segunda-feira, outubro 26, 2026

Imperatriz Isabel de Portugal — Catarina de Áustria, a Infanta de Tordesilhas

A História reserva por vezes, à sombra das grandes figuras que ocuparam o centro do poder, destinos igualmente extraordinários. É o caso de Catarina de Áustria, filha de Joana de Castela, que a posteridade consagrou como Joana, a Louca, e de Filipe, o Belo.

Nascida no coração de uma das mais perturbadoras tragédias da realeza europeia, Catarina passou a infância e a juventude em Tordesilhas, junto da mãe, antes de se tornar rainha de Portugal pelo casamento com D. João III.

Conservo as notas de rodapé, necessárias à compreensão do texto, mas dispenso as referências bibliográficas, que o leitor poderá encontrar no livro.

                                CATARINA, INFANTA DE TORDESILHAS, RAINHA DE PORTUGAL 


António Moro, 1552–1553. Museu Nacional do Prado, Madrid.

Isabel aprendera a amar Catarina, esta sua duplamente cunhada e prima*, que chegara a Portugal para desposar D. João III em 1525, precedida pela história assombrosa da sua vida em Tordesilhas ao lado da mãe, Joana, a Louca. A muito loura e muito branca mulher do rei de Portugal era a filha póstuma de Filipe, o Belo, arquiduque da Áustria, senhor dos Países Baixos e monarca consorte de Castela, que, ao morrer subitamente «na flor da vida», a 25 de setembro de 1507, arrastara para o túmulo o siso e a alegria da mais bela de todas as filhas de Isabel e Fernando, os Reis Católicos.

O casal encontrava-se em Burgos, Espanha, para receber a herança de Joana**, que o arquiduque Filipe partilharia ou, tal como tudo indicava, acabaria por usurpar, tornando-se o verdadeiro soberano de Castela, graças ao poder que tinha sobre a sua apaixonada mulher e o favoritismo muito evidente de que gozava por parte da nobreza e do clero castelhanos. Dezoito dias de triunfo, de festas, de celebrações a que umas calenturas, umas febres, puseram cobro. Ou o excesso de exercício, depois de uma lauta refeição. Ou demasiada água fresca, após um animado jogo de pelota. Quando Joana, que por amor ao marido já cometera várias loucuras, se viu viúva aos vinte e seis anos, pura e simplesmente enlouqueceu. Nas palavras de Prudêncio de Sandoval, «esta suprema dor e as contínuas lágrimas lhe estragam o juízo mais do que ela já o tinha alterado». 

Filipe, a quem os seus servidores flamengos tinham embalsamado, jazia na Cartuxa de Miraflores, em Burgos, quando a rainha, que parecera aceitar, se não a morte, pelo menos o repouso sagrado do seu amor, mandou desenterrar o corpo. De repente, lembrava-se do desejo manifestado pelo jovem arquiduque de ser enterrado em Granada. Contra tudo e contra todos, iniciou então uma macabra viagem. Insone, presidindo um cortejo fúnebre que só se deslocava durante a noite, à luz bruxuleante de infindáveis velas e tochas, e ao som de um incessante ofício de defuntos que uma legião de clérigos entoava, Joana arrastou o cadáver insepulto do marido pelos caminhos de Castela a Velha durante os meses de um inverno rigorosíssimo, enquanto lhe germinava no ventre a última semente de Filipe, o Belo. 

Só viajará de noite — explica — porque perdeu o sol da sua vida. 

Viúva, órfã de mãe, com o pai, Fernando, o Católico, muito longe, por Nápoles, os filhos mais velhos em Bruxelas, grávida de Catarina, e com o pequenino D. Fernando de quatro anos junto de si — o último filho que Filipe, o Belo, chegou a conhecer —, a nova rainha de Castela estava entregue aos seus fantasmas, arrastando nesta vertigem uma corte assombrada. Quatro meses depois da morte do marido, a 14 de janeiro de 1507, em Torquemada, Joana deu à luz o sexto filho. Uma menina, batizada com o nome de Catarina (1507-1578), em memória da sua irmã preferida, Catarina de Aragão, a filha mais nova dos Reis Católicos.*

