terça-feira, julho 21, 2020

Um Guia Michellin das Prisões dessa Europa afora


Do primeiro livro que publiquei, já lá vão mais de 20 anos, este conto que dá o titulo à colectânea. É uma ficção muito ancorada em memórias do pós 25 de Abril. Foi uma época breve.O futuro nunca foi tão incerto. O presente nunca foi tão presente. Sem planos, sem projectos, num mundo que desaprecera, reencontrei-me na orla algarvia. O lugar mais próximo de África que poderia desejar.

As ilustrações são do pintor José Ralha. Capa incluída.

A MORTE DA AVÔ CEGA

«A máscara elabora-se a partir da recusa de aceitar o nosso estado de confusão. Há uma imagem tradicional para designar este estado de confusão. Chama-se a avó cega.
«A avó cega criou toda a nossa família, o conjunto da nossa raça. É também uma profissional de todos os jogos mentais, ideias, objectos, e tudo o resto. Ao mesmo tempo é cega. Não pode ver mais do que aqui e agora.»  - Chogyam Trungpa, Tantra, La Voie de l’ultime, Seuil, 1996.




«Aqui estou eu onde Tu me puseste!», sibilou ele, quando finalmente as forças o abandonaram. Queria ter dito esta frase a olhar para cima, mas o frio intenso obrigava-o a enterrar a cabeça entre os ombros. De resto, como distinguir, naquela névoa que amortalhava o dia, onde começava o céu e acabava a terra? «Estou no limbo», pensou. «Estou no limbo da catequese aquele lugar monstruoso onde não há sombras nem luz, e onde todos os caminhos vão dar a lado nenhum, porque nunca se sai do mesmo sítio.» O frio cosia-lhe a pele e os músculos aos ossos, em alfinetadas cirúrgicas. Às vezes passava um carro. Mas agora, já não tinha nem forças para tirar as mãos nuas do bolso do casaco e pedir boleia: «Já que não fazes mais nada, arranja-me uma luva, uma só! Queres que morra numa estrada alemã?», gritou, num último arranque, desta vez a cabeça erguida para um invisível céu.

