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domingo, junho 26, 2022

DO PEQUENO-ALMOÇO AO MATABICHO

    Mata-bicho foi a primeira palavra colonial que se introduziu no nosso léxico, ainda antes de chegarmos ao nosso destino, Moçambique. Creio que foi antes mesmo do navio Império ancorar na Ilha da Madeira, onde permanecemos um dia, já conhecíamos a designação. O nome pouco elegante, mesmo rude, não fazia justiça ao banquete com que passámos a ser mimados logo de manhã cedo. Santo Deus, que banquete!! 


No paquete Império o matabicho era maravilhoso 


    Até então, e para nós, a primeira refeição do dia chamava-se pequeno-almoço e não tinha estória. Antes de irmos para a escola, comíamos um ou dois papo-secos com manteiga ou marmelada, ou outra compota ou geleia caseira da estação, acompanhados de uma caneca de leite. Para mim, só café de cevada, porque leite dava-me vómitos desde muito pequena, embora todos nós tenhamos sido criados dessa maneira. A mãe teve um péssimo parto do primeiro filho, com intervenção in extremis (uma cesariana complicadíssima). Aí, secou-lhe o peito. Dos outros três filhos, fosse porque motivo fosse, nenhum de nós mamou. O nosso pediatra, o querido doutor Corucho Dias, aconselhou encontrar-se numa das quintas perto de onde vivíamos, e o Porto tinha muitas nessa altura, uma vaca "de confiança", e acertar-se com os caseiros a entrega diária, em casa, desse mesmo leite que era então fervido e misturado, uma parte para quatro de água, igualmente fervida. Também havia leite em pó, mas não era considerado de "confiança". Portanto, fomos criados a biberon de que naturalmente não tenho qualquer recordação, a não ser o que a mãe contava sobre eu vomitar frequentemente aquela mistura.  Do pequeno-almoço metropolitano recordo, issosim, a caneca de café de cevada e os tais pães com compota, marmelada ou geleia. Mais tarde, apareceram os "iogurtes Veneza, a saúde à sua mesa” em boiões de vidro e eu adorava-os fazendo assim as pazes com os lacticínios.

    Mas no paquete Império, o pequeno-almoço/matabicho tinha tudo isso e mais ainda. Era servido às mesas, mas também havia, se a memória não me falha, buffet, pelo menos para irmos ver e escolher. Nos primeiros dias, comíamos tanto que achávamos que não íamos conseguir almoçar. Puro engano. Então, era assim: “como desejam os ovos? Estrelados, mexidos ou cozidos?” Ovos? Ena. Podem vir de todas as maneiras! "E o sumo, ananás, laranja, maçã, (e não recordo mais), qual é a preferência?" Sentados, víamos surgirem na nossa mesa pratinhos com fiambre em fatias muito fininhas, queijos de várias qualidades,  fatiados ou cortados em cubos, taças com saladas de frutas, ou só de uma espécie, à escolha, entre ananás, banana, manga, papaia, maracujá, maçã, pera, laranja… Em cestinhos de verga, traziam-nos pães de leite, carcaças, pão de forma, e torradas se as pedíssemos. E  petit-fours, que são bolos minúsculos. No serviço timbrado do paquete, vinha o café com leite, leite com chocolate, leite sem mais nada, e café simples. Do tal buffet podíamos escolher mais bolos, pasteis... em suma, uma overdose de gulodices, já a maior parte destes alimentos só em dias de festa (e nunca nesta diversidade) faziam a sua aparição nas nossas vidinhas. Por exemplo, fiambre era muito caro, portanto só de vez em quando. Ananás, era caríssimo e só em dias de festa, tipo Natal. Bolos, tirando os aniversários, e as festividades como Carnaval, Páscoa, etc., porque fazem mal aos dentes e não há dinheiro para se gastarem tantos ovos todos os dias por um motivo tão fútil. Mas ali não havia limites e a mãe, sensatamente, deixava-nos comer o que nos apetecesse, na certeza de uma dor de barriga seria o melhor argumento para nos travar a gulodice, confiando também no metabolismo de quatro miúdos saudáveis que saíam do salão das refeições pelas das oito da manhã e iam brincar, saltar, correr pelos decks até ao momento, duas horas depois, em que, com a digestão assegurada, já se podiam atirar para a piscina.

    E o lindo paquete a navegar pelo Oceano sem fim…

    Como é evidente, a situação normalizou e passámos a ter menos olhos e mais barriga. Curiosamente, a mãe continuou fiel aos hábitos da Metrópole, deliciando-se com o seu pãozinho com manteiga e o seu adorado (até ao fim), cafezinho com leite. E mais nada a seduzia na sua primeira refeição. Como era possível?   

        Em Moçambique, em Vila Cabral no remoto Niassa, nosso primeiro “poiso”, vivemos na Pousada durante quase dois anos. Na atual Lichinga, elevada a cidade dois anos antes de chegarmos, com direito a aeroporto inaugurado pelo senhor Presidente da República Américo Tomás um ano depois, não havia casas para arrendar. As que havia estavam tomadas. Havias pensões e... a  Pousada, epicentro da vida social. Mas ali, onde o senhor Governador do Niassa ia todos os dias, depois do almoço, tomar o seu café, as refeições eram desinteressantes. Menos no dia de frango à piripiri que era muito saboroso. Da Pousada recordo mais o clima de festa, os eventos, e a amizade e cumplicidade que se geraram entre as pessoas que ali viviam em carácter permanente e alguma das famílias notáveis da cidade que marcavam presença nas festas – bailes de Carnaval, baile de Ano Novo, e bailes por outras efemérides que já não recordo, com orquestra ao vivo . E os jovens militares que apareciam para tomar o seu uisquinho, dançar nos bailes, e para o ameno convivio no salão, todos os fins de tarde. 

