domingo, abril 26, 2020

Se eu lhe pintar os contos no meu livro em branco

Carla Lemos, subvertendo aparentemente o modelo proposto nas ultimas oficinas de escrita, assina este belissimo conto onde a força do não-dito irrompe de forma lapidar no penúltimo parágrafo. Mais uma vez, esta é uma história fala de liberdade. E de como, mesmo nas aparentemente mais  intransponíveis circunstâncias, ela, a liberdade, está, sempre, alada e feroz, ao alcance do nosso livre ser e pensar. Com gratidão, partilho este texto. Manuela Gonzaga

Se eu lhe pintar os contos no meu livro em branco



         Nestes dias de Primavera que oscilam entre o Inverno e o Verão ainda distante, quando o sol ora se fecha em núvens espessas, ora aparece por momentos,  a espreitar através dos vidros das janelas, que se tornaram, com o passar do tempo, demasiado pequenas, observo os choupos com as suas folhas a despontar e a crescer rapidamente. No céu, o brilho intenso de um ponto traz-me Mercúrio  o planeta mais próximo do Sol, aquele que me deixa pensar em paz.
         Aqui, ainda é cedo, mas há todo um concerto prestes a começar. Vejo a agitação das folhas e sigo os grandes melros vestidos de escuro que retomam a recolha do que podem.
         — Malandros. Ainda esta madrugada andavam na recolha, e já cá andam de novo. Larguem isso! — mas ao ver ao ver os mais pequenos a chegarem a medo ao jardim, calo o meu grito.
         Um deles olha.-me de lado, num ar de certeza absoluta. Desafia-me a cada dia que passa, batendo as asas, como que a dizer-me que eu nunca voei, e nunca fui assim como ele, forte  e grande, nem nunca precisei de me alimentar muito, nem à família, que ele sim, vai constituir.  Pois. Abraço a Happy, este peludo ser de luz que ladra às vezes, e que se mantém sempre atenta ao que vê, enquanto finge escutar, atentamente, as minhas tolices.
       Ohhh, que lindooo!  Ohhh, que voo num rasto cor de fogo.
         Parece-me um rabirruivo que veio buscar insectos. Bem o vejo daqui, a voar direito ao relvado, apanhando um distraído pulgão que caminhava lenta e desequilibradamente:
       — Pulgão, estavas distraído. Não fiques triste. É a vida.
         Chegam os pintassilgos, esvoaçando e saltitando, em alegres e doces trinados como um côro que desce dos céus.
       Olha Happy, que lindas cores têm. Vês cabecitas vermelhas, preto e branco?  E olha as asas quando voam para mais longe…vês a barra amarela?
         Uma pintura perfeita.
         