Para a jovem rainha viúva, esta é a única filha da sua vasta prole que vai crescer a seu lado.E que, primeiro no ventre da mãe, depois criança de mama, integra, juntamente com o irmão, D. Fernando (1503-1564), o préstito da mãe, que prossegue a desvairada peregrinação atrás do corpo encerrado num féretro coberto a seda e ouro, colocado numa carruagem puxada por quatro cavalos da Frísia e guardado por soldados armados até aos dentes. Sobretudo para que nenhuma mulher, nem mesmo religiosa de clausura, se pudesse aproximar dele. «Devoram-na os mesmos ciúmes que a atormentavam enquanto vivia o marido», constata melancolicamente Pedro Mártir de Anglería, bispo de Málaga, a 24 de dezembro de 1506.

[pp. 37.37]

*D.Catarina, mulher de D. João III, irmão de D. Isabel, é irmã de Carlos V, marido da imperatriz. Os quatro, D. João, D. Isabel, D. Catarina e Carlos V são filhos de irmãs, e netos de Isabel e Fernando, os Reis Católicos. 

** A 26 de novembro de 1504, por morte de sua mãe, Isabel, a Católica, Joana herda a coroa de Castela

[Por morte de Fernando, o Católico, Joana virá a herdar as duas coroas, de Castela e Aragão. Carlos, que seria governador, exige o título de rei, não o retirando porém, à mãe. A partir de então, passam os dois a assinar conjuntamente os documentos oficiais, segundo ordem emitida de Bruxelas, a 21 de março de 1516. O reinado de Joana será um dos mais longos da história, pois a rainha viveu ainda mais 30 anos na clausura de Tordesilhas — mas também, sem dúvida, um dos mais patéticos. (Ver, para toda a sua biografia, Manuel Fernández Álvarez, Juana la Loca...)]






quarta-feira, outubro 21, 2026

Arquitectura do segredo — ou a palavra e o seu contrário

 Foi durante uma investigação sobre a Visitação do Santo Ofício da Inquisição ao Estado do Grão-Pará e Maranhão, entre 1763 e 1769, que me confrontei com uma das mais inquietantes relações entre a palavra, o silêncio e o poder.

Selo utilizado pela Inquisição Portuguesa que simbolizava seu lema de justiça e misericórdia, sendo respectivamente representadas pela espada e pela oliveira.

 Por Eiiaeo - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=74972737

Desenvolvido em colaboração com os arqueólogos Rui Gomes Coelho e Ana Rita Trindade, o trabalho levou-me a percorrer os caminhos da Palavra e do Rito, na reconfiguração de um discurso apresentado como «espiritual», mas que constituía também uma claríssima afirmação de poder.

Um poder que se pretendia sem limites.

A investigação levou a muitas outras leituras, entre as quais a dos Regimentos normativos, o corpo ideológico e jurídico, por assim dizer, que constituiu, ao longo de três séculos, o suporte intelectual deste Tribunal Eclesiástico. Uma instituição «sagrada» que se afirmava no mundo católico, sobretudo nos países ibéricos e nas suas possessões ultramarinas, através da teia de um poder inaudito sobre corpos e consciências.

Importa, porém, recordar que a perseguição e a repressão religiosas não foram exclusivas do mundo católico. Também em territórios protestantes se desenvolveram mecanismos de coerção e punição da dissidência religiosa, embora sob enquadramentos institucionais distintos.

Foi, portanto, por caminhos onde o poder articulava a utilização rigorosa da palavra com a utilização igualmente rigorosa dos rituais que envolviam este teatro do macabro que avancei, encontrando uma gestão feroz do silêncio — aqui enquadrado na temática do «segredo», fundamental para a optimização dos objectivos a que o Tribunal se propunha: «porque no Santo Ofício não há cousa em que o segredo não seja necessário».

Para começar, o réu ignorava de que era acusado e por quem. Na primeira sessão a que era chamado, não só ninguém o elucidava, como a Mesa lhe pedia que esquadrinhasse a sua consciência para encontrar as razões que o tinham levado àquela situação, sendo-lhe feito saber que o Tribunal possuía contra ele provas eloquentes. A esta primeira sessão seguia-se o total isolamento: o réu não falava com ninguém, nem ninguém lhe dirigia a palavra.