    Há outras memórias, onde entram mortos, minas, tiros, dores, desgostos. Não são para aqui chamados, já que o tema é matabicho.

 

Vila Cabral, actual Lichinga foi elevada a cidade em 1962. Um ano depois de ali estarmos, em 1964, Presidente da República Almirante Américo Tomaz foi inaugurar o aeroporto. Tirando isso, não havia casas para ninguém. Construção civil era inexistente. Vivemos na Pousada durante quase dois anos...

    Já o matabicho da Pousada de Vila Cabral, actual Lichinga, que servia ovos, carnes frias, fruta e pão, café e leite, não deixa memória. A fruta, acrescente-se, era quase sempre de conserva. A princípio, achávamos delicioso, depois cansava. Ananás em calda, pêssegos em calda, salada de fruta em calda, pera em calda… O leite era condensado, e essa foi uma descoberta maravilhosa porque era tão bom que dava para comer às colheres. Claro que já vinha diluído, o que lhe tirava 90 por cento da graça, portanto continuei na cevada.

 

Eu, numa sala de aula do colégio Barroso. 
Lourenço Marques (actual Maputo) 1964/1965


Grupo das alunas internas Colégio Barroso. Das sentadas, sou a primeira à esquerda. Ao centro, a Directora, Irmã Maria Luísa Créditos da imagem: Teresa Branco em
https://www.facebook.com/barrosinhas.daapresentacaomariamocambique

    Um ano depois, entrei como aluna interna no colégio Dom António Barroso, mas antes disso, há que recordar o casal Manuela e Sérgio Zilhão, este comandante da Base Naval de Metangula, Lago Niassa, onde, segundo o próprio me contou recentemente, nem havia forno de pão quando ali chegou, pelo que o jovem comandante mandou vir um livro técnico e fez construir o forno que tanta falta fazia. Dali saíam vários tipos de pão que abasteciam toda a Base. Eram estaladiços e deliciosos. Também me lembro das mangas (fibrosas) fatiadas e docíssimas que chegavam de um mangal próximo, e dos bolos que a própria Nela fazia ou que eram feitos segundo a sua orientação. Falo mais dos tempos que ali passei no meu livro Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, mas aqui restringo-me aos matabicho. 

    Também me lembro que nas casas dos Chefes de Posto (mais tarde chamados Administrador de Posto) uma espécie de guarda avançada do Império, onde quase toda a gente, menos nós, se levantava ainda o sol dormia, havia dois matabicho. O primeiro, compunha-se de café fortíssimo e qualquer coisa para trincar, normalmente biscoitos mesmo duros. Mais tarde, por volta das sete, sete e meia, quando o senhor administrador regressava das suas voltas matutinas, a mesa de refeições enchia-se com travessas de batatas fritas, bifes (de pacaça ou javali), ovos mexidos, pão também feito em casa em fornos que laboravam no quintal, bolos, doces, e fruta. Pantagruélico! Era tudo tanto, que chegava a tirar o apetite.

 

"Saltávamos da cama, íamos direitas aos lavatórios (cada leito tinha o seu) lavávamos a cara e os dentes, voltávamos para a cama (o nosso banho diário era à tarde), corríamos as cortinas para nos vestirmos com a maior decência, voltávamos a abri-las, vestíamo-nos, fazíamos a cama..." em colégio D. António Barroso, 1964.

    

       É curioso que a memória dos sóbrios matabicho do colégio D. António Barroso se tenham imposto com tanta intensidade. Porque eram muito mais frugais do que os que descrevo acima. Começava-se com fruta. Metades de toranja enormes e avermelhadas, que devorávamos com muito prazer. Depois, as proteínas: duas sardinhas de conserva alinhadinhas ao centro de um prato branco, grande. Era o que eu mais gostava. Acompanhava-se com pão, manteiga se quiséssemos. Creio que o pão era também feito no colégio, bem como as compotas e as geleias e comíamos tantos quantos nos apetecesse. Normalmente, um, excepcionalmente dois. Noutros dias, bifes finíssimos. Noutros, ovos mexidos. Nada de batatas fritas ou fatias de bolo. E sempre, café de cevada para mim, café com leite para todas as outras. Era tudo tão bom, tão na justa medida, e nós estávamos tão esfomeadas àquela hora, que todas as internas recordam prazerosamente esta primeira refeição que tomávamos, devorávamos!, às oito da manhã. A verdade é que saímos da cama às 6.15h, ao toque de sineta e do arrastar dos cortinados que tapavam as janelas dos nosso dormitório que tinha um grande pé direito. Saltávamos da cama, íamos direitas aos lavatórios (cada leito tinha o seu), lavávamos a cara e os dentes, voltávamos para o espaço da cama (o nosso banho diário era à tarde), corríamos as cortinas para nos vestirmos com a maior decência, voltávamos a abri-las, fazíamos a cama e em 15 minutos estávamos a caminho da sala de estudos. Aí, estudávamos até às 7.30h, quando seguimos, também em fila e em silêncio, para a igreja do colégio. Após a missa, íamos, sempre em muito boa formação, tomar o nosso matabicho. Talvez estes ritmos e pausas, e mudanças, nos fizessem apreciar ainda mais aquela refeição. Para mim, era a preferida. Tirando o lanche, mas esse já não vem ao caso.