        É assim, minha amiga. A vida não pára lá fora. Mercúrio, já o perdi na claridade do dia a despontar. Abro a janela para ouvir melhor a maior composição que a natureza nos traz . Deixo o ar fresco bater-nos na cara.  Fecho os olhos, não sem antes olhar a minha companheira, que aproveita o ar, dando aquela lambidela de prazer. Os sons misturam-se com o sopro do vento, em melodias diferentes, naquele pedaço de jardim que avisto dia após dia. O sol chega hoje em todo o seu esplendor. A Happy sente isso e mostra-mo, deitando-se e suspirando longamente, numa atitude de total confiança. Agarro no meu pequeno livro em branco e desenho letras que parecem pássaros, nuvens brancas onde se leem mensagens, núvens negras carregadas de energia e beleza, e ainda sobra espaço para o sol que aparece para me acumular de força de vida. Reescrevo a minha vida, à chegada de cada nova Estação. E tu Happy, trazes contigo a certeza de que tudo isto acontece ao mesmo tempo. Tal como eu, sabes que o tempo não existe. É esta linha, Happy, que nos leva pela vida.
       «Vida?». Ela levanta-se ela entusiasmada com mais uma vocalização que a deixa atenta.
         É a nossa escrevedeira, pateta! — tec, tac, tec, tac…tec…tac tac atc…  — Deixa-me só transcrever este som, que maravilha…parece quando eu escrevia à máquina. Sabes? Antes escrevia numa máquina e ainda hoje consigo sentir como o toque feroz dos meus dedos nas teclas redondas, espaçadas, convocava cada elemento metálico, onde uma letra gravada em relevo  batia numa fita de tinta, deixando a página em branco do papel, pintada de letras e frases. Histórias.
         Shiuuu! - parece a Happy reclamar, a olhar fixamente para o novo casal de gaios que tem aparecido por aqui.
         O som que emitem é fortíssimo e incomoda a minha parceira, que por certo correria atrás destes passarões, sem se preocupar em perder o voo, ou ficar frustrada por não os conseguir apanhadar. Só para correr por correr, no puro prazer de mexer um corpo pouco habituado à liberdade de movimentos.
         Happy! Happy! Olha como aquele melro apanhou aquela minhoca gigante.
         Tardiamente, aponto a minha camera e perco de vista a caçada. Talvez haja momentos mais importantes para os nossos olhos do que uma fotografia.
       — Adeus minhoca, ser subterrâneo que muito estimo.
         Agarro no meu caderno e desenho minhocas invisíveis que constroem túneis intermináveis debaixo da terra húmida e sem luz. Às vezes, aparecem quando enterro a enxada no meu pedaço de terra. É ali que vivem, de raízes e sobras que transformam num riquíssimo alimento para o próprio espaço onde vivemos neste nosso mundo. Sim. A minhoca podia ser um ser sagrado como já foi um dia.
       — Cucurrrru! Cucurrru!  — é hora das rolitas conversarem.
         Falam muito, estes seres alados. Vivem no pinheiro manso gigante, todo em flor por esta altura. O sol vai alto. Percebe-se, pela azáfama que se ouve nos topos das árvores. As primeiras a encherem-se de folhas são os freixos,  que, não tarda, vão deixar-nos descansar por baixo da sua sombra.  Por agora, dão cachos de minúsculas flores que caem e cobrem o chão como um tapete.


       — Daqui a nada, chega a fada que abraça árvores, Happy.
         Há uma fada que abraça árvores e voa de flor em flor, e fala a quem passa sobre a importância de tudo isto. A Happy e eu conhecemos a fada que habita este jardim.  Ela inspira-nos com a sua enorme sabedoria, e torna as nossas vidas mais leves. Mais mágicas. Também conhecemos outros seres deste pequeno jardim. Outrora corria aqui perto a água de um ribeiro, mas o construtor não o viu, ou se o viu, não quis saber e enterrou-o para sempre. Ao ribeiro. Dizem que as ondinas que aí habitavam, choraram tantas lágrimas que iam daqui até ao mar, mas também dizem que algumas ainda cá vivem, aprisionadas em caves húmidas. Quem nos conta isto é a fada que abraça árvores, e até ensinou a Happy a cheirar as flores do caminho.
Está na hora, Happy!
         Visto o meu fato branco de astronauta, e chamo-a para junto de mim. A tarde cai, o vento arrasta as folhas e traz um cheiro a maresia. Lá longe, o mar vai contar toda a verdade sobre sereias, ninfas, nereides, e as pobres das ondinas transformadas agora em ondas. Caminho vagarosamente, encerrada neste fato que me protege, mas que também me isola dos seres que vieram pisar a terra, sem ouvir em silêncio as histórias que a natureza tem para nos contar.
Entretanto, a Happy avistou a fadinha, e corre atrás dela para o jardim do duende que me prometeu contar mais histórias se eu escrever e pintar os seus contos no meu livro em branco.

