domingo, novembro 25, 2012

Isabel de Portugal, Fernão de Magalhães e as ilhas de Maluco


Isabel de Portugal, seguramente a mais rica princesa da Cristandade, não levava apenas um dote soberbo que tão necessário era às arcas sempre tão vazias do seu noivo. Nas palavras de Damião de Góis, «Mulher alguma que não fosse herdeira» trouxe em casamento tão grande dote a seu marido: novecentos mil cruzados em «dinheiro de contado» – dobras de ouro castelhano –, e mais cem mil em jóias e enxoval. Mas a par dessa fortuna a imperatriz ia incumbida de sanar, ou ajudar a ultrapassar, alguns conflitos pendentes entre ambos os reinos. Um deles, seguramente o mais espinhoso, remetia para Fernão de Magalhães e sua incrível descoberta que abrira, por Ocidente, o caminho marítimo do Oriente que levava às ilhas das Especiarias. E estas, segundo defendiam os espanhóis, caía em tombo de Castela.  
 
O que se passara?

Uma grande mágoa. Navegador e soldado, Fernão de Magalhães provara a sua valentia em África e nos sete anos que andara pelo Oriente. Combatera com D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque. Lutara com denodo em Malaca, o verdadeiro empório comercial de todo o Oriente, a artéria do comércio muçulmano que Afonso de Albuquerque havia jugulado. Combatera nos presídios de África. De uma ferida em Azamor, ficou mesmo a coxear para o resto da vida. Das calúnias que aí o davam por ladrão, e que feriram mais do que tudo, conseguiu ilibar-se. Mas quando se apresentou diante rei, uma vez e outra, pedindo-lhe um aumento da sua moradia, D. Manuel recusou. E o «leve agravo» – nas palavras do bispo de Silves – «abriu tão profunda chaga» no seu ânimo que Fernão de Magalhães se apressou a trair o rei «que o educara, a pátria que lhe dera o ser», e afrontado – em Jerónimo Osório o vocábulo é «comovido» – o valoroso fidalgo quebrou a sua lealdade e «pôs a república em extremo perigo».

Enfim, passou-se para Castela apresentando-se ao rei D. Carlos para o advertir que as ilhas de Maluco, assentadas para além da aurea chersonesus – o estreito de Singapura –, lhe pertenciam. Acompanhava-o Rui Faleiro, português de nação, astrólogo judiciário, também ele agravado do Venturoso, que o não o quisera tomar para este ofício, embora fosse coisa de que D. Manuel tinha muita necessidade.
E finalmente, na vila de Valhadolide a 22 de Março de 1518, Magalhães afirmou perante o jovem rei e a sua corte de Castela que aquelas ilhas caíam em tombo do Sua Majestade, invocando o testemunho dos astros, mapas e informações privilegiadas. [...]

Em Manuela Gonzaga (2012) -- Imperatriz Isabel de Portugal, Lisboa, Bertrand, 142 e segs.

Algumas fontes consultadas:
Para o dote de dona Isabel: 
Damião de Góis (1926) – Crónica do felicissimo Rei D. Manuel, 4 partes, I, cap. lxxv.Em
Braancamp Freire, «Ida da Imperatriz D. Isabel para Castela, encontram-se recolhidos vários documentos relativos ao dote de Isabel, cf. 83-84; 91-100; 100-101; 103-104. Em
Especificado em todos os detalhes em, Capitulaciones matrimoniales de Carlos V e Isabel, Toledo, 24/10/1525, Fernández Álvarez, Corpus Documental de Carlos V (cinco volumes, 1973-1981), I, 100-115; HGCRP, III, cap.vi, 146.
Para Fernão de Magalhães:
João de Barros, Décadas, Dec. III, Liv. V, cap. viii (onde se fala nos negócios de Fernão de Magalhães). D. Jerónimo Osório (1944), Da Vida e Feitos de El-Rei D. Manuel, 2 vols.,II vol. 225-226.





quinta-feira, novembro 22, 2012

Todos nós estamos a alucinar o tempo todo


 
Interrompo por alguns momentos a conversa sobre e à volta de Isabel de Portugal, para partilhar um artigo particularmente interessante num dos locais que frequento quase diariamente, Pijamasurf. Um pequeno extracto para abrir o apetite dos  mais ousados viajantes da mente:

Todos estamos alucinando todo el tiempo
Más allá de que esta afirmación concuerda con una hipótesis personal, lo anterior fue expuesto por el británico Beau Lotto durante su ponencia en TED. Lotto, además de tener un coqueto apellido, es un ágil neurocientífico especializado en el estudio de la percepción. Durante los 16 minutos que dura su intervención, y apoyado en múltiples ejemplos de ilusiones ópticas, nos va demostrando que ni siquiera aquello que nuestros sentidos nos garantizan que es de un cierto modo, y por lo tanto resuena supuestamente con lo real, en realidad lo es.
Lotto busca comprobar que no tenemos acceso directo al mundo físico más que a través de nuestros sentidos y existe una miríada de agentes que influyen en nuestra percepción de las cosas. La combinación de estos elementos arroja infinitos algoritmos perceptivos ante lo cual resulta prácticamente imposible que algo se perciba de idéntica manera en dos personas. Y ante esto es que decidimos rasurar esas diferencias hasta llegar a niveles estándares que justificarán aquello que, por convención, designemos colectivamente como ‘lo real’.