Para mais memórias: Moçambique para a Mãe se lembrar como foi:  https://www.wook.pt/livro/mocambique-para-a-mae-se-lembrar-como-foi-manuela-gonzaga/15678522

sábado, junho 18, 2022

Quem sabe se e quando voltaria a encontrá-la? (conto)


https://revistaoresteia.com/2022/01/18/2579/

 SÓ DE PENSAR NELA


— Volta-te para mim — pediu ela.
Ele girou na cama, tomando consciência do colchão duro, dos lençóis leves, do corpo pesado, o seu, subitamente desperto e consciente do outro corpo ao seu lado.
— Abraça-me — pediu ela.
Tinha uma voz rouca e falava muito baixo. Cheirava a animal marinho. Tinha uma pele suave e um corpo denso. Era grande. Era quase tão grande como ele.
— Quero a tua boca — pediu ela.
Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador, tão inesperado que teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo a espaços fatiado pela claridade incerta de uma luz leitosa. De onde vinha? Aparentemente do exterior, por uma janela que não se deixava ver. O silêncio que os rodeava era quase total. Não se ouviam ruídos de tráfego, barulho de gente, zumbidos de máquinas. Nada. Só um profundo silêncio habitado pela respiração dos dois e pelo triunfante rufar de tambores do seu próprio coração. E por um cheiro amoniacal e doce onde ele encontrou a memória muito antiga de algas meio secas na preia-mar, à mistura com peixes esventrados por bicos de gaivotas famintas, e bagas de iodo a rebentar sob os seus dedos infantis. Há quanto tempo não sorvia aquele perfume?
A boca dela colou-se à sua e a sensação de felicidade tornou-se tão grande que ele sentiu medo. Medo do próprio desejo acordado? Ou da silenciosa e estranha sugestão de ameaça que pairava sobre ambos, como se perigo se ocultasse nas sombras? Respirou fundo. Perigo algum conseguiria diminuir um átimo que fosse da intensidade do desejo acordado pela presença do corpo quente, macio e duro, deliciosamente nu, colado ao seu.
— Volta-te mais para mim — ordenou ela.
E ele voltou-se a tempo de ver, nas tréguas breves da luz que cortava a mortalha da escuridão que os envolvia, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis no rosto que lhe parecia moreno, de uma beleza sem idade. Ela cheirava, também, a canela.
— Cobre-me — exigiu, numa urgência agónica. E ele pensou que a voz dela lhe fazia lembrar o último sopro de um animal degolado.
E foi então, ao cobri-la, que reconheceu a natureza da ameaça que se erguia contra os dois. Num desespero, ainda sentiu o calor molhado do beijo que trocaram e que o orvalhou de um prazer tão intenso que aquele sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Mas mal conseguiu penetrá-la e muito menos permanecer no corpo que se lhe oferecia. Nesse exacto momento sentiu, num desgosto infinito, que a respiração da mulher, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si, a escura, a escaldante boca, a flor de carne que se abria a acolher por brevíssimos momentos a sua serpente triunfantemente intumescida, tudo se desfazia como uma miragem.
Acordou com uma vontade tremenda de chorar e de rir.
Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo, numa cumplicidade feita mais de silêncios do que de palavras, há tantos anos talhados em dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se sequer a tocar-lhe por prazer e com desejo, mesmo em sonhos, lhe teria parecido obsceno.
Lentamente, dirigiu-se à janela e espreitou o dia que começava a nascer. «Obrigada», murmurou, a boca quase encostada à vidraça que de imediato ficou embaciada. Depois aclarou a garganta que doía e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se e quando voltaria a encontrá-la?
Só de pensar nela, só de pensar nela.
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https://revistaoresteia.com/2022/01/18/2579/

*

terça-feira, maio 31, 2022

Maria Adelaide Coelho a "louca" mais lúcida da nossa história Contemporânea

 "Qualquer historiador (e eu sou) tem sempre uma ponta de receio quando começa a pesquisar os seus biografados. E se for tudo mentira? E se tudo não passasse de uma farsa bem montada? Que coerência, que inteligência, esperar dos envolvidos neste duelo? E os médicos estariam realmente de boa-fé, ou e à partida, por afinidades de casta, de classe, de sexo até, decidiram antecipadamente que o desfecho, fosse qual fosse a direção do processo, teria de ser favorável ao amigo e companheiro de causas, dr. Alfredo da Cunha? Haveria mesmo uma história de amor entre ambos, Adelaide e Manuel, ou um deles estaria a aproveitar-se do outro?"

Partilho um artigo meu publicado no Jornal Expresso a 16 de Setembro de 2020

Ricos, famosos, cultos, a viverem num palácio. Mãe, pai, filho. Apontados como a família perfeita... 

Já vai na 7º edição

Manuel Cardoso Claro

Uma, entre muitas conferências. Esta na Universidade Lusófona onde a biografia é curricular nos mestrados de Psicologia

Durante o lançamento da obra no Palácio de São Vicente, que me abriu as portas durante largos meses que durou a investigação