Por outro lado, a todos os que participavam nestes procedimentos e processos era imposta a obrigatoriedade do segredo. Juravam-no os réus, para toda a vida, sob pena de excomunhão e de regresso aos cárceres. Juravam-no testemunhas, ministros e oficiais do Santo Ofício, deputados e Promotor, notários e demais oficiais. Numa palavra, todos os chamados aos seus serviços, porque o mesmo manto opressivo cobria os que tivessem de entrar nos cárceres «em razão de alguma cura ou mezinha de doentes».

E o que valia para médicos, cirurgiões, barbeiros e parteiras estendia-se a pedreiros e carpinteiros, que, sem prestarem juramento de segredo sobre os Evangelhos, não podiam entrar nem exercer os misteres para que eram chamados.

O segredo opressivo, tentacular, nunca acabava. Era para sempre.

Da leitura de processos e Regimentos emana, ainda hoje, a convicção de que a instituição se outorgava o mester de cumprir desígnios divinos, sendo-lhe, portanto, lícito utilizar todas as armas ao seu alcance: do segredo à oratória, da tortura nos cárceres ao público auto-de-fé, o qual era uma festa para todos — à excepção dos actores principais.

Os réus.

A linguagem do poder

A palavra detém, por definição, o poder de representar o pensamento. Ou até de suscitá-lo.

Esta construção — a da rede do pensamento — torna-se particularmente visível nas fronteiras entre discursos, consoante eles pautam as normas do poder ou reflectem a linguagem popular e laica. Neste caso, o discurso legalista e espiritual da Igreja Tridentina leva-nos para um território onde as mesmas palavras de uso quotidiano não querem, necessariamente, dizer as mesmas coisas quando utilizadas pelo Tribunal do Santo Ofício.

Por exemplo. Tropeçamos repetidas vezes em vocábulos como «compaixão», «brandura» e «piedade», que não querem rigorosamente significar o mesmo se utilizados no discurso corrente ou num Regimento do Tribunal do Santo Ofício.

Sabendo-se como os presos eram tratados, é também de ressaltar, na alínea sobre os cuidados a dispensar-lhes, os conselhos piedosos que preconizavam falar-lhes com «gravidade e modéstia» e até com compaixão pela «sua miséria», a fim de poder conduzir essas rezes tresmalhadas «ao caminho de sua salvação». Constava ainda do regulamento que os presos tivessem ao seu dispor «tudo o que lhes for necessário», principalmente os doentes, de modo que todos reconhecessem que, no Santo Ofício, «piedade e a justiça» eram sinónimos.

Estamos, portanto, num território onde a palavra afirmava — através do gesto — o seu contrário. Um território onde o discurso se inseria num tenebroso conjunto de procedimentos que visavam aniquilar, física e moralmente, todos os que caíssem nas suas malhas.

Como justificar o injustificável?

Através de uma lógica suportada por mecanismos de repressão e vigilância. Estamos perante um verdadeiro edifício ideológico, que busca e autofornece a sua própria justificação, nunca descurando uma gestão cuidadosíssima dos argumentos. Há, assim, que reconhecer que Palavra e Segredo formam, neste contexto, uma dupla e intrincada hélice, de cujo equilíbrio depende todo o edifício.

Falamos de ocultação de provas e de branqueamento de práticas.

Palavra e liberdade

Pensar o poder da palavra implica pensar também, na liberdade e no silêncio. E, inevitavelmente, nos seus contrários. Porque a palavra, na sua capacidade de criar universos e realidades, tanto pode constituir um instrumento de emancipação como uma arma de submissão. Pode libertar e pode aprisionar. Pode calar o discurso, a vontade e a própria vida. Ou fornecer-nos as pistas de como conquistarmos as nossas próprias asas. E pode suscitar o silêncio criador, matriz de toda a Criação.

Nesse sentido, nós, os do ofício, temos um dever igualmente sagrado. É o dever de não calar. É o dever de manter acesa a chama da memória. A obrigação de recordar. Porque, em termos históricos, pensar, poder pensar e partilhar pensamento em liberdade constituem uma singularidade e um privilégio tão grandes que, para nossa própria salvaguarda e dos valores que defendemos, temos a obrigação de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para manter acesa esta luz. E esta chama.

A liberdade não é um dado adquirido.