— E então vi na estrada, uns metros à minha frente, uma luva de couro caída no alcatrão, uma só, e calcei-a, pedi boleia ao carro que apareceu logo a seguir, era um imigrante que vinha de Hamburgo para a Beira-Baixa, e viajei com ele até Manteigas. Pagou-me o jantar desse dia, o pequeno-almoço e o almoço do dia seguinte, dormi com ele em casa dos pais, e depois deu-me dinheiro para o comboio. Cheguei a Lisboa a tempo do Natal — contou-me ele, meses depois, sob o sol do Algarve.
Estávamos sentados no chão, encostados às muralhas da Fortaleza da Praia da Rocha, em Portimão. Os turistas passavam olhando-nos com uma curiosidade indisfarçável. Panos vermelhos, azuis escuros e verdes desenhavam no chão, à nossa volta, um quadrado quase regular, tomando como um dos lados a linha irregular da muralha. Sobre os panos alinhavam-se as nossas bijuterias de cobre e missangas, de latão e couro entrançado, a faiscar sob o sol das quatro da tarde.
— De maneira que nunca mais deixei de acreditar n’Ele e a única vez que me zanguei, a sério, com Deus, foi no dia em que Ele permitiu que o mar me roubasse uma garrafa de vinho, que pus a gelar enterrada na areia debaixo das ondas. Zanguei-me com Deus e com o mar. Foi em Patmos, na Grécia. Tinha-a comprado com os últimos dinares. Sabia que depois de beber aquela garrafa, ia ter uma revelação. Aquela ilha tem uma energia, uma onda, uma vibração incrível. Tirando isso não tem mais nada.
— Oh — disse eu, porque não me ocorreu dizer mais nada.
— Foi ali que Deus atirou com o Apocalipse à cabeça do Jonas, que nem sabia escrever nem nada. Mas escreveu aquele. O último livro. Não sabias? — prosseguiu, coçando as costas da mão esquerda onde nos últimos dias lhe surgira uma galáxia de pequeníssimas bolhas brancas.
— Eduardo, tu és doido — respondi-lhe. — E ainda por cima tens sarna.
— Estás enganada, é uma alergia. Anteontem os tipos do restaurante da Fortaleza deram-me uns camarões. Deviam estar estragados.
— Não foram os camarões, foi o gato vadio que meteste no saco-cama. Vai ao posto, ou então coça-te longe. Essa porcaria pega-se.
Os outros riram-se. Éramos 12, como os apóstolos, e quase todos tão maltrapilhos como personagens de um filme bíblico. Eles, alguns, tinham barba, cabelos compridos, usavam um brinco, túnicas berberes ou camisolas de algodão e calças de ganga no fio. As raparigas eram muito mais cuidadosas com a aparência, embora algumas gostassem de saias compridas e desajeitadas, de cores desbotadas pelo sol, e escondessem a cara atrás de uma massa hirsuta de cabelos pouco tratados. Quase toda a gente tomava banho diariamente, e, ao contrário do que gostávamos de dizer aos turistas curiosos, não, não «vivíamos todos juntos numa tenda montada na praia», tapados, no fresco da noite, com os panos onde, durante o dia, estendíamos a nossa quinquilharia manufacturada.
Havia um casal, ela francesa, ele italiano, que vivia numa quinta, para os lados de Estômbar, onde também tínhamos arranjado casa, e que ao fim da tarde faziam ioga à beira-mar: «À la fin de l’été on va t’aux Indes», diziam eles sempre que conheciam alguém, de modo que passámos a chamar-lhes os índios. Havia a Lídia e o Toni, recém-casados, estudantes, que durante o ano eram pessoas como as outras. Moravam em Sines e conjugavam estudos e trabalho. E o Jerry, australiano, de quem se dizia que saía do mar tão seco como tinha entrado, como acontece aos patos e às gaivotas, porque, através da macrobiótica e do ioga, atingira o domínio biológico do corpo e a libertação do espírito. Era um homem lindíssimo, de quem não sabíamos quase nada, a não ser que não tocava em drogas, nem em bebidas alcoólicas, nem em carne, nem em peixe, de modo que a seu respeito já se construíra quase uma lenda. E os outros. O Miguel, o Pedro, o Joni e a Lula e os restantes de quem já nem me lembro do nome.
E o Eduardo:
— Ando à procura de Deus — contou-me ele numa das primeiras vezes que falámos. — E para O encontrar vale tudo.
Dormia na praia, num saco-cama esfarrapado que uns turistas tinham abandonado junto de um contentor de lixo, e fazia as bugigangas mais desajeitadas que alguma vez faiscaram sob os raios do sol naquela improvisada feira de hipes como nos chamavam, no ano da graça de 75, estava o País a arder em febre.  Tinha essa mania de encontrar Deus desde os 15 anos, quando emborcara o primeiro ácido e tinha visto a Sua sombra e a Sua luz, dizia, em toda a gente e em todo o lado, mesmo na cara indignada do pai que o descobriu nu, no pátio das traseiras, a dançar como um selvagem. Mesmo, contava ele, nas ruas enlameadas do bairro de lata que começava no fim da rua da sua casa na Pontinha, em Lisboa. Vira Deus, repetia, nas copas das árvores, nas nuvens efémeras, no cesto das hortaliças da mulher das hortaliças que vendia legumes de porta a porta, apregoando a cantar couves, cebolas, nabos e fruta. E nos gatos e nos cães vadios, na caca dos pombos e na cara dos polícias que andavam aos pares, perplexos, sem saber que tipo de ordem e que tipo de desordens eram permitidos ou proibidos no país virado de pernas para o ar:
— Aos 16 anos fui-me embora. Não consegui ir mais longe do que Paris. Prenderam-me e mandaram-me de volta. Vim viver para Lagos.
Aos 18 anos, o passaporte permitiu-lhe maior liberdade de movimentos. Com esse imprescindível documento abandonou finalmente a paz mole do litoral Algarvio e andou por essas Europas num desatino de judeu errante, sem saudades de ninguém a não ser de si próprio, a pé, à boleia, ou de comboio, quando, por incrível que pareça, arranjava dinheiro para pagar o bilhete. Às vezes contava, num discurso fragmentado, episódios dessa longa viagem que o depusera às portas do Bósforo, e o trouxera de volta a através de uma Alemanha gelada, um percurso que esquadrinhou em ziguezague o mapa dos países, e, socorria-se de apontamentos coligidos num caderninho sebento:
— Conheci as prisões de quase todos os países. Vou escrever um guia Michelin das cadeias. Com estrelas e tudo. Os colchões, a comida, os recreios, as latrinas, o tipo de tratamento, o ambiente humano.
— E encontraste?
— Quem?
— Deus, ora.
— Descobri que só O posso encontrar quando me encontrar a mim próprio.
—E não podes procurar-te a ti próprio sem sair do mesmo sítio?
Olhou-me com um ar magoado e perplexo:
— Às vezes acho que estás a gozar comigo.

