quarta-feira, agosto 16, 2017

Al Berto para sempre

O Vicente do Ó realizou um filme que foca a vida do poeta Al Berto no ano solar de 1975 que vai estrear brevemente. Conhecemo-nos por um acaso «milagroso» e por uma soma de coincidências. Ele encontrou registos dessa época num texto meu, neste blogue. Mais tarde, levou à cena uma peça de teatro sobre António Variações, biografado por mim (a única bio historiográfica e extensiva que existe deste ícone pop português). Estamos assim ligado por fios luminosos de imagens, palavras, acção, a duas figuras ímpares do nosso século XX. Acrescente-se que eu conheci os dois, António Variações e Alberto Pidwell, em cujo palácio vivi nesse inesquecível ano de 1975. E Vicente do Ó é, simplesmente, o irmão mais novo do grande amor de Alberto, João Maria do Ó. Grande, sim. Fui testemunha de quão intensa, fulgurante e bela foi a história de amor entre ambos. Quem melhor do que Vicente, que já recuperou a memória de outra grande, Florbela Espanca no cinema português, e cresceu a conhecer, a privar com o poeta, com os dois poetas, para levá-lo ao grande ecrã?

Partilho um texto (facebook) que evoca, muito parcialmente, essa época em que vivíamos no Palácio Pidwell. E duas fotos preciosas. Numa delas,  a única que consegui conservar, revejo  Al Berto que todos conhecem, e João do Ó, que já foi publicado postumamente pelo irmão, o realizador do filme que todos aguardamos. E eu?

Junto memórias, sou tecelã de palavras. Que vida. Há que vivê-la, há que contá-la.

quarta-feira, agosto 02, 2017

Roman initiatique et contes de fées

Os últimos meses têm sido férteis de acontecimentos. É que, para além de continuar na minha querida Bertrand Editora, passei a ser agenciada pela Agência das Letras, e integro o seu Conselho Editorial.  A somar, os meus livros continuam a dar-me muitas alegrias. Desta vez, é a lindíssima capa da autoria de Vincent Alta Sombra, para a segunda edição em francês de Xerazade - a Última Noite edição em papel com distribuição pelo catálogo da muito prestigiada Hachette Livre.


Sobre este meu romance, a editora/tradutora Laure Elisabeth Collet escreve: 


«Roman initiatique et contes de fées tout à la fois, comme son héroïne, il est l'Un et le tous. Chaque chapitre est une histoire, mythique, magique, drôle, ou triste, qui nous transporte ou nous ramène. Impossible de savoir si on est parti très loin ou resté tranquillement au point de départ. Chaque chapitre est une expérience, une vie, une pièce de puzzle; et dans cette image, cette sensation que l'on retient en refermant le livre, le tout est supérieur à la somme des parties. Nous sommes un, et nous sommes tous. Une merveille.» 

Agora a integrar o catálogo da Hachette Livre, que já distribui 12 obras da mesma editora, e vai alargar a mais autores que ali chegam pela mão de Laure Elisabeth Colletcom este já tenho três livros, os quais  já constavam no mercado francófono quer em edição e-book, quer em papel. Evidentemente, agora a sua presença ganhou um novo fôlego.  

-- Mozambique: Pour que ma mère se souvienne;
-- Isabel de Portugal: L'Impératrice: Le pouvoir au féminin au XVIème siècle (Biographie Historique)


Clicar para consultar a página de Le Poissont Volant
Clicar para a minha página de autor na Amazon França

terça-feira, junho 27, 2017

Elefantes e rinoceronte na corte do Venturoso


Amanhã, quarta-feira dia 28 de Junho a partir das 14.00, estarei no auditório do Museu Nacional de Arte Antiga como  oradora no colóquio Animalidade Representação e História, cujas propostas vão no sentido de se debater o nexo entre humanidade e animalidade, a partir de representações do animal sedimentadas nas categorias do pensamento histórico e filosófico contemporâneo. As mesas contam com a presença de investigadores, intelectuais e escritores de diferentes formações, incluindo a Filosofia, a História, as Artes e a Literatura.  