Enquanto escritora e historiadora, e mesmo antes, enquanto jornalista, sempre senti como se nós, os do ofício, tivéssemos de pagar tributo pela exultação que sentimos quando o silêncio e a palavra se articulam na música da Criação. Precisamos de ambos. Mas só lhes chegamos em liberdade.

Por isso, temos de ser os seus guardiães.

A assinatura da vida

Mas a palavra não se esgota nos mecanismos do poder, nem o silêncio se confunde necessariamente com a imposição de calar. Existe também um silêncio criador, anterior à formulação do pensamento, onde a linguagem encontra a sua primeira possibilidade de existência.

Foi essa dimensão primordial da criação que procurei evocar numa passagem de Xerazade — A Última Noite, onde a palavra se encontra com a música, não como instrumento de domínio, mas como expressão da própria vida:

«No princípio de todos os princípios, foi o som. Depois, a palavra. Por fim, a música. A trindade primeva da criação. A sua emergência em espírito, alma e corpo. Um corpo de glória, cuja pauta são os números sagrados. É por isso que a música está em todo o lado — desde os confins do espaço e do fundo dos tempos, à incerta e delicada estrutura atómica. Cada estrela, cada planeta, cada galáxia, cada cometa e cada asteróide cantam na sua própria vibração. Assim como cantam todos e cada um dos corpos — da célula ao átomo e seus componentes até à plataforma fantasmática da preexistência quântica.

A música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio.

É a assinatura da vida.»



Nota documental

Este texto retoma reflexões desenvolvidas no âmbito da investigação Segredo e Verdade, sem Ódio nem Afeição — Palavra e Rito na Visitação do Santo Ofício da Inquisição ao Estado do Grão-Pará e Maranhão (1763–1769), realizada em colaboração com os arqueólogos Rui Gomes Coelho e Ana Rita Trindade.

A investigação teve por base documentação do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e do Arquivo Histórico Ultramarino, bem como os Regimentos do Santo Ofício, nomeadamente os de 1640 e 1774, publicados em As Metamorfoses de um Polvo. Religião e Política nos Regimentos da Inquisição Portuguesa (Sécs. XVI–XIX), edição de José Eduardo Franco e Paulo de Assunção (Lisboa, Prefácio, 2004).


domingo, agosto 09, 2026

O País da Cocanha

 Há textos que regressam muitos anos depois de terem sido escritos e nos encontram num lugar diferente daquele onde os deixámos. Como este, que pertence a Xerazade — A Última Noite, um livro que publiquei em 2015 e que continua a ocupar um lugar muito particular entre tudo o que escrevi. Talvez porque nele as histórias se abrem dentro de outras histórias, atravessando tempos, corpos, memórias, sonhos e mitos. Como se contar fosse também uma maneira de não perder — e de não nos perdermos.

Aqui, no capítulo O País da Cocanha, tudo começa com uma mão dentro de outra mão.

Depois vem a floresta.
A seguir a fome.
E aquilo que, mesmo quando quase tudo falta, ainda pode restar. Um luxo de que ninguém, ou quase ninguém, quer prescindir. Nunca. MG

Illustração de 1927 para o conto João e Maria// Irmãos Grimm, Kinder- und Hausmärchen (1812)


"Preciso do calor da tua mão na minha. Tens mãos de pianista ou de cirurgião. Dedos longos, sensíveis, com as articulações bem marcadas. Gosto das tuas palmas largas, quase retangulares, suaves, tépidas e tão fortes, onde se inscrevem as linhas do teu destino. Não acreditas? Oh, amor, o vocábulo «acreditar» é tão esquivo e quase sempre tão inapropriado. Certas coisas são como são, independentemente do sistema de crenças que lhes apliquemos. Não acreditar é também uma forma de acreditar. Pela negativa — mas não será essa uma fé ao contrário?


As tuas mãos, as nossas mãos, as mãos de toda a gente já nascem com as palmas cobertas pelos hieróglifos do destino. Com a grande vantagem, porém, de que o destino podemos ser nós a escrevê-lo, de modo que as mãos se tornam numa espécie de palimpsesto, como os quadros antigos, ou como livros do tempo em que o papel era uma preciosidade. Histórias novas escritas em cima de velhas histórias rasuradas, que nunca desaparecem completamente na memória de marcas indissipáveis, por mais ténues que sejam. Ou pinturas recentes a cobrir pinturas antigas, reveladas, pincelada sob pincelada, traço por trás do traço, por raios da pura luz desdobrados em frequências com nomes de flor ou de letras do alfabeto grego.

