Recordando os "Queridos Anos 80" num artigo para a revista Máxima em 2019.
"Não éramos convencionais. Pensávamos fora da caixa. E, como as fronteiras ainda eram bastante esbatidas, não nos antagonizávamos pela vida por causa de partidos políticos, jogos de bola ou religiões, até porque grande parte de nós estava fora dessas arenas e o nosso pequeno mundo era um vasto círculo sem fronteiras, onde o limite era o sonho de cada um. Naturalmente, éramos, muitas vezes, arrogantes, logo, intolerantes. Estávamos contentes com o nosso descontentamento e descontentes com o contentamento geral. Éramos, pensávamos nós, livres. Há 30 anos, tínhamos 20 anos, 30 e alguns 40, mas, diante de nós, o futuro desenrolava-se numa estrada da glória que nada nem ninguém poderiam travar. Trabalhávamos intensamente para isso. Sem horários nem limites, mas também sem relógio de ponto. Numa palavra, "dávamos o litro".
Os sinais eram todos a nosso favor."
Como era ter 30 anos há 30 anos?
Dos sonhos todos, quantos ficaram pelo caminho? Pergunta-se Manuela Gonzaga, otimista encartada, escritora e historiadora, que diz contabilizá-los melhor quando pensa em todos os que se concretizaram. E sem ceder às armadilhas da saudade, mostra-nos como é delicioso recordar os queridos anos 80.
11 de junho de 2019 às 07:00Manuela Gonzaga
O homem entrou, dirigiu-se ao rececionista sentado na secretária junto da porta da entrada que dava para a rua e disse: "Quero falar com um jornalista. Matei a minha namorada." O rececionista olhou para ele e disse: "‘Tá bem, filho, mas tens de esperar. Estamos em fecho e os jornalistas estão muito ocupados." O presumível criminoso obedeceu e afundou-se no sofá velho encostado à parede em frente. E ali ficou, manso como um cordeirinho, a observar o movimento do entra e sai dos jornalistas, fotógrafos, paquetes e outra gente da casa. O jornal, o Correio da Manhã, com sede numa cave à rua Ruben A. Leitão, em Lisboa, tornara-se um sucesso brutal em menos de um ano. Era um tabloide. O primeiro, em Portugal. Direção editorial segura e inteligente de um grande jornalista, Vítor Direito, linha gráfica e direção artística do pintor José Ralha, e uma equipa de gente entusiástica, alguns com muito talento que se viria a concretizar nos anos vindouros. Nesses tempos vivíamos a paixão dos jornais e acreditávamos que íamos mudar o mundo. Havia um suplemento semanal de formato magazine, onde alguns espraiavam a sua veia mais literária, e, mais tarde, um suplemento musical que eu coordenava e que escrevia, em parte, onde divulgávamos o melhor da emergente música popular portuguesa, uma parceria feliz com a excelente revista TOP Música & Som (de Duarte Ramos, o Chefe, como todos lhe chamávamos). O Correio da Manhã apostava também muito na reportagem, na notícia, na cultura, no desporto e no futebol (nas páginas finais) e… nas redes locais. Tinha correspondentes por todo o lado que, ao telefone, ditavam efemérides que, reduzidas a uma, a duas, a quatro linhas, traziam o nome da aldeia ou da vila às páginas do recente fenómeno da imprensa nacional. Acima de tudo, noticiava, embora ainda com algum pudor, os crimes que assombravam a espuma dos dias.
[...]
Fotos: no Sara com a Frente Polisário (1988), reportagem para revista Marie.
Para ler a reportagem na íntegra:
https://www.maxima.pt/atual/detalhe/como-era-ter-30-anos-ha-30-anos?fbclid=IwY2xjawQlSo5leHRuA2FlbQIxMABicmlkETB0VHJ3T2NMaFFjaWhmbmp6c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHiKYtgkvSKZ3dfNaLTjFochlVTO03MfVHTnF4p4_r_CdUT4jx6G4pXoQJ5Gp_aem_OWEXWkBgehPXTfNQne3RsA


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