sexta-feira, outubro 16, 2009

Rossão, os dias felizes






«O dia amanheceu belíssimo. Da janela do quarto o panorama era deslumbrante. Aninhada num vale, sobre uma terra generosa e áspera, a aldeia oferecia-se numa paz de campos semeados, horizonte vasto, pastoral e sereno, com as casas cobertas de colmo a despontar no puríssimo ar da serra, recortada no horizonte. Mais perto, o gado a pastar. À distância, pequenas aldeias com casas brancas destacando-se sobre o verde das árvores e dos campos, e o escuro do granito. Em frente, um cruzeiro. Maria Adelaide lembrou-se, mais uma vez, da mãe, e pôs-se a pensar que tinha sido numa casa como esta que ela nascera. Depois, quando a filha mais velha de Alberto saiu a apascentar o gado, lembrou-se de novo da mãe lhe contar que também pastoreara rebanhos. Apaixonada, e mais do que nunca decidida a enterrar o seu passado de mulher sofisticada, cosmopolita e infeliz, fez apelo às raízes maternas, nem sequer tão remotas, e escreveu:
«Senti circular nas minhas veias o seu sangue campesino.»
Para todos os efeitos, Maria Adelaide era agora a «rapariga do Manuel», a mulher que ele trouxera consigo para casar logo que lhes fosse possível fazê-lo. E foi isto mesmo que ele disse à mãe, mais tarde, depois do jantar, — à hora que nas cidades se come o segundo almoço — quando a senhora «se aproximou de nós». A descrição do encontro tem, no registo autobiográfico, a importância de ilustrar uma cena «com qualquer coisa que fala ao coração dos bons», permitindo também que se avalie melhor «os sentimentos do homem» por quem ela se apaixonou, e que por esse «crime de amor» viria a ser preso.»
[Maria Adelaide Coelho da Cunha: «Doida não e não!», p. 136]
Enviar um comentário