Aperta a minha mão pequena na tua mão tão grande. Aquece-a. Esconde-a. Vês? Parece uma garrazinha de ave, apenas com mais dedos do que as patas das aves usam ter. Lembro-me tão bem. Era assim que me levavas pelos caminhos da floresta. Com uma das mãos a segurar as minhas, a outra a tirar as pedras do bolso do teu manto esfarrapado. As pedras. Os marcos do nosso caminho de regresso a casa. Nesse tempo, irmã, irmão, tínhamos sempre fome. Toda a gente tinha sempre fome. Desde que nascíamos até morrermos. Uma fome como quase ninguém, hoje em dia e à nossa volta, imagina sequer como é. Uma fome atávica que já vinha connosco, colada à pele que nos revestia os corpos ínfimos, cosida nos ossos que nos suportavam os corpos débeis.
Uma fome brutal.

E tu levantavas-te de noite e ficavas a ouvir os pobres seres a quem chamávamos pai e mãe. Na escuridão, enrolada como um bicho, seguias as suas disputas por migalhas de pão na mesa vazia de outras vitualhas, e as suas refregas de animais silvestres por migalhas de amor no chão de uma choupana de misérias de que só restávamos nós dois para dar testemunho. Nenhum outro fruto conseguira vingar de tão sofrida cepa.
O amor era o único luxo a que nos podíamos permitir."
Em Xerazade, a Última Noite, Lisboa, Bertrand, 2015, pp. 56-57.
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sábado, agosto 01, 2026

"Foge da Serpente mas guarda a sua semente" Jardins Secretos de Lisboa

Há lugares que nunca acabam de revelar o que guardam. Lisboa é um deles. É assim que volto, por vezes, às páginas de Jardins Secretos de Lisboa como quem regressa a uma cidade que nunca acaba de se revelar.". E é assim, também, que regresso à mesma questão: onde começam verdadeiramente as fronteiras? Não as geográficas, nem as históricas, mas aquelas que atravessamos por dentro?  Talvez por isso, volto sempre ...  ou então, talvez seja Lisboa que continua a regressar a mim.


[...] E foi então que ele me telefonou de novo. Não falávamos há tanto tempo que eu já tinha descurado a barreira que o impedia de chegar até mim. De modo que, quando o telefone tocou em minha casa, às 10 horas da noite do dia 10 de Agosto de 1999, eu atendi, sem aguardar os serviços do atendedor de chamadas automático.

Pensei que era a Luísa, a dar-me notícias de si e do seu pirata cibernético:

— Vais ver o Eclipse?

— O quê?

— Perguntei se ias ver o Eclipse.

— Porquê, estás a organizar alguma excursão? É um espectáculo aberto a todos, sem limite de idade. Não é preciso nada de especial, a não ser um par de óculos escuros com filtro adequado.

— Acertaste. Estou a organizar uma excursão.

— Ainda bem para ti. Agora tenho de desligar; estou à espera de uma chamada importante.

— Estou a organizar uma excursão aos subterrâneos, com passagem e paragem na Câmara do Tesouro do Rei. É o dia certo, justo, perfeito. Não podia ser antes, não pode ser depois. Precisas da máquina, se quiseres fotografar, e de uma camisola grossa. No fundo da terra faz frio. Traz um gorro, também. Sempre evita que aquelas coisas pegajosas, que as mulheres odeiam, se peguem à tua cabeça.

 —Estás a falar de quê?

— Teias de aranha, amor. As que tu tens já te chegam e sobram.

Depois, e durante uma eternidade, nenhum de nós disse uma palavra. Eu ouvia a sua respiração intoxicante, do outro lado do mundo, do outro lado da linha. E sentia o explodir do meu próprio coração, um selvático rufar de tambores.

— Por que estás a fazer isto comigo? — disse.

— Porque tu me pediste — respondeu ele.

— Não é verdade.