Vou recordar um episódio passado no século XVI, em Lisboa, quando D. Manuel I resolveu acarear o conhecimento tradicional, ancorado nos Antigos, com a experiência «madre de todalas cousas». Como? Colocando frente a frente um dos seus elefantes indianos e o famosíssimo rinoceronte que Durer veio a imortalizar. Recriando um circo à maneira «dos romãos» para confirmar se estes dois animais se odiavam  lutando até à morte... de um deles pelo menos quando se encontravam. O espectáculo, que terminou de forma inusitada, não fez correr nem uma gota de sangue dos dois mas é mote de muita reflexão. Damião de Góis imortalizou o evento ( Crónica do felicissimoIV, cap. xviii)
 Luta entre o elefante e rinoceronte, inimigos naturais (sec. XIV), Saltério da Rainha Mary
Medieval Bestiary (Royal MS 2 B. vii Gallery)
A 3 de Junho de 1515 dia da Santíssima Trindade, em Lisboa, um elefante e um rinoceronte, duas «bravíssimas e espantosas alimárias» da novíssima geografia das Descobertas, foram postas num pátio, diante da antiga Casa da Contratação da Índia e da Guiné, ao Paço da Ribeira. De acordo com a tradição assente numa corrente literária e científica de muitos séculos, estes animais, cuja força e astúcia andavam a par, temiam-se e odiavam-se a tal ponto que quando se encontravam lutavam até à morte. De um deles, pelo menos [...]  
Sintam-se convidadas/os. A entrada é livre e todas as palestras prometem ser fascinantes.




terça-feira, maio 30, 2017

África o ir e o voltar


Em Outubro de 1975, encontrava-me a viver em Sines, no Palácio Pidwell, quando escrevi o meu primeiro poema, «África». De rajada, ao longo de uma noite muito escura. Dias depois, li-o ao  Al Berto e ao João do Ó. Nesses tempos, trocávamos poemas, palavras, projectos e bebíamos o bom vinho alentejano com que brindávamos a todos os futuros. Depois, nunca falei desses tempos, nunca escrevi sobre esses tempos, e não mostrei o poema a mais ninguém. Retomo-o agora, porque me parece adequado como ponto de partida para este Encontro, nas Raias Poéticas de Famalicão.

África



I

O tempo deixou-me este gosto na pele, este calor na alma,
Um nó na garganta, as mãos vazias, o corpo nu. Em carne viva.
Tatuagens de recordações, espalho-as no chão, à minha volta
Há gritos de sereia num porto e eu lambo cinzas.
Ainda estão quentes.

Onde estão todos?

Paredes nuas.
Colares de missangas vermelhas, colares de missangas negras
Um bater surdo de tambores.
Árvores dos tempos do primeiro Tempo.
E templos e véus e estradas escondidas sob o mato denso de silvas
Como puderam esconder tamanho esplendor?
Fiz-me à estrada cega e perdi-me.
Perdemo-nos todos
Uns dos outros

II

Andamos juntos e ainda não te vi o rosto.
Amei-te, e eras sempre diferente.
E contudo... se soubesses por onde te procurei.

Ouves o meu grito?

Esperei sempre que me dissesses na concha do meu ouvido:
Somos os marinheiros e o mar e o navio. Somos a tempestade e o sono.
Sonho.
Queria dizer-te isto:

Viver é amar cada segundo como se fosse o último,
Mas não é sempre assim.
Gosto de redes e de laços. Gosto de anéis.
Gostava de não gostar. 
Gostava de já não gostar.

III


Depois de enterrar os mortos 
Esqueci o local das sepulturas.
Às vezes ainda lá vou
Queimar imagens de deuses
numa lareira que nem existe,
E ouço-me
A chamar por eles.
E fico
De mãos feridas a escavar palavras e silêncios.
Procuro, procuro.
Penso: para onde vamos meu amor?

Volto sempre.
Da soleira da porta vejo-te acenar-me
Quando me viro,
Com as mãos em concha,
Protejo-me da luz para te ver bem
Antes que a estrada me engula.
Penso: porque não me prendeste
com laços e anéis nas redes dos teus braços adormecidos?
Então, volto
Sempre à espera
De ti.
Esvazio-me
E penso: quem és tu?

IV

Mar manso, mar manso…
Pescador da Ilha, onde estão as minhas redes?
No vento da tarde soltei os ramos
Na Primavera abri a copa das árvores
Chovia e entraste no meu tronco.
Tremias.
Disseste:
Tenho tanto medo. Tenho tanto medo.