A biografia de Maria Adelaide que escrevi com o título de ‘Doida não e não!’ Maria Adelaide Coelho da Cunha foi lançada pela Bertrand em 2009 e relançada em 2018. Fez sucessivas edições. Foi apresentada no Palácio de São Vicente pelo Professor Fernando Rosas na presença de muita gente, e até de descendentes e amigos do casal Manuel Claro e Maria Adelaide (sobrinhos, netos e bisnetos) que só então se conheceram e só então puderam completar o puzzle das esfarrapadas e incompletíssimas estórias de família que cada um ouvira ao longo da vida. Foi comovedor. A imprensa acolheu com muito entusiasmo a história de Maria Adelaide e Manuel Claro. Tive três convites (nestes doze anos) de realizadores que a quiseram levar ao grande ecrã e também à televisão. Nunca conseguiram apoios. No último concurso passámos duas etapas, mas… havia outra proposta que ganhou, com a assinatura de Mário Barroso e o suporte do grande produtor Paulo Branco. Parabéns. Ordem Moral é pura ficção e saudemo-la enquanto tal. Baseia-se numa outra ficção, Doidos e Amantes, romance de Augustina Bessa Luís lançado em 2005. Neste registo, quer por parte da escritora, quer na versão do realizador Mário Barroso, não existe um casal de amantes apaixonados pois Manuel é um bissexual frágil com uma dívida de gratidão à antiga patroa (a quem trata sempre ‘minha senhora’), e Adelaide é uma mulher revoltada que quer vingar-se do marido. Liga-os a amizade e o hábito da estima.

O meu processo de escrita da biografia Maria Adelaide Coelho da Cunha: ‘Doida não e não!’ (Bertrand) foi longo, moroso e exultante. Entre 2007 e 2009 quando o livro foi lançado no mesmo palácio de onde Maria Adelaide fugira quase cem anos antes, tive acesso a relatórios médicos detalhados, processos policiais, registos de tribunal, actas, bilhetinhos, cartas, diários, fotografias, livros publicados na época, assinados por psiquiatras, advogados, jornalistas, gente directa ou indirectamente envolvida na trama. Passei muitas semanas a consultar jornais, sobretudo A Capital e o Diário de Notícias de 1919 a 1923. Cruzei informações. Recolhi testemunhos orais, pois conheci pessoas que ainda chegaram a conhecer Maria Adelaide depois dela ter saído do Hospital Conde de Ferreira. Visitei os locais onde tudo isto se desenrolou. E, passei meses e meses na biblioteca da Senhora de São Vicente a ler e anotar de fio a pavio a documentação encontrada no fundo falso de uma escrivaninha. Eram as peças que Alfredo da Cunha coligira, para montar a teia da sua defesa e do seu ataque. Tudo, e por iniciativa dos novos donos, devidamente catalogado e arrumado em pastas. Centenas de documentos. Muitos milhares de páginas. Fascinante.

Qualquer historiador (e eu sou) tem sempre uma ponta de receio quando começa a pesquisar os seus biografados. E se for tudo mentira? E se tudo não passasse de uma farsa bem montada? Que coerência, que inteligência, esperar dos envolvidos neste duelo? E os médicos estariam realmente de boa-fé, ou e à partida, por afinidades de casta, de classe, de sexo até, decidiram antecipadamente que o desfecho, fosse qual fosse a direção do processo, teria de ser favorável ao amigo e companheiro de causas, dr. Alfredo da Cunha? Haveria mesmo uma história de amor entre ambos, Adelaide e Manuel, ou um deles estaria a aproveitar-se do outro?

Li Doidos e Amantes (2005) da escritora Augustina Bessa Luís, obra dedicada à sua amiga Maria Marcelina de Matos, bisneta de Júlio de Matos (um dos psiquiatras que mais mal visto sai de toda esta trama). No seu romance a história de amor é completamente desvalorizada. A confirmá-lo a escritora numa grande entrevista a Fátima Vieira («Uma intriga tenebrosa», Pública, 29/01/2006:51-57) negou com toda a veemência a hipótese de que entre Maria Adelaide e Manuel Claro tivesse existido uma paixão. Para ela o que havia era «um episódio de fuga». Maria Adelaide poderia estar «enamorada de uma mulher», apontando a sua ligação com figuras assumidamente lésbicas, nomeadamente a uma redactora d’A CapitalQuanto ao Manuel Claro, que Bessa Luís não acredita ter sido o companheiro da vida de Adelaide, viria a ser apenas «um acompanhante fiel e dedicado, grato à patroa que lhe serviu de enfermeira». Afinal, o motorista que «só se preocupava em ter sapatos bonitos», poderia ser «ou um consumado patife, ou um solitário, possivelmente um homossexual que encontra em Maria Adelaide a figura da mãe sonhada»». Quanto à fuga do Palácio, a escritora defende que Adelaide teria tentado escapar a uma espécie de claustrofobia social, não descartando a possibilidade de «haver uma paixão proibida, um perigo qualquer...».

Quando dei por mim, tinha entrado pela vida daquelas pessoas: Maria Adelaide, Alfredo da Cunha, Manuel Claro, José da Cunha… e os repectivos afins. Avassalador. Tornei-me mais do que testemunha, vivenciei, procurando manter sempre a imparcialidade. Eu não queria julgar ninguém. Eu queria saber como é que tudo se tinha passado, e porquê. Com todo o rigor que um labor historiográfico exige. E, como tal, prossegui um trabalho de ‘garimpo’ que foi, como é sempre, bastante árido e muitíssimo minucioso. Amarrando a imaginação que, aqui, só me poderia estorvar. Mas encontrando verdadeiros tesouros. Fulgores. Manipulações da verdade. Revelações.