— É. Numa das últimas vezes que nos encontrámos, até me acusaste de usar o engodo dos segredos de Lisboa para andar a passear contigo por pensões reles.

– Não é verdade. Não nesse contexto.

— É verdade. E não tinhas razão. Eu mostrei-te, em versão condensada, mais do que vais conseguir ver durante o resto dos teus dias. Também te levei às pensões reles, querida, mas isso faz parte do pacote.

Quase podia vê-lo rir entre dentes, mas a voz era grave. Ele continuou:

— Nunca te levei aos subterrâneos, porque não era a altura certa. Há coisas que têm de ser feitas com cuidado. Por mim, estou-me a borrifar, mas tu tens todo o ar de quem gostava de andar por cá durante mais algum tempo.

— O que queres dizer com isso?

— É o respeito pelo livre-arbítrio, amor. Eu não me importo de correr riscos, porque o resultado é-me igual. Mas tu, infelizmente, não pensas da mesma maneira.

— Infelizmente, por quê?

— Porque fazíamos um pacto. Agarrávamo-nos um ao outro e íamos desta para melhor, como o Romeu e a Julieta, querida. Claro que, primeiro, tínhamos de dar uma grande queca. Sempre sonhei com uma mulher que alinhasse numa dessas. Paciência. Pela última vez: queres ou não ir aos subterrâneos?

Fiquei calada, a ouvir a lengalenga do sonho da Tia Branca:

Foge da serpente, mas guarda a sua semente…

— Há cobras? — Perguntei, por fim.

— Lá em baixo? Claro. E ratos, caracóis, lesmas, mosquitos, minhocas e outras coisas rastejantes. Nalguns sítios também há morcegos e toupeiras. Como nos filmes do Spielberg. Mas eu tenho um líquido protector. Borrifas-te com aquilo, e ficas com um cheiro tão horrível que os bichos se afastam de ti. Mas tu não sentes nada, não tenhas medo.

— Como sabes?

— Não te contei, amor? Eu vivi lá.

Fiquei calada.

— Então? — disse ele.

— Estou a pensar — disse eu.

E estava. Era uma vez uma mulher com um molho de chaves. [...] 


Æ 

— Ainda estás aí?

— Ainda.

— Oh, querida, gostava tanto de partilhar contigo este meu segredo. Depois, nunca mais te incomodo. Vou admirar-te à distância, assinar o livro de honra dos visitantes do Centro de Arte Moderna, quando lá fizeres a exposição de fotografias, por falar nisso, tens de pensar nas Fronteiras de maneira diferente. Sabes que…

— Jorge, eu conheci a tua mulher. Eu estive com ela. Aliás, ela é que veio ter comigo. Entrou-me pela casa dentro. Abancou na minha sala. Na semana passada.

— Eu sei. E agora que aliviaste o coração: encontramo-nos amanhã?

— A que horas?

— À hora do Eclipse começar.

— Onde?

— Na Cervejaria Trindade. Depois digo-te como deves olhar para as tuas Fronteiras. Vais ter de refazer as fotografias noutra óptica.

— Não é preciso. Eu já sei.

Eu já sabia, sim. Quer dizer, as Fronteiras. Descobrira por acaso, por mágica revelação. Mas não é disso, também, que trata a fotografia? Na verdade, de tudo quanto ele me tinha mostrado, guardara a ideia de uma linha divisória. Depois, perseguira essa ideia à luz da manhã e do fim da tarde. À luz do meio-dia. Durante meses. Queria transpor o que me fora dado ver e viver, com toda a sua carga, na forma como olhava, enquadrava, iluminava, aproximava ou diluía, esquinas de ruas, balcões de tascas, portas de bares ou de pensões, pórticos desolados de igrejas antigas. Mas o resultado eram fotografias tristes, como o olhar de alguém que anda perdido num mundo estranho, cheio de arestas e quase hostil, e a cor ainda acentuava mais, se isso é possível, toda esta desolação.

Foi ao meio-dia, no fim do mês de Junho, quando entrei na Sé para descansar, no ar fresco da catedral. E foi então que vi a luz, coada dos vitrais. A luz caindo de cima, derramando a sua bênção sobre as sombras bruxuleantes dos fiéis, e sobre o rectângulo branco do altar. A luz, a riscar o chão, pela porta entreaberta. A luz, em raios oblíquos, dentro dos quais dançam jóias, os minúsculos diamantes da poeira.