Adormecemos.
Quando acordei os sons que se evaporavam da terra eram ocres,
E havia tanto fumo.
E havia tanto fogo.
E havia tanta dor.
E havia eu
Enredada em meus caminhos para lado nenhum.
Amortalhando os sete sentidos incluindo o tacto
Sondando rostos fechados diante de casas sem portas nem janelas, nem ninguém.
Eu e o meu medo insone asfixiando-me em abraços de amante obsessivo
Às vezes, o som dos sinos amansava a tarde,
Mas por muito pouco tempo.
À noite, não conseguia ouvir bater o coração escuro do mundo:
Falavam todos muito alto.
Pareciam perdidos e riam
Nem perceberam que me fui embora…

V

Quero estar só.
Quero esta solidão indizível para te encontrar amor,
Caleidoscópio de rostos, mil faces a tua,

quero saber o teu nome!

Quero rasgar tanta coisa,
Afastar estes véus, estes véus...
Regressar aos braços negros que abraçam a Terra inteira.
Farejar o teu cheiro nas flores de sangue, tão vivas dentro das suas pétalas mortas,
Enrolar-me em teu regaço denso escuro e cálido, 
Oh Mãe!
Pousar o fardo das memórias de tanto desencontro 
E recordar
Todos os teus nomes
Todos os teus corpos 
 Todos os teus cheiros 
Todos os teus sabores 
Todos os teus sons
E dizer-te:
Voltei de lado nenhum para entrar na roda das antiquíssimas danças
Ao som dos tambores da noite que tocam sob céus esmaltados de chamas.
Abraça-me muito oh Mãe de todos!
E seca o meu pranto de acabada de nascer
Porque 
pesa tanto...
O estômago vazio,
O saco vazio 
Do vagabundo,
A alma solta de quem viaja,
Este amor que sinto, esta dor que tenho,
Chamei-te tantas vezes.
Tantas vezes.
Tantas vezes.

Se ao menos soubesses como te amo.

(Manuela Gonzaga, Sines, Outubro de 1975.)

sexta-feira, maio 05, 2017

Escravos e ouro: o mito de Salazar

Estou a reler o meu livro Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, para refrescar a memória e repescar notas de apoio. Fui convidada par um colóquio, cujo tema reservo. Infelizmente, na mesma data estou nas Raias Poéticas de Famalicão, como escritora convidada.  Como as duas investigadoras que me convidaram já não puderem alterar a data do evento, pediram-me uma contribuição por escrito que irá integrar as Actas ou o livro que daqui resultar. Dou-a com o maior prazer. A ignorância sobre esta época importantíssima da nossa história recente que aliás entronca na longa duração, é chocante. Ninguém imagina o que era, como era, porque era e como se passavam as coisas «lá». No tal Ultramar.

O que toda a gente sabe é posterior apoia-se em estereótipos e meias verdades. O racismo não «eclodiu» em África, onde supostamente éramos abanicados por pretos servis, que espancávamos com regularidade e que até nos metiam a comida nas bocas preguiçosas. O racismo começava aqui, no Terreiro do Paço, onde a tutela emanava leis que perpetuavam a ficção de um Portugal do Minho a Timor... mantendo bem apertadas as rédeas sobre a governação e a forma de a aplicar.

E porém, os portugueses não podiam ir para o ultramar sem autorização do governo, que a concedia com muita parcimónia... a menos que fossem enviados para lá como funcionários públicos, com contratos estabelecidos na metrópole; ou que recebessem uma carta de chamada, de um parente devidamente credenciado, a atestar por sua honra que necessitava dos bons serviços daquele familiar. Os militares, passando à reserva, podiam sem muitas delongas pedir para voltar ou ficar em África. Sendo, por outro lado, e durante séculos, uma colónia penal, os prisioneiros de delitos de sangue ou crimes políticos, acabando de cumprir a pena podiam ficar na terra, e muitos ficavam. Estou a referir especificamente o caso moçambicano, mas em Angola não era muito diferente. Em todo o caso, não estudei a fundo esses aspectos aí.

Acrescente-se que falamos de um Portugal onde a moeda não era a mesma e não podia circular fora das suas fronteiras. Dito de outra forma: mandar escudos dos territórios ultramarinos para a metrópole? Só com motivos bem justificados. Questões de saúde, educação dos filhos universitários, coisas assim. Até porque o escudo local não tinha valor fora do seu território, a não ser nos países de proximidade como a África do Sul de onde vinha o ouro em barras que pagava ao governo português o trabalho semiescravo dos moçambicanos nas minas do Transvaal. Sim, pessoal. O esclavagismo começava na sede do Império. O mesmo Império que permitia uma grande liberdade às grandes companhias, essas sim com muita margem de manobra... inclusivamente  para explorar brutalmente os seus trabalhadores africanos, começando por lhes tirar as terras, ou por os obrigar a cultivar algo que não lhes dava lucro, nem lhes permitia a pequena agricultura de sobrevivência. Sem falar no papel equívoco da Igreja, quase sempre do lado dos que mandam.

