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sexta-feira, julho 15, 2022

As letras evaporam-se no ar escaldante

 O chão está quente, as paredes estão quentes, o tampo das mesas e os braços das cadeiras estão quentes, as folhas dos livros de tão quentes amarelecem diante dos nosso olhar incrédulo e caiem no chão encarquilhadinhas sem força para segurar as letras que se evaporam no ar escaldante, e temos de tomar cuidado quando falamos porque as palavras tendem a sair aos turbilhões e todas ao mesmo tempo a pipocar umas contra as outras o que torna o discurso bastante incompreensível o que é irrelevante porque ninguém ouve nada para além do marulhar indiferenciado da maré baixa destes dias ensombrados de luz.


sexta-feira, junho 24, 2022

Ele queria saber que perfume eu usava


"Vou consoar com uma mulher da vida. Levo peru, rabanadas, fruta cristalizada, espumante. Até lhe comprei um presente. Uma água-de-colónia.”

  

 Há muito anos, a revista CARAS encomendou-me um Conto de Natal: eu teria total liberdade. Tomei demasiado à letra a amplitude dessa "liberdade" criativa e recordei, romantizando um bocado, um episódio dos tempos do jornalismo romântico quando se partia para a reportagem como quem vai para um safari sem utras armas que não as da palavra e da atenção plena, feita de cumplicidades e amor. Uma narrativa que, reconheço, é de uma  inconveniência total para o meio de comunicação a que se destinava. Mas a editora e as chefias de redação da revista não comentaram, pelo que até foram muito delicadas. E felizmente enterraram este conto num suplemento publicitário, daqueles que ninguém lê porque são só para vermos as imagens. Sou-lhes muito grata pela subtileza. 

Partilho o conto.  



“DESTA VEZ, LEVO EU O PERÚ”

CONTO

  Por Manuela Gonzaga

Ele queria saber que perfume eu usava. Eu disse, depende e não uso perfumes, só águas-de-colónia. Às vezes, misturo. Não sejas chata, disse ele, dá-me dois ou três nomes, é para um presente de Natal. Nessa época, era relativamente fiel ao Miss Dior, ao Dioríssimo, e outro que não me lembro. E a uma preciosidade, L'Interdit by Givenchy, “o original, que a Audrey Hepburn criou” como explicou o amigo que mo ofereceu, comissário de bordo da TAP. Faltavam três dias para a festa da família e ele não tinha nenhuma. Tinha várias ex-mulheres e uma porção de filhos. Carlos Alfredo. Grande coração. Na época, os jornais eram muito românticos e ser repórter implicava meter as mãos no sangue e nas tripas do mundo. Ele era dessa tribo. A 24 de Dezembro, quando toda a gente se preparava para voltar para casa mais cedo, ele e uns quantos náufragos de famílias à deriva, ofereciam-se para as reportagens temáticas. O Natal na prisão. Nas urgências de um hospital. A Consoada na Sopa dos Pobres. Coisas assim. Três anos antes, tinha ido para o Linhó e até ficou amigo de um recluso. No ano seguinte, já com este em liberdade, acompanhou-o na sua qualidade de ladrão, produzindo uma emocionante reportagem que lhe ia custando a liberdade. O outro convencera-o a ficar à porta, “a controlar”, enquanto esvaziava o frigorífico de uns ricaços do Restelo que tinham ido passar a quadra ao Rio de Janeiro. “Assobias se houver crise. É rápido. Bifes, marisco, vinho, guloseimas para os putos.” O pior é que, agarradas aos comes e bebes, tinham vindo pulseiras, anéis, relógios, colares, no valor de uma pipa de massa. Carlos Alfredo defendeu o segredo profissional com unhas e dentes, mas acabou indiciado como cúmplice. Salvou-o a boa vontade do ladrão, que devolveu as jóias.

Este ano, pensara noutra temática: “Vou consoar com uma mulher da vida. Levo peru, rabanadas, fruta cristalizada, espumante. Até lhe comprei um presente. Uma água-de-colónia.” O chefe de redação encolheu os ombros:

⸺ Pagas do teu. E vê lá se não levas uma coça por conta. Parece-me tão… esquisito.