Carla Lemos, 

Oeiras, Abril de 2020

sexta-feira, abril 24, 2020

Das sombras para a Luz

Mais um precioso conto, produzido nas minhas últimas Oficinas de Escrita. Num estilo muito depurado, quase a aflorar a poesia, e com uma cadência que nunca perde de vista o fio condutor da narrativa, Filomena Afonso Mourinho leva-nos da opressão das trevas à jornada da luz. Um prazer de ler. Manuela Gonzaga






São três horas da manhã. Sei-o, porque todos os dias, a esta hora, há alguém que grita ao fundo do corredor. É um grito com hora marcada, um grito que me faz perder-me no meio dos fantasmas que me perseguem. Olho em redor e vejo a negridão de um bando de corvos que me consome o coração, numa luta infernal para me libertar.
Estou sozinha. Encontro-me mergulhada num manto de breu. Perdi a noção do tempo, desde que me fecharam neste ermo. Ao alto, junto ao teto bolorento, uma brecha minúscula a que não se pode chamar janela deixa antever uma cruz através da pouca luminosidade que entra. A minha cruz. Há quanto tempo a carrego. A cama onde me deito, com lençóis que lembram serapilheira velha endurecida pela sujidade, é o meu único porto de abrigo, o berço que me acolhe neste inferno. Durmo, acordo, adormeço e acordo de novo, sempre com a mesma roupa, um vestido velho, coçado, que já foi preto mas agora está cor das cinzas. Não sei como arranjar outra roupa, não sei, sequer, se quero outros trajes . Levanto-me entorpecida e não me reconheço no espelho que adorna a parede rachada à minha frente. A pouca luz que existe não me permite ver o meu olhar, mas eu sinto-o. Frio. Vazio. Cheio de nada.
À minha esquerda, encostada à parede, uma mesa de madeira adornada com resquícios de bicho-da-madeira, acolhe Cem Anos de Solidão e uma primeira edição da poesia de Neruda em espanhol. À direita dos livros, velhos e também eles bafientos, duas páginas em branco, onde me entretenho a escrever a minha vida em letra quase ilegível, porque sou  pequenina e sei bem que a minha vida, embora já tenha sido muito grande, é-me agora muito diminuta. O meu tempo  de solidão tem vindo a delapidar, pouco a pouco, a minha sanidade. Acho que estou louca. Louca. Louca.
Lá fora, onde por vezes me é permitido vaguear, há lugares e pessoas que conheço, mas não sei de onde. Vejo-me, ali, num jardim de inverno, com árvores altas que não permitem ver para lá do seu tronco. Estive lá ontem. Ou seria na semana passada? É lá que os encontro; aqueles, os únicos que me fazem acreditar que estou viva. Agora, não consigo ver-lhes as caras, mas confio-lhes o meu Tempo. Não me resta outra possibilidade. 
Acordo inundada de suor, em brados: “Morram-me!”. Parece-me ouvir passos na minha cela. Mas quando olho, não vejo ninguém. Fugiram? O que sei é que “Eles” continuam a torturar os meus momentos de sono, sem me deixarem descansar destas, nestas trevas. Estão sempre lá. Estão sempre aqui. Comigo. Para me enlouquecerem. Para me fazerem morrer por dentro. Quem sabe não seria melhor. Continuo sem saber porque estou aqui. Continuo sem saber onde estou. Os meus cabelos longos estão desgrenhados. A minha pele, baça. O meu corpo, trôpego. O meu choro, rouco de cansaço. Cheguei ao ponto sem retorno. Entrego-me.
Subitamente, embalada pela entrega do meu corpo ao chão frio, uma enxurrada leva-me aos solavancos, rebentando com a porta que me encerra, flutuando-me pelos corredores, pelas escadarias, pelas alas escuras e pelos pórticos centenários na direção da Luz. Embalada pelo barulho assustador deixo-me ir e grito. Finalmente, ao entregar-me, consegui o que ainda não me tinha sido possível. Ver a Luz. 
Filomena Afonso Mourinho
março | 2020

terça-feira, março 31, 2020

Não posso continuar. Vou continuar

Elisabeth Carreira está umbilicalmente ligada ao Teatro, à sua escrita e imagética, pelo que este conto lhe surgiu, segundo me disse, de forma quase compulsiva. É uma narrativa muito bela e muito generosa. Num enredo perfeito, ela homenageia alguns dos monstros sagrados que lhe iluminam o percurso. Mário Viegas. Craveirinha e outros, numa antologia de poesia Moçambicana. Beckett. E deixa-nos a interrogação filosófica que assombra a humanidade desde os alvores do tempo. «É a minha situação uma metáfora da existência humana?». Aplauso. 

