas Moniz e Júlio de Matos referem: "Trata-se de um dramático episódio de loucura lúcida que é o tormento das famílias e uma fonte viva de escandalosos pleitos judiciaes"...

Como foi a reação dos leitores ao seu romance?
Não cedi ao romance porque já se disse tanta mentira sobre esta senhora e este casal de amantes, que optei pela sobriedade e o rigor de um trabalho historiográfico. Apesar de se ler como estória, fiz questão de que fosse história. Está nalgumas universidades. Desde 2009 que integra os curricula do mestrado em Psicologia na Lusófona. Sou convidada com alguma frequência para palestras - por exemplo, no Instituto Camões em Vigo -, estive por duas vezes no Hospital Conde de Ferreira, em colóquios e no Júlio de Matos. Com o título Lucide Folie, está traduzido em francês, integrando o catálogo da Hachette.




Havia quem conhecesse o caso ou foi uma surpresa para a maioria?
Foi uma grande surpresa para a maior parte das pessoas, e ainda continua a ser, embora algumas tivessem visto ou ouvido falar do filme da Monique RutlerSolo de Violino, a quem presto homenagem e refiro no livro, e de quem falo sempre que me pedem contactos que ajudem a aprofundar ou a reviver este caso.

Além do romance de Agustina Bessa-LuísDoidos e Amantes, nada mais existe a nível literário que reflita este caso. A história de amor não justifica ou deve-se a desconhecimento?
A história que Agustina conta é ficção. Nem Manuel Claro era homossexual como ela pretende nem Maria Adelaide uma ignorante lésbica, como sugere. Aliás, a história de amor deles é completamente desvalorizada por Bessa-Luís, embora tivesse sido contactada pelas mesmas pessoas que posteriormente me contactaram para darem o seu testemunho sobre o casal, e a vida de ambos, no Porto. Os tais 40 anos que ficaram a faltar no filme. Acho que as histórias verdadeiras, sobre as quais há muita documentação, conhecida ou referida, tornam-se um pouco desmotivantes enquanto objeto literário. Como encontrar um ângulo novo? O que haverá ainda para descobrir? Um dia, mais tarde, certamente alguém irá pegar-lhe novamente. É uma história exemplar, de uma grandeza rara.

Qual foi a parte mais difícil de escrever?
Foram várias. A angústia e o secretismo com que Maria Adelaide abandona a casa, sem saudade alguma, mas com o coração muito apertado quando espreita, sem conseguir entrar, o quarto do filho. O encontro, numa pastelaria da Baixa, com a irmã, a quem não diz o que vai fazer, mas tem de controlar as lágrimas enquanto conversam. E, por fim, o medo. Ao entrar na estação do Rossio, ao entrar no comboio... E se a reconhecem? O coração aos saltos... Também foi difícil escrever aquele episódio terrível em que ela e o Manuel são literalmente "caçados" no Rossão e sob os olhares do povo, levados para uma taberna (estive lá, vi os locais que descreve), onde passam a noite, sobre uns fardos de palha, rodeados de polícias, de bêbados, mimoseados com gargalhadas e comentários obscenos. O Manuel foi magnífico. Protegeu-a, amparou-a. Depois, e sob chuva e neve, manhã cedo e a cavalo (ela), o Manuel e o primo a pé numa viagem dolorosa, até que os separem. E, claro, os tempos que ela passou no hospital, os dias no pavilhão das criminosas, sem poder falar com ninguém, vigiada a tempo inteiro, fechada. O regime do manicómio era brutal. A escrita deste livro fez-me percorrer uma gama de sentimentos e emoções muito ampla.

O caso teve uma grande componente psiquiátrica, uma "ciência" ainda pouco confiável à época. Este tornou-se um caso de estudo ou Adelaide Coelho não interessou aos profissionais da área?
Não foi único e a historiografia contemporânea tem vindo a debruçar-se sobre este e outros casos. Recordo que, ainda em 1920, A Capital publicou várias reportagens sobre o Conde de Ferreira e denuncia o sistema tido quase por normal, em que, com apoio de psiquiatras e a pedido de famílias de meninas ou senhoras ricas, as internam nos manicómios por "castigo" e para lhes ficarem com as fortunas. O que torna tão surpreendente este caso é a vigorosa defesa que Maria Adelaide faz em praça pública, dando ao prelo as suas memórias, e continuando a partilhar descrições vivíssimas dos quotidianos de um hospital de doidos nas páginas de um jornal. Isto melindrou a classe médica/psiquiátrica e extremou posições. Foi um "milagre" histórico este "lavar de roupa suja" - tudo se passa numa época sem censura. A partir de 1926, nada se teria desenrolado da mesma maneira. A opinião pública teve um peso decisivo. Na Alemanha, também houve um surto destes, abrangendo homens e mulheres. Muitos publicaram em folhetim as suas experiências, e as denúncias foram muito abundantes e detalhadas. Foi um escândalo na Alemanha, por volta de 1900. Estou a trabalhar alguma dessa informação, que é bem interessante. Tal como aqui, o tema dos internamentos e a prepotência que emergiu das denúncias levou o assunto ao Parlamento e a legislação sobre os internamentos foi alterada. Cá também.

Na sua escrita, voltou a encontrar um caso real que a seduzisse como este?
A biografia de imperatriz Isabel de Portugal também me envolveu muitíssimo e ainda demorei mais tempo a investigar e a escrever. Mas este caso é muito, muito especial.