Na edição de 26 de Dezembro, porém, a reportagem dele não constava. Dia 27, quando voltei ao jornal, soube que tinha metido folgas atrasadas e que não devia aparecer antes do fim do ano. Ao almoço, um camarada de redacção ⸺ nunca se dizia “colegas”, porque “colegas são as putas”⸺ contou a história. Tinha-o encontrado, nessa desolada madrugada. A mulher da vida recrutada no Intendente, começou por fazer uma cena. Depois lá foi com ele para uma pensão, mas sempre a resmungar, “filho, tu tens uma tara qualquer”. Ele tratou de tudo. Abriu a garrafa, juntou as mesinhas de cabeceira e cobriu-as com uma toalha. Até levava velas: “Vai daí, ela desatou a beber e… apagou”. Rimos muito. E ele sem aparecer. Dia 30, uma rapariga foi ao jornal, à sua procura. Cara angulosa, pele branca e desmaiada, casaco pelo de coelho, saia comprida, roxa, botas cambadas. Olhos de quem tem 527 anos. Atendia-a eu. “Família?”, perguntei. Ele tinha tantas ex-famílias…

⸺ Amiga – respondeu ela. E acrescentou: ⸺ quer-se dizer.

Abreviando, era a tal da consoada:

⸺ Um homem tão bom. Tão delicado, poças. Deu-me um perfume. Deixou um monte de dinheiro. E eu, em jejum. Dois copitos e faz de conta que é o meu homem, faz de conta que somos uma família. Mais um copo. Tudo tão porreirinho, coiso e tal. Faz de conta. Tirei os sapatos, doíam-me os pés…

Calou-se, o rosto subitamente cor-de-rosa, olhos aflitos e envergonhados. Depois acrescentou:

⸺ Lixei-lhe o trabalho, não foi? ⸺ Estendeu-me a mão, com um papel:⸺ O meu número de telefone. Ele que apareça no Ano Novo. Conto-lhe a vida toda. Até pode escrever um livro!

Acompanhei-a à escada. Começou a descer, depois virou a cara para cima. Sorriu, era quase jovem e inocente outra vez:

⸺– Desta vez, levo eu o peru.

 

 

sábado, junho 18, 2022

Quem sabe se e quando voltaria a encontrá-la? (conto)


https://revistaoresteia.com/2022/01/18/2579/

 SÓ DE PENSAR NELA


— Volta-te para mim — pediu ela.
Ele girou na cama, tomando consciência do colchão duro, dos lençóis leves, do corpo pesado, o seu, subitamente desperto e consciente do outro corpo ao seu lado.
— Abraça-me — pediu ela.
Tinha uma voz rouca e falava muito baixo. Cheirava a animal marinho. Tinha uma pele suave e um corpo denso. Era grande. Era quase tão grande como ele.
— Quero a tua boca — pediu ela.
Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador, tão inesperado que teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo a espaços fatiado pela claridade incerta de uma luz leitosa. De onde vinha? Aparentemente do exterior, por uma janela que não se deixava ver. O silêncio que os rodeava era quase total. Não se ouviam ruídos de tráfego, barulho de gente, zumbidos de máquinas. Nada. Só um profundo silêncio habitado pela respiração dos dois e pelo triunfante rufar de tambores do seu próprio coração. E por um cheiro amoniacal e doce onde ele encontrou a memória muito antiga de algas meio secas na preia-mar, à mistura com peixes esventrados por bicos de gaivotas famintas, e bagas de iodo a rebentar sob os seus dedos infantis. Há quanto tempo não sorvia aquele perfume?
A boca dela colou-se à sua e a sensação de felicidade tornou-se tão grande que ele sentiu medo. Medo do próprio desejo acordado? Ou da silenciosa e estranha sugestão de ameaça que pairava sobre ambos, como se perigo se ocultasse nas sombras? Respirou fundo. Perigo algum conseguiria diminuir um átimo que fosse da intensidade do desejo acordado pela presença do corpo quente, macio e duro, deliciosamente nu, colado ao seu.
— Volta-te mais para mim — ordenou ela.
E ele voltou-se a tempo de ver, nas tréguas breves da luz que cortava a mortalha da escuridão que os envolvia, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis no rosto que lhe parecia moreno, de uma beleza sem idade. Ela cheirava, também, a canela.
— Cobre-me — exigiu, numa urgência agónica. E ele pensou que a voz dela lhe fazia lembrar o último sopro de um animal degolado.
E foi então, ao cobri-la, que reconheceu a natureza da ameaça que se erguia contra os dois. Num desespero, ainda sentiu o calor molhado do beijo que trocaram e que o orvalhou de um prazer tão intenso que aquele sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Mas mal conseguiu penetrá-la e muito menos permanecer no corpo que se lhe oferecia. Nesse exacto momento sentiu, num desgosto infinito, que a respiração da mulher, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si, a escura, a escaldante boca, a flor de carne que se abria a acolher por brevíssimos momentos a sua serpente triunfantemente intumescida, tudo se desfazia como uma miragem.
Acordou com uma vontade tremenda de chorar e de rir.
Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo, numa cumplicidade feita mais de silêncios do que de palavras, há tantos anos talhados em dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se sequer a tocar-lhe por prazer e com desejo, mesmo em sonhos, lhe teria parecido obsceno.
Lentamente, dirigiu-se à janela e espreitou o dia que começava a nascer. «Obrigada», murmurou, a boca quase encostada à vidraça que de imediato ficou embaciada. Depois aclarou a garganta que doía e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se e quando voltaria a encontrá-la?
Só de pensar nela, só de pensar nela.
*
https://revistaoresteia.com/2022/01/18/2579/