Manuela Gonzaga
 
Sísifo, o grande rebelde 

Não posso continuar. Vou continuar


Estendo a perna à procura da tua, o meu corpo a querer cumprir o abraço quente e reconfortante com que sempre iniciamos o dia. Dou com a parede dura e fria. Ainda de olhos fechados, tento ordenar os pensamentos. Que se passa? Chamo-te, a medo. Pressinto que algo está errado. Tateio. Esta cama estreita, não é a minha, não é a nossa. Obrigo-me a abrir os olhos. Estou só. Num quarto minúsculo, onde nunca estive. Há uma janela pequena, com uma grade em forma de cruz, por onde irrompe, tímida, a luz do amanhecer. É demasiado alta. Não chego lá. Olho em volta. Vejo uma cadeira, junto a uma pequena mesa metálica. Coloco-a por baixo da janela e subo para a inspeccionar. Não existe manípulo. Espreito. Devo estar num segundo andar a avaliar pelo edifício em frente, pontuado com pequenas janelas gradeadas, como a minha. A separar os dois edifícios, um pátio amplo, com árvores. 

Encontro-me numa prisão, portanto. Ou num hospício? Interrogações sem resposta. Que terei feito para estar aqui? Quem me quer mal? Onde estás?

Desço da cadeira. Viro-me no sentido contrário. Uma porta de ferro. Tento abri-la. Trancada. Estou evidentemente presa. Como vim aqui parar? Por que não me lembro de nada? Uma sensação de vertigem leva-me a sentar-me na cama, a cabeça entre os joelhos. «Faça isso quando sentir tonturas», disse a médica. «E respire de forma profunda até que passe o mal-estar. Esse procedimento ajuda a circulação sanguínea a chegar mais rapidamente ao cérebro.» Ao fim de uns minutos, fico mais calma, é um facto. Há coisas que aprendemos na vida que um dia se revelam úteis. Esforço-me por racionalizar. Reparo que sobre a mesa estão dois livros. Descoberta excitante. Sobre eles, os meus óculos. Excelente combinação, já que sem eles os livros se revelariam inúteis.

Pego no de cima. Beckett! Livro velhinho, comprado por mim ainda nos tempos da Faculdade! Edição portuguesa, da Arcádia, não datada. Custou-me 50 escudos, segundo se lê, a lápis, na primeira página. Imagino-me a comprá-lo com volúpia, objecto de luxo, na antiga Livraria Universitária do Campo Grande, já desaparecida. Três peças, À Espera de GodotFim de Festa e A última gravação. Vem-me à cabeça uma lembrança boa:  Mário Viegas, genial, maravilhoso, insuperável, em À Espera de Godot, na pequena sala do mais tarde apelidado Teatro-Estúdio Mário Viegas. O maior dos actores portugueses entregando-se inteiro, presumo que já doente, às palavras – e aos silêncios, que tão bem interpretava – do maior dos dramaturgos modernos. Dois enormes amores na minha vida. E Endgame (Fim de Festa), ainda tão vivo na minha memória, o espetáculo que vi recentemente em Londres, com dois colossais actores, Alan Cumming e Daniel Radcliffe, transportando o texto de Beckett às alturas do sublime. Dei comigo na plateia banhada de lágrimas, tal o êxtase. Beckett, portanto, aqui comigo, a alimentar-me a alma. Pena ser uma tradução. Em tempos tive em casa uma edição inglesa, mas dei-me conta que desapareceu, naturalmente para casa de um dos nossos filhos.

Pego no outro: Nunca mais é sábado, antologia de poesia moçambicana. Também meu, mais recente. Teatro e Moçambique. Sorrio. Sabes que são duas palavras que me definem. Terei sido eu a trazer estes livros? Não são obra do acaso. Só posso ter sido eu ou os nossos filhos. Tu não, o teu mundo é outro. Não estavam na minha mesa de cabeceira, alguém os procurou criteriosamente nas minhas estantes. Por trás  destes livros, está alguém que me conhece e se preocupa. Não estou só. Não estou só.