Ia Agosto a meio quando se pôs de novo a caminho. Na véspera, tinha-nos dito:
— A partir de hoje não quero ter nada de meu.
E informou-nos que tinha devolvido o saco-cama ao lugar onde inicialmente o tinha encontrado, encostado ao mesmo contentor de lixo, toda a roupa em excesso, mas ainda estava hesitante em relação à mochila. A mim, ofereceu-me os dois livros que o acompanhavam desde sempre, O Budismo Zen, de Allan Wats, e o I Ching, com as três moedinhas oraculares:
— Fico com o meu livro de apontamentos, está lá o guia Michelin das cadeias, todo, alguns poemas e as vossas moradas.
À tarde demos com ele a chorar, nas escadas que levavam à praia:
— Desde que decidi que não queria ter nada de meu que estou farto de receber coisas.
Apontou um chapéu ao seu lado:
— Deu-mo o Jerry, uma vez disse-lhe que era fixe. Depois as americanas que tinham a tenda ao lado do meu saco-cama ofereceram-me uma camisola e umas bermudas, amanhã voltam para casa. E quando souberam que já não tinha saco-cama deixaram-me um dos delas. Não consegui recusar, não gosto de ofender as pessoas.
Uma criança, que subia as escadas, parou e segredou à mãe que se inclinou e lhe meteu qualquer coisa na mão. A menina adiantou-se, quase em bicos de pés como se dirigisse a um altar, parou à nossa frente e estendeu a mão para a copa do chapéu virado ao contrário. Depois deixou cair lá dentro uma nota de 50 escudos — ainda as havia naquele tempo. 
— Estão a ver? — disse ele com as lágrimas a correrem em fio pelas barbas abaixo. Depois escondeu a cara entre as mãos e pediu que o deixássemos só. Os ombros tremiam-lhe com os soluços.

No dia seguinte, já não o encontrámos. Depois o Verão acabou quase de repente. Então, quando demos por nós, a cidade engolira-nos de novo, de uma forma ou de outra, e aquela época passou a representar uma espécie de parêntesis luminoso e breve, de onde a realidade se esfumara numa espécie de sonho onde havia sempre sol e era sempre sábado. Essas coisas não podem durar muito tempo. Anos depois já só sabíamos uns dos outros em encontros casuais e breves, que depois cessaram de todo. A Lídia formara-se e era agora uma advogada sindicalista bem-sucedida. O marido, tornara-se seu ex-marido e era um empresário da noite, de cabelo curto e carros poderosos. Os «indianos» de Itália e França devem ter ido, finalmente para as suas Índias, o Jerry voltou à Austrália de onde era natural, e enfiou-se pelo deserto dentro à procura dos ‘Filhos das Estrelas’, e o resto desfocou-se numa imagem bonita, mas sem legenda, nem nomes, nem mais nada. Anos mais tarde, foi um outro companheiro de estrada dessa época delirante, que me contou o resto da história do Eduardo. Foi um encontro terrível. Atravessava a Avenida de Roma carregada de sacos de compras quando a amiga com quem estava me avisou:
— Aquele homem está a chamar por ti. Disse o teu nome.
Virei-me e vi um velho de cabelos grisalhos, sentado no chão diante da montra de uma loja. À sua frente, tinha um pano desbotado sobre o qual se alinhavam pulseirinhas e anéis de uma pobreza que apertava o coração. Tinham-se passado mais de 18 anos e não reconheci, no homem quase desdentado, um dos rapazes que também estendera o seu rectângulo de flanela encarnada à entrada da Fortaleza. Depois lembrei-me, a sua cara antiga abriu caminho através do rosto desconhecido marcado pela pobreza e pelo desencanto:
— Não te lembras de mim? — perguntou a sorrir com a boca sem dentes.
— Claro que lembro, Miguel. Desculpa, foi uma surpresa. Não estava à espera de te encontrar — curvei-me, dei-lhe um beijo e perguntei-lhe o que andava a fazer, porque não me ocorreu mais nada, no esforço de me obrigar a sorrir também para esconder o sobressalto, a surpresa, e, porque não admiti-lo? o terrível desconforto.

