quarta-feira, março 17, 2010

No Hospital Conde de Ferreira, Porto










Talvez a viagem mais estranha que alguma vez fiz por dentro do Porto. Uma visita ao Hospital Conde de Ferreira, tendo por guia o seu Director Clínico, Adrián Gramary acompanhado de José Romero Arós (Médico Psiquiatra) e Maria da Luz Saraiva (Responsável da área Museológica do Hospital). Entregue de novo à Misericórdia, já há alguns anos, a Insituição, a cumprir o seu 127º aniversário, está de parabéns pelas profundas remodulações. Mais visiveis umas, menos evidentes outras.
E para que a memória se não perca, conservam-se e também se expõem peças de todo um acervo preciosíssimo. O terrível panóptico (só existe, parece, outro do género na Alemanha), onde Maria Adelaide passou os primeiros dias de internamento, é hoje um núcleo museológico que recebe visitas assíduas, sobretudo de grupos de alunos dos mais diversos graus de escolaridade. Mas há muito mais. Cartas, livros de actas, fotografias, registos de entradas, e todo um acervo riquíssimo de documentação, bem como artefactos que atestam a memória de épocas em que a Psiquiaria, em Portugal e no mundo, dava os seus primeiros passos. Cuidadosamente conservados, e alguns expostos.
Impossivel descrever tudo o que vi, e ouvi ao longo das duas horas e meia da visita.
Presente, quase sempre, a memória de Adelaide. Foi pelas suas palavras que ali entrei pela primeira vez há uns dois anos. E foi, de novo, através dos seu testemunho que confrontei espaços e ambientes. É-me particularmente comovente registar que a sua odiseia voltará a ser recordada. Dentro daquelas paredes. Em Julho próximo.
Uma luz nova inunda os pavilhões enormes e austeros, reajustados aos novos tempos.
As prisões, as grades, o suplício, existem sim. Nos lugares circulares da mente. Fora, é o olhar e a dedicação de quem procura minorar ou circunscrever a invisível dor.
Faz toda a diferença.
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