quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Loucos, sim, mas por amor

Entrevista ao Diário de Notícias da Madeira (11/02/2018).


 E estamos a falar de uma família da classe alta, com educação e formação. Afinal, mesmo nessas classes sociais, a mulher ainda era vista como um ser de segunda no primeiro quartel do século XX?
A mulher, em Portugal, só teve direito a voto depois de 1974, e isso diz tudo. Claro que ela usufruía de regalias que não eram para todas. Ia e vinha por onde lhe apetecesse. Até chegou a ter motorista particular. Mas em circunstâncias análogas, um homem divorciava-se e pronto. E depois casava de novo. E a ela, meteram-na num hospital de doidos...e podiam ter-lhe dado um tiro, com toda a impunidade, porque em casos de honra, os homens nunca eram criminosos. [...] 



terça-feira, fevereiro 06, 2018

Maria Adelaide vai voltar ao hospital Conde de Ferreira

Só quando se viu defronte do portão e dos muros altos que ainda hoje rodeiam o Centro Hospitalar, é que Maria Adelaide percebeu que a casa de saúde para onde o marido, o filho e um amigo de família lhe tinham pedido, insistentemente, para vir «descansar», era «o hospital de doidos». Nessa altura, conta, sentiu o coração parar-lhe no peito, o chão desaparecer-lhe debaixo dos pés e teve de fechar os olhos: «Meu Deus que horrível momento aquele! Estava à porta do Conde de Ferreira!» (em Doida Não e Não!



                                            

Entrada principal para o Centro Hospitalar Conde de Ferreira


Maria Adelaide vai voltar ao Conde de Ferreira, pela quarta vez. Da primeira, entrou pelo braço do filho, com o marido a acompanhar uns passos adiante, com o mais traidor e cínico dos amigos do casal. O inqualificavel dourtor Balbino Rego. Corria o ano de 1918 quando a teia da 'loucura' caiu sobre o seu destino. Mas nos primeiros meses de 1919, a 'louca' fugiu e levou outra 'condenada' com ela, a jovem Abecassis, riquíssima e sequestrada pela familia, como a Senhora de São Vicente e outras que por lá se encontravam a morrer em vida. Mas Maria Adelaide só conseguiu fugir, graças ao apoio inexcedivel do seu amante, Manuel Claro. Foi ele que encomendou a escada de madeira por onde se arrimou às traseiras do edificio, ajudando as duas senhoras a saltar o muro tão alto. Foi ele que arranjou o carro e a ajuda necessária para irem para o Rossão, distrito de Viseu, de onde  antigo motorista de Maria Adelaide era natural. E onde vivia a sua mãe, irmã e cunhados.

Da segunda, ainda em 1919, foi um tristíssimo regresso. Capturada por policias a soldo de Alfredo da Cunha, na casa de família e na aldeia de Manuel Claro, foi trazida de novo para a  'Bastilha'. As suas descrições dessa época apertam o coração mais duro... Mas voltou a sair, e desta vez de forma mais espantosa ainda. Pela porta da frente, em glória, de braço dado com o Governador Civil do Porto,e com o seu maravilhoso advogado Bernardo Lucas, que Manuel Claro, preso na Cadeia da Relação, contratou para defender Maria Adelaide. Em breve, teve de se esconder, e assim viveu durante largos tempos. Mas livre e junto de quem amava e que lhe correspondia com igual amor.

Da terceira, a Senhora de São Vicente voltou a entrar e a sair em grande estilo desta casa. Foi em 2012. Houve fotos dela e de Manuel Claro à porta do salão onde decorreu o primeiro congresso Luzes e Sombras do Alienismo em Portugal, promovido pelo então director clinico da instituição, Dr. Adrian Gramary. Eu fui oradora convidada, falei quase ao fim do dia, perante uma audiência estarrecida... e o texto da minha comunicação integra as actas do colóquio.  