A história dele cabia em meia-dúzia de linhas. Continuava tudo quase igual, mas o tempo cobrara-lhe um débito elevadíssimo. Estava vazio de sonhos e ilusões, mas insistia em fazer e a tentar vender aquelas coisas. Em todo o caso, trocara há muitos anos os caminhos incertos do Algarve pela cama com lençóis lavados e a comida a horas certas na casa dos pais, onde se instalara com mulher e filho. Filha, aliás:
— Estão cada vez mais rabugentos, mas já não ligo.
— Quem?
— Os meus pais.
Olhei-o sem saber o que dizer. Lembrava-me dele, agora com absoluta nitidez. Ríamos muito naquela altura.
Já aquela época tinha passado de vez, quando ele veio ter connosco a Sines, e viveu quase dois meses em nossa casa, na esperança de arranjar emprego, dizia. E era mentira. Levantava-se tarde e ia à praça. Às vezes passava em frente do Banco Totta, onde eu trabalhava, carregando as cestas de verga das compras e chegava a ter o desplante de entrar para me mostrar as couves e os carapaus, os melões, o frango e os ramos de cheiros. Era simultaneamente muito embaraçoso e muito hilariante, o movimento bancário suspenso do nosso diálogo de donas-de-casa. Até ao dia em quem por nenhum motivo especial, se fez de novo à estrada. Depois, eu saí de Sines. E agora, passados estes anos todos, estava à minha frente, sentado no chão, como nos tempo da nossa juventude quase adolescente, e eu só conseguia sentir uma espécie de vergonha e uma espécie de tristeza. Por momentos, e sem assunto, ficámos suspensos, à procura de uma referência comum, qualquer coisa que aliviasse o absurdo da situação. Foi então que lhe perguntei pelo Eduardo:
— Não sabias? Enlouqueceu. E está a tratar de orquídeas numa estufa de uns amigos do pai dele. Lembras-te que era jardineiro?
— O Eduardo?
—Não, o pai dele, que foi quem lhe arranjou a história da estufa.
— Porque dizes que enlouqueceu?
— Não fala. Não abre a boca há anos. Só fala com as flores, mas ninguém consegue perceber o que lhes diz. E escreve, mas ninguém lhe decifra os gatafunhos.

