O chão está quente, as paredes estão quentes, o tampo das mesas e os braços das cadeiras estão quentes, as folhas dos livros de tão quentes amarelecem diante dos nosso olhar incrédulo e caiem no chão encarquilhadinhas sem força para segurar as letras que se evaporam no ar escaldante, e temos de tomar cuidado quando falamos porque as palavras tendem a sair aos turbilhões e todas ao mesmo tempo a pipocar umas contra as outras o que torna o discurso bastante incompreensível o que é irrelevante porque ninguém ouve nada para além do marulhar indiferenciado da maré baixa destes dias ensombrados de luz.
sexta-feira, julho 15, 2022
sexta-feira, junho 24, 2022
Ele queria saber que perfume eu usava

Há muito anos, a revista CARAS encomendou-me um Conto de Natal: eu teria total liberdade. Tomei demasiado à letra a amplitude dessa "liberdade" criativa e recordei, romantizando um bocado, um episódio dos tempos do jornalismo romântico quando se partia para a reportagem como quem vai para um safari sem utras armas que não as da palavra e da atenção plena, feita de cumplicidades e amor. Uma narrativa que, reconheço, é de uma inconveniência total para o meio de comunicação a que se destinava. Mas a editora e as chefias de redação da revista não comentaram, pelo que até foram muito delicadas. E felizmente enterraram este conto num suplemento publicitário, daqueles que ninguém lê porque são só para vermos as imagens. Sou-lhes muito grata pela subtileza.
Partilho o conto.
“DESTA
VEZ, LEVO EU O PERÚ”
CONTO
Ele queria saber que perfume eu usava. Eu disse, depende e não uso
perfumes, só águas-de-colónia. Às vezes, misturo. Não sejas chata, disse ele, dá-me
dois ou três nomes, é para um presente de Natal. Nessa época, era relativamente
fiel ao Miss Dior, ao Dioríssimo, e outro que não me lembro. E
a uma preciosidade, L'Interdit by
Givenchy, “o original, que a Audrey
Hepburn criou” como explicou o amigo que mo ofereceu, comissário de bordo da TAP.
Faltavam três dias para a festa da família e ele não tinha nenhuma. Tinha
várias ex-mulheres e uma porção de filhos. Carlos Alfredo. Grande coração. Na
época, os jornais eram muito românticos e ser repórter implicava meter as mãos
no sangue e nas tripas do mundo. Ele era dessa tribo. A 24 de Dezembro, quando
toda a gente se preparava para voltar para casa mais cedo, ele e uns quantos
náufragos de famílias à deriva, ofereciam-se para as reportagens temáticas. O
Natal na prisão. Nas urgências de um hospital. A Consoada na Sopa dos Pobres. Coisas
assim. Três anos antes, tinha ido para o Linhó e até ficou amigo de um recluso.
No ano seguinte, já com este em liberdade, acompanhou-o na sua qualidade de
ladrão, produzindo uma emocionante reportagem que lhe ia custando a liberdade. O
outro convencera-o a ficar à porta, “a controlar”, enquanto esvaziava o frigorífico
de uns ricaços do Restelo que tinham ido passar a quadra ao Rio de Janeiro. “Assobias
se houver crise. É rápido. Bifes, marisco, vinho, guloseimas para os putos.” O
pior é que, agarradas aos comes e bebes, tinham vindo pulseiras, anéis,
relógios, colares, no valor de uma pipa de massa. Carlos Alfredo defendeu o
segredo profissional com unhas e dentes, mas acabou indiciado como cúmplice.
Salvou-o a boa vontade do ladrão, que devolveu as jóias.
Este ano, pensara noutra temática: “Vou consoar com uma mulher da vida.
Levo peru, rabanadas, fruta cristalizada, espumante. Até lhe comprei um
presente. Uma água-de-colónia.” O chefe de redação encolheu os ombros:
⸺ Pagas do teu. E vê lá se não levas uma coça por conta. Parece-me tão… esquisito.
Na edição de 26 de Dezembro, porém, a reportagem dele não constava. Dia
27, quando voltei ao jornal, soube que tinha metido folgas atrasadas e que não devia
aparecer antes do fim do ano. Ao almoço, um camarada de redacção ⸺ nunca se
dizia “colegas”, porque “colegas são as putas”⸺ contou a história. Tinha-o
encontrado, nessa desolada madrugada. A mulher da vida recrutada no Intendente,
começou por fazer uma cena. Depois lá foi com ele para uma pensão, mas sempre a
resmungar, “filho, tu tens uma tara qualquer”.
Ele tratou de tudo. Abriu a garrafa, juntou as mesinhas de cabeceira e
cobriu-as com uma toalha. Até levava velas: “Vai daí, ela desatou a beber e… apagou”. Rimos muito. E ele sem aparecer.
Dia 30, uma rapariga foi ao jornal, à sua procura. Cara angulosa, pele branca e
desmaiada, casaco pelo de coelho, saia comprida, roxa, botas cambadas. Olhos de
quem tem 527 anos. Atendia-a eu. “Família?”, perguntei. Ele tinha tantas
ex-famílias…
⸺ Amiga – respondeu ela. E acrescentou: ⸺ quer-se dizer.
Abreviando, era a tal da
consoada:
⸺ Um homem tão bom. Tão delicado, poças. Deu-me um perfume. Deixou um
monte de dinheiro. E eu, em jejum. Dois copitos e faz de conta que é o meu
homem, faz de conta que somos uma família. Mais um copo. Tudo tão porreirinho, coiso
e tal. Faz de conta. Tirei os sapatos, doíam-me os pés…
Calou-se, o rosto subitamente cor-de-rosa, olhos aflitos e envergonhados.