Há uma espessa neblina no meu cérebro, que me impede de compreender esta absurda situação. Em sonhos, já vivi esta sensação angustiante. A de não saber onde estou, como sair, que culpa estou a espiar. Olho de novo à volta. Não é sonho. Tudo demasiado real. Ou melhor, surreal.

Abro a antologia moçambicana, aleatoriamente.  Dou com o Craveirinha, um outro amor incondicional. Admirável poeta, nascido no mais pobre dos bairros pobres da capital moçambicana. Autodidacta, fez-se enorme “encontrando no amor a sublimação de tudo”, e ansiando pelo dia em que veria o seu “áfrico país” erguer-se, livre e digno, em toda a sua autenticidade. Porque é indigna a privação da liberdade, como bem me dou conta. Sentir que alguém mais forte que nós, dono da nossa vida, nos limita e nos cala. Era assim, antes. Mas a ditadura tinha um rosto. Agora desconheço quem me oprime.

Saboreio o poema Exíguas palavras:

Posso jurar que a solidão me tacteia.
Uma a uma esvaindo-se no rígido vazio
Exíguas são as palavras que me ocorrem.

Rimas de livros fitam-me indulgentes.
Desde Camões ao Eça passando por Tolstoi
São-me vãs as palavras que contêm.

Um sobressalto interrompe-me a escrita
Na maneira yankee de chamar deve ser o Hemingway.

Jamais estamos socraticamente sós. Há sempre um Chaplin.
Não são os grãos de areia um por um que povoam os desertos?

Jamais estaremos sós, portanto, enquanto pudermos escutar os grandes autores. Faltas-me, porque és metade de mim. Mas não estou só. Encosto um livro ao peito e depois o outro.  São dois livros, não são mais do que isso, dois objectos banais, mas a sua presença reconforta-me extraordinariamente.

Pouso os livros e reparo que sobre a mesa há num caderno preto, desses que tenho sempre em casa. E duas esferográficas. A coisa compõe-se! Estou trancada numa cela, não sei porquê, não sei por quanto tempo, mas poderei libertar os pensamentos, evadir-me, escrevendo, desenhando... Não estou só.

Um pequeno lavatório. Tenho água. A minha escova de dentes num copo. A pasta de dentes habitual. Pelo menos isso. Lavo a cara, escovo os dentes e limpo-me à toalha pendurada ao lado. Olho-me no espelho suspenso acima do lavatório e com dois dedos tento apagar a ruga entre os olhos. Respirar. Isto não é para sempre. É um equívoco. Vai ficar tudo bem. Estou de pijama. O meu confortável pijama camiseiro de xadrez vermelho. Outra boa escolha. Olho à volta. O meu robe branco pendurado num prego. E é tudo. Não tenho mais roupa. Não poderei ir, pelo menos, até ao pátio? E as refeições?

Como se ouvisse a minha muda interrogação, alguém destranca a porta e assoma por um momento. Pequeno almoço! Uma voz feminina entrega-me um tabuleiro. Uma farda inconclusiva. Guarda? Auxiliar de ação médica? Sai rapidamente e tranca de novo a porta, sem dar azo a perguntas. Pão com manteiga e uma caneca com café com leite. Não estava à espera de mais. Obrigo-me a debicar a carcaça deslavada e a beber o café frio.  Subjugada, mas não rendida. Resistente.

Dou voltas na pequena cela. Interrogo-me sem cessar, tentando reconstituir os últimos momentos de que me recordo. Esbarro num muro negro. Não encontro respostas. Não sei como sair desta situação. Sinto-me personagem de Beckett, mulher non-knower e non can-er, numa peça em que o absurdo impera. É a minha situação uma metáfora da existência humana? Todos nos debatemos, quando nos permitimos alguma lucidez, com questões sem resposta sobre o sentido da vida, a impossibilidade da verdadeira comunicação com os outros, a solidão em que vivemos e morremos.