Da quarta: a 28 de Fevereiro de 2018, Maria Adelaide vai voltar a cruzar os umbrais desta Casa. Mas agora, é a figura principal e única e tem direito a Salão Nobre. Por assim dizer, este evento vai ser quase um exorcismo. O convite será divulgado em breve. Fica o artigo do psiquiatra Adrian Gramary, de quem partiu a sugestão para o encontro e o debate sobre violências de género, na própria (e há muito tempo já). modelar instituição. O Centro Hospital Conde de Ferreira


Jardim interior do Conde de Ferreira


Crónica de um erro médico
Por Adrian Gramary

[...]
 No entanto, é necessário salientar um aspecto que o livro de Manuela Gonzaga, tão rico em pormenores históricos, se encarrega de esclarecer: ao contrário do que pudéssemos pensar, o caso de Maria Adelaide não foi um caso isolado, já que nessa época era relativamente frequente o internamento psiquiátrico das filhas descarriladas da burguesia e da aristocracia. Este procedimento constituía uma forma de punição que era vista como adequada perante comportamentos considerados desviantes entre os quais se incluíam os relacionamentos com indivíduos pouco recomendáveis ou de classe inferior. A autora do livro defende que o factor principal que determinou a repercussão histórica deste caso foi o papel fulcral que desempenhou a imprensa, que agiu como caixa de ressonância, facilitando que o caso se tornara vox populi. A isto soma-se a decisão da protagonista e do marido traído de saltarem à praça pública escrevendo livros e artigos onde tentavam argumentar os seus pontos de vista: «Infelizmente louca!» intitulou-se o libelo de Alfredo da Cunha e «Doida não!» a contestação de Maria Adelaide. Títulos exclamativos e melodramáticos que dão uma ideia das paixões envolvidas neste processo, talvez um dos primeiros escândalos mediáticos da história de Portugal, favorecido ainda pelo facto dos dois protagonistas fazerem parte de uma das mais conhecidas famílias ligadas à imprensa do país. A história, porem, teve um final demorado, embora mas mais... [...] 

Para ler o artigo na íntegra:
http://www.saude-mental.net/pdf/vol11_rev3_leituras.pdf





quarta-feira, janeiro 31, 2018

Maria Adelaide Coelho da Cunha - história de um amor (quase) impossível

O que se faz quando se está tanto tempo de costas voltadas para o nosso bloque predilecto? Atalhando motivos, vou directa ao assunto: estou de volta aos livros (quase) a tempo inteiro. E a Bertrand Editora deu-me uma grande alegria ao decidir relançar em edição revista um livro que esgotou depois de várias edições e de um grande sucesso editorial. Para nosso grande espanto e alegria, a obra está a ser muito acarinhada em termos mediaticos. Um grande artigo na Revista Máxima de Fevereiro; sete páginas no Notícias Magazine de 30 de Janeiro, uma entrevista na Time Out... e não fica por aqui. Aliás, já está traduzido e vai ser em breve lançado no mercado francófono por Le Poisson Volant.









quarta-feira, agosto 16, 2017

Al Berto para sempre

O Vicente do Ó realizou um filme que foca a vida do poeta Al Berto no ano solar de 1975 que vai estrear brevemente. Conhecemo-nos por um acaso «milagroso» e por uma soma de coincidências. Ele encontrou registos dessa época num texto meu, neste blogue. Mais tarde, levou à cena uma peça de teatro sobre António Variações, biografado por mim (a única bio historiográfica e extensiva que existe deste ícone pop português). Estamos assim ligado por fios luminosos de imagens, palavras, acção, a duas figuras ímpares do nosso século XX. Acrescente-se que eu conheci os dois, António Variações e Alberto Pidwell, em cujo palácio vivi nesse inesquecível ano de 1975. E Vicente do Ó é, simplesmente, o irmão mais novo do grande amor de Alberto, João Maria do Ó. Grande, sim. Fui testemunha de quão intensa, fulgurante e bela foi a história de amor entre ambos. Quem melhor do que Vicente, que já recuperou a memória de outra grande, Florbela Espanca no cinema português, e cresceu a conhecer, a privar com o poeta, com os dois poetas, para levá-lo ao grande ecrã?

Partilho um texto (facebook) que evoca, muito parcialmente, essa época em que vivíamos no Palácio Pidwell. E duas fotos preciosas. Numa delas,  a única que consegui conservar, revejo  Al Berto que todos conhecem, e João do Ó, que já foi publicado postumamente pelo irmão, o realizador do filme que todos aguardamos. E eu?