*

domingo, janeiro 23, 2022

O Tempo

Quando o belo rapaz se foi embora, a bela menina decidiu vou chorar até esgotar todas as lágrimas, vou chorar até apagar a luz dos meus olhos, porque o dia se fez noite e a noite ficou eterna. Oh, que insanidade tamanha, disse-lhe a mãe, que lhe escutou os pensamentos. Pois não sabes que a ferida de um grande amor só se cura com a ferida de um amor maior ainda? Que lágrimas, que cegueira, que noite, que nada. Solta os teus cabelos, larga a os teus cuidados, e seca mas é os teus olhos para conseguires ver aquele outro rapaz tão belo que não tira os olhos de ti.

Oh, mãe, se eu curar a ferida de um amor tamanho com a ferida de um amor ainda maior, não mereço o dom de amar ninguém, nem por ninguém ser amada. Deixa-me com as lágrimas da minha cegueira, o meu coração trespassado e a noite dos meus dias, porque só assim mantenho vivo, e a sangrar, este amor que me morreu.

A mãe, com a sabedoria das mães muito antigas, não disse mais nada. Mas pensou: minha donzela afogada vive o adeus e a dor dessa morte, que eu cá sei muito bem da vida e do tempo, e vejo muito bem aquele outro rapaz tão bonito que não tira os olhos de ti. O tempo cura tudo. O tempo seca tudo. Até o rio da dor.

O tempo.



M. G. em Contos da Lua Vaga (a publicar)

domingo, fevereiro 02, 2014

O combóio fantasma

Há dois dias, o Nelson Favas convidou-me para gostar da sua página de fotografia, no FB. Fiquei deslumbrada e aceitei de imediato segui-lo. Depois, associei o clima de algumas daquelas imagens à atmosfera de um ou outro dos meus contos, de resto publicado num livro intitulado A morte da Avó Cega (Planeta, 1999). A nossa parceria começa assim. Aqui.
  
O Comboio FANTASMA


«Se as sepulturas e os cemitérios vomitam os que nós enterrámos, os monumentos são verdadeiros estômagos de milhafre.» Macbeth, acto 3, William Shakespeare [foto Nelson Favas]


As linhas paralelas dos carris brilhavam num tracejado irregular interrompido por tufos de ervas daninhas, e acabavam subitamente metros à frente da antiga casa do guarda. Há muito que da estação do comboio só restava aquela memória metálica, uma dezena de metros de ferro e vigas, cravados no chão como uma esteira. Tudo o mais fora devorado pelo tempo, roubado aos pedaços pelos últimos vagabundos, desmantelado que fora, quase por inteiro, o ramal que em tempos levara àquele fim do mundo o hálito ardente e ofegante da civilização. O mesmo hálito que fizera nascer, a poucos quilómetros dali, e como por emanação de fagulhas e apitos, uma pequena cidade que vivera, também ela, dos dias do comboio.