Acocorado no chão, diante daquelas pulseirinhas tristes que ninguém queria comprar, continuou a falar. A minha amiga, entretanto, desaparecera. E eu estava quase ajoelhada diante do pano desbotado, com os meus sacos encostados à grande montra da loja, a ouvi-lo. Era uma história fragmentada, um puzzle montado pelas informações que nos primeiros anos Eduardo fornecera por relato directo, completado com informações de amigos chegados, porque eventualmente, há sempre alguém que sabe sempre mais alguma coisa. Portanto, e quando nos deixou, naquela tarde em que decidira que «a partir de hoje não quero ter nada de meu», terá ido de boleia em boleia até Algeciras, usando o velho chapéu que Jerry lhe dera como uma escudela de ermita, para onde convergiam, pela vontade de Deus, dizia ele, laranjas, nacos de pão e pesetas.
Depois reiniciou aquela esquisita peregrinação sem local de culto definido, desgastando a inquietação de nómada sem pátria, à procura de si mesmo sem nunca se encontrar, de novo nas autoestradas alemãs, de novo nos calabouços de Paris, de novo nas praias do Sul de Espanha e nas tendas dos Berberes em Marrocos, regressando a Portugal de uma forma intermitente, num processo que durou anos. Quando, inesperadamente, voltava, os pais recebiam-no sem grandes perguntas e sem grandes manifestações de alegria. E ele ficava uns meses, julgando encontrar aqui lenitivo para as suas angústias metafísicas, finalmente apanhado na armadilha de uma rotina sem surpresas, até que os suspiros da mãe e os resmungos cada vez mais audíveis do pai lhe recordavam que eram, de novo, horas de partir. Adiava sempre essa decisão durante mais algum tempo, não porque esperasse a revelação do seu destino, mas porque já não conseguia levantar-se antes do meio-dia, de forma que era sempre no términus de uma directa que voltava, de novo, à estrada.
Um dia, exausto daquele perpétuo deambular de marginal sem eira nem beira, resolveu finalmente procurar-se a si próprio sem sair do mesmo sítio, provavelmente porque então se apaixonou por uma portuguesa que conheceu nos acasos da viagem. Juntos partiram para Málaga em lua-de-mel de irmãos pródigos, e na novidade do encantamento, Eduardo resolveu assentar. Ali, com o lixo que os espanhóis ricos punham na rua, montaram um lar de portugueses pobres e foram felizes enquanto durou:
— Não sabias? Tiveram uma filha e tudo.
— Uma filha?
— Sim. Depois, ele empregou-se, foi pau-mandado num barco espanhol que vinha pilhar gambas ao Algarve. Ao que parece, começou a desvairar quando a miúda ficou grávida.
— Qual miúda?
— Então??? A rapariga com quem vivia! Nessa época, ele andava com a mania do budismo tântrico e dizia que a filha tinha sido concebida ele por não ter conseguido dominar a sua energia sexual…
— Estás a brincar…
— Não estou. Ele ainda me chegou a explicar. Parece que há umas técnicas em que eles se conseguem vir para dentro de si próprios. Ejaculam ao contrário. Fartei-me de rir. Além disso, contaram-me que andava sempre a falar na história da avó cega, mas não era a avó dele, que já tinha morrido.
— Era a avó de quem?
— De todos nós, vê lá tu. A nossa antepassada comum, dizia ele, a mãe das máscaras, que inventou os jogos mentais que são as armadilhas do eu, coisas assim, só para nos lixar, dizia ele. Disse-te que ele já tinha começado a enlouquecer desde o tempo da filha.
A tarde estava a cair muito rapidamente, e a Avenida de Roma era agora um corredor quase deserto por onde circulavam apenas ventos gelados e o trânsito impaciente do princípio da noite:
— Miguel — disse eu — vamos comer qualquer coisa. Acabas de me contar a história no café.
Havia um, ainda aberto, mesmo ao lado da loja agora fechada. Bebi um sumo, ele leite com chocolate e comeu uma grande sanduiche de omelete com chouriço. Por momentos, quase nem falámos. Eramos os únicos clientes. Estava acolhedor, ali dentro, comparando com o frio da rua. Depois, retomou o fio da memória:
— Ela disfarçou o mais que pode a história da gravidez, dizia que estava gorda. Quando ele soube ficou em estado de choque, depois resolveu voltar a Portugal. Não queria ter um filho espanhol. A princípio, os pais não os quiseram receber. Imagina, ele, mais a mulher grávida, mais um gato que apanharam pelo caminho. E eles armaram uma tenda no quintal. Foi por pouco tempo. Chamava-se Sidarta.
— O filho?
— Não, o gato.