Ouro, sim: vinha em lingotes, directamente da África do Sul para Lisboa, para o Banco de Portugal. A ficção de um Salazar excelente economista que deixou os cofres a abarrotar de ouro, cai por terra quando se sabe de onde veio esse maná e a que preço... Deste modo, a Metrópole sossegava à sombra das muitas bananeiras africanas para onde exportava os seus produtos, sem qualquer concorrência. A tal ponto que, por exemplo, plantar uma vinha em África dava direito a processo crime. Com multa e eventualmente prisão. Vinho, só podia haver um. O deste país pequenino, cuja indústria obsoleta vivia das matérias-primas do Ultramar, que não podiam exportá-las, nem, tão pouco, transformá-las. A Guerra Colonial, ao fim de uns anos, veio alterar este estado de coisas. Mas já não foi a tempo.

Não são apenas as minhas memórias a falar. São os trabalhos académicos que já existem e já são suficientes para desmistificar estas e outras ficções. A começar pelo mito injusto e imbecil que faz dos brancos que viveram em África uma cambada de exploradores de pretos, e dos brancos que ficaram na metrópole umas vítimas imaculadas da ganância dos primeiros. É que todos comeram da mesma «gamela» e bons e maus não têm denominação de origem. Há-os, houve-os em todo o lado. Acima de tudo, África foi a grande teta do regime e todos mamaram desse leite, directa ou indirectamente. População metropolitana incluída e à cabeça, porque a moeda forte do regime devem-no ao Ultramar. Isso e a manutenção de uma indústria no geral aterosclerótica. Para que mudar as coisas, se o mercado importador, Angola e Moçambique à cabeça, estava garantido?

Claro que as pessoas cá tinham era uma vida muito mais chata, com muito menos horizontes. Foi por isso que a proverbial inveja lusitana se fez ouvir mais alto nos primeiros tempos da breve e tão longa hora do Regresso. Depois, o melhor de nós todos veio ao de cima.

Não nos esqueçamos também que por cá vigorava a exploração dos pretos da Europa, como eram chamados os portugueses que, pela lei da fome fugiam do país a salto e iam «construir as cidades dos outros». Mas se tiveram de fugir para ganhar a vida e matar a fome, e eram presos se fossem apanhados na sua miserável e tristíssima fuga, já o dinheiro que enviavam para a pátria era muito bem acolhido, pois tratavam-se de divisas que representavam um autêntico maná para a economia nacional. Lembro-me como eram saudados quando voltavam. Com risos de troça (os carros que traziam, que horror! E as roupas... e as casas que começaram a construir, ahahahah). Ou com um profundo desprezo, se viessem de mãos a abanar.

Eu tinha 12 anos quando saí de Portugal e uma memória afiadíssima. Foi aqui, no rincão natal, que assisti às primeiras exploração da pessoa pela pessoa. E foi cá que presenciei o racismo, não de cor de pele, mas de estatuto social. Recordo, por exemplo, as linhas de fronteira bem demarcadas, a primeira das quais e a mais vincada começava por separar o campo da cidade. E está tudo dito, quando 80 por cento da população era, então, rural... Alguém se lembra deles? Digo, dos emigrantes a que a Europa chique chamava os «pretos» do velho continente?  Alguém lhes fez alguma vez a homenagem que merecem?

Falemos então dos outros. Dos «esclavagistas». Como fizeram questão, na longa e breve hora do Regresso, de nós chamar a todos nós. Mas ao menos, fale-se com conhecimento de causa. A começar pelo estatuto que os pretos auferiam. Afinal, eram meros indígenas, sem nacionalidade portuguesa. E isso também era regulamentado e ferreamente  no Terreiro do Paço, assim como os obstáculos ao seu acesso à educação. E  há tanto mais para dizer, mas guardo para a minha participação. De resto, está tudo no meu livro. Deixo o saboroso relato da nossa chegada à África profunda:

A minha mãe, Maria Leonor Vieira Paixão, pianista, professora de música e canto-coral, em 1963 quando fomos para África