A cidade morreu numa agonia breve, no dia em que o comboio deixou de aparecer, a vida esvaindo-se num silêncio cada vez mais denso, à medida as pessoas fechavam as portas das casas e dos estabelecimentos, e partiam como se um vento as arrastasse. Depois, matas de silvas, arbustos e ervas daninhas trocaram de lugar com as antigas hortas, e as raízes das árvores abriram caminho à força por entre as estradas abandonadas. Ele era o único e o último. Chegara quando todos estavam a partir, para fiscalizar o encerramento do ramal com os seus gestos secos e a palavra avara. Tinha a pele curtida e os olhos encharcados de febre de quem viveu, muito tempo, debaixo de outros sóis. Houve quem o ouvisse rir, entre dentes, ao passar pelas ruas desertas, como se tivesse acabado de receber um mundo solitário de presente, uma dádiva a que se agarrou com uma persistência insana, mesmo depois de terem cessado as suas funções. Então, a Companhia suspendeu-lhe o salário, mas autorizou-o a permanecer na antiga casa do guarda. E depois nunca mais ninguém se lembrou dele nem da cidade, nem das terras em redor, como se aquelas paragens recônditas estivessem sob uma aura de encantamento.

Nesse dia ele tinha resolvido, pela primeira vez em largos meses, ir à vila mais próxima, porque até a mais solitária das criaturas precisa de café e de cigarros. No seu caso não havia muito mais motivos que o levassem a tirar o velho Ford da garagem improvisada no antigo galinheiro. Voltou ao cair da tarde. Entre a folhagem dos choupos e das acácias, que tinham dilatado os anteriores domínios até às margens das desmanteladas linhas férreas, viu uma sombra branca, uma espécie de reverberação de luz pálida e intermitente a avançar por entre ervas e ramos. Praguejando, avançou na sua direcção, para estacar a poucos metros de uma figura de cera, uma criatura saída de uma peanha de santa de altar, num vestido de seda murcha, sapatos de renda ferida nas pedras do caminho, o cabelo negro apanhado numa armação de ganchos e travessas, as mãos enluvadas a apertar uma bolsinha de madrepérola, e o andar incerto de uma criança perdida. Ela olhou-o sem surpresas, e abriu a boca como se quisesse dizer alguma coisa. «Parece uma actriz de cinema mudo», pensou o homem. «Fala e mexe os lábios sem se ouvir nenhum som.»
– O comboio. O comboio – murmurou ela, conseguindo finalmente que um fio de voz acompanhasse a articulação das palavras, e olhando-o com um desespero tão grande que o homem se sentiu vacilar.
– O comboio foi-se. Acabou. Há anos e anos e anos.
Ela estremeceu e inclinou a cabeça sobre o peito. Ficaram os dois imóveis, e ela parecia prestes a desfazer-se em pingos de cera. Finalmente o homem estendeu-lhe a mão seca e segurou, entre os seus, uns dedos de estátua que estremeciam como se a vida os percorresse aos soluços. Depois levou-a para sua casa e sentou-a no único banco de madeira da sala, de costas para a lareira apagada onde, por cima do tronco semicarbonizado que sobrevivera ao último Inverno, estavam espalhados ramos de loureiro e folhas de erva-cidreira. Olharam-se sem palavras, e o homem reconheceu-se, sobressaltado, nos olhos esbraseados de febre com que ela o trespassou, como se a realidade do seu corpo não fosse mais do que um véu esgaçado, sem consistência nem sentido. Lá fora o dia caíra por completo, e o silêncio do princípio da noite dera lugar a um atordoador concerto de cigarras.
O homem acendeu o candeeiro de petróleo suspenso de uma argola no rebordo da lareira, e a luz amarelada escorraçou as sombras entre os dois para os cantos da sala. «É uma bênção que ela não queira falar», pensou, aturdido pelo absurdo da situação. Ela lembrava-lhe um pássaro caído prematuramente do ninho, que era preciso confortar e alimentar até o devolver ao ramo da árvore de onde um vento mau o expulsara. Mas ao mesmo tempo, uma força estranha mantinha-o colado ao assento improvisado num tronco de madeira, que esperava, desde a última Primavera, pelo fogo do próximo Inverno. Subitamente, a mulher sorriu e ergueu para ele os olhos pisados:

– O comboio. Está a chegar – disse.