O certo, é que quando voltou e pela primeira vez na vida, carregado de sacos com as coisas inúteis de que Margarida não se conseguia separar, Eduardo sentiu-se pesado e sujo. Estavam longe os tempos da mochila quase vazia e da cabeça cheia de sonhos. Tinha 29 anos e a sensação de ter sido apanhado numa armadilha. Estava tudo na mesma, e, no entanto, o mundo parecia tão diferente. O bairro crescera, a casa diminuíra e até os pais lhe pareciam mais pequenos. Às vezes, Eduardo enternecia-se a pensar na criança que ia nascer. Mas a mulher tornara-se uma estranha. A rapariga rebelde e magra que encrespava o cabelo, discutia com os polícias da fronteira que duvidavam da autenticidade do seu passaporte e andava como se dançasse, transformara-se numa matrona que arrastava os pés e esperava o nascimento de um bebé como se isso fosse uma ocupação a tempo inteiro que não lhe deixava energia para mais nada. Um noite, Eduardo sonhou que se afogava. Acordou a suar, o coração aos saltos, com o gato enroscado no pescoço. «Sidarta», disse logo que recuperou o fôlego: «salvaste-me a vida. Este sonho foi um aviso». Na escuridão do quarto, os olhos do animal brilhavam como faróis.
Margarida entrou em trabalho de parto nos primeiros dias de Março, mas quando a tentaram levar para a maternidade, assanhou-se como uma loba:
— Os hospitais fazem mal à saúde. E nas maternidades trocam os bebés!
Debateu-se durante horas para dar à luz uma deslumbrante criatura cor-de-rosa que gritava, esperneava e esgrimia o ar com umas mãos minúsculas. Finalmente, adormeceu, enquanto o pai de Eduardo abria velhas garrafas de vinho de festa, com o primeiro sorriso de felicidade verdadeira que alguém lhe conheceu. No mesmo dia, Eduardo correu à Conservatória, onde lhe recusaram o nome que tinham decidido pôr para a criança:
— Queria chamar-lhe Leanora, mas era proibido.
Enervado, pediu o livro dos nomes autorizados à mulher que o atendia na Conservatória do Registo Civil, folheou-o conscienciosamente, e acabou por registar a criança com o nome de Oriana Ychis, que estranhamente constava do rol. Pouco depois voltou a partir. Desta vez já não ia à procura nem de si, nem de Deus, mas de uma maneira rápida de ganhar dinheiro. Pelo menos este foi o argumento invocado para calar a oposição tenaz de Margarida e as tímidas reticências dos pais.
Sabe-se que andou por Marrocos, pela Turquia e que se safou por um triz de ficar de vez na Argélia, onde o confundiram com um fundamentalista qualquer que andava a monte. Atravessou o deserto com uma caravana de berberes e decidiu que aquele mar de areia seria, de futuro, a sua Pátria, até porque Deus, como é dos livros, costuma escolher o deserto para se manifestar. Depois, o que se terá passado e aonde, ninguém até hoje descobriu. Foi a embaixada de Portugal em Rabat que o carimbou de volta a Lisboa, com um sorriso apatetado nos lábios mudos, a roupa em tiras, a carteira vazia de dinheiro, o passaporte esfrangalhado.
Margarida engordara um pouco, mas a antiga determinação voltara. Por enquanto, dedicava-se à criação de canários em gaiolas barulhentas espalhadas pela marquise, junto à cozinha. À noite, recomeçara a estudar. Oriana Ychis estava a debutar na sua primeira classe. Transformara-se numa menina magra, que sorria pouco, pedia para ser inscrita na catequese e perguntava porque é que não tinha sido baptizada. Os pais, mais velhos e ainda mais pequeninos, pareciam conformados com o facto de já não serem os donos e senhores da casa. Receberam-no como sempre: sem efusões de alegria, nem recriminações. E em breve todos desistiram de o incomodar com perguntas quando perceberam que por qualquer razão desconhecida, Eduardo fugira de vez:
— Daquela viagem é que nunca mais voltou. Perdeu-se. Foi um bilhete só de ida.

Foi o pai, antes de morrer, que o mandou para as estufas, onde já trabalhava um cunhado. Quando olhou para as orquídeas, Eduardo chorou. Foi um choro discreto, sem ruído, como se aquela sinfonia de cores e o bafo equatorial e opressivo das tendas onde as plantas viviam, tivessem atravessado as barreiras do seu cérebro inacessível, tocando-lhe na porta do coração. No dia seguinte começou a trabalhar. Ainda lá continua, e dizem que fala com as plantas. Assentei o nome da estufa num guardanapo de papel e acrescentei o número de telefone de casa dos pais do Miguel. Era noite cerrada quando nos despedimos, e agora, acabada a história do Eduardo, voltávamos a ser dois estranhos. E o que doía mais era a memória nítida de uma época em que tínhamos estado tão próximos e era um tempo em que todos os sonhos, mesmo os mais delirantes, sobretudo os mais delirantes, pareciam possíveis:
— Havemos de nos encontrar, com mais calma. Telefono-te para ires a minha casa. Venho-te buscar — disse eu, e ele foi suficientemente delicado para não perguntar porque é que eu não lhe dava, também, o meu número de telefone.
A rua estava deserta e um vento frio desarrumava papéis, folhas mortas, lixo. Despedimo-nos sem delongas, e seguimos em direções opostas. Ele com a sua mochila velha, eu com os meus embrulhos novos. Entretanto, perdi o guardanapo de papel. Tenho quase vergonha de dizer, mas acho que foi de propósito.