O Império, onde viajámos de Lisboa a Nacala



O escudo não era o mesmo


DE NACALA AO CATUR
Dali [Ilha de Moçambique] seguimos para Nacala, onde chegámos a 28 de setembro, entrando na imensa baía de Fernão Veloso e aportando no cais, desolador para quem tinha contemplado os portos fervilhantes de movimento e gente como os de Luanda, Cidade do Cabo, Lourenço Marques e Beira. Na verdade, era agora que ia começar a nossa viagem africana. Para trás, o conforto e o luxo do Império, onde tantas demonstrações de carinho nos tinham sido prodigalizadas. O comandante Vasconcellos fez-nos acompanhar por elementos da tripulação até ao comboio que saía ali do porto, e que nos levaria de Nacala ao Catur. Antes, tinha dado ordens para que das cozinhas nos providenciassem um maravilhoso farnel, que vinha acomodado em dois cestos de verga, com guardanapos, pratos, copos, talheres e tudo, mau grado os protestos da nossa mãe que lhe assegurava não ser preciso, já que, quando tivéssemos fome, íamos ao «wagon-restaurante».
— Senhora dona Maria Leonor: estamos em África. Acredite que isto vai ser muito útil, a si e aos seus filhos.
O dia estava quentíssimo quando entrámos no comboio do Catur, ocupando uma duvidosa «primeira classe» composta por umas poucas carruagens velhas. O revisor, uma pessoa maravilhosa, pois preocupou-se com o nosso bem-estar ao longo de toda aquela longuíssima viagem, veio acomodar-nos no pequeno gabinete de bancos estofados em couro gasto, aqui e além queimado de pontas de cigarro, prometendo vir amiúde saber se estava tudo bem com o grupinho extravagante que nós éramos. Uma senhora no seu saia-casaco de linho cru, blusa de seda creme às pintinhas pretas com laço, e quatro crianças muito bem vestidas, mas cuja roupa em breve ficaria amarfanhada e, sobretudo, muito suja das fagulhas que a locomotiva vomitava incessantemente.
— Senhor revisor, a que horas servem as refeições?
— Quais refeições, minha senhora?
Não havia, como o nosso comandante estava fartíssimo de saber, nenhuma carruagem restaurante, e muito menos algo que remotamente se pudesse chamar «bar». Cada um amanhava-se com o que trazia. Abençoadamente, os cestos revelaram frutas de várias espécies, muito bem-acondicionada e em quantidade. Garrafas de água e de sumos. Empadas, sanduíches, queijos fatiados, pães acabados de sair dos fornos das cozinhas do Império, frangos assados e trinchados, bolos, bolachas, e sei lá mais o quê. Sem este abundante farnel, teríamos passado muita fome e muita sede, embora o prazo de validade da maior parte dos alimentos fosse curto, pois a estação quente começara, embora as chuvas só viessem a partir de outubro.
E assim seguimos de Nacala para o Catur, num comboio de filmes de cobóis[1], puxado por uma asmática locomotiva a vapor, que subia as serras a passo de caracol sobre uma linha férrea tão estreita que parecia feita de carris de elétricos. Por vezes, num troço mais íngreme, os passageiros tinham de sair para a locomotiva conseguir arrastar as composições atrás de si. Como íamos em primeira classe, nunca tal nos solicitaram, mas, sempre que o comboio parava, a nossa cabine enchia-se de africanos. Não nos faziam mal, mas era assustador. Entravam por ali dentro a rir, falando entre si enquanto apontavam para nós, criaturas tão bizarras, e chegavam a mexer-nos nos cabelos. Outros, da plataforma das estações, debruçavam-se para dentro das janelas, nos mesmos propósitos, motivo pelo qual passámos a viajar de janela fechada, apesar do calor intenso que fez durante o resto do dia, e se prolongou pela noite dentro.
Foi então que o revisor veio pedir à mãe autorização para nos trancar pelo lado de fora (por dentro não era possível), para que não continuássemos a ser incomodados. Querido senhor que, amiúde, vinha confirmar se estávamos bem, ou se precisávamos de ir à casa de banho, uma espelunca onde todo o cuidado era pouco para não tocar em quase nada.
Por fim, chegámos à bela cidade de Nampula, profusamente ajardinada, capital do distrito do mesmo nome, onde nos instalámos num hotel. Que prazer, aquele duche interminável, a roupa lavada, o jantar numa sala a sério, com mesas, toalhas e comida acabada de fazer, as camas tão limpas, as ventoinhas no teto, onde pudemos enfim dormir sem sobressaltos. No dia seguinte, voltámos para o comboio que nos levou de Nampula, passando por Ribaué, Malema, Nova Freixo (atualmente Cuamba) até ao Catur, hoje Itepela. Ali nos aguardava a camioneta indescritível onde iríamos fazer o último troço da nossa viagem até Vila Cabral. Foram oito horas, salvo erro, aos saltos e aos solavancos por uma picada de terra vermelha, fissurada pelo calor, rasgada no dorso dos montes de uma serra que se contorcia e não parava de subir.
Oito horas intermináveis.
 [...] 