Com um lenço de cambraia, bordado com duas iniciais entrelaçadas, que tirou da bolsinha ridícula, limpou o rosto de porcelana. Depois, ergueu-se como se ressuscitasse, e, em passos firmes, o corpo palpitante de vida, dirigiu-se para a porta, deixando atrás de si um rasto de madressilva. O homem acendeu um cigarro. «É doida», pensou. «É a única louca que existe nesta parte do mundo tinha que ser eu a encontrá-la. Fugiu de uma procissão, de um teatro ambulante ou de um manicómio. Só para me incomodar.» Agarrou-se a estes pensamentos numa lucidez de náufrago, na noite subitamente rasgada pelo som do apito de um comboio que se aproximava a resfolegar por carris inexistentes, varrendo a escuridão com um olho vermelho e monstruoso. 

Então, o homem correu para a porta e viu-a a subir para os estribos de uma carruagem impossível, e ela voltou-se e olhou-o com uma expressão transfigurada de alegria, e acenou-lhe com uma mão que parecia uma asa.
– Obrigada – disse, mas nenhum som lhe saiu dos lábios.
«Como as estrelas dos cinemas mudos», pensou o homem, paralisado na eternidade daquele instante, vendo o comboio desaparecer sobre o fantasma dos antigos trilhos, até se diluir na mancha escura dos montes.
No dia seguinte havia um pedaço de cambraia bordado com duas iniciais, leve como uma teia de aranha, a deslizar no chão de saibro da entrada. A brisa quente da manhã fazia-o dançar com folhas e ervas secas, numa fragrância de madressilva.




domingo, maio 26, 2013

o tempo deste amor que me morreu

Quando ele se foi embora, ela pensou vou chorar até esgotar todas as lágrimas, vou chorar até apagar a luz dos meus olhos, porque o dia se fez noite e a noite ficou eterna. Oh, que insanidade tamanha, disse-lhe a mãe, que ouviu os seus pensamentos, e lhe falou com a sabedoria das mães antigas, pois não sabes que a ferida de um grande amor só se cura com a ferida de um amor maior ainda? Que lágrimas, que cegueira, que noite, que nada. Solta os teus cabelos, solta os teus cuidados, solta o teu caminhar de gazela, e abre os braço para aquele rapaz tão belo que não tira os olhos de ti.

Oh, mãe, se eu curar a ferida de um amor tamanho com a ferida de um amor maior ainda, não mereço o dom de amar ninguém nem por ninguém ser amada. Deixa-me com as lágrimas da minha cegueira, deixa-me com o meu coração trespassado, e com a noite dos meus dias, porque só assim mantenho vivo, e a sangrar, este amor que me morreu.

E a mãe, com a sabedoria das mães muito antigas, não disse nada. Mas pensou:
Minha donzela afogada. Vive o adeus, vive a morte, vive a dor. Eu cá sei do tempo e do rapaz tão bonito que não tira os olhos de ti. O tempo cura tudo. O tempo seca tudo. Até o rio da dor. O tempo.
 

sexta-feira, março 08, 2013

Só de pensar nela



– Abre os braços – pediu ela.
Ele abriu os braços, subitamente consciente do corpo deitado junto do seu.
– Respira fundo – pediu ela. Tinha uma voz quente, rouca, e falava muito baixo.
Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador que o submergiu, e teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo. Havia uma espécie de ameaça, no ar. Nada que pudesse diminuir um átimo que fosse da intensidade do seu desejo pelo corpo que tocava no seu.
– Volta-te para mim – ordenou ela.
E ele voltou-se a tempo de ver, na escuridão, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis furando o negrume que os amortalhava.
– Agora cobre-me. Crucifica-me em ti – pediu ela, num gemido que o electrizou.
Ele rodou, e foi então que ele reconheceu a natureza da ameaça que se erguera contra os dois. Numa urgência agónica, ainda conseguiu sentir o calor húmido do beijo que o orvalhou de um prazer tão intenso que o seu sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Não pode, porém, permanecer junto dela. Perdeu-a no exacto momento em que a cobriu, sentindo, para seu infinito desgosto, a respiração dela na sua boca, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si.