Nesta mesma entrevista, Augustina duvida, em grande medida, que as cartas publicadas no jornal A Capital e assinadas por Adelaide Coelho, fossem da sua autoria. Ou a sê-lo, só parcialmente, motivo pelo qual «o texto está cheio de vulgaridades como se fizessem parte duma linguagem doméstica, adquirida com as empregadas da casa.» É que ela – Maria Adelaide – «sentia-se bem na sua vida laboriosa e sem pretensões, fazendo as camas e subindo as bainhas dos vestidos» e era, «sobretudo, uma boa criada». Finalmente, conclui: «Se assentarmos no facto de que Maria Adelaide era medíocre, entramos num terreno menos espinhoso do que se tivéssemos de a achar interessante. O marido há muito que se tinha apercebido da vulgaridade da sua mulher.» Até porque, conclui a escritora, em matéria de cultura «era uma figura decorativa».

Estas afirmações de Bessa Luís provocam a reação indignadíssima de duas senhoras que tinham conhecido e privado longamente com Maria Adelaide Coelho da Cunha e Manuel Cardoso Claro. De imediato, Maria Manuela Delgado de Oliveira e Maria Elisa Seara Cardoso Perez escreveram para o mesmo jornal, e os seus extensos contraditórios foram publicados na íntegra na revista Pública a 19 de Março de 2006. Nunca foram minimamente desmentidos. Dois anos mais tarde, tendo conhecimento que eu estava a escrever sobre Maria Adelaide e Manuel Claro disponibilizaram-se a partilhar comigo tudo o que sabiam sobre uma história que já começara a ‘garimpar’.

Em 11 de fevereiro de 2008, eu estava no Porto a escutar Maria Manuela Delgado, uma referência no panorama da arqueologia portuguesa, cujo nome está ligado a projectos tão emblemáticos como Conímbriga. A arqueóloga, que ainda não era nascida quando Adelaide saiu do manicómio, conheceu-a desde que nasceu, já que foi em casa dos seus avós que ela esteve escondida. O advogado Bernardo Lucas pedira à sua avó se ela «se importava de receber esta senhora na sua casa por três ou quatro dias». A senhora acedeu sem uma hesitação sequer. «Não foram quatro dias, foram os quatro anos em que o Manuel esteve preso. Quando ele saiu da Cadeia da Relação, Maria Adelaide saiu com ele. E foram viver juntos» revelou-me Manuela Delgado.

Na descrição da arqueóloga, «Maria Adelaide era uma senhora sempre interessante, tinha um encanto todo interior e uma enorme cumplicidade com o Manuel. A história deles é excepcional. Estiveram juntos até ao fim. Ele era um homem culto, muito bonito e muito respeitado entre os seus colegas». E as cartas, para A Capital? «Era o meu pai, que na altura tinha 17 anos e andava no Conservatório de Música, que as punha no correio!» contou-me ainda Manuela Delgado que tratava Maria Adelaide por Lalá e a considerava como tia, acrescentando: «Vou-lhe contar um segredo. A família, que não tinha desistido de a voltar a internar no manicómio, nunca soube do seu paradeiro. E ela, para não ser descoberta, ia disfarçada de lavadeira visitar o Manuel, durante os quatro anos em que ele esteve preso. Punha uma saia rodada, uma rodilha onde assentava a trouxa na cabeça, uns panos brancos, grandes, dobrados em quatro e atados em nós, onde estava a roupa, e ia e vinha da cadeia. Nunca desconfiaram dela. Mas eu nunca pude antes contar uma coisa dessas como lhe estou a contar agora a si.»

A outra senhora que reagiu indignada às entrevistas e ao livro de Augustina, foi Maria Elisa Seara Cardoso Perez que era filha de Paulina e Fortunato Seara Cardoso, proprietário e diretor do Comércio do Porto. Veio a conhecer Maria Adelaide no Inverno de 1942, em casa dos pais, na rua da Alegria, Porto, onde esta se reencontrou com o filho, José Coelho da Cunha, 24 anos após a sua saída do Palácio de S. Vicente, em Lisboa. Maria Elisa, à época com 15 anos, viu, da janela da cave, aquela senhora pequenina, de cabelo todo branco, mas muito direita e com uma dignidade tocante, avançar ao encontro do filho que não via há tanto tempo, posto o que ambos se encerraram no salão da casa, onde estiveram uma tarde inteira à porta fechada. «Maria Paulina, minha mãe, tinha uma grande consideração e estima por Maria Adelaide de quem se tornou amiga e com quem tinha muitas e longas conversas.»

Mas entre aquele estranho casal… seria amor? Maria Elisa Perez respondeu-me: «Sem a menor dúvida. Maria Adelaide contou à minha mãe que encontrou no Manuel Claro o carinho e o respeito que o seu marido, Alfredo da Cunha, nunca lhe dera.» Estes e outros testemunhos e todos os factos que recolhi provaram-me que, embora na curva descendente da idade, Maria Adelaide continuou a ser uma mulher reconhecidamente encantadora e sedutora sem esforço. Era culta, e teve educação primorosa. As cartas da professora dela e dos irmãos enaltecem a sua inteligência. E o Manuel, para além de ter sido um homem muito atraente (as fotografias provam-no e os testemunhos confirmam-no) era inteligente, sensível, culto – nunca deixou de ler e era amigo pessoal de Raul Rego -- e amou indubitavelmente esta mulher a quem se dedicou para o resto da vida. Não há o menor indício que aluda à sua imaginada homossexualidade e muito menos à sua pretensa fragilidade. O Manuel era um homem forte e de fortes convicções.

Por fim, aos 74 anos, Adelaide viu-lhe ser retirado o rótulo de louca-lúcida. Há muito tempo, porém, que deixara de ter o poder policial à perna. Com o Manuel, conseguiu refazer uma vida com muita dignidade e até algum desafogo. Junto do seu antigo motorista, Maria Adelaide encontrou a ternura e o afecto que o marido nunca lhe soube dar, segundo testemunho de quem os conheceu de perto. Amou-o até à morte. Mais novo, o companheiro sobreviveu-lhe quinze anos. Nunca casou. Nas palavras de quem os conheceu de perto, «Maria Adelaide foi o amor da vida dele».

