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quinta-feira, janeiro 20, 2011

O velho, o rapaz e a menina

Mergulhada nas agruras sentimentais do consultório da revista Maria, passou-me ao lado a passagem dela pela rua, diante da montra do salão. "Oh, que pena", comentou a cabeleireira. "Não viu." Desfoquei a minha atenção do drama do pénis enorme do namorado da leitora da revista, a quem a psicóloga aconselhava (paciência? magia tântrica? ginástica pélvica?), e foquei-me no assunto empolgante que galvanizara o salão.
- Não vi o quê?
- Não é o quê, querida, é quem! Ela acabou de passar.
Deslizando rua abaixo, ao encontro dele. Linda e maravilhosa. Um corpo de sonho, coberto de roupa e sapatos e carteira de marcas caríssimas. Uma pele assombrosamente branca. Olhos azuis como jóias. Cabelo louro, comprido, de corte irrepreensível.
- Ela é sua cliente? - perguntei à morena, que esticava o meu cabelo em gestos precisos e automáticos.
- Que nada!! Ela não bota o pé em salãozinho de bairro. Aquela ali é tudo do bom e do melhor e do mais caro - retorquiu a brasileira.
Situei-me. Ainda não foi desta que a vi, mas sei de quem se fala. Ela é o bem-querer de ele, que a partilha com... o outro. Ela é jovem e linda. Ele é jovem e até podia ser bonito, só que as poucas vezes que o vi foi a chorar ou quase, e sempre em agonia. O outro é "o velho muito rico", que "banca ela". Pagando-lhe os estudos superiores. Oferecendo-lhe jóias, viagens, o carro esplêndido, a casa mobilada, o anel de noivado com o pedido de casamento anexo.
O rapaz não aceita esta triangulação. Entra no salão como quem vai à Igreja, e interpela a morena e pequenina mulher como quem está no confessionário. Ele não nos vê.
- Diga que ela me ama. Ela vai casar comigo, não vai?
A brasileira, que já não o pode ouvir, lamentando amargamente o dia em que lhe deu ouvidos e conselhos, leva-a à porta e despede-o:
- Quando quiser cortar o cabelo, eu corto, mas com marcação. Quando quiser falar da vida, telefone à sua mãe, aos seus amigos, ou arranje um psicólogo.
Depois volta-se para nós, que, querendo ou não, ouvimos tudo, detalha, e acrescenta:
- Desta vez, ele não vai ter cara para voltar.
Volta, sim. Todas as semanas. É por isso que estamos tão por dentro deste romance que ela desvirtua:
- Que romance que nada, minha gente! A menina só gosta dele pelo sexo. E só gosta do outro pelo dinheiro. É linda, inteligente e uma grande mulher. E ele é um parvo se pensa que ela vai largar o bem-bom, só porque ele comprou uma colcha nova para a cama onde os dois se deitam.

Através das cores unidas do bairro

O Timóteo toma conta de mim. Por causa dele, obrigo-me a sair de casa, quando não me apetece pôr o pé na rua. Obrigo-me a sair da cama, quando facilmente voltaria a cair no sono. Ele comanda-nos,  apenas, com a força magnética do seu olhar de veludo, inteligente, intenso, banhando-nos de amor total. A sua jovem natureza quer passeio. O seu corpanzil pede exercicio. E aqui estamos nós, à vez, a ondular pelo bairro, na esteira de devaneios do puro prazer que dele emana. Assim, estamos a reconhecer velhos ambientes a uma luz desconhecida e nova. As ruas de todos os dias mudam ao nascer do dia, ao deitar do sol, com bom ou mau tempo, debaixo de chuva, rompendo nevoeiros, ou sob os raios da lua mais louca que vi nos últimos anos.
Ele cheira tudo. Ele espreita tudo. Ele quer ir a todo o lado. Ele sonha apanhar gatos ou pombos. Ele descodifica o aroma de outros cães, de todos os tamanhos e raças e feitios, que ladram das varandas, atrás das portas fechadas, no outro lado do passeio, ou ao virar de esquinas. Cãe que correm ao seu encontro, ou a saltam inutilmente no ar, presos por trelas eficazes nas mãos dos seus donos (odeio esta palavra) de todas as idades.
E assim, no correr dos dias, o Bairro, com todas as suas cores unidas, torna-se cada vez mais nosso, e nós cada vez mais dele.