Acordou com vontade de chorar e de rir. Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo. Há tantos anos feitos de dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se a tocar-lhe por prazer e com desejo, ter-lhe-ia parecido obsceno. Lentamente, dirigiu-se `janela e espreitou o dia que começara a nascer. 
«Obrigada», mumurou a boca quase encostada à vidraça que, imeditamente, ficou embaciada. Depois aclarou a garganta e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se voltaria a encontrá-la? 
Só de pensar nela, só de pensar nela.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Guerreiro, de que tens tanto medo?

Era alto, mais alto do que a maior parte dos homens, e estava, sempre, coberto de uma armadura que o protegia dos pés à cabeça. Aliás, tinha várias, consoante andava a pé ou a cavalo. Todas primorosamente executadas e belas, conjugando metais raros e couros de animais desconhecidos. Do rosto, apenas as pupilas se deixavam entrever. Desta forma, dele se podia dizer quase tudo. Que era loiro, moreno, novo ou adiantado em anos. Que nunca sorria, ou que o fazia com frequência. Que desconhecia o amor ou que, tendo-o conhecido, o perdera para sempre.

Ele era uma fonte viva de lendas múltiplas.

As mulheres suspiravam à sua passagem.

Os homens temiam-no e, secretamente, detestavam-no.

Mas ele parecia indiferente ao efeito que produzia à sua passagem e os seus soldados, armados, também eles, até aos dentes, tinham de ser ríspidos com as crianças que, a todo o custo, se queriam abeirar dele. Uma vez, uma menina tocou-lhe. Durante dias foi passeada pela aldeia em triunfo, obrigada a repetir até às lágrimas, até à náusea, até à exaustão, tudo o que se passara no brevíssimo espaço de tempo em que, furando por entre as pernas musculadas de uma dúzia de homens de armas, chegara até ao metal que protegia os pés do guerreiro. Então curvara-se e beijara o pó que embaciava a fivela da armadura, no ponto do tornozelo. A sua boca pequenina deixara ali uma marca em forma de coração.

Ela jurava que tinha sentido o guerreiro estremecer.

Depois, mãos brutais agarraram-na e ela foi jogada ao chão, para longe, caindo na estrada sem se magoar. Estava em êxtase e a queda pareceu-lhe um voo.

Apenas uma criança se mantinha à parte quando o guerreiro passava com a sua comitiva eriçada de lanças e espadas, protegida por grevas, escudos e elmos,  rumo ao castelo de fortes ameias no alto do monte fronteiro à aldeia.

Um dia, o guerreiro parou e fez um sinal a um dos seus guardas, que se aproximou do miúdo, e, pegando-lhe ao colo o levou até junto de si. Então, todas as crianças sustiveram a respiração, todas as mulheres levaram as mãos ao rosto, sustendo gritos e todos os homens se curvaram sentindo um gelo nas entranhas e um nó na garganta.

- Podes fazer uma pergunta ao Guerreiro. Uma só - disse o soldado, numa voz que parecia chegar do outro lado do mundo.

A criança estava calma. Era um menino de seis anos, o tonto da aldeia. A sua mãe, jovem e viúva, era profundamente só. As mulheres temiam a sua beleza, os homens temiam a intensidade do desejo que sentiam por ela. Além disso, tinha um filho que dizia coisas estranhas a propósito de nada, e olhava as pessoas como se as visse à transparência.

O soldado pôs o menino no chão. No silêncio total que se seguiu e que durou uma eternidade, todos retiveram a respiração até se ouvir a sua voz cristalina perguntar:

- Guerreiro, de que tens tu tanto medo?

 
 
 
«Shinto» cortesia de  Wikia