«Meu Deus.»



Jardins Secretos de Lisboa

Finalista do Prémio Europeu de Melhor Romance de Amo

https://static.fnac-static.com/multimedia/PT/pdf/9789897854569.pdf

Onde? https://www.fnac.pt/Jardins-Secretos-de-Lisboa-Manuela-Gonzaga/a14239831

 https://www.wook.pt/livro/jardins-secretos-de-lisboa-manuela-gonzaga/33447442

https://www.gradiva.pt/produto/jardins-secretos-de-lisboa/



 



 

 

sábado, junho 20, 2026

Jardins Secretos de Lisboa em Estrasburgo


Há livros que nascem em silêncio e seguem o seu caminho quase em surdina, como se fossem sendo descobertos devagar, por camadas. Jardins Secretos de Lisboa tem sido um desses livros.

Agora, encontra-se a representar Portugal na 4.ª edição do Prix européen du roman d’amour (2026–2027), um prémio literário europeu que reúne 11 romances de 11 países membros do Conselho da Europa.

O prémio é organizado pela associação Book1, com o apoio da Cidade de Estrasburgo, da Médiathèque André Malraux, da Amicale du personnel du Conseil de l’Europe e de vários parceiros culturais e diplomáticos sediados em Estrasburgo. A votação pública decorre até 31 de outubro de 2026 e permite a cada leitor escolher até 3 romances.

Fico naturalmente feliz por ver este livro — tão lisboeta, tão atravessado por memórias, diásporas, sombras, jardins interiores e atmosferas de luz e perda — seguir este caminho europeu.

Se o leram, se ele vos tocou, se acham que merece continuar o seu percurso, deixo-vos aqui o apelo: votem. Porque os livros escrevem-se a sós, mas não chegam longe sem leitores.

E porque, por vezes, um gesto pequeno — um voto, uma partilha, uma recomendação — ajuda verdadeiramente a abrir caminho.

Com gratidão,

Votação aqui:

https://demarches.strasbourg.eu/culture-loisirs/prix-roman-amour-2026/






sábado, maio 09, 2026

Jardins Secretos de Lisboa

O que atravessa Jardins Secretos de Lisboa não é “o amor” como tema ornamental. É a paixão no seu estado mais perigoso: aquela que nasce onde não devia, entre pessoas que não a procuravam assim, em lugares que a cidade esconde e, ao mesmo tempo, oferece. É Lisboa a abrir portais em pensões, ruas, jardins, bares, miradouros, quartos clandestinos, sombras, memórias africanas, cheiros antigos, perdas e fulgores.

O amor, neste romance, não redime nem ordena: irrompe.


Citando da página da editora: 

Escolhido para representar Portugal na 4.ª edição do Prémio Europeu de Melhor Romance de Amor 2026, em Estrasburgo, e livro obrigatório na Faculdade de Belas-Artes (Lisboa, Portugal), na Georgetown University (Washington, EUA) e na Universidade Aix-Marseille (França), «Jardins Secretos de Lisboa» é uma viagem sensorial entre Lisboa, memória e identidade, onde o passado e o desejo se entrelaçam nos lugares mais íntimos da cidade e de quem a habita.

Em «Jardins Secretos de Lisboa», Manuela Gonzaga conduz-nos dos anos 60 ao início do milénio, num romance que retrata uma Lisboa simultaneamente luminosa e decadente, marcada pelo fim de um regime em declínio.

É neste território de luz e sombra que Alice emerge. Fotógrafa desiludida e presa a um quotidiano sem fulgor, reencontra Jorge, homem de língua feroz e comportamento libertino, que a arrasta para uma outra Lisboa – secreta e iniciática. O que começa como vertigem amorosa transforma-se numa descida aos jardins interditos da cidade, numa travessia onde paixão, perda e revelação se confundem.