Aos 74 anos, já livre do rótulo tremendo de "louca". 

Suportada por toda uma investigação de fundo, a minha biografia de Maria Adelaide, que é posterior à ficção de Agustina, revela uma história como raramente encontramos. É improvável e tem tudo para correr mal. Mas aquele era um grande amor de gente grande que enfrentou e resistiu a todos os ordálios com uma imensa dignidade, num registo onde a realidade ultrapassa largamente a ficção. Depois do que publiquei sobre a vida de Maria Adelaide e de Manuel Claro, o filme Ordem Moral, embora se trate de uma ficção, ignora perigosamente algumas evidências entretanto reveladas. Torna-se assim um arriscado exercício de negação dos valores que estas pessoas defenderam, com um custo demasiado elevado para serem obrigadas a continuar a pagar juros indevidos

Sublinho, a finalizar, que não deixa de ser muito curioso o autêntico volte face que, na época e através da sua defesa literária, Maria Adelaide conseguiu produzir suscitando o favor do público, numa altura em que não era invulgar, nem sequer mal visto, que um marido lavasse a honra com sangue. Por fim, já só no círculo muito restrito de amigos do casal, e dos médicos que a tinham dado por louca, persistia a ideia de que ela enlouquecera. Mesmo das fileiras da própria ciência, e até, da jurisprudência, junto da esmagadora maioria dos que não estavam directamente envolvidos no caso, já não havia dúvidas de que a psiquiatria, que promovera tantos benefícios em prol da saúde mental das populações, conquistara aqui uma desonrosa, e desnecessária, referência. Em carta a Alfredo da Cunha, de 18 de Agosto de 1920, o senador Júlio Ribeiro da Silva refuta a «loucura lúcida», como «um paradoxo que os médicos alienistas inventaram». E acrescenta: «não haverá criminalista capaz de me convencer que um homem boçal, inculto, grosseiro, sem delicadezas de espírito, nem agudeza de inteligência, nem primores de educação, seja capaz de seduzir uma mulher superior, requintadamente artística, e cheia de qualidades. [Portanto] não se trata de uma doida, nem de um sedutor […]. E creia V. Exª que com excepção de um advogado meu amigo, aliás distinto, com quem discuti o assunto, ninguém, absolutamente ninguém, encontrei de opinião diferente.»

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-16-Ordem-Moral-e-Doida-Nao-e-Nao-a-historia-de-Maria-Adelaide-Cunha-continua-a-gerar-controversia


domingo, maio 29, 2022

Cabinda - Floresta do Maiombe, Junho 1974

     Esta é uma memória de uma memória. É um instantâneo extra catálogo da reportagem que fui fazer para a revista Notícia de Angola. Foi tirada em 74, Cabinda, floresta do Maiombe, por onde tenho andado a passear com a minha amiga Isabel Valadão. Somos irmãs há muito anos e temos também muitas memórias juntas a partilhar. Conhecemo-nos por lá. Em Luanda, Angola. Reencontrámo-nos por cá, em Lisboa por alturas do lançamento de um dos meus livros. Tinham-se passado décadas, mas o tesouro da nossa amizade estava intacto. Um, dois anos depois, ela começou a publicar, estreando-se no romance literário com Loanda, Escravas, Donas e Senhoras. Eu tinha feito História Ramo Científico (Nova) ela, História de Arte (Clássica). E tinha o tal livro na gaveta que a "obriguei" a tirar cá para fora. Foi o recomeço. Reganhámos chão e recuperámos raízes dispersas. Reencontrámos e partilhámos outra gente muito querida desses tempos outros. Tertuliamos. Descobrimos que ambas temos um amor incondicional pelos nossos companheiros de quatro patas. Privilégio.

    E agora, temos feito outras viagens.


Cabinda, Junho 1974, em reportagem para a revista Notícia de Angola


    Portanto aqui estava eu, fresca como uma alface tripeira, numa reportagem que teve incidentes dignos de nota. Assustadores. Exultantes. A liberdade estava a caminho. Foi depois de Abril. Esta imagem integra o conjunto de fotografias que ilustram as (outras) memórias narradas em Moçambique para a Mãe se lembrar como foi um livro que tem corrido mundo e que a Mãe ainda foi a tempo de ver impresso

❤

domingo, setembro 20, 2020

E contudo amam-se!!



De um artigo de opinião em Expresso, 26/08/2020

“Ordem Moral” e “Doida Não e Não!”: a história de Maria Adelaide Cunha continua a gerar controvérsia 


Manuel Cardoso Claro, fotos Arquivo do Palácio Sao Vicente (cedida à autora)

«Maria Elisa Seara Cardoso Perez que era filha de Paulina e Fortunato Seara Cardoso, proprietário e diretor do Comércio do Porto. Veio a conhecer Maria Adelaide no Inverno de 1942, em casa dos pais, na rua da Alegria, Porto, onde esta se reencontrou com o filho, José Coelho da Cunha, 24 anos após a sua saída do Palácio de S. Vicente, em Lisboa. Maria Elisa, à época com 15 anos, viu, da janela da cave, aquela senhora pequenina, de cabelo todo branco, mas muito direita e com uma dignidade tocante, avançar ao encontro do filho que não via há tanto tempo, posto o que ambos se encerraram no salão da casa, onde estiveram uma tarde inteira à porta fechada. «Maria Paulina, minha mãe, tinha uma grande consideração e estima por Maria Adelaide de quem se tornou amiga e com quem tinha muitas e longas conversas.»