Depois acrescentou:
⸺ Lixei-lhe o trabalho, não foi? ⸺ Estendeu-me a mão, com um papel:⸺ O
meu número de telefone. Ele que apareça no Ano Novo. Conto-lhe a vida toda. Até
pode escrever um livro!
Acompanhei-a à escada. Começou a descer, depois virou a cara para cima.
Sorriu, era quase jovem e inocente outra vez:
⸺– Desta vez, levo eu o peru.
sábado, junho 18, 2022
Quem sabe se e quando voltaria a encontrá-la? (conto)
domingo, janeiro 23, 2022
O Tempo
Quando o belo rapaz se foi embora, a bela menina decidiu vou chorar até esgotar todas as lágrimas, vou chorar até apagar a luz dos meus olhos, porque o dia se fez noite e a noite ficou eterna. Oh, que insanidade tamanha, disse-lhe a mãe, que lhe escutou os pensamentos. Pois não sabes que a ferida de um grande amor só se cura com a ferida de um amor maior ainda? Que lágrimas, que cegueira, que noite, que nada. Solta os teus cabelos, larga a os teus cuidados, e seca mas é os teus olhos para conseguires ver aquele outro rapaz tão belo que não tira os olhos de ti.
Oh, mãe, se eu curar a ferida de um amor tamanho com a ferida de um amor ainda maior, não mereço o dom de amar ninguém, nem por ninguém ser amada. Deixa-me com as lágrimas da minha cegueira, o meu coração trespassado e a noite dos meus dias, porque só assim mantenho vivo, e a sangrar, este amor que me morreu.
A mãe, com a sabedoria das mães muito antigas, não disse mais nada. Mas pensou: minha donzela afogada vive o adeus e a dor dessa morte, que eu cá sei muito bem da vida e do tempo, e vejo muito bem aquele outro rapaz tão bonito que não tira os olhos de ti. O tempo cura tudo. O tempo seca tudo. Até o rio da dor.
O tempo.
M. G. em Contos da Lua Vaga (a publicar)
domingo, fevereiro 02, 2014
O combóio fantasma
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| «Se as sepulturas e os cemitérios vomitam os que nós enterrámos, os monumentos são verdadeiros estômagos de milhafre.» Macbeth, acto 3, William Shakespeare [foto Nelson Favas] |
domingo, maio 26, 2013
o tempo deste amor que me morreu
Oh, mãe, se eu curar a ferida de um amor tamanho com a ferida de um amor maior ainda, não mereço o dom de amar ninguém nem por ninguém ser amada. Deixa-me com as lágrimas da minha cegueira, deixa-me com o meu coração trespassado, e com a noite dos meus dias, porque só assim mantenho vivo, e a sangrar, este amor que me morreu.
E a mãe, com a sabedoria das mães muito antigas, não disse nada. Mas pensou:
Minha donzela afogada. Vive o adeus, vive a morte, vive a dor. Eu cá sei do tempo e do rapaz tão bonito que não tira os olhos de ti. O tempo cura tudo. O tempo seca tudo. Até o rio da dor. O tempo.
sexta-feira, março 08, 2013
Só de pensar nela
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Guerreiro, de que tens tanto medo?
Ele era uma fonte viva de lendas múltiplas.
As mulheres suspiravam à sua passagem.
Os homens temiam-no e, secretamente, detestavam-no.
Mas ele parecia indiferente ao efeito que produzia à sua passagem e os seus soldados, armados, também eles, até aos dentes, tinham de ser ríspidos com as crianças que, a todo o custo, se queriam abeirar dele. Uma vez, uma menina tocou-lhe. Durante dias foi passeada pela aldeia em triunfo, obrigada a repetir até às lágrimas, até à náusea, até à exaustão, tudo o que se passara no brevíssimo espaço de tempo em que, furando por entre as pernas musculadas de uma dúzia de homens de armas, chegara até ao metal que protegia os pés do guerreiro. Então curvara-se e beijara o pó que embaciava a fivela da armadura, no ponto do tornozelo. A sua boca pequenina deixara ali uma marca em forma de coração.
Ela jurava que tinha sentido o guerreiro estremecer.
Depois, mãos brutais agarraram-na e ela foi jogada ao chão, para longe, caindo na estrada sem se magoar. Estava em êxtase e a queda pareceu-lhe um voo.
Apenas uma criança se mantinha à parte quando o guerreiro passava com a sua comitiva eriçada de lanças e espadas, protegida por grevas, escudos e elmos, rumo ao castelo de fortes ameias no alto do monte fronteiro à aldeia.
Um dia, o guerreiro parou e fez um sinal a um dos seus guardas, que se aproximou do miúdo, e, pegando-lhe ao colo o levou até junto de si. Então, todas as crianças sustiveram a respiração, todas as mulheres levaram as mãos ao rosto, sustendo gritos e todos os homens se curvaram sentindo um gelo nas entranhas e um nó na garganta.
- Podes fazer uma pergunta ao Guerreiro. Uma só - disse o soldado, numa voz que parecia chegar do outro lado do mundo.
A criança estava calma. Era um menino de seis anos, o tonto da aldeia. A sua mãe, jovem e viúva, era profundamente só. As mulheres temiam a sua beleza, os homens temiam a intensidade do desejo que sentiam por ela. Além disso, tinha um filho que dizia coisas estranhas a propósito de nada, e olhava as pessoas como se as visse à transparência.
O soldado pôs o menino no chão. No silêncio total que se seguiu e que durou uma eternidade, todos retiveram a respiração até se ouvir a sua voz cristalina perguntar:
- Guerreiro, de que tens tu tanto medo?