domingo, abril 26, 2020

Se eu lhe pintar os contos no meu livro em branco

Carla Lemos, subvertendo aparentemente o modelo proposto nas ultimas oficinas de escrita, assina este belissimo conto onde a força do não-dito irrompe de forma lapidar no penúltimo parágrafo. Mais uma vez, esta é uma história fala de liberdade. E de como, mesmo nas aparentemente mais  intransponíveis circunstâncias, ela, a liberdade, está, sempre, alada e feroz, ao alcance do nosso livre ser e pensar. Com gratidão, partilho este texto. Manuela Gonzaga

Se eu lhe pintar os contos no meu livro em branco



         Nestes dias de Primavera que oscilam entre o Inverno e o Verão ainda distante, quando o sol ora se fecha em núvens espessas, ora aparece por momentos,  a espreitar através dos vidros das janelas, que se tornaram, com o passar do tempo, demasiado pequenas, observo os choupos com as suas folhas a despontar e a crescer rapidamente. No céu, o brilho intenso de um ponto traz-me Mercúrio  o planeta mais próximo do Sol, aquele que me deixa pensar em paz.
         Aqui, ainda é cedo, mas há todo um concerto prestes a começar. Vejo a agitação das folhas e sigo os grandes melros vestidos de escuro que retomam a recolha do que podem.
         — Malandros. Ainda esta madrugada andavam na recolha, e já cá andam de novo. Larguem isso! — mas ao ver ao ver os mais pequenos a chegarem a medo ao jardim, calo o meu grito.
         Um deles olha.-me de lado, num ar de certeza absoluta. Desafia-me a cada dia que passa, batendo as asas, como que a dizer-me que eu nunca voei, e nunca fui assim como ele, forte  e grande, nem nunca precisei de me alimentar muito, nem à família, que ele sim, vai constituir.  Pois. Abraço a Happy, este peludo ser de luz que ladra às vezes, e que se mantém sempre atenta ao que vê, enquanto finge escutar, atentamente, as minhas tolices.
       Ohhh, que lindooo!  Ohhh, que voo num rasto cor de fogo.
         Parece-me um rabirruivo que veio buscar insectos. Bem o vejo daqui, a voar direito ao relvado, apanhando um distraído pulgão que caminhava lenta e desequilibradamente:
       — Pulgão, estavas distraído. Não fiques triste. É a vida.
         Chegam os pintassilgos, esvoaçando e saltitando, em alegres e doces trinados como um côro que desce dos céus.
       Olha Happy, que lindas cores têm. Vês cabecitas vermelhas, preto e branco?  E olha as asas quando voam para mais longe…vês a barra amarela?
         Uma pintura perfeita.
         

