sexta-feira, março 20, 2026

Dia do Pai

 19 de Março. Querido Pai,

Repasso um texto de 2024. A foto (anos 40) é no Porto e prova que os pais também foram jovens. O avô ao centro, o tio Rogério à direita, o pai à esquerda. "All those moments will be lost in time, like tears in rain". Mas não. Enquanto houver palavras, enquanto resistirem as imagens, recordações não ficarão perdidas.
O avô ao centro, o tio Rogério à direita, o pai à esquerda. "

Querido Pai

Usávamos tão pouco esta terminologia que — não fora o privilégio das nossas últimas conversas, sem queridices vocais, mas com abraços verdadeiros — me pareceria quase formal referir-me a ti, desta maneira. Também nunca te tratei por tu. Nem à mãe. Impensável e absurdo. Com ela, já em Moçambique, ainda tentei e levei uma corrida:

Por TU?? Está parva de todo?
Não estava parva. Queria copiar o tratamento familiar que observava em várias das minhas amigas e respectivos progenitores, pensando que a alteração do pronome pessoal vos traria e nos levaria para uma esfera mais íntima. Seria uma outra forma de colo. Porque nem te sentia a ti, pai, como familiarmente "querido", nem te via especificamente próximo. Eras o pater familias. Era assim, e pronto. Até ao dia em que, em pequenos saltos, gerações separadas pelo sistemas de conveniências começaram a aproximar-se. Às vezes, só quase no fim das nossas tão finitas existências humanas.
Entretanto, tive a sorte de te ter como professor em duas disciplinas que eu odiava. Matemática e fisicoquímica. Eras excelente.
Quando fui ter contigo, para pedir ajuda, proporcionaste-me as tuas sebentas para poder estudar por ali:
É o meu sistema. Tens aí tudo. Dúvidas? Vens ter comigo e explico-te.
Eu queria mesmo é que o pai me desse explicações -- ainda hoje sinto na garganta o sabor amargo das lágrimas de decepção quando ouvi a tua negativa que me pareceu um atestado de desamor profundo.
Eu não posso ser teu explicador. Eu sou teu pai. Se tiveres boas notas, nunca te livrarás do desprestígio e eu da calúnia. Todos dirão que te passei os enunciados dos testes e, pior, que os trabalhei contigo.
Mas o pai dá explicações a muitos dos meus colegas.
Pois dou, e darei. Não são meus filhos.
Pior do que a decepção era a vergonha de vir a ser uma aluna medíocre ou mesmo má nas disciplinas lecionadas pelo meu pai no Colégio Liceu de Tete, Moçambique, década de 60 do século passado. Portanto, atirei-me ao trabalho com uma tenacidade de formiga. E de tal forma me houve que acabei por ser a sua melhor aluna, ex aequo com o meu amigo João Nasi Pereira. Aliás, chegámos a estudar juntos. Com a físico-química foi igual. Segui as sebentas do Professor Gonzaga. Finalmente, concluí o antigo quinto ano (atual 10?). dispensei às orais de Letras, mas fui às orais de Ciências. A tremer.
Mas acontece que nesse processo de tentar ser a tua melhor aluna, para não passar "vergonhas" , acabei por me apaixonar pela ciência dos números e, mais tarde, quando cheguei à Geometria dei por mim maravilhada. Resolver equações parecia-me mágico. Era o início de uma aventura mental que abria perspetivas inesperadas e avassaladoras. Provar teoremas, usar, sem qualquer emoção, as ferramentas mentais da inteligência pura a dura, era, como dizer?, muito emocionante. Era outro patamar. Era outro lado da lua. Tive classificações excelentes nas provas orais, e o meu pai foi elogiado pelos professores de fora (vinham da Beira) pelo nível do ensino e pela qualidade dos alunos.
E depois? Um alívio desmesurado. E um arrumar definitivo daqueles apontamentos e daquele conhecimento para um canto da memória, aquele lugar a que designamos como o do "adeus até nunca mais". Até ao dia em que me descobri a dar com a cabeça nas paredes por não ter bases mentais suficientes para entender mais a fundo as coisas maravilhosas, surpreendentes e intraduzíveis de outro modo que a física contemporânea nos oferece.
Nunca te agradeci por isso, querido Pai.
O conhecimento que me passaste, daquela forma seca e comedida.

Mas foi assim que, muitos anos mais tarde, comecei a ver-te de toda uma outra maneira, tentando reconhecer-te no "road book" da tua própria existência, tão balizada por cânones de todo o género. Sobretudo cânones de "género" que te levaram a ocultar comportamentos tidos por menos patriarcais. Ser homem não é fácil, nunca foi. Parecendo que não, nós, mulheres, chegamos com toda uma outra panóplia de recursos que vos são negados, ou eram, aos da tua geração. Daí, vocês nos tentarem amordaçar tanto. Fazemos-vos medo, acho.
O facto é que tentaste encaixar-te no modelo paternal e masculino que abria fissuras por todos os lados e que acabou com o teu casamento. Também, quem é que te mandou apaixonares-te por uma mulher ainda mais forte e determinada do que tu?
Sim, ela. A Mãe. Mas hoje não é o dia de ela, É o teu. Querido Pai. Querido Professor. Sem saberes, ensinaste-me muito mais do que possas imaginar. Onde quer que estejas, nesse não-lugar a quem chamamos muita coisa, acolhe o meu profundo e comovido e apertadíssimo abraço. Vou mesmo chamar-lhe, sem pudores, o meu genuíno Xi ❤ É para ti, mas podes estendê-lo ao querido avô Justino, teu pai, e ao querido tio Rogério, teu irmão. Tão bonitos vos vejo aqui nesta imagem. No Porto, minha cidade berço.

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