quarta-feira, dezembro 10, 2014

O Colégio Dom António Barroso

Na pequeníssima cidade no Niassa onde a mãe tinha sido colocada, Vila Cabral actual Lichinga,  não havia ensino secundário para a minha idade - ou do meu irmão Jorge, que veio também interno para a capital, para o Colégio dos Maristas. Durante anos, recordei os interditos, as muralhas, as proibições e a sensação de ser prisioneira dentro dos muros do colégio D. António Barroso. O tempo ajudou-me a fazer justiça àquela instituição:
 
Aos 13 anos no Colégio D. António Barroso

«Mas o colégio onde aprendi os fundamentos de uma disciplina interior que me tem suportado a vida inteira, e onde fiz amizades que sobreviveram ao virar dos tempos e à sua lonjura, não se esgota nestes confrontos adolescentes, ou em grades morais e físicas que tanto me custavam a suportar, pois, aprendendo a lidar com as contingências da disciplina, as suas vantagens foram imensas. Além disso, duvido que as nossas queridas irmãs da Congregação da Apresentação de Maria pudessem, naquela altura, afastar-se muito deste tipo de registo educativo, sobretudo no que toca à grande responsabilidade que representava a tutela das suas alunas internas.

Ali, era impossível não estudar. A imensa sala de estudo onde internas e semi-internas passavam o tempo, depois do recreio do lanche e até à hora do jantar, era vigiada com olhar de falcão pelas irmãs presentes, uma em cada extremidade da sala, sentadas em bancos altos de nadador-salvador de onde, e à vez, saíam para circular entre as carteiras onde nos debruçávamos sobre livros e cadernos. O requinte desta vigilância chegava ao ponto de confrontarem o livro que estávamos tão interessadas a consultar com o ano que frequentávamos. Foi assim que deixei de estar junto de alunas de anos mais avançados, às quais pedia os livros de Português para me entreter com os textos, em vez de estudar as minhas próprias lições.

A certa altura, e isso aconteceu-me no ano letivo seguinte, era tão cansativo resistir contra o sistema, e tão desproporcionada a energia que aplicava face aos exíguos resultados, já que a única coisa que conseguia era baixar as minhas notas para níveis invulgares, que acabei por entrar no jogo.»

 
 

No colégio da Namaacha em 1964 - da esquerda para a direita: Piedade, Pe. Henrique, Elisabeth Carreira, Teresa Martins Alves, Manuela Gonzaga, Cristina Horta; acima, sala de aula no colégio, em Lourenço Marques, actual Maputo.
[...]
«No Natal, antes das férias, o colégio organizava um sarau aberto às famílias, pessoas amigas das alunas e antigas alunas. Teatro, poesia, música e dança faziam parte de um programa que preparávamos com grande emoção e empenho. O meu ponto forte foi declamar em francês um poema de Guy de Maupassant, com tamanho sentimento e aprumada dicção, que umas pessoas na assistência foram perguntar à irmã do Santo Rosário se eu era mesmo francesa.
 
E finalmente chegava o momento de voltar a ser livre, mesmo que por pouco tempo. Um dia inteiro, entre aeroportos e aviões, entregue a mim própria e antecipando o sabor das férias, a fumar cigarros no aeroporto da Beira, já sem me engasgar, o reencontro com a família, amigos e amigas, o primeiro abraço ao meu querido Rigoletto (o cão), o sono até mais tarde, os bailes, os filmes de cobóis, os dramas musicais indianos, e todos os pequenos grandes nadas que ocupavam a nossa vida de estudantes em férias. Uma vida tão divertida, apesar da guerra que se estava a tornar uma coisa tão terrivelmente séria.» em Moçambique para a mãe se lembrar como foi.

O dormitório - durante anos o ruído metálico das argolas das pesadas cortinas, abertas  ao som da sineta e da oração do acordar, pelas 6.30 da manhã, perseguiu-me.

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