        É assim, minha amiga. A vida não pára lá fora. Mercúrio, já o perdi na claridade do dia a despontar. Abro a janela para ouvir melhor a maior composição que a natureza nos traz . Deixo o ar fresco bater-nos na cara.  Fecho os olhos, não sem antes olhar a minha companheira, que aproveita o ar, dando aquela lambidela de prazer. Os sons misturam-se com o sopro do vento, em melodias diferentes, naquele pedaço de jardim que avisto dia após dia. O sol chega hoje em todo o seu esplendor. A Happy sente isso e mostra-mo, deitando-se e suspirando longamente, numa atitude de total confiança. Agarro no meu pequeno livro em branco e desenho letras que parecem pássaros, nuvens brancas onde se leem mensagens, núvens negras carregadas de energia e beleza, e ainda sobra espaço para o sol que aparece para me acumular de força de vida. Reescrevo a minha vida, à chegada de cada nova Estação. E tu Happy, trazes contigo a certeza de que tudo isto acontece ao mesmo tempo. Tal como eu, sabes que o tempo não existe. É esta linha, Happy, que nos leva pela vida.
       «Vida?». Ela levanta-se ela entusiasmada com mais uma vocalização que a deixa atenta.
         É a nossa escrevedeira, pateta! — tec, tac, tec, tac…tec…tac tac atc…  — Deixa-me só transcrever este som, que maravilha…parece quando eu escrevia à máquina. Sabes? Antes escrevia numa máquina e ainda hoje consigo sentir como o toque feroz dos meus dedos nas teclas redondas, espaçadas, convocava cada elemento metálico, onde uma letra gravada em relevo  batia numa fita de tinta, deixando a página em branco do papel, pintada de letras e frases. Histórias.
         Shiuuu! - parece a Happy reclamar, a olhar fixamente para o novo casal de gaios que tem aparecido por aqui.
         O som que emitem é fortíssimo e incomoda a minha parceira, que por certo correria atrás destes passarões, sem se preocupar em perder o voo, ou ficar frustrada por não os conseguir apanhadar. Só para correr por correr, no puro prazer de mexer um corpo pouco habituado à liberdade de movimentos.
         Happy! Happy! Olha como aquele melro apanhou aquela minhoca gigante.
         Tardiamente, aponto a minha camera e perco de vista a caçada. Talvez haja momentos mais importantes para os nossos olhos do que uma fotografia.
       — Adeus minhoca, ser subterrâneo que muito estimo.
         Agarro no meu caderno e desenho minhocas invisíveis que constroem túneis intermináveis debaixo da terra húmida e sem luz. Às vezes, aparecem quando enterro a enxada no meu pedaço de terra. É ali que vivem, de raízes e sobras que transformam num riquíssimo alimento para o próprio espaço onde vivemos neste nosso mundo. Sim. A minhoca podia ser um ser sagrado como já foi um dia.
       — Cucurrrru! Cucurrru!  — é hora das rolitas conversarem.
         Falam muito, estes seres alados. Vivem no pinheiro manso gigante, todo em flor por esta altura. O sol vai alto. Percebe-se, pela azáfama que se ouve nos topos das árvores. As primeiras a encherem-se de folhas são os freixos,  que, não tarda, vão deixar-nos descansar por baixo da sua sombra.  Por agora, dão cachos de minúsculas flores que caem e cobrem o chão como um tapete.


       — Daqui a nada, chega a fada que abraça árvores, Happy.
         Há uma fada que abraça árvores e voa de flor em flor, e fala a quem passa sobre a importância de tudo isto. A Happy e eu conhecemos a fada que habita este jardim.  Ela inspira-nos com a sua enorme sabedoria, e torna as nossas vidas mais leves. Mais mágicas. Também conhecemos outros seres deste pequeno jardim. Outrora corria aqui perto a água de um ribeiro, mas o construtor não o viu, ou se o viu, não quis saber e enterrou-o para sempre. Ao ribeiro. Dizem que as ondinas que aí habitavam, choraram tantas lágrimas que iam daqui até ao mar, mas também dizem que algumas ainda cá vivem, aprisionadas em caves húmidas. Quem nos conta isto é a fada que abraça árvores, e até ensinou a Happy a cheirar as flores do caminho.
Está na hora, Happy!
         Visto o meu fato branco de astronauta, e chamo-a para junto de mim. A tarde cai, o vento arrasta as folhas e traz um cheiro a maresia. Lá longe, o mar vai contar toda a verdade sobre sereias, ninfas, nereides, e as pobres das ondinas transformadas agora em ondas. Caminho vagarosamente, encerrada neste fato que me protege, mas que também me isola dos seres que vieram pisar a terra, sem ouvir em silêncio as histórias que a natureza tem para nos contar.
Entretanto, a Happy avistou a fadinha, e corre atrás dela para o jardim do duende que me prometeu contar mais histórias se eu escrever e pintar os seus contos no meu livro em branco.

Carla Lemos, 

Oeiras, Abril de 2020