Romance de grande intensidade sensorial, povoado por uma galeria de personagens inesquecíveis, «Jardins Secretos de Lisboa» é uma viagem ao desconcertante mistério da natureza humana, pelos lugares íntimos onde se esconde aquilo que somos – e aquilo que mais tememos ser.. [Gradiva Edições].

https://www.gradiva.pt/produto/jardins-secretos-de-lisboa


quarta-feira, março 25, 2026

Queridos Anos 80

 Recordando os "Queridos Anos 80" num artigo para a revista Máxima em 2019.

"Não éramos convencionais. Pensávamos fora da caixa. E, como as fronteiras ainda eram bastante esbatidas, não nos antagonizávamos pela vida por causa de partidos políticos, jogos de bola ou religiões, até porque grande parte de nós estava fora dessas arenas e o nosso pequeno mundo era um vasto círculo sem fronteiras, onde o limite era o sonho de cada um. Naturalmente, éramos, muitas vezes, arrogantes, logo, intolerantes. Estávamos contentes com o nosso descontentamento e descontentes com o contentamento geral. Éramos, pensávamos nós, livres. Há 30 anos, tínhamos 20 anos, 30 e alguns 40, mas, diante de nós, o futuro desenrolava-se numa estrada da glória que nada nem ninguém poderiam travar. Trabalhávamos intensamente para isso. Sem horários nem limites, mas também sem relógio de ponto. Numa palavra, "dávamos o litro".
Os sinais eram todos a nosso favor."


Como era ter 30 anos há 30 anos?


Dos sonhos todos, quantos ficaram pelo caminho? Pergunta-se Manuela Gonzaga, otimista encartada, escritora e historiadora, que diz contabilizá-los melhor quando pensa em todos os que se concretizaram. E sem ceder às armadilhas da saudade, mostra-nos como é delicioso recordar os queridos anos 80.


11 de junho de 2019 às 07:00Manuela Gonzaga


O homem entrou, dirigiu-se ao rececionista sentado na secretária junto da porta da entrada que dava para a rua e disse: "Quero falar com um jornalista. Matei a minha namorada." O rececionista olhou para ele e disse: "‘Tá bem, filho, mas tens de esperar. Estamos em fecho e os jornalistas estão muito ocupados." O presumível criminoso obedeceu e afundou-se no sofá velho encostado à parede em frente. E ali ficou, manso como um cordeirinho, a observar o movimento do entra e sai dos jornalistas, fotógrafos, paquetes e outra gente da casa. O jornal, o Correio da Manhã, com sede numa cave à rua Ruben A. Leitão, em Lisboa, tornara-se um sucesso brutal em menos de um ano. Era um tabloide. O primeiro, em Portugal. Direção editorial segura e inteligente de um grande jornalista, Vítor Direito, linha gráfica e direção artística do pintor José Ralha, e uma equipa de gente entusiástica, alguns com muito talento que se viria a concretizar nos anos vindouros. Nesses tempos vivíamos a paixão dos jornais e acreditávamos que íamos mudar o mundo. Havia um suplemento semanal de formato magazine, onde alguns espraiavam a sua veia mais literária, e, mais tarde, um suplemento musical que eu coordenava e que escrevia, em parte, onde divulgávamos o melhor da emergente música popular portuguesa, uma parceria feliz com a excelente revista TOP Música & Som (de Duarte Ramos, o Chefe, como todos lhe chamávamos). O Correio da Manhã apostava também muito na reportagem, na notícia, na cultura, no desporto e no futebol (nas páginas finais) e… nas redes locais. Tinha correspondentes por todo o lado que, ao telefone, ditavam efemérides que, reduzidas a uma, a duas, a quatro linhas, traziam o nome da aldeia ou da vila às páginas do recente fenómeno da imprensa nacional. Acima de tudo, noticiava, embora ainda com algum pudor, os crimes que assombravam a espuma dos dias.

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Fotos: no Sara com a Frente Polisário (1988), reportagem para revista Marie. 

Para ler a reportagem na íntegra: 

https://www.maxima.pt/atual/detalhe/como-era-ter-30-anos-ha-30-anos?fbclid=IwY2xjawQlSo5leHRuA2FlbQIxMABicmlkETB0VHJ3T2NMaFFjaWhmbmp6c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHiKYtgkvSKZ3dfNaLTjFochlVTO03MfVHTnF4p4_r_CdUT4jx6G4pXoQJ5Gp_aem_OWEXWkBgehPXTfNQne3RsA