segunda-feira, outubro 24, 2016

António Variações, de olhar para trás, pensamento em frente

A ler, a reler, a acrescer, cortar e editar a biografia de António Variações (que era do Benfica!) partilho um retrato da sua chegada a Lisboa, em 1956 MG




Nos idos de 1956, para quem chegava de uma aldeia remota à capital, Lisboa era uma cidade brilhante, magnífica, moderna e a transbordar de optimismo, com os seus cinemas, os seus teatros, armazéns esplendorosos, cafés, praças, e todo aquele movimento de automóveis e autocarros, eléctricos e pessoas apressadas.«O meu irmão adorava Lisboa. Lisboa era… a menina dos olhos dele. Portanto era um minhoto lisboeta. Nunca esqueceu das suas raízes, era muito fiel às suas raízes, mas era um lisboeta por excelência», diz Jaime Ribeiro. 
As marcas da guerra já tinham desaparecido e o luxo, os sinais exteriores do bem-estar moderno, irrompiam por todo o lado. A 15 de Janeiro de 1956, o Tavares Rico reabria as portas. Na Baixa e Chiado,  o Grandella era um palácio com paredes de vidro cheio de móveis modernos, electrodomésticos magníficos, tecidos esplendorosos: “as mais lindas mobílias e artigos de decoração para a sua casinha”. Ao lado, nas montras dos Armazéns do Chiado, criaturas esfíngicas ostentavam casacos mouton doré e estolas de raposa argentée.

Imagens em "Restaurante Tavares Rico", Restos de Colecção
Subia-se a Rua Garrett, passava-se à porta do famoso Último Figurino, que assinalava as estações com passagens de modelos, e da Pompadour que promovia cintas e soutiens que devolviam ao corpo a elegância perdida: “não acuse o seu alfaiate se o vestido lhe ficar mal…” No Rossio, a Camisaria Moderna, era uma referência. Mais à frente, ficava a célebre Casa Africana e a Casa Roda, na Rua Augusta, com as famosas gabardines “Neptunus”, em tela inglesa, “confeccionadas nas nossas oficinas”.
Imagens inesquecíveis. 
A 16 de Janeiro o Benfica vencia o Sporting de Braga por 7-1, num Estádio da Luz completamente alagado, os adeptos numa moldura de guarda-chuvas a enquadrar o rectângulo verde. José Águas, Costa Pereira, Caiado, erguiam os rostos debaixo de chuva, numa expressão inebriada que as fotografias de época captaram. Para António Joaquim Ribeiro, adepto ferrenho do Benfica, e acima de tudo, para o miúdo que queria vir para Lisboa, este era um ano carregado de promessas e de futuro. 
Lisboa, 1956. Cidade sedutora, trepidante, cheia de promessas. Renovada, restaurada, polida, «alindada». Especifique-se: quase sem mendigos – esse «cancro social», graças a uma esplêndida operação de limpeza. Sete anos e 223 mil contos aplicados em medidas de prevenção e repressão. A Mitra, «porque o mendigo é um fanático da liberdade, preferindo tudo ao internamento, contribuíra em grande medida para a debandada desses “resíduos humanos”». E o Socorro Social unindo esforços a esta acelerara o processo. Por fim!, os frutos tinham-se tornado visíveis. 
Um artigo de opinião referindo a beleza da capital, que se tornara «numa das mais belas e mais simpáticas e limpas cidades do mundo», enaltecia a sua capacidade de se ter sabido «depurar moralmente» curando-se «das chagas sociais» que tanto a desfeavam. Acima de tudo, das «máculas abertas pela mendicidade na sua polícroma e gloriosa fisionomia». Num tom entusiástico, o articulista referia-se ao amor do lisboeta pela sua cidade, «essa urbe magnífica» tão «horrivelmente maculada» pelo mendigo, louvando o triunfo! «Hoje o mendigo não existe. Agastá-lo, fazê-lo desaparecer, foi um dos maiores serviços que Lisboa podia receber de quem tem a obrigação de a defender de quanto possa inferiorizá-la.» («A Mendicidade…», 1956). 
Que mais transportava consigo o ano de 1956? (Manuela Gonzaga, António Variações...)

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