[1] Encontrei descrições deste comboio e desta viagem em Eduardo Maria Nunes, Batalhão de Caçadores, http://batalhaodecacadores598.blogspot.pt/2010/03/navio-patria-de-lisboa-nacala.html. Outra boa descrição em «O Comboio do Catur», CCAV Companhia de Cavalaria 2415 — Moçambique 1968/1970, http://ccav2415.blogspot.pt/2009/09/o-comboio-do-catur.html (consultado a 9/05/2013).

sábado, abril 29, 2017

O Mundo de André nas escolas

Às vezes, as perguntas que me fazem são pura poesia: «A que cheiram os dias da sua infância?» ou «Como imagina as asas do tempo?». Estas, para minha grande alegria, até estavam impressas, e no final ofereceram-mas. O encontro decorreu na biblioteca da Escola EB 2/3 Professor Gonçalo Sampaio, Póvoa do Lanhoso, e deu para perceber o envolvimento entre professores e alunos na preparação destes nossos encontros. E as leituras que fizeram em torno das aventuras do nosso «André». Até havia um grande desenho a recriar o imaginário de «André e a Esfera Mágica». Mas não ficámos por aí. O calendário das visitas às Escolas tem sido muito bem preenchido. Nunca sabemos o que nos espera, mas de cada vez há uma conquista. E isso vale tanto. E isso vale tudo. 

sábado, abril 01, 2017

Literatura e Liberdade

Escritora, com uma colecção infanto-juvenil que lhes é dedicada, comecei a visitar escolas para falar dos meus livros. As visitas são organizadas pelos professores de Português, ou, eventualmente, pelos professores responsáveis pelas bibliotecas escolares. Ao longo desta última semana, tive o privilégio de falar para várias turmas (5º e 6º anos), em Viseu, Agrupamentos de Escolas de Viseu Norte; em Rio Maior, Colégio São Cristóvão; e nas Escolas Básicas Marinhas do Sal. 





A conversa incide, em grande medida, sobre livros que já publiquei. Sobretudo os desta colecção que lhes é dedicada. Mas também sobre os outros, que já são muitos e têm públicos mais «crescidos».  Mas, e muitas vezes, diante destes jovens só me apetece pedir-lhes desculpa pelo mundo que lhes vamos deixar por herança... um mundo semidestruído nos alicerces que suportam a vida humana neste planeta. Ao mesmo tempo, complemento este pedido de desculpa com uma declaração de fé, inabalável, que tenho no melhor que eles. são. E na confiança que tenho na capacidade deles, na sua força, para mudarem e moldarem o futuro que lhes inquinámos, graças ao poder incomensurável da sua imaginação criadora. 


É por isso que junto a minha voz à de todos quantos se esforçam para lhes despertar o gosto pela leitura e os incentivo a pensar na Liberdade. A verdadeira liberdade, que começa no pensamento. Falo-lhes dos livros que escrevo, porque há, em cada uma das aventuras do André - desde A Esfera Mágica ao Baile de Máscaras - uma, várias lições de vida, como muito curiosamente um dos jovens mais atento me assinalou. 
Mas o que lhes desejo e peço, acima de tudo, é que leiam. Não está só na mão deles. Está na mão dos pais e dos professores. Sobretudo, dos professores de Português. Não é uma questão de dinheiro - as bibliotecas escolares deixam levar os livros para casa. É uma questão de dar estímulo certo, no lugar certo. É um apelo à excelência - dos professores e da própria família. Quanta responsabilidade... a de todos nós. 

Sim De todos nós. 

Em Agrupamento Escolas Viseu Norte, Colégio Frei Cristovão, em Rio Maior, com um auditório à cunha e em Escolas Básicas Marinhas do Sal, várias sessões organizadas pelo director da biblioteca, e que foram altamente concorridas). Com Rita Palma