E acabamos por concluir que por mais que doa, prosseguir é preciso.

I can’t go on. I’ll go on.


Elisabeth Carreira
Lisboa, 28 de março 2020

Imagem (mito de Sísifo)








segunda-feira, março 30, 2020

«Sou mais nova que o seu pai seis meses»

Do espartilho do enunciado de um exercício destinado a soltar a imaginação, a escritora Luisa Fresta leva-nos até uma prisão algures em Angola, onde até os cheiros conseguimos apanhar. É uma narrativa perfeita, um conto soberbo, da primeira à ultima palavra. A «apropriação» dos livros, como também foi sugerido, é integral. A Princesa, heroína deste conto, assimilou-os dando-lhes vida própria até ao último alento. Com e como ela,  respiramos  a perplexidade e angústia que assombram os dias de hoje. Que inimigo é esse que nos aprisiona, sem culpa formada? De tão perfeitamente particular, esta narrativa é universal.  Como bónus, a ilustração de Cristina Seixas.
Manuela Gonzaga

«Sou mais nova que o seu pai seis meses»


Ilustração de Cristina Seixas, professora do ensino básico, especificamente feita para este conto


Estou numa cela de doze metros quadrados com paredes sem reboco e tijolos à vista, pintados de cinza. Há duas janelas altas de sessenta por sessenta em vidro liso que dão para uma horta. As grades são em forma de xis. Quando a chuva é oblíqua e grossa faz muito barulho dentro da minha cabeça. Nas paredes leem-se frases em árabe, em francês, cheias de erros ortográficos e também em crioulo de Santiago. Alguns palavrões, duas orações, um desenho erótico feito com batom escuro, uma receita de bola de carne, outras duas de muteta[1] e de saka saka[2], com um número de zap. Em duas frases curtas recomenda-se abstinência total e mais abaixo surge o contato de uma pastora. No teto branco encardido espreitam desoladoras manchas de humidade e algumas bolhas na pintura. Está frio. O chão é do tipo industrial, brilhante e com aspeto lavado enquanto que o lavatório pequeno, o chuveiro e a sanita asseguram a nossa precária higiene. A minha cama resume-se a um colchão fino de espuma, com resguardo, e a um par de lençóis bordados com as iniciais JC. Não terá mais de noventa centímetros de largura. Há dois cobertores cambriquito[3] dobrados em quatro e encafuados numa fronha alva, fazendo as vezes de enchimento de uma espécie de almofada alta.
Tenho uma mesa-de-cabeceira metálica com uma gaveta mínima onde encontro um espelho redondo de aumentar, de base plástica, que permite apoiá-lo numa superfície horizontal, pendurá-lo num gancho ou fixá-lo à parede por uma ventosa. Sobre a mesa estão dois livros: Crónicas, de Lobo Antunes e Bestiário, de Cortázar, para além de uma esferográfica tipo Parker, com as iniciais JC gravadas. Também há uma BIC, de ponta azul. Mais do que gostar, sei que preciso dos meus livros, porque me fortalecem e me apetece tatear as capas frias, porque fico em pânico se não os encontro perto de mim; sorrio ao olhá-los: mas não me consigo lembrar de nenhum pormenor relevante, exceto da Casa Ocupada de Cortázar e do Sou mais novo que o seu pai seis meses, do Lobo Antunes. São contos ou crónicas, ou textos, sei que os li em voz alta a ambos e quando volto a eles, a elas, percebo que conheço as pessoas e os lugares. Que estive lá, vivo lá, ou muito perto.
Gosto da minha saia preta de malha e do camiseiro largo em tecido acetinado verde doirado, de um tom parecido com o das fardas militares. Julgo-me incapaz de escolher outra roupa para me dar a conhecer e descobrir-me também. Reparo com agrado numas sabrinas pretas com um lacinho fino e num colar rente ao pescoço, de pérolas de aquacultura, um pouco amarelecidas. Esta mulher morena com batom bege brilhante e eyeliner preto é ainda jovem e o seu rosto inexpugnável e reservado é-me bastante familiar. Creio que a devo conhecer e que provavelmente nos damos bem.
Mas agora preciso urgentemente de saber de que me acusam. De saber quem sou. Ainda ninguém veio falar comigo. Tenho uma companheira de cela que parece ter perturbações mentais. Quando cheguei (quando seria?) cumprimentou-me distraidamente e pôs-se a limpar freneticamente as paredes e as grades que nos separam do corredor. Depois continuou a desinfeção com um lenço velho embebido em não sei que substância de cheiro ativo que guarda num frasco sem rótulo, friccionando cada centímetro quadrado do estrado das camas, do vidro da janela, ao qual chegou empoleirada numa das mesas-de-cabeira que foram, por último, esfregadas também com muito vigor.
Instou-me rudemente a descalçar as sabrinas que passaram pela sua inspeção impiedosa e recomendou-me com um gesto sumário que andasse com uns chinelos brancos de fina entretela e tamanho único, que retirou de um plástico. Depois sossegou, enquanto entoava eternos êxitos de Bossa Nova. Não tenho medo mas estou expectante e intrigada. Ansiosa também. Sei que nunca aqui estive e não percebo porque estou confinada. Tudo isto é muito novo para mim. Haverá razões para ter medo? Nesse caso temo não as conhecer ainda. Talvez alguém lá fora se preocupe pela minha ausência. Mas quem? Não tenho aliança por isso não devo ser casada. Mas posso ter alguém na minha vida. Filhos, pais, irmãos. Um companheiro. Um confidente. Uma mentora. Amigos. Um dependente. Alunos. Mestres.
Sinto que aqui me protegem dois leais aliados: a chefe de cozinha da penitenciária, uma angolana quarentona com aspeto de Kwanyama, pele brilhante, muito alta e corpulenta, com porte altivo e olhar bondoso, de olhos pretos redondos como janelas de porão. É discreta e silenciosa. Aqui chamam-lhe Mana Mingota. E também um velho pastor belga cor de azeite, grande e meigo, com algumas ramelas coriáceas, que adora lamber as mãos das presidiárias e deitar-se no chão do pátio à espera de festas. Dizem que pertencia a uma das guardas prisionais que morreu. Já ouvi umas das mulheres chamar-lhe Mbua[4]. Sempre que me vê levanta as patas dianteiras com alegria e quase me atira ao chão, pois de pé é mais alto do que eu e quanto à força, propriamente dita, devemos andar ela por ela, embora ele não tenha mais do que o peso dos meus onze anos.
Mas também tenho sinistros e imprevisíveis inimigos; desde logo uma das guardas prisionais da minha ala: sei que é a Joana Ngandu[5] porque tem o distintivo aposto na farda. Pequena e ágil, na casa dos vinte, traiçoeira e astuta, de cabelo castanho postiço e mãos enormes, apesar da sua pequena estatura. E um dos diretores, de meia-idade, anafado, cabeça rapada e óculos de lentes espessas, que não dispensa o boné de fazenda xadrez e o relógio de ouro; tem a alcunha de Kitadi[6] e não ouvi ainda referir o seu verdadeiro nome.
Chamam-me A Princesa. Todos fogem de mim e consta que sou capaz de tocar fatalmente várias pessoas sem um único disparo. Sinto uma forte dor de cabeça, como se me tivessem agredido na nuca, com uma pancada seca e violenta. Mana Mingota dá-me um copo de água turva às refeições, talvez aí tenha dissolvido um comprimido. Serão analgésicos? E se for uma enfermeira infiltrada, o meu anjo da guarda?