Mas entre aquele estranho casal… seria amor? Maria Elisa Perez respondeu-me: «Sem a menor dúvida. Maria Adelaide contou à minha mãe que encontrou no Manuel Claro o carinho e o respeito que o seu marido, Alfredo da Cunha, nunca lhe dera.»

Estes e outros testemunhos e todos os factos que recolhi provaram-me que, embora na curva descendente da idade, Maria Adelaide continuou a ser uma mulher reconhecidamente encantadora e sedutora sem esforço. Era culta, e teve educação primorosa. As cartas da professora dela e dos irmãos enaltecem a sua inteligência. E o Manuel, para além de ter sido um homem muito atraente (as fotografias provam-no e os testemunhos confirmam-no) era inteligente, sensível, culto – nunca deixou de ler e era amigo pessoal de Raul Rego -- e amou indubitavelmente esta mulher a quem se dedicou para o resto da vida. Não há o menor indício que aluda à sua imaginada homossexualidade e muito menos à sua pretensa fragilidade. O Manuel era um homem forte e de fortes convicções.»

Para ler o artigo na íntegra: 

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-16-Ordem-Moral-e-Doida-Nao-e-Nao-a-historia-de-Maria-Adelaide-Cunha-continua-a-gerar-controversia

quinta-feira, setembro 10, 2020

Doida não e não! Ou ″Uma pessoa apaixonada age com regras que o bom senso não conhece″ - DN

O jornalista João Céu e Silva, do Diário de Notícias, fez-me uma grande entrevista sobre a história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, que, parcialmente aqui publico. Para ler na íntegra, seguir o link. 

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Em meados de 2006, fui ao Palácio de São Vicente fazer um artigo para a revista Máxima e a dona, Clara Ferrão, que já tinha lido alguns livros meus, levou-me à que fora a biblioteca de Maria Adelaide, onde, devidamente catalogados e organizados em pastas, se encontrava um acervo riquíssimo de documentos relativos a este caso. E disse: "Se lhe interessar, pode vir, o tempo que quiser e quando quiser." 

Abri e folheei uma das pastas, ao acaso, e abismei. Para uma escritora, de mais a mais historiadora, a tentação foi muito grande. Comecei a delinear um projeto de investigação detetivesco para completar a história. Mas, publicado o artigo, duas senhoras do Porto que em muito jovens tinham privado com Maria Adelaide Coelho da Cunha telefonaram para a Máxima e pediram o meu contacto. Tinham estórias, testemunhos, documentos e outras testemunhas, nomeadamente José Manuel Cardoso, sobrinho direito do Manuel Claro que vivera com o casal, para partilhar se eu quisesse. 

Eu quis.




«Este caso não é uma singularidade. Por muito menos, havia mulheres - naturalmente ricas - no Conde de Ferreira sequestradas a pedido das famílias. Tivemos outro caso muito mediático, no princípio do século, quando uma jovem de 32 anos quis tomar ordens e professar num convento do Porto, o que transtornou de tal forma o seu pai, cônsul honorário do Brasil no Porto, que este a quis interditar -e conseguiu, só não levou o processo adiante. Em todo, sequestrou-a, colocou polícia à porta, e fez-lhe a vida num inferno. Depois voltaram todos para o Brasil. Os jornais da época dão muito eco ao assunto. É um caso muito estudado, sobretudo pela professora Rita Garnel, que já publicou livros e estudos sobre o tema. E tivemos o caso não menos escandaloso, mas rapidamente resolvido, do advogado Dantas da Cunha, que fugiu do Conde de Ferreira mais ou menos na altura em que lá se encontrava Maria Adelaide. Foi de tal forma chocante que, a somar-se a outros, determinou que o assunto fosse ao Parlamento e a lei dos internamentos mudou. No Estado Novo, voltamos a encontrar o mesmo paradigma, só que agora mais virado para os "desvios" da sexualidade ou para os "desvios" políticos. Quanto às senhoras, o paradigma só mudara de roupagem. À falta de conventos, os manicómios serviam muito bem como depósitos de mulheres "malcomportadas". Muita gente até achou que o Alfredo da Cunha era "um santo" porque outro, naquelas circunstâncias, teria matado o "algoz" que lhe roubou a mulher. A violência só se torna mais visível pela resistência e posteriormente pela denúncia pública que Adelaide opõe ao encarceramento, à forma como foi tratada, e por aí fora.

Uma das consequências desse escândalo foi o marido ter vendido o jornal. Seria indispensável?
O projeto da venda do Diário de Notícias já estava em agenda, apesar do repúdio total dela. Claro que, a partir do momento em que foi internada, o negócio fez-se sem entraves.


Os outros jornais da época aproveitaram o escândalo apenas para vender mais edições ou existia uma intenção de apoucar o diretor do Diário de Notícias e, em consequência, o próprio jornal?
Não é de menosprezar nunca o papel da concorrência... E tornou-se muito tentador, do ponto de vista editorial, representar quer um quer outro dos opositores, à cabeça dos quais o próprio Diário de Notícias, por Alfredo da Cunha, e A Capital, por Maria Adelaide Coelho.