Junto memórias, sou tecelã de palavras. Que vida. Há que vivê-la, há que contá-la.

quarta-feira, agosto 02, 2017

Roman initiatique et contes de fées

Os últimos meses têm sido férteis de acontecimentos. É que, para além de continuar na minha querida Bertrand Editora, passei a ser agenciada pela Agência das Letras, e integro o seu Conselho Editorial.  A somar, os meus livros continuam a dar-me muitas alegrias. Desta vez, é a lindíssima capa da autoria de Vincent Alta Sombra, para a segunda edição em francês de Xerazade - a Última Noite edição em papel com distribuição pelo catálogo da muito prestigiada Hachette Livre.


Sobre este meu romance, a editora/tradutora Laure Elisabeth Collet escreve: 


«Roman initiatique et contes de fées tout à la fois, comme son héroïne, il est l'Un et le tous. Chaque chapitre est une histoire, mythique, magique, drôle, ou triste, qui nous transporte ou nous ramène. Impossible de savoir si on est parti très loin ou resté tranquillement au point de départ. Chaque chapitre est une expérience, une vie, une pièce de puzzle; et dans cette image, cette sensation que l'on retient en refermant le livre, le tout est supérieur à la somme des parties. Nous sommes un, et nous sommes tous. Une merveille.» 

Agora a integrar o catálogo da Hachette Livre, que já distribui 12 obras da mesma editora, e vai alargar a mais autores que ali chegam pela mão de Laure Elisabeth Colletcom este já tenho três livros, os quais  já constavam no mercado francófono quer em edição e-book, quer em papel. Evidentemente, agora a sua presença ganhou um novo fôlego.  

-- Mozambique: Pour que ma mère se souvienne;
-- Isabel de Portugal: L'Impératrice: Le pouvoir au féminin au XVIème siècle (Biographie Historique)


Clicar para consultar a página de Le Poissont Volant
Clicar para a minha página de autor na Amazon França

terça-feira, junho 27, 2017

Elefantes e rinoceronte na corte do Venturoso


Amanhã, quarta-feira dia 28 de Junho a partir das 14.00, estarei no auditório do Museu Nacional de Arte Antiga como  oradora no colóquio Animalidade Representação e História, cujas propostas vão no sentido de se debater o nexo entre humanidade e animalidade, a partir de representações do animal sedimentadas nas categorias do pensamento histórico e filosófico contemporâneo. As mesas contam com a presença de investigadores, intelectuais e escritores de diferentes formações, incluindo a Filosofia, a História, as Artes e a Literatura.  

Vou recordar um episódio passado no século XVI, em Lisboa, quando D. Manuel I resolveu acarear o conhecimento tradicional, ancorado nos Antigos, com a experiência «madre de todalas cousas». Como? Colocando frente a frente um dos seus elefantes indianos e o famosíssimo rinoceronte que Durer veio a imortalizar. Recriando um circo à maneira «dos romãos» para confirmar se estes dois animais se odiavam  lutando até à morte... de um deles pelo menos quando se encontravam. O espectáculo, que terminou de forma inusitada, não fez correr nem uma gota de sangue dos dois mas é mote de muita reflexão. Damião de Góis imortalizou o evento ( Crónica do felicissimoIV, cap. xviii)
 Luta entre o elefante e rinoceronte, inimigos naturais (sec. XIV), Saltério da Rainha Mary
Medieval Bestiary (Royal MS 2 B. vii Gallery)
A 3 de Junho de 1515 dia da Santíssima Trindade, em Lisboa, um elefante e um rinoceronte, duas «bravíssimas e espantosas alimárias» da novíssima geografia das Descobertas, foram postas num pátio, diante da antiga Casa da Contratação da Índia e da Guiné, ao Paço da Ribeira. De acordo com a tradição assente numa corrente literária e científica de muitos séculos, estes animais, cuja força e astúcia andavam a par, temiam-se e odiavam-se a tal ponto que quando se encontravam lutavam até à morte. De um deles, pelo menos [...]  
Sintam-se convidadas/os. A entrada é livre e todas as palestras prometem ser fascinantes.