Mbua trouxe-me esta manhã ao pátio um pequeno tubo dissimulado na coleira, no qual está uma nota manuscrita: “Não podes conhecer a tua identidade, por segurança. Estás aqui para te protegerem dos ataques de quem te persegue, pois julgam-te uma ameaça. Alguém pôs a circular a notícia de que todos aqueles que te tocam acabam por sucumbir. Cuidado com a Ngandu. O alheamento é o teu salvo-conduto. Livra-te deste papel”. Mbua fez menção de querer urinar junto a um muro coberto de musgo e eu coloquei estrategicamente o insólito recado na trajetória do seu fétido jato.
Joana Ngandu é líder de uma seita religiosa que preconiza o “Renascimento Sanitário” método através do qual se propõem eliminar da face da terra todos os potenciais veículos de algum tipo de doença, filosofia ou paixão contagiosa: escritores, intelectuais, filósofos, artistas. Disse-mo a minha colega de cela mas não posso fiar-me nela. Entretanto é certo que desconfia de mim e tenta armadilhar-me frequentemente.
Mas esta noite, sem que nada fizesse prever, Joana veio arrancar-me da cela enquanto a minha alienada co-locatária trauteava uma das suas canções preferidas. “(…) Acorda Amor/ Eu tive um pesadelo agora/ Sonhei que tinha gente lá fora/ Batendo no portão, que aflição (…)”. Sou arrastada para a horta, em meio a empurrões e pontapés. No meio da escuridão vejo Mbua uivando à lua. Kitadi espera-nos com ar triunfante enquanto consulta o seu telemóvel.
— Ainda não tenho a transferência. Não me faças perder tempo, Ngandu.
As patas desta mulher minúscula e abjeta arremessam-me para o chão com violência. Todo o seu corpo é um mecanismo brutal de destruição, as mãos são verdadeiras pás de coveiro. Rapidamente finaliza o pagamento acordado fazendo deslizar os dedos que se mostram agora ágeis, versáteis e céleres.  
— Muito bem. És batalhadora, persistente. Gosto de ti, Ngandu   Kitadi exalava uma respiração ruidosa que lhe embaciava as grossas lentes. Ajeitou o boné e consultou o seu bonito relógio de ouro. — Chegou a hora de saberes a verdade — continuou.
Entretanto eu gemia no chão, tentando cuspir o capim da boca, com as mãos algemadas atrás das costas, cheias de escoriações. Os meus olhos cruzaram-se com os de Mbua e foi nesse momento que o velho animal saltou para o pescoço de Kitadi ferrando-o fatalmente na jugular. Ngandu disparou um tiro certeiro e Mbua apagou-se como um herói, sem um latido, com os olhos meigos cheios de ramelas.
— Mas quem és tu? Quem diabo és tu, afinal? Estúpida princesa decadente, olha para ti, não vales nem o capim nem as formigas que se vão alimentar de ti…Quem é JC, diz-me de uma vez por todas? Sabes o que é o “Renascimento Sanitário”?  — continuou.
— Quem me dera saber — murmurei. — Mas talvez estes livros possam ajudar. Não me separo deles. Veja.
Ngandu abriu violentamente o Bestiário numa página de Casa Ocupada. E leu: “Ouvíamo-nos respirar, tossir, pressentíamos o gesto que leva ao botão do candeeiro, as mútuas e frequentes insónias”. Senti o peso da sua mão na face esquerda como uma bota da tropa. Rindo, com um fio de sangue escorrendo pela boca, respondi-lhe apenas:
— Sou mais nova que o seu pai seis meses. 
E ouvi claramente Lobo Antunes rindo ao meu lado antes de me desvanecer.
Luísa Fresta
Queluz, 26/03/2020


[1] Muteta: prato tradicional angolano à base de pevides de abóbora descascadas e moídas, com tomate, alho e ovos.
[2] Saka saka: o mesmo que sacafolha, kizaka ou quizaca. Receita tradicional do Norte de Angola e Congo, nomeadamente, feita com folhas de mandioca pisadas, cozidas e refogadas em óleo de palma.
[3] Cambriquito: cobertor pequeno, em Angola. Termo relativo ao período colonial.
[4] Mbua: cão, em kimbundu.
[5] Ngandu: jacaré, em kimbundu.
[6] Kitadi: dinheiro, em kimbundu.