Como foi a cobertura do Diário de Notícias sobre este caso?
Muito grande. Com artigos, anúncios, comentários ao livro que, tendo Alfredo da Cunha como editor, Infelizmente Louca!, faz rapidamente três edições. Entre muitos outros, Júlio DantasBettencourt RodriguesAzevedo Neves, presidente da Sociedade das Ciências Médicas, dão a cara pela obra. Egas Moniz e Júlio de Matos referem: "Trata-se de um dramático episódio de loucura lúcida que é o tormento das famílias e uma fonte viva de escandalosos pleitos judiciaes"...

Como foi a reação dos leitores ao seu romance?
Não cedi ao romance porque já se disse tanta mentira sobre esta senhora e este casal de amantes, que optei pela sobriedade e o rigor de um trabalho historiográfico. Apesar de se ler como estória, fiz questão de que fosse história. Está nalgumas universidades. Desde 2009 que integra os curricula do mestrado em Psicologia na Lusófona. Sou convidada com alguma frequência para palestras - por exemplo, no Instituto Camões em Vigo -, estive por duas vezes no Hospital Conde de Ferreira, em colóquios e no Júlio de Matos. Com o título Lucide Folie, está traduzido em francês, integrando o catálogo da Hachette.




Havia quem conhecesse o caso ou foi uma surpresa para a maioria?
Foi uma grande surpresa para a maior parte das pessoas, e ainda continua a ser, embora algumas tivessem visto ou ouvido falar do filme da Monique RutlerSolo de Violino, a quem presto homenagem e refiro no livro, e de quem falo sempre que me pedem contactos que ajudem a aprofundar ou a reviver este caso.

Além do romance de Agustina Bessa-LuísDoidos e Amantes, nada mais existe a nível literário que reflita este caso. A história de amor não justifica ou deve-se a desconhecimento?
A história que Agustina conta é ficção. Nem Manuel Claro era homossexual como ela pretende nem Maria Adelaide uma ignorante lésbica, como sugere. Aliás, a história de amor deles é completamente desvalorizada por Bessa-Luís, embora tivesse sido contactada pelas mesmas pessoas que posteriormente me contactaram para darem o seu testemunho sobre o casal, e a vida de ambos, no Porto. Os tais 40 anos que ficaram a faltar no filme. Acho que as histórias verdadeiras, sobre as quais há muita documentação, conhecida ou referida, tornam-se um pouco desmotivantes enquanto objeto literário. Como encontrar um ângulo novo? O que haverá ainda para descobrir? Um dia, mais tarde, certamente alguém irá pegar-lhe novamente. É uma história exemplar, de uma grandeza rara.

Qual foi a parte mais difícil de escrever?
Foram várias. A angústia e o secretismo com que Maria Adelaide abandona a casa, sem saudade alguma, mas com o coração muito apertado quando espreita, sem conseguir entrar, o quarto do filho. O encontro, numa pastelaria da Baixa, com a irmã, a quem não diz o que vai fazer, mas tem de controlar as lágrimas enquanto conversam. E, por fim, o medo. Ao entrar na estação do Rossio, ao entrar no comboio... E se a reconhecem? O coração aos saltos... Também foi difícil escrever aquele episódio terrível em que ela e o Manuel são literalmente "caçados" no Rossão e sob os olhares do povo, levados para uma taberna (estive lá, vi os locais que descreve), onde passam a noite, sobre uns fardos de palha, rodeados de polícias, de bêbados, mimoseados com gargalhadas e comentários obscenos. O Manuel foi magnífico. Protegeu-a, amparou-a. Depois, e sob chuva e neve, manhã cedo e a cavalo (ela), o Manuel e o primo a pé numa viagem dolorosa, até que os separem. E, claro, os tempos que ela passou no hospital, os dias no pavilhão das criminosas, sem poder falar com ninguém, vigiada a tempo inteiro, fechada. O regime do manicómio era brutal. A escrita deste livro fez-me percorrer uma gama de sentimentos e emoções muito ampla.

O caso teve uma grande componente psiquiátrica, uma "ciência" ainda pouco confiável à época. Este tornou-se um caso de estudo ou Adelaide Coelho não interessou aos profissionais da área?
Não foi único e a historiografia contemporânea tem vindo a debruçar-se sobre este e outros casos. Recordo que, ainda em 1920, A Capital publicou várias reportagens sobre o Conde de Ferreira e denuncia o sistema tido quase por normal, em que, com apoio de psiquiatras e a pedido de famílias de meninas ou senhoras ricas, as internam nos manicómios por "castigo" e para lhes ficarem com as fortunas. O que torna tão surpreendente este caso é a vigorosa defesa que Maria Adelaide faz em praça pública, dando ao prelo as suas memórias, e continuando a partilhar descrições vivíssimas dos quotidianos de um hospital de doidos nas páginas de um jornal. Isto melindrou a classe médica/psiquiátrica e extremou posições. Foi um "milagre" histórico este "lavar de roupa suja" - tudo se passa numa época sem censura. A partir de 1926, nada se teria desenrolado da mesma maneira. A opinião pública teve um peso decisivo. Na Alemanha, também houve um surto destes, abrangendo homens e mulheres. Muitos publicaram em folhetim as suas experiências, e as denúncias foram muito abundantes e detalhadas. Foi um escândalo na Alemanha, por volta de 1900. Estou a trabalhar alguma dessa informação, que é bem interessante. Tal como aqui, o tema dos internamentos e a prepotência que emergiu das denúncias levou o assunto ao Parlamento e a legislação sobre os internamentos foi alterada. Cá também.

Na sua escrita, voltou a encontrar um caso real que a seduzisse como este?
A biografia de imperatriz Isabel de Portugal também me envolveu muitíssimo e ainda demorei mais tempo a investigar e a escrever. Mas este